Minha vida está ótima. Adoro minha faculdade, meu trabalho e meu curso. O único problema é que a junção dos três não me permite sequer dormir, quiçá escrever. Sou dependente do ócio criativo, por mais banalizado que ele seja (afinal, é ócio), mas se não há sequer tempo livre, quem dirá ócio…

Continuo lendo, no entanto, pois não sei viver de outra forma que não envolva letras diante dos meus olhos, e um um livrinho maravilhoso que achei nesta vastidão mundana foi “Cartas a Um Jovem Poeta”, do Rainer Maria Rilke. Trata-se de umas cartas que este autor, um dos maiores do século XX, trocou com um jovem fã dissertando sobre vida, Deus, amor, religião, entre outras coisas. O trecho a seguir, em particular, achei maravilhoso.

***

Borgeby Gard, Flàdie, Suécia,
12 de agosto de 1904

(…)
Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que
deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize
com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por
um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram
tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é
evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra
ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em
algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda
resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é
uma certeza que não nos abando-nará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil;
o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.

Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por
outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a
derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é
apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda
não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas
as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens
precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo
período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida,
solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não
é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra
pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado,
do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo
amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si
mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o
indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe.
Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos, as pessoas jovens
deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo
tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e
acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para
a qual a vida humana quase não seja o bastante.

É aí que os jovens erram com freqüência, gravemente: pelo fato de eles
(faz parte de sua natureza não ter paciência alguma) se atirarem uns para os
outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo o
seu desgoverno, na desordem, na confusão… Mas o que deve resultar disso?
O que a vida deve fazer desse acúmulo de equívocos a que eles chamam de
união e gostariam de chamar de sua felicidade? E o futuro? Então cada um se
perde por causa do outro e perde o outro e muitos outros que ainda desejariam
surgir. Perdem-se as vastidões e as possibilidades, troca-se a aproximação e a
fuga de coisas quietas, cheias de pressentimentos, por um desespero
infrutífero do qual nada mais pode resultar; nada mais do que um pouco de
náusea, desapontamento e pobreza, e com isso a salvação em uma
das muitas convenções que estão disponíveis em grande número, como
abrigos para todos nesse caminho extremamente perigoso. Nenhuma região da
experiência humana é tão munida de convenções quanto essa: salva-vidas dos
mais diversos, botes e bóias; refúgios de todos os tipos foram criados pela
compreensão comum, pois ela estava inclinada a considerar a vida amorosa
como um prazer, por isso tinha de torná-la fácil, barata, inofensiva e segura,
como são os prazeres públicos.

De fato muitos jovens que amam de modo falso, ou seja, simplesmente
entregando-se, sem preservar a solidão (a maioria não passará nunca disso),
sentem a opressão de um erro e querem, de uma maneira própria e pessoal,
tornar vivida e fértil a situação em que se precipitaram. Pois a sua natureza
lhes diz que as questões do amor, de tudo o que é importante, são as que
menos podem ser resolvidas abertamente, segundo um acordo qualquer; são
perguntas íntimas feitas de uma pessoa para outra, perguntas que exigem em
cada caso uma resposta nova, especial, apenas pessoal. Mas como é que eles
poderiam encontrar uma saída em si mesmos, do fundo de sua solidão já
desperdiçada, eles que se atiraram, que não se delimitam nem se diferenciam,
e que portanto não possuem nada de próprio?

Os jovens tomam atitudes a partir de um desamparo comum e, quando
querem evitar de boa vontade a convenção que se anuncia (por exemplo o
casamento), caem nos braços de uma solução menos explícita, mas
igualmente convencional e mortal. Pois tudo o que existe em torno deles é
convenção; onde quer que se trate de uma comunhão precipitada e turva,
todas as atitudes são convencionais. Toda relação resultante de tal mistura
possui a sua convenção, mesmo que seja pouco usual (ou seja, imoral em
sentido comum). Até a separação seria um passo convencional, uma decisão
ocasional e impessoal sem força e sem frutos.

Quem observa com seriedade descobre que, assim como para a morte,
que é difícil, também para o difícil amor não se reconheceu ainda nenhum
esclarecimento, nenhuma solução, nem aceno, nem caminho. Para essas duas
tarefas, que carregamos e transmitimos secretamente sem esclarecer, nunca
se achará uma regra comum baseada em um acordo. Contudo, à medida que
começamos a tentar a vida como indivíduos, essas grandes coisas se
aproximam muito de nós, os solitários. As exigências que o difícil trabalho do
amor impõe ao nosso desenvolvimento são sobre-humanas, e nós,
como iniciantes, não podemos estar à altura delas. Mas se
perseveramos e assumimos esse amor como uma carga e um período de
aprendizado, em vez de nos perdermos em todo o jogo fácil e frívolo atrás do
qual as pessoas se esconderam da mais séria gravidade de sua existência,
talvez se perceba um pequeno avanço e um alívio para aqueles que virão
muito depois de nós; e isso já seria muito.

