Ninfomaníaca II [2014]

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O bom desse filme novo do Lars Von Trier é que ele trouxe muitas fritações, e uma delas é justamente a razão pela qual eu comecei esse blog: ter um local para anotar minhas fritações. Justamente por elas ocorrerem à noite (o que explica o fato de todo texto ser postado de madrugada), eu as esqueço no dia seguinte. Escrevendo no blog, ainda as divido com a humanidade, e dai, quando eu morrer, as pessoas notarão que eu era um gênio.

Justamente por isso que esse texto muito provavelmente será editado à medida que eu vá refletindo mais sobre o filme.

OBS:::::: se não viu os filmes ainda, vá vê-los e depois vem cá ler.

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Eu gosto do Lars Von Trier por que ele tem o jeito dele. O cartão de visitas em todos os filmes é estampado: chocar.  E esse choque sempre se dá de uma forma repetitiva, engessada, mas nem por isso menos genial. O fato de ele ter feito filmes seguindo as regras do Dogma 95 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dogma_95) o treinaram com a habilidade inigualável de fazer roteiros complexos e profundos (o principal motivo, ao meu ver, pelo qual ele é tão pouco conhecido). O fato de ele ter abandonado o Dogma 95, por outro lado, aliaram os roteiros que já eram fenomenais às mais diversas formas de se fazer cinema.

“Como assim engessado?”. Como um broder meu sabiamente atentou, Lars Von Trier sempre se propõe a deixar claro que aquilo que está na tela é um filme, uma obra, o que o provê a liberdade de utilizar alguns recursos que em outros filmes não caberiam. O fato da história ser contada em capítulos, com títulos e numeração, por exemplo, não costuma rolar em muitos filmes, mas acontece na maioria dos dele. Também o fato de ter o formato constante e imutável de a mulher narrando a história e o cara a interpelando com digressões, os cortes, as alusões simbólicas (aquele primeiro orgasmo dela e os números 3+5, por exemplo) são alguns dos elementos que compactuam pra isso e pro estilo de Trier ser tão característico.

Mas, acima de tudo, o filme é genial pelas questões que ele levanta. Muito mais do que à igreja, o filme é um ataque claro e barulhento à moral da atualidade. Não bastando o filme ser sobre uma ninfomaníaca, o que já acho um ataque bem notável, mas ainda outros momentos, como o do pedófilo – “pera, ela pagou um boquete a um pedófilo por que ficou com pena?” e aí ela dá uma explicação absolutamente plausível e incomum pelo fato de ter sentido pena! -, ou quando ela chama o cara de “negro” e o velho a reprime, no que ela responde “a sociedade tende a proibir palavras que representem problemas que ela não consegue solucionar”.

(Não estou dizendo que o Lars Von Trier foi o primeiro a levantar essas questões. Vários filósofos já as levantaram. O mérito de Trier está em colocar essas questões, que não são simples, tão bem contextualizadas.)

Papo esse que é retomado mais à frente quando ela se apresenta no grupo de terapia. “Eu sou uma ninfomaníaca”, “aqui nós dizemos ‘dependentes’”. Mais tarde isso serve pra diferenciar Joe das demais do grupo “vocês podem ser só dependentes, eu sou ninfomaníaca. Eu sou isso. É meu desde que eu tive meu primeiro orgasmo”. Não à toa ela pensa nisso quando vê a si mesma como criança no espelho.

Há também a questão do choque, sempre presente em Lars Von Trier. Se em Anticristo eu achei que ele já tivesse atingido o ápice, nesse ele se superou. O suspense durante a cena de masoquismo é tão grande, dramático e minucioso, que torna o ato de estar assistindo a cenas de masoquismo MAIS ANGUSTIANTE do que já o é normalmente.

E o próprio final, ao meu ver, é um baita tapa na cara do telespectador. Tanto que meu primeiro comentário foi “que final cagado, né”. Depois de muitas teorias levantadas entre amigos, divido algumas reflexões: o cara se considerava assexuado, é verdade. Alguns amigos disseram que o velho reprimia a sexualidade dele. Eu acho possível, mas estou incerto. Em algum momento, a Joe fala alguma coisa e o velho a interrompe, citando Freud e dizendo alguma coisa do tipo “você está reprimindo o que você realmente é” (ela responde dizendo que “ele estava caindo no clichê”).

Achei que isso foi uma crítica bem clara à Freud e a essa história de tudo ser alguma coisa reprimida ou inconsciente. O velho sentiu vontade de enfim transar com ela por curiosidade – como ele mesmo tinha dito. Tão velho e nunca fez sexo! E ouve a história inteira de uma ninfomaníaca! De certa forma, é parecido com o pedófilo, que se excita ao ouvir a história da criança.

A subsequente reação dela é mais simples ainda: puta que pariu, eu acabei de narrar um filme de 4 horas sobre minha complexidade e você tenta me foder dormindo? E ainda argumenta “qual o problema? Você já deu pra tanta gente!”? Logo depois de eu ter dito que, puta merda, você era o único amigo que tive na vida?

A tela fica preta. Ela aperta o gatilho. Nada acontece. Ah! Ela não carregou! A pistola é automática, eles falaram disso...É o inconsciente dela, né. “Você fodeu milhares de homens”. Carrega. Atira.

Essa porra desse filme é genial.

(Percebam que em momento algum eu precisei falar sobre sexo)