Quantas horas de sua vida os peixes estão tomando?

No “O velho e o mar” do Hemingway, um pescador idoso sente-se desafiado pela sociedade a capturar um peixe, e eis que, na busca que empreende, encontra um peixe gigante que agarra-se ao anzol e puxa seu barco pra bem longe, no alto mar. O idoso encara aquilo como o grande desafio de sua vida, e não mede esforços para resistir às insinuações do peixe. O embate dura dias e muitos quilômetros mar adentro, até que o peixe fraqueja e cai nas redes do velho. Acontece que, na longa volta para terra firme, o cheiro do grande peixe morto chama a atenção de uma infinidade de peixes pequenos, que atacam o barco do velho e se alimentam do peixão, fazendo o velho voltar pra casa, 5 dias depois de deixa-la, de mãos completamente vazias.

Eu sempre achei que essa história fosse sobre o homem que chega na terceira idade e precisa se reafirmar perante o mundo. Sobre a relação do homem com o mar e a natureza. Sobre persistência.

Eu nunca notei o verdadeiro sentido do livro: nenhuma conquista escapará aos olhos dos peixes famintos.

E aí tu arruma um emprego. E o primeiro peixe a morder seu peixão é o banco, que cobra 20 reais pra que você possa ter uma conta pra receber o salário. Depois, o peixe do transporte público te cobra 40 reais por um riocard e 3,80 por cada passagem. Se quiser utilizar trem, pode chegar a 7. Se for de outro município, meu irmãozinho, diga tchau pro teu peixão. Aí tu puxa distraidamente o celular e um peixinho faminto te assalta. Vai comprar um mimo na Internet e o peixe do frete é mais caro que o objeto. Só de pensar no imposto, 1/3 do teu peixão ja é, necessariamente, assaltado pelos peixes do Estado. Aí chegam as contas. E o peixe da luz, da água, do seguro e do gás praticamente acabam com a tua pesca. E ai, quando tu tenta tirar um pouquinho de proveito da tua empresa e trocar os restos do teu peixão por um pouco de entretenimento, não há diversão que não demande pelo menos uns 50 peixes se alimentando da carcaça esvaziada do teu patrimônio.

O mundo está irracionalmente faminto e seu peixe é apetitoso. Mas calma. Tu nem precisava de peixe mesmo, pescador. A tua função no mundo é pescar, não se aproveitar da pesca. Deixa isso pros engravatados. Amanhã o mar te espera novamente e ele não tolera atrasos.

Uma coisa que aprendi estudando Marx é que o dinheiro não vale o quanto ele vale. 5 reais não valem 5 reais. 5 reais valem o tempo que você trabalhou para conquistá-lo. Dinheiro é tempo. Se você ganha 50 reais por tarde de trabalho e gasta 50 reais em uma besteira qualquer, você não está jogando no lixo apenas 50 reais – e sim uma tarde de sua vida.

Quantas horas de sua vida os peixes estão tomando?

Balanço de 2016

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O dicionário da língua inglesa Oxford considerou “Pós-verdade” a palavra de 2016. Pós-verdade, conforme entendi, é essa odiosa postura dos seres humanos de darem mais importância às suas reações emocionais e pessoais do que aos fatos concretos e científicos. Por exemplo: você pode mostrar todos os estudos, exemplos e explicações de que a descriminalização da maconha é o melhor caminho a ser seguido, que a pessoa que é contra permanecerá sendo contra simplesmente por que ela prefere ignorar conscientemente a verdade para tornar a sua impressão pessoal o seu posicionamento definitivo. É pós-verdade por que a verdade simplesmente perde valor diante das crenças pessoais.

Por que isso é importante? Por que às vezes eu tenho a impressão de que nem a galera da Oxford sabia que essa palavra seria TÃO precisa em 2016. Eles não podiam imaginar que os EUA elegeriam um cara que prometeu construir um muro ao redor do país. Eles não podiam imaginar que um grupo de políticos corruptos conseguiriam tirar uma presidente inocente do poder – COM O APOIO PÚBLICO – simplesmente para continuar roubando. Eles não podiam imaginar que o Reino Unido retrocederia uns 200 anos se retirando da União Européia. Eles não poderiam imaginar que os protestos ocorridos em 2011 culminariam numa guerra civil sangrenta com tudo pra se tornar uma guerra mundial. Eles não poderiam imaginar a quantidade de coisas absolutamente absurdas que aconteceriam em 2016, movidas exclusivamente pelas impressões pessoais e pelo descaso com a realidade de uma galera que simplesmente não se importa com a verdade.

