“O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta.
Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas desse gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos não estará mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é a prova d’água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não… Se é sincera ou mentirosa. Isso só é importante no teatro. Talvez nem nele. Entendo porque não fala, porque não se movimenta. Sua apatia se tornou um papel fantástico. Entendo e admiro você. Acho que deveria representar este papel até o fim. Até que não seja mais interessante… Então pose esquecer… Como esquece os seus papéis.”

Persona [1966] – Bergman

A consciência imediata, além de insuficiente, é enganosa. As ciências humanas (…) demonstram que não apenas estamos muito distantes da nossa verdade, como também distorcemos e desconfiguramos o que somos. Marx ensinou-nos que tendemos a projetar sobre a representação que fazemos de nós mesmos a realidade, o mundo em que vivemos, com seus preconceitos, crenças, papéis e interesses de classe, ou seja, suas ideologias. Estruturalmente narcisista – aqui entra Freud -, nosso psiquismo inclina-se a admitir que somos tal como acreditamos ser, ou melhor, tal como nossos desejos inconscientes nos representam imaginariamente.

(O Modelo Hermenêutico de Reflexão – Ricardo Jardim)

“Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura — loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.”

(Ernest Becker – A Negação da Morte)

Quotes da vida

Frases e pensamentos soltos que ouvi ou pensei esses dias:

“Fomos tão rápidos que eu já tava pensando em amor quando ela já tava pensando em outro”

“Ah, coitado. Ele tá naquela coisa de fim de namoro de vou fingir que tô bem mas todo mundo sabe que tô na merda”

“Somos completamente apaixonadas por você. Ter você por perto não foi daquelas transa rápida que se vira pro lado e dorme não, foi aquele orgasmo demorado, que você dorme satisfeita e se lembra por muito tempo.”

“Eu sou mais inteligente que você, tenho carreira e perspectivas de futuro melhores que as suas, além de ser mais bonito também, então se tem alguma coisa que eu sinto inveja de você, não é na quantidade de meninas que você ilude numa festa, mas de como você se contenta com pouco”

“Todas as vezes que tento me descrever adiciono novos traços ao personagem que criei de mim”


E todas as coisas que eu lembrava, ou achava que lembrava, porque de tanto lembrar delas acabara por transformá-las em mera − e péssima − literatura, já não importavam mais.

“Meus pensamentos”, disse o andarilho à sua sombra, “devem me anunciar onde estou; não devem me revelar para onde vou. Eu amo a ignorância a respeito do futuro e não quero perecer de impaciência e do antegozo das coisas prometidas”.

(Friedrich Nietzsche, “A Gaia Ciência”)

O que Nietzsche tem a nos dizer

Este texto é a última coluna, lançada ontem, do meu professor Marcio Amaral no’O Globo:

Nietzsche foi um filósofo que pensou e escreveu coisas extraordinárias, muito duras. Fugia dos contatos, arrastava atrás de si um enorme baú com seus livros, roupas, pouca coisa mais. E procurava o ar frio, bom para a saúde frágil. Punha sua mesa de frente para o sol e saía, andarilho. Na volta anotava impressões e ideias, quando ficava satisfeito as organizava em aforismos, pequenos capítulos, poemas, e tinha um livro. Publicava-os e ninguém os lia, nem comentava. Sentiam medo do solitário violento.

Um dia, caminhando nas montanhas da Suíça, teve o que chamou sua “ideia mais pesada”: o tempo não tem começo nem fim, é eterno e infinito, e portanto tudo já aconteceu e acontecerá de novo. Na mesma ordem. Igual. Chamou a essa ideia o Eterno Retorno do Mesmo. Não escreveu o livro do Eterno Retorno. Deixou duas ou três pistas. Até hoje especulamos sobre elas. Com sofrimento. É pesado demais aceitar que o futuro é o mesmo que o passado. Eternamente igual.

Nietzsche naturalmente via outra coisa na sua ideia. Tinha escapado da maldição, que a filosofia foi adquirindo ao longo dos séculos, de fazer sistemas cheios de rigor lógico, mas longe da vida. Como Sócrates, que odiava do fundo das entranhas, sabia que a filosofia deve servir à vida — ou ficar quieta e não atrapalhar a potência de viver. Pensava que os valores, criados por Sócrates, do bom, do belo, do justo e do verdadeiro foram uma conspiração da filosofia, da moral e da religião para julgarem e condenarem a vida, sua força afirmadora e livre. No seu século XIX essa força teria chegado ao máximo da sua humilhação. Ao fundo do poço: o último homem, o homem que deseja morrer, a vontade de nada, o nada de vontade, assim o chamou. Desespero e desesperança.

Mas no dia do passeio na montanha teve essa ideia: no fundo do poço não se encontra a morte; se não é possível cair mais, essa é a hora de saltar para o recomeço. Tudo de novo. Com o que a vida teve de bom e o que sofreu de mau. Pois a vida verdadeira está além da oposição entre bem e mal. É maior do que isso. É pura afirmação da sua própria força.

No livro “Aurora” ele nos deixou uma pista sobre o Eterno Retorno. Se um demônio — por que não o da meia-noite, quando um dia termina e outro começa no mesmo fulgurante instante, e não há, ainda, ontem nem amanhã — se introduzisse no seu sonho e perguntasse: — Você quer tudo de novo, e na mesma ordem? — ele responderia: — Sim! E desse modo desejaria todo o passado. Pois fácil, pensou então, é desejar o futuro; querer de volta tudo o que foi, sem julgamentos nem seleções, é amar a vida além de bem e mal. É dizer um “Sim!” soberano à vida. Deixar de ser demasiado humano, como o camelo que carrega nas corcovas todos os pesos da submissão. Ir para o deserto, como o leão, urrar pela liberdade. E depois tornar-se a criança, que está na pura inocência do tempo. Sem medo. Assim ele pensou, e havia nesse pensar a esperança da vida forte de uma Humanidade transfigurada pela paixão dionisíaca, pela desmesura e pelo excesso, que ele opunha à força apolínea, toda feita de contenções e limites, mestra dos julgamentos. Dionísio era o deus grego da ebriedade. Apolo era o da luz. O Sol, que faz luz e sombra, põe uns na claridade, outros, empurra para as trevas. Nietzsche era dionisíaco. Pensava a vida como um transbordamento de força e criação. E queria protegê-la das condenações apolíneas, cheias de desdenhosa superioridade. Sua ideia, tão pesada e difícil, do Eterno Retorno era para isso que servia: ensinar aos homens a esperança. Os homens tinham medo. Evitavam ouvi-lo.

Um dia, em Turim, viu um cavalo ser violentamente espancado. Identificou naquele corpo poderoso e belo, assim supliciado, a própria força da vida humilhada até a baba e o sangue. Agarrou-se ao animal, defendeu-o e perdeu os sentidos. E a razão. Nunca a recuperou. Ensombreceu numa loucura mansa. Viveu quase 10 anos assim. E foi quando seus livros começaram a ser lidos. Ficou famoso. Não soube disso. Nem era a fama que lhe importava. Era a força da vida. Ele fora derrubado pelo chicote do torturador da vida, mas não renunciara à sua defesa. A loucura, como, tanto tempo antes, a morte para Sócrates, era um preço justo para não abrir mão do mais valioso.

Hoje, por aqui, parece que vemos um sol se pôr e lamentamos a escuridão. Porque a História acabou, dizem, e não há mais futuro e sonho. Enganam-se. Amanhã haverá sol, e os tenebrosos se espantarão. O tempo dos sonhos voltará. Nietzsche pode ter pensado coisas estranhas, mas nessa teve razão: o tempo não acaba para aqueles que amam a vida acima de ponderações e conveniências. E estão dispostos a alucinar, encher-se de luz por ela.

Esse pode ser hoje um bom nome para a esperança. Que retorna sempre. Mais forte ainda quando o mundo escureceu.