“Os 4 Grandes Erros de Nietzsche” – O Erro das Causas Imaginárias

… A maioria de nossos sentimentos universais – todo e qualquer tipo de inibição, pressão, tensão, explosão no jogo de ação e reação dos órgãos, assim como em particular o estado do nervo simpático – excita nosso impulso causal: queremos um motivo para nos sentirmos dispostos de tal ou tal modo, para nos sentirmos mal ou bem dispostos. Nunca é suficiente para nós constatar o fato de nos sentirmos dispostos de tal ou tal modo: só aceitamos esse fato – só tomamos consciência dele quando lhe entregamos um tipo de motivação. – A recordação que, sem nosso saber, entra em atividade em tais casos, traz à tona estados anteriores do mesmo tipo e interpretações causais que aí estão articuladas – não sua causalidade. Decerto, a crença em que as representações, os processos de consciência acompanhantes, tinham sido as causas, também é trazida à tona pela recordação. Assim surge o hábito de uma determinada interpretação causal, que em verdade impede e mesmo exclui a investigação.

5.

Explicação Psicológica para isso.

– Reconduzir algo desconhecido a algo conhecido alivia, tranqüiliza, satisfaz e dá, além disso, um sentimento de potência. Junto com o desconhecido é dado o perigo, a inquietude, a preocupação – o primeiro instinto aponta para a eliminação destes estados penosos. Primeiro princípio: qualquer explicação é melhor do que explicação nenhuma. Porque no fundo se trata apenas de querer livrar-se de representações angustiantes, não se considera com a exatidão necessária os meios de produzir um tal movimento. A primeira representação, com a qual o desconhecido se explica como conhecido, faz tão bem que se a “toma por verdadeira”. Prova do prazer (“da força”) como critério de verdade. O impulso causal está assim condicionado e provocado pelo sentimento de medo. Se houver alguma possibilidade, o “por quê?” não deve tanto entregar a causa em virtude dela mesma, mas entregar sim um tipo de causa. – Uma causa que aquiete, que liberte e que tome mais leve. A primeira consequência dessa necessidade é o fato de que algo já conhecido, vivenciado e inscrito na memória como causa é posto em anexo. – O novo, o não-vivenciado, o estranho são excluídos enquanto causa. Não se busca com isto apenas uma espécie de explicações como causa, mas sim uma espécie escolhida e privilegiada de explicações, que tragam consigo o mais rápida e frequentemente possível a extinção do sentimento do estranho, do novo, do não-vivenciado: as explicações mais usuais. – Consequência: uma espécie de posicionamento das causas torna-se cada vez mais preponderante; concentra-se sistematicamente e mostra-se por fim como dominante, isto é, exclui simplesmente outras causas e explicações. – O banqueiro pensa imediatamente no “negócio”, o cristão no “pecado”, a moça em seu amor.

6.

Todo o âmbito da moral e da religião pertence a este conceito das causas imaginárias.

– “Explicação” dos sentimentos universais desagradáveis. Estes sentimentos são condicionados pelos seres que são nossos inimigos (os espíritos maus são o caso mais célebre – as histéricas que foram mal compreendidas como bruxas). Eles são condicionados por ações que não são passíveis de aprovação (o sentimento do “pecado”, do “caráter pecaminoso”, “imputado” a um mal-estar fisiológico – sempre se encontra razões para se estar descontente consigo mesmo). Eles são condicionados como punições, como a paga por algo que não deveríamos ter feito, para algo que não deveríamos ter sido (idéia universalizada de forma impudente por Schopenhauer através de uma proposição, na qual a moral aparece como o que é, como a própria envenenadora e caluniadora da vida: “toda e qualquer grande dor, seja ela corporal, ou espiritual, expressa o que merecemos; pois ela não poderia advir-nos, se não a merecêssemos”. Mundo como Vontade e Representação, 2, 666). Eles são condicionados enquanto consequências de ações irrefletidas que prosseguem terrivelmente (os afetos, os sentidos são estipulados como causas, como “culpáveis”; estados de necessidade fisiológicos interpretados com a ajuda de outros estados de necessidade como “merecidos”). – “Explicação” dos sentimentos universais agradáveis. Eles são condicionados pela confiança em Deus. Eles são condicionados pela consciência de boas ações (a assim chamada “boa consciência”; um estado fisiológico que por vezes parece tão similar a uma digestão feliz, que chegamos a confundi-los). Eles são condicionados pelo desenlace feliz de certos empreendimentos (falsa conclusão, de uma ingenuidade patética: o desenlace feliz de um empreendimento não cria, para um hipocondríaco ou para um Pascal, nenhum sentimento universal agradável). Estes são condicionados pela crença, pelo amor, pela esperança – as virtudes cristãs. – Em verdade, todas estas pretensas explicações são consequências de estados de prazer e de desprazer traduzidos, por assim dizer, em um falso dialeto: se está em condições de ter esperanças porque o sentimento fundamental fisiológico está de novo forte e rico; confia-se em Deus porque o sentimento de plenitude e de força entrega ao indivíduo a quietude.

– A moral e a religião pertencem completamente à psicologia do erro: em todos os casos particulares, a causa e o efeito são confundidos; ou bem a verdade é confundida com o efeito do que se crê como verdadeiro; ou bem um estado de consciência com a causalidade desse estado.

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Isso acontece pois o amor romântico não é altruísta, é o desejo de preencher um vazio emocional através de um relacionamento. É comum as pessoas dizerem que sofrem ou sofreram “por amor”, ou que saíram machucadas de um relacionamento e colocam a culpa no parceiro. Mesmo que embora ele/ela possua responsabilidade de alguma maneira, você que depositou esperanças e expectativas em cima de uma pessoa, que como qualquer outra, está passível a errar ou dissimular. Você que abriu espaço para isso, e não notando sua parcela de responsabilidade você então se vitimiza, e com isso, gera sofrimento e não aprende suas lições.

O amor em si nunca machuca, o que machuca é o romantismo e a carência que as pessoas criaram pela falta de amor por si próprias, por não estarem completas em si mesmas acabam por buscar a plenitude nos outros.

Amor não é apenas ter relação sexual, não é atração emocional ou intelectual, ou sequer uma “troca de energias”, e certamente o amor não é a fome do coração pelo afeto. O amor é uma poderosa vibração vindo direto da Fonte. Quando nós falamos de amor muitas vezes somos mal interpretados, o amor que falamos não é uma emoção, na verdade, é um estado de consciência, uma forma de estar no mundo, uma maneira de ver a si mesmo e aos outros, é o que podemos chamar de empatia ou compaixão, é percepção que nós somos “o outro”.

Revejam seus conceitos antes de ficarem sofrendo por sentimentalismos e colocando a culpa numa palavra que não entendem, pois se continuar assim estaremos apenas colaborando para que nos confundam mais e mais.

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“Amor não é um consolo. É uma luz.”
Friedrich Nietzsche

“Lembre-se que os melhores relacionamentos são os que o amor de um pelo outro supera a necessidade de um pelo outro.”
Dalai Lama

“Enquanto não superarmos a ânsia do amor sem limites, não podemos crescer emocionalmente. Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um.”
Fernando Pessoa

“Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se autoflagelam por causa dos erros que cometem. Felicidade é serenidade. Não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos com príncipes encantados.”
– Martha Medeiros

“Quando eu parei de procurar ser amada, parece que o mundo começou a me amar mais.”
Tati Bernardi

Fonte: Evolução da Consciência

Os Espíritos Livres — como criações espectrais

Foi assim que há tempos, quando necessitei, inventei para mim os “espíritos livres”, aos quais é dedicado este livro melancólicobrioso que tem o título de “Humano, Demasiado Humano”: não existem esses “espíritos livres”, nunca existiram — mas naquele tempo, como disse, eu precisava deles como companhia, para manter a alma alegre em meio a muitos males (doença, solidão, exílio, acedia, inatividade): como valentes confrades fantasmas, com os quais proseamos e rimos, quando disso temos vontade, e que mandamos para o inferno, quando se tornam entediantes — uma compensação para os amigos que faltam. Que um dia poderão existir tais espíritos livres, que a nossa Europa terá esses colegas ágeis e audazes entre os seus filhos de amanhã, em carne e osso e palpáveis, e não apenas, como para mim, em forma de espectros e sombras de um eremita: disso serei o último a duvidar. Já os vejo que aparecem, gradual e lentamente; e talvez eu contribua para apressar sua vinda, se descrever de antemão sob que fados os vejo nascer, por quais caminhos aparecer.

— Friedrich Wilhelm Nietzsche, in Humano, Demasiado Humano.

“Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do caráter. Esquecer qualquer traço ruim de uma pessoa é como jogar fora dinheiro custosamente adquirido. No entanto, se seguirmos o presente conselho, estaremos a proteger-nos da confiabilidade e de amizades tolas.
“Não amar, nem odiar”, eis uma sentença que contém a metade da prudência do mundo; “nada dizer e em nada acreditar” contém a outra metade. Decerto, daremos de bom grado as costas a um mundo que torna necessárias regras como estas.”

Arthur Schopenhauer, Aforismos Para a Sabedoria de Vida.