2016 foi o ano do impossível. Em 2015, se nos contassem o que aconteceria em 2016, teríamos considerado impossível. Um golpe? Trump? Nunca!

2016 foi o ano do costume. Bateram, bateram, bateram. Bateram tanto que nos acostumamos. Todos os dias acordamos ansiosos por ligar os celulares e descobrirmos qual desgraça acometera o planeta enquanto dormíamos. Ansiosos por saber a que novo ponto do poço chegaria nossa República, nossa humanidade, nossos conhecidos.

2016 foi o ano das Mortes Midiáticas. Parece que até então a mídia não havia notado o quão lucrativa é a morte. Talvez até notasse, mas acreditasse que se restringia às mortes trágicas ou de grandes ícones. Em 2016, qualquer morte era A morte. Todo dia havia uma nova morte, como se o ato de morrer tivesse sido inaugurado mês passado. Era aquele-ator-com-nome-esquisito-da-novela, era aquele-cantor-que-ninguém-ouvia, era a mãe-daquela-atriz-que-só-teve-um-papel. Todo dia algum fulano morria e lá estava a mídia para fazer parecer uma grande coisa, e lá estava o povo, a massa de manobra que batia palmas efusivas engolindo pílulas de emoção barata.

2016 foi o ano da pasteurização das emoções. Foi tanta raiva, tanto ódio, tanta propagação de mal gratuitamente, que nos tornamos praticamente imunes a eles. Uma nova desgraça pipoca em nosso feed e já pensamos: mais uma? O que foi dessa vez? Ah, só um morto? Ah, foi longe daqui?

Em 2016 nos impuseram tudo. Impuseram-nos a morte, a emoção e a lição. Pois até como sentir queriam nos ensinar no Facebook. Aprendemos a administrar nossas emoções, pois esse ano nos instigou tantas que faltava coração para senti-las. O avião da Chapecoense nos entristeceu, mas porra, uma semana depois caiu outro avião? Ah, esse aí vamos ignorar por que o da Chapecoense já preencheu a cota de tristeza. Aprendemos que devemos ficar tristes com massacres, mas só se forem de pessoas da nossa religião. Lá em Aleppo, por exemplo, não parece importar – é longe pra caralho e ainda são tudo terrorista, né.

2016 foi o ano do tom professoral entoado por ignorantes. Nunca antes os imbecis falaram com tanta veemência tantos absurdos. E 2016 também nos iluminou a vista para vermos que não eram apenas os “coxinhas” de direita o problema. Mostrou-nos que a esquerda é tão ou mais deprimente, simbolizada por meia dúzia de sindicalistas ultrapassados e adolescentes de sexualidades instáveis procurando alguma certeza em xingamentos e ódio gratuito. Como se já não existisse ódio o suficiente no mundo, 2016 foi o ano em que a galera se uniu exclusivamente para criar novas formas de professar o ódio.

2016 foi o ano da volta do linchamento. Claro, voltou, mas voltou diferente. Agora está travestido de luta social. Agora, meia dúzia de adolescente imbecil xingando uma pessoa por uma palavra mal colocada ou uma piada mal feita é movimento social. Estão pregando a igualdade e o amor – mas utilizando o ódio e a diferença.

Na real, 2016 foi o ano do desentendimento. Acredito que muitas das questões sociais que ebuliram nesse ano foram resultado do simples fato de que uma minoria entendeu Foucault enquanto a maioria achou que Foucault era Fuck You e se irritou. Uma minoria entendeu que a dominação se dá através do discurso. Entendeu que chamar o “pivete” de “pivete” era uma forma pejorativa de se lidar com um menino que é vítima da sociedade. Entendeu que uma piada pode representar muito mais do que uma simples piada.

