Não faz bem em humilhar-me, senhor – disse d’Artagnan, em quem a índole turbulenta começava a tomar ascendência sobre as resoluções pacíficas – Eu sou da Gasconha, não há dúvida, mas não terei necessidade de lhe lembrar que os gascões são pouco pacientes; de sorte que, depois de se desculparem uma vez, ainda que seja de uma tolice, ficam para logo convencidos de que fizeram metade a mais do que deviam fazer.

(Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas pai, pág. 57, coleçao Grandes Clássicos de cada Autor)

Os alvos do mimimi

Eu estudo numa faculdade pública de comunicação. Isso faz com que eu passe muito tempo cercado de pessoas que são os potenciais grandes pensadores do futuro, mas também faz com que eu esteja cercado de completos idiotas que defecam pela boca como se ganhassem alguma coisa por isso.

Não sei, portanto, se os fenômenos que observo se delinearem no meu âmbito social são de toda uma geração, ou se são dessa seleta parcela de “intelectuais” que frequentam os corredores de um ensino superior concorrido.

Existe, no entanto, um fenômeno que creio ser geral – o que o torna ainda mais lamentável.

Eventualmente cria-se um ícone.

í·co·ne 
(francês icônedo grego eikón-ónos)

1. O que ou aquele que é referência, que se destaca.

Acontece que não é um ícone comum! Cria-se um ícone a ser odiado. Tudo que esse ícone disser ou escrever deve ser refutado com dedos em riste e textos de ódio no facebook. Toda e qualquer atitude desse ícone deve ser reprimida, ou pelo menos criticada. E, por fim, por mais que esse ícone consiga se redimir e passe a, de repente, só transmitir ao mundo ensinamentos transcendentais e corretos, ele nunca – NUNCA – poderá ser respeitado.

Danilo Gentili, Raquel Sheherazade, Lobão, Olavo de Carvalho, Pondé, VEJA, Jair Bolsonaro. Todos ícones. Pessoas e veículos que sabidamente falam merdas, mas cujos ditos são o menor problema que elas representam à sociedade.

Sabem aquela história da mulher que foi espancada? E se eu vos dissesse que já li 4 publicações no facebook acusando Raquel Sheherazade, com seu vídeo sobre os justiceiros, de ser a culpada pelo espancamento da mulher?

Agora eu vos pergunto: existe alguém que, no alto de sua cega ignorância, acredite que um grupo de pessoas espancarem uma dona de casa é resultado de um vídeo de 3 minutos?

Esse argumento se assemelha àquele que diz que crianças não devem assistir desenhos violentos pois isso as tornará assassinas em potencial. Com um único diferencial: até mesmo o argumento das crianças é mais plausível! Será que elas também argumentam que o cara jogou um vaso na cabeça do outro por causa dos Looney Tunes?

E aquela capa da VEJA com o Daniel Alves? Quantas pessoas não leram “o preconceito quebrou a cara – talvez pra sempre”, fizeram uma rápida associação com a temática do racismo e concluíram que a VEJA estava dizendo que o racismo acabou para sempre? Não foram poucas: vi 3 publicações no facebook, uma delas com 20 curtidas e dezenas de comentários concordando com essa interpretação.

A questão aqui é: as pessoas estão TÃO sedentas por disseminar seus textos denegrindo a imagem dos ícones, que sequer se dão ao trabalho de refletir realmente o que esses ícones dizem e representam. Elas querem TANTO postar um texto pseudo-politizado no facebook, que muitas vezes acabam dissertando as merdas mais incabíveis do universo apenas para participar da comoção que é postar um texto pseudo-politizado.

Pois, sim, gera uma comoção. É um movimento. Muita gente quer fazer aquela piada. Muita gente quer que os outros saibam que ela também sabe falar mal do ícone.

E existe ainda uma segunda questão: a liberdade de expressão não existe só pra você poder dizer o que você quer. Ela existe para outras pessoas com opiniões diferentes também dizerem. Então, se a VEJA é um veículo de direita e você é um comunistinha barbudo que a odeia, é preciso que, antes de qualquer coisa, você entenda que o que deve ser criticado não é A VEJA, mas o DISCURSO DELA, pois ela está apenas representando o papel dela de SER UM CONTRAPONTO. Não só de Cartas Capitais se faz um país!

As grandes ideias surgem da discussão de ideias diferentes – o nome disso é dialética. Pregar pelo fim da Veja, ou do Bolsonaro, ou do Jabor, é pregar por um mundo uniforme. O que é impossível, não preciso explicar o por quê.

Estou, evidentemente, abrindo o precedente de ter leitores que discordarão de mim. Mas, para tanto, espero que eles tenham lido, refletido e chegado às próprias conclusões, e não apenas que eles tenham ignorado tudo o que disse e batido com a cabeça no teclado até sair mais um texto mimizando sobre mais algum ícone.

O PONDÉ É UMA EXCESSÃO, ESSE AÍ A ZUERA TÁ PERMITIDA
(se você não entendeu a piada, você PRECISA ler esse texto)

Esse memória me é tão clara e me remeto a ela tantas vezes que me pergunto como nunca atentei de registrá-la antes.

Tinha menos de 7 anos, uma vez que é ambientada na casa que morei até essa idade. No quarto, especificamente. Acabava de voltar da escola – voltando das minhas complexíssimas aulas do maternal ou primeira série -, jantava, tomava meu banho, vestia um pijama limpinho e deitava na cama pra assistir Disney Club.

Lembro plenamente de sentir que aquele era um dos momentos mais confortáveis da minha vida. Sentia, mas não me dava ao trabalho de atentar para isso. Apenas sentia, na penumbra do meu quarto, que assistir àquele desenho do pato donalds era absolutamente maravilhoso.

Dormia logo depois, com a TV ainda ligada, completamente extasiado.

É interessante como essa lembrança influencia na minha vida: hoje, quando sem sono, refaço exatamente a mesma rotina, mudando apenas o programa de tv. Sem alcançar o mesmo prazer, é claro. As atividades parecem infinitamente mais prazerosas quando feitas na infância.

Tristeza

Nos dias de tristeza, quando alguém
nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
às vezes, nem sequer nós respondemos:
faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois haverá desgosto mais profundo
do que este de não se ter alguém no mundo
que nos pergunte por que estamos tristes?

(Virgínia Vitorino)