“Meus pensamentos”, disse o andarilho à sua sombra, “devem me anunciar onde estou; não devem me revelar para onde vou. Eu amo a ignorância a respeito do futuro e não quero perecer de impaciência e do antegozo das coisas prometidas”.

(Friedrich Nietzsche, “A Gaia Ciência”)

O que Nietzsche tem a nos dizer

Este texto é a última coluna, lançada ontem, do meu professor Marcio Amaral no’O Globo:

Nietzsche foi um filósofo que pensou e escreveu coisas extraordinárias, muito duras. Fugia dos contatos, arrastava atrás de si um enorme baú com seus livros, roupas, pouca coisa mais. E procurava o ar frio, bom para a saúde frágil. Punha sua mesa de frente para o sol e saía, andarilho. Na volta anotava impressões e ideias, quando ficava satisfeito as organizava em aforismos, pequenos capítulos, poemas, e tinha um livro. Publicava-os e ninguém os lia, nem comentava. Sentiam medo do solitário violento.

Um dia, caminhando nas montanhas da Suíça, teve o que chamou sua “ideia mais pesada”: o tempo não tem começo nem fim, é eterno e infinito, e portanto tudo já aconteceu e acontecerá de novo. Na mesma ordem. Igual. Chamou a essa ideia o Eterno Retorno do Mesmo. Não escreveu o livro do Eterno Retorno. Deixou duas ou três pistas. Até hoje especulamos sobre elas. Com sofrimento. É pesado demais aceitar que o futuro é o mesmo que o passado. Eternamente igual.

Nietzsche naturalmente via outra coisa na sua ideia. Tinha escapado da maldição, que a filosofia foi adquirindo ao longo dos séculos, de fazer sistemas cheios de rigor lógico, mas longe da vida. Como Sócrates, que odiava do fundo das entranhas, sabia que a filosofia deve servir à vida — ou ficar quieta e não atrapalhar a potência de viver. Pensava que os valores, criados por Sócrates, do bom, do belo, do justo e do verdadeiro foram uma conspiração da filosofia, da moral e da religião para julgarem e condenarem a vida, sua força afirmadora e livre. No seu século XIX essa força teria chegado ao máximo da sua humilhação. Ao fundo do poço: o último homem, o homem que deseja morrer, a vontade de nada, o nada de vontade, assim o chamou. Desespero e desesperança.

Mas no dia do passeio na montanha teve essa ideia: no fundo do poço não se encontra a morte; se não é possível cair mais, essa é a hora de saltar para o recomeço. Tudo de novo. Com o que a vida teve de bom e o que sofreu de mau. Pois a vida verdadeira está além da oposição entre bem e mal. É maior do que isso. É pura afirmação da sua própria força.

No livro “Aurora” ele nos deixou uma pista sobre o Eterno Retorno. Se um demônio — por que não o da meia-noite, quando um dia termina e outro começa no mesmo fulgurante instante, e não há, ainda, ontem nem amanhã — se introduzisse no seu sonho e perguntasse: — Você quer tudo de novo, e na mesma ordem? — ele responderia: — Sim! E desse modo desejaria todo o passado. Pois fácil, pensou então, é desejar o futuro; querer de volta tudo o que foi, sem julgamentos nem seleções, é amar a vida além de bem e mal. É dizer um “Sim!” soberano à vida. Deixar de ser demasiado humano, como o camelo que carrega nas corcovas todos os pesos da submissão. Ir para o deserto, como o leão, urrar pela liberdade. E depois tornar-se a criança, que está na pura inocência do tempo. Sem medo. Assim ele pensou, e havia nesse pensar a esperança da vida forte de uma Humanidade transfigurada pela paixão dionisíaca, pela desmesura e pelo excesso, que ele opunha à força apolínea, toda feita de contenções e limites, mestra dos julgamentos. Dionísio era o deus grego da ebriedade. Apolo era o da luz. O Sol, que faz luz e sombra, põe uns na claridade, outros, empurra para as trevas. Nietzsche era dionisíaco. Pensava a vida como um transbordamento de força e criação. E queria protegê-la das condenações apolíneas, cheias de desdenhosa superioridade. Sua ideia, tão pesada e difícil, do Eterno Retorno era para isso que servia: ensinar aos homens a esperança. Os homens tinham medo. Evitavam ouvi-lo.

Um dia, em Turim, viu um cavalo ser violentamente espancado. Identificou naquele corpo poderoso e belo, assim supliciado, a própria força da vida humilhada até a baba e o sangue. Agarrou-se ao animal, defendeu-o e perdeu os sentidos. E a razão. Nunca a recuperou. Ensombreceu numa loucura mansa. Viveu quase 10 anos assim. E foi quando seus livros começaram a ser lidos. Ficou famoso. Não soube disso. Nem era a fama que lhe importava. Era a força da vida. Ele fora derrubado pelo chicote do torturador da vida, mas não renunciara à sua defesa. A loucura, como, tanto tempo antes, a morte para Sócrates, era um preço justo para não abrir mão do mais valioso.

Hoje, por aqui, parece que vemos um sol se pôr e lamentamos a escuridão. Porque a História acabou, dizem, e não há mais futuro e sonho. Enganam-se. Amanhã haverá sol, e os tenebrosos se espantarão. O tempo dos sonhos voltará. Nietzsche pode ter pensado coisas estranhas, mas nessa teve razão: o tempo não acaba para aqueles que amam a vida acima de ponderações e conveniências. E estão dispostos a alucinar, encher-se de luz por ela.

Esse pode ser hoje um bom nome para a esperança. Que retorna sempre. Mais forte ainda quando o mundo escureceu.

