Esse memória me é tão clara e me remeto a ela tantas vezes que me pergunto como nunca atentei de registrá-la antes.

Tinha menos de 7 anos, uma vez que é ambientada na casa que morei até essa idade. No quarto, especificamente. Acabava de voltar da escola – voltando das minhas complexíssimas aulas do maternal ou primeira série -, jantava, tomava meu banho, vestia um pijama limpinho e deitava na cama pra assistir Disney Club.

Lembro plenamente de sentir que aquele era um dos momentos mais confortáveis da minha vida. Sentia, mas não me dava ao trabalho de atentar para isso. Apenas sentia, na penumbra do meu quarto, que assistir àquele desenho do pato donalds era absolutamente maravilhoso.

Dormia logo depois, com a TV ainda ligada, completamente extasiado.

É interessante como essa lembrança influencia na minha vida: hoje, quando sem sono, refaço exatamente a mesma rotina, mudando apenas o programa de tv. Sem alcançar o mesmo prazer, é claro. As atividades parecem infinitamente mais prazerosas quando feitas na infância.

Tristeza

Nos dias de tristeza, quando alguém
nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
às vezes, nem sequer nós respondemos:
faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois haverá desgosto mais profundo
do que este de não se ter alguém no mundo
que nos pergunte por que estamos tristes?

(Virgínia Vitorino)

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.

(Fernando Pessoa)

É um conhecimento que não se pode expressar por palavras, inefável. Por que, sabe-se, as palavras vieram depois da natureza – dos pensamentos, do cérebro, dos sentimentos – e, por isso, são limitantes. Afinal, será que tudo no universo é passível de ser verbalizado?

É evidente que não.

Tento me desprender das palavras e apenas sentir. A vida é muito mais sensorial do que comunicacional.

Às vezes eu penso nas coisas que falei e fiz quando estava afim de determinadas moças e sinto vergonha. É assustador – parece outra pessoa. Me considero uma pessoa racional e consigo sê-lo em infindáveis situações, mas nunca em relacionamentos. Todo o simbolismo e emoção que consigo reprimir durante a vida é descarregado a partir do momento que me vejo gostando de uma moça.

Creio que isso possa ter alguma relação com minha principal tendência mental: costumo acreditar que sempre existe um jeito certo de fazer as coisas e milhões de jeitos errados. Quanto mais me distancio do correto – o que acontece extremamente rápido quando estou apaixonado, afinal, perco minha racionalidade pras emoções  -, mais me preocupo, repenso minha postura e acabo me distanciando ainda mais do correto. A pressão vira uma bola de neve.

Outro dia li um texto, o “18 Ugly Truths About Modern Dating That You Have To Deal With”. Segue a primeira frase:

1. The person who cares less has all the power. Nobody wants to be the one who’s more interested.”

Temo que nunca serei a pessoa que se importa menos. Eu penso muito. E, quando to apaixonado, penso muito na pessoa. Não que eu sinta mais do que a maioria – apenas penso muito mais que ela. Minha mente é um campo de batalha, e o amor é os Estados Unidos com suas missões de pacificação.

A quem amei, vos digo: você em si foi o que menos importou na nossa relação. Afinal, todos os meus relacionamentos aconteceram apenas na minha cabeça. Existiam, na vida real, de forma absolutamente diferente. Mas na minha cabeça ocorria em outros tons, em outros ritmos, com outra trilha sonora.

E eis por que, pra mim, o amor é a melhor temática da arte. É a mais forte e quase única maneira de me suscitar emoções.

(Vocês já perceberam que desde 2010 eu escrevo em blogs sobre o que acontece quando estou apaixonado e sempre chego a conclusões diferentes?)

Hoje alguém conseguiu me ofender. É tão raro alguém conseguir tamanha façanha, que gosto de comentar quando ocorre. Lembro, por exemplo, que a última vez que me senti ofendido tem já quase 2 anos, quando em 2012 um amigo me agrediu psicologicamente de forma tão absurda que eu não esperava. Ofensa daquelas clássicas – uma frase ou atitude cuja minha interpretação causa desconforto, desconcerto e descontentamento.

Não sou muito de me ofender. Espero muitíssimo pouco das pessoas, de forma que me decepcionar exige um esforço realmente inteligível. Mas conseguem, as pessoas!

Não dissertarei sobre o que ocorreu, pois, se dissertasse, vocês perceberiam tão rápido quanto eu percebi que, no fundo, no fundo, eu não tinha motivo para estar ofendido.

Mas aí entra a grande questão relativa à ofensa – o que, afinal de contas, é um bom motivo para se sentir ofendido?

Não sei responder, juro. Sou a pessoa com menos experiência no assunto ofensas que se pode encontrar nessa vida.

Mas, no entanto, sei perceber claramente quando ela ocorre. E ocorreu.

Estou desconcertado.

(Pus com legenda por que ela é fundamental)

la vita che passa e va via
vivendola meglio mi vendicherò
scusa se non ti accompagno
ma ognuno prende la strada che può

****

Tenho Tanto Sentimento 

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me, 
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal. 

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”