O problema é que entenderam isso em um momento de tanto ódio que não tiveram paciência de explicar pra quem tava achando que Foucault era Fuck You. E aí, de um dia pro outro, decidiram ressignificar a palavra Assédio, por exemplo. E daí que tem uma parcela gigante da população que acha que Assédio é sinônimo estupro, enquanto tem uma minoria raivosa que acha que Assédio é qualquer tipo de invasão. E nesse desencontro de termos banhado a tanto ódio, intolerância e sangue, 2016 se sucedeu em meio ao completo e absoluto caos.

2016 pode ser resumido por uma palavra:

Desgosto.

Isso tudo, é claro, em âmbito social. No campo individual eu me dei bem pra caralho.

2016 foi o ano em que eu mais fiz sexo. Nos primeiros dois meses eu fiz sexo com mais gente do que em todo o resto da minha vida. Quando comecei a namorar, então, realizei o sonho de todo adolescente: fazer sexo periodicamente com uma mina absurdamente linda. Essa mina, aliás, se tornou minha namorada. Não só uma namorada. “A” namorada. Quem teve tantos encontros, crushs e peguetes quanto eu sabe como ninguém valorizar uma namorada que é fechamento. Que te entende e te ama verdadeiramente. Que te faz companhia e não está ocupada demais te envolvendo em problemas que só existem na cabeça dela. Que não está ocupada demais descobrindo qual o último sentimento que a internet inventou de transformar em doença psicológica. Que não está ocupada demais procurando um meme pra te responder de forma engraçadinha e vazia simplesmente por que não tem conteúdo pra te responder de forma interessante. Que não está ocupada demais pensando ciclicamente acerca de situações furtivas e esquece de desenvolver um mínimo de profundidade em qualquer assunto que seja. Que não está ocupada demais fingindo não se importar, fingindo ser fria e desapegada pra provar pra si mesma que merece atenção. Em suma, 2016 foi o ano que eu parei de lidar com meninas que tinham a maturidade emocional de uma criança simplesmente por que eu queria beijá-las. E, meus caros, vocês não sabem como isso é bom.

2016 foi o ano em que eu comecei a me sentir mal por estar desempregado. Comecei a trabalhar numa empresa em 2014 e permaneci nela até em abril de 2016. Um bico aqui e ali, uma empreitada aqui, uma iniciativa ali, mas no duro, no duro, fiquei desempregado de abril até dezembro. Namorando, com uma grana guardada e com a faculdade praticamente concluída, aproveitei estes meses como se fossem um prato de comida na frente de um homem faminto.

2016 foi o ano que todos os problemas familiares se resolveram. Meu pai se aposentou e pode dar mais atenção à minha mãe. Meu irmão trabalhou feito um corno mas pôde dar à mulher dele o conforto e alegria que sempre sonharam. Meus avós são felizes, saudáveis e divertidos.

Em 2016 eu passei mais tempo na praia do que trabalhando. Passei mais tempo no bar do que estudando. Passei mais tempo feliz do que reclamando. E passei mais tempo no ônibus do que isso tudo junto.

2016 foi bom pra caralho. E foi horroroso. Foi tão demorado que deu tempo de ser tudo.

Mas calma, calma. Hoje ainda é dia 30. Até amanhã deve morrer mais alguém. E, se bobear, dá tempo até da galera postar textão dizendo como você deve se sentir.

Clubismo e prejuízo

Pensei em começar dizendo “o brasileiro é engraçado”. Mas logo me corrigi, pois se tem algo que aprendi bem na faculdade de comunicação é que não existe “o brasileiro”. Não existe, uma vez que dentro do Brasil há uma infinidade de diferenças e pormenores que tornam praticamente impossível uma generalização tamanha. O que existe, e pelo menos a mim parece ser mais comum dizer-se, é uma comparação da ideia de “brasileiro” à classe média de algumas regiões de maior poder aquisitivo do país. Então não é possível dizer que o brasileiro é engraçado. A classe média do Rio-São Paulo é engraçada.

Mas, com o uso da licença poética, e usando o jargão do povo, comecemos sem parecer um jovem babaca universitário:

O brasileiro é engraçado. No que diz respeito ao futebol, principalmente. Esse é um texto sobre futebol. Mas também sobre a capacidade do ser humano de ser consciente e voluntariamente irracional.