Quero os melhores baseados do mundo
Moro na cidade mais bonita do mundo
Esclareço alguns, outros confundo
Fui… maltrado por algumas dores, mas sigo imune

Eu tenho os amigos mais fieis do meu lado
A família mais linda, os melhores aliados

Eu to na profissão perigo, mas não se iluda, amigo
O mundo nunca foi melhor que isso
Lancei um riso, sigo debochado, se bá
Foi a forma que eu encontrei de conservar o que eu valorizo

Medíocres raciocinam até aonde convém
A gente não… a gente pensa até enxergar além
Entre a loucura e a genialidade
Superficial é achar que a vida feita só de profundidade

Sem help dos crentes e mais sapiência
Se deus é perfeito, ele é indiferente
Nem toda rebeldia é inteligente
Mas, como sempre, toda inteligência é rebelde, entende?

Convivo com os que vivem e sigo rindo
Amigo, enquanto muitos falam poucos dizem
Cada um com seu dízimo, um gole pro santo
Abrindo caminhos me blindo
Corpo tá fechado, tô com meu manto

Filipe Ret – Estilo Livre


“Eu sabia que seria apenas depois de te teres ido embora que iria perceber a completa extensão da minha felicidade e, alas! o grau da minha perda também. Ainda não a consegui ultrapassar, e se não tivesse à minha frente aquela caixinha pequena com a tua doce fotografia, pensaria que tudo não teria passado de um sonho do qual não quereria acordar. Contudo os meus amigos dizem que é verdade, e eu próprio consigo-me lembrar de detalhes ainda mais charmosos, ainda mais misteriosamente encantadores do que qualquer fantasia sonhadora poderia criar. Tem que ser verdade. Martha é minha, a rapariga doce da qual todos falam com admiração, que apesar de toda a minha resistência cativou o meu coração logo no primeiro encontro, a rapariga que eu receava cortejar e que veio para mim com elevada confiança, que fortaleceu a minha confiança em mim próprio e me deu esperanças e energia para trabalhar, na altura que eu mais precisava. Quando tu voltares, querida rapariga, já terei vencido a timidez e estranheza que até agora me inibiu perante a tua presença. Iremos sentar-nos de novo sozinhos naquele pequeno quarto agradável, vais-te sentar naquela poltrona castanha , eu estarei a teus pés no banquinho redondo, e falaremos do tempo em que não existirá diferença entre noite e dia, onde não existirão intrusos nem despedidas, nem preocupações que nos separem. A tua amorosa fotografia. No início, quando eu tinha o original à minha frente não pensei nada sobre a mesma; mas agora, quanto mais olho para ela mais esta se assemelha ao objecto amado; espero que o rosto pálido se transforme na cor das nossas rosas, e que os braços delicados se desprendam da superfície e prendam a minha mão; mas a imagem preciosa não se move, parece apenas dizer: “Paciência! Paciência” Eu sou apenas um símbolo, uma sombra no papel; a tua amada irá voltar, e depois podes negligenciar-me de novo. Eu gostaria imenso de colocar esta fotografia entre os deuses da minha casa que pairam acima da minha secretária, mas embora eu possa mostrar os rostos severos dos homens que reverencio, quero esconder a face delicada da minha amada só para mim. Vai continuar na tua pequena caixinha e eu não me atrevo a confessar a quantidade de vezes, nestas últimas vinte e quatro horas, que tranquei a minha porta para poder tirar a fotografia da caixa e refrescar a minha memória.”

Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 19 de Junho 1882

Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 19 de Junho 1882

Outro trecho de “Cartas a Um Jovem Poeta”, do Rilke. Esse me deu aquele sentimento de “finalmente alguém me entende”. Quantas noites já não passei refletindo acerca do bem que a tristeza pode nos fazer? Incontáveis. Me sentia louco até então; ao menos Rilke me acompanha neste barco – seja este barco o da loucura ou o da mais profunda razão.

***

Só são ruins e perigosas as tristezas que
carregamos em meio às pessoas para dominá-las; como doenças que são
tratadas de modo superficial e leviano, elas apenas recuam e, após uma
pequena pausa, irrompem ainda mais terríveis. Essas tristezas se
acumulam no íntimo e constituem a vida, constituem uma vida não vivida,
desdenhada, perdida, de que se pode morrer. Se nos fosse possível ver além
do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do
nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais
confiança do que nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo de
novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em
um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo,
que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão,
que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos
sentimentos que se tornaram estranhos para nós.

(…)

É por isso que a tristeza também passa: o novo em nós, o acréscimo, entrou em nosso
coração, alcançou seu recanto mais íntimo e mesmo ali ele já não está mais –
está no sangue. E não percebemos o que houve.
Seria fácil nos fazer acreditar que nada aconteceu,
no entanto nos transformamos, como uma casa se transforma quando chega
um hóspede. Não somos capazes de dizer quem chegou, talvez nunca
cheguemos a saber, mas vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa
maneira, para se transformar em nós muito antes de acontecer. Por isso é tão
importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante
aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro
entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto,
ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora. Quanto mais
tranquilos, pacientes e receptivos formos quando estamos tristes, tanto mais
profundo e mais firme o modo como o novo entra em nós, tanto mais fazemos
por merecê-lo, tanto mais ele se torna o nosso destino.

(…)
Voltando ao assunto da solidão, fica cada vez mais claro que no fundo
ela não é nada que se possa escolher ou abandonar. Somos solitários. É
possível iludir-se a esse respeito e agir como se não fôssemos. É tudo. Muito
melhor, porém, é perceber que somos solitários, e partir exatamente daí. (…)
Precisamos aceitar a nossa existência  em todo o seu alcance;
tudo, mesmo o inaudito, tem de ser possível nela. No
fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do
que é mais estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos.