Uma ferida
Para cada lembrança
Eis uma metáfora pertinente.
Meu coração, contudo
Frio tem bombeado
Para um ser tão alinhado
À constelação de escorpião.
Terá sido o enrijecer
Próprio do que se cura
Ou apenas o não esquecer
Próprio da amargura?

Vozes Vazias

Tantas vezes
Tantas vozes
Perdidas
vendidas
Vozes vazias
Perdidas no coro
Buscando um choro,
Uma dor qualquer.
O julgo
Orgulho
O preço
Desprezo
Uma Filosofia da preguiça.
Mãos atadas
Vazias
Com dedos apontadas
Na multidão descrevia
O rosto jubilante
De prazer pelo sangue
Simbólico
Moral
Uma dor qualquer.
Lobo em pele de cordeiro
Ator atuando o verdadeiro
Esvaziando de sentido
Todo qualquer ocorrido
Embasbacado de ver
Intensidade
Prazer
O afeto de ser
envolto na bolha
Pertencer
Ao que quer que sê.
Sê!
Sê!
Isso ou aquilo
apenas os dois.
Existe caminho
Distinto
Visando dizer o que sinto
Instinto
Visando crescer no que penso
Intenso
Visando viver o que vivo?
Digo que não
Penso
Talvez
Vamos tentando
dum jeitinho poético
ter preguiça de ser cético.

25.10.2016

5 meses

Escrevi pra você
Pra dizer que te amo
Que te amo tanto
Que é difícil dizer

Fica assim
Desse jeitinho
Teu cheiro
Beijinho
Me abraça rapidinho
Quero sentir você

Te amo
Te amo
Vem cá,
Gruda em mim
Vamos sair por ai
Juntinho não dá ruim

Paris, Barcelona
Argentina, Moçambique
Comemorar nosso amor
Com os povos do Sergipe
Abrir uma padaria
No interior do Japão
Ser exemplo de alegria
Em todo o quarteirão

Quero te ter comigo
Agora e depois
Juntinho, grudado
Sozinhos nós dois
Numa praia aqui
Num passeio por lá
Onde quer que estejamos
Faremos um lar

Me diz se aceita
Se ta comigo nessa
Me dá sua mão
Partamos com pressa
O futuro é enorme
Mas passa rapidinho
Leve o tempo que for
Se eu estiver com mozinho
Cinco meses ou uma eternidade
Um minuto sem você já me dá saudade

Aurora em 31 de Março

Quando errei, e errei demais
Aprendi e superei,
Esquecer, jamais.

Nem sempre fui o que sou
E nem poderia ter sido.
Fui muitas pessoas normais
Antes de ser esquisito.

Hoje mesmo eu já nem sei,
Fui tanto mudado e em tanto mudei!
Não mudar é o grande mistério.
O estático me dá cansura.
Não me leve muito a sério,
Já basta a mim essa loucura.

Pra que servem as boas frases se não podemos usá-las?

 

É bastante complicado conviver em sociedade quando você valoriza as boas frases. Este povo parece não apreciar o dialeto rico. Perdi amigos, sofri preconceitos. Se só me faltassem os outros, va lá! Um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde. Mas faltava eu mesmo, e esta lacuna é tudo! O que eu podia fazer se “loucura sim, mas tem seu método” é uma frase que serve para tantos momentos? Eu que me aguente com os comigos de mim é quase um bordão, carrego comigo e o profiro como se uma câmera me enquadrasse de frente. Por muito tempo tive vergonha de ser assim. Hoje estou como se tivesse sido outro. Tento inseri-las no cotidiano, mas com calma, cuidado, cheio de medo de soar pretensioso aos ouvidos críticos dos que não apreciam a beleza de nossa língua. Estou acostumado às críticas, mas ninguém é de ferro, muito menos eu, pois metade de mim é amor, e a outra metade também.

 

Gostaria de lançar aqui e agora o manifesto em prol das grandes frases, um apelo a favor dos quotes fora de hora e das frases de efeito em momentos inoportunos. A literatura é bonita demais para ficar limitada a nossas vozes de leitura. Vamos trazê-la à vida – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de vida. Passe a palavra adiante, apoie a poesia das conversas cotidianas! Se presenciar alguem poetizando, aplauda, emocione-se, jogue flores! E que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja eterno enquanto dure.

Foi Só Uma Egotrip

Eu overthink
Eu sou overthink
Eu overthink demais
Tudo.
Pessoas
Amores
A vida
Tudo.
Eu sei que não sou fácil
Nem pra mim nem pra você.
Eu penso demais
E eu sinto muito.
A partir de um momento,
Vira tudo arte.
As vezes até parece,
Que é só pra isso que serve.

 

Manifesto do Óbvio que Quase Ninguém Viu

Certa vez disseram que evoluímos.

Mas que fique claro:

Não somos o melhor resultado.

Não somos nem resultado

Que dirá o melhor.

Não foi a evolução,

Foi a imposição,

Foi o que deu pra ser.

Não é mais a escravidão,

É a superexploração conivente

Da criança na China

Dos haitianos no Acre

Dos bolivianos em São Paulo.

Não é mais a caça às bruxas,

É o machismo

A misoginia

A desigualdade.

Não é mais a repressão,

É a regulação

Do nosso desejo

Do nosso discurso

Do nosso cotidiano.

Não há mais povos desconhecidos,

Foram todos uniformizados

Em seus costumes

Suas crenças

Seus idiomas

Seus saberes.

Não é mais o apartheid,

É a segregação racial

A criminalização da pele

A exclusão dos tons.

Não é o domínio de tecnologias,

É a escravidão por parte delas

Por suas utilidades

E inutilidades

E  obsolescência.

Não é o triunfo da ordem,

É o triunfo do medo

Da polícia

Do chefe

De Deus.

Não é a democracia,

nem o poder do povo.

É a representação

De uma média

Que não representa ninguém.

Não é a libertação,

É estar cada dia mais preso

Aos nossos desejos

Que voam livres em suas gaiolas.

Evoluímos?

27.10.2015

***

#03

Não somos um resultado. Pois quase nada nos sobrou dos índios, exterminados sem serem ouvidos. Nem das religiões caladas pelo catolicismo. Nem das ideias ignoradas pelo egoísmo. Nem da liberdade ceifada pelo pragmatismo. Se fôssemos resultado de alguma coisa, seria do desperdício. Mas nem isso somos; estamos sendo.