Torcer para futebol é um exercício. Como beber cerveja, não é de primeira. Precisa haver a conjunção cósmica correta, o alinhamento entre o momento, o sentimento e a ocasião. O sentimento de apego a um clube não nasce espontaneamente. Às vezes vem da família, com os pais no estádio, ou dos amigos, no bar. Às vezes, como para mim, apenas uma empolgação com o fato de o meu time estar bem logo após uma eletrizante Copa do Mundo de 2010.

Grande parte das pessoas parece não entender isso. É comum conhecer quem não goste de futebol. Quem assista apenas por alto também. Quem só se informe de resultados e polêmicas, das quais o futebol é um gerador infinito e por isso tão explorado em tablóides. E não há problema algum nisso. O problema está no fato de que o brasileiro – e mais uma vez me refiro àquele personagem representado por uma classe média invariavelmente estúpida – gosta de se posicionar a respeito do que ocorre nos times, seleções e vestiários, e é aí que você conhece as mais estapafúrdias linhas de raciocínio, comparadas apenas talvez a de evangélicos explicando suas convicções.

(Neste momento, um paradoxo: sou exatamente o que acabo de criticar – brasileiro, classe média, invariavelmente irracional, provavelmente recorrendo a generalizações infundadas, e me achando diferentão, com a única e exclusiva diferença de que eu sou um pouquinho diferentão mesmo.)

A única coisa que importa a este personagem médio Brasileiro é o resultado. Os chamados analistas de resultados. A partir do resultado do jogo, formam-se as opiniões. Teoricamente faz sentido, mas na prática é outra coisa. Resultados, muitas vezes, não representam os acontecimentos, principalmente no futebol. As bolas vadias, as zebras, a presença definitiva e absoluta do acaso, do imponderável. Este pensamento pode ser assim resumido:

Se o time joga bem, mas perde, está ruim. Se o time joga mal, mas ganha, tudo bem.
Como deveria ser:
Se o time joga bem, mas perde, é chato, mas beleza. Se o time joga mal, mas ganha, tem que cobrar.

Essa é a merda. Por que não se valoriza as boas intenções e boas atuações. Valoriza-se o resultado. Sendo que o resultado negativo sempre vem – às vezes se ganha, às vezes se perde. E, quando se perde, a ignorância e o pensamento rápido nos leva a desprezar o bom trabalho, a mudar de direção sem necessidade, a demitir profissionais competentes.

Isso se estende à outra questão. A lógica clubista possui a sua própria forma de pensar a “justiça” e o “prejuízo”, mostrando que no futebol o brasileiro demonstra mais a sua ética e postura do que se ele mesmo a explicasse. Pode-se resumir mais ou menos assim:

Se o árbitro erra contra você, está ruim. Se erra a seu favor, finja que não viu.
Como deveria ser:
Se o árbitro erra está ruim.

Se um time que eu não gosto é prejudicado, em qualquer situação que seja, eu gosto.
Como deveria ser:
Se um time é prejudicado injustamente, eu não gosto. 

Esses são os três principais circuitos de pensamento que fazem do pensamento brasileiro acerca de futebol uma desgraça. E esta praga, se afetasse apenas às mais baixas camadas da população, não seria de todo ruim. A população, o povão, “o brasileiro”, é realmente desgraçado. É ignorante, burro, incoerente.

O problema é, da mesma forma que acontece com a política, a imprensa também tomar partido. A imprensa é torcedora, é clubista. Chama o Fluminense de Flu e o Flamengo de Mengão. E aí, esses três raciocínios tortos e deficitários, são propagados em rede nacional por praticamente todos os veículos e comunicadores.

É angustiante.

Por que eu tenho minha ideologia. E tenho o meu time.

O povão tem outra ideologia. A grande mídia tem outra ideologia.

É a mesma.

O povão tem outro time. A grande mídia tem outro time.

É o mesmo.

Talvez por isso estejamos igualmente afundados tanto na política quanto no futebol.

A vida está perfeita vírgula

Às vezes a vida é boa. Na maioria das vezes, na real. Só nos falta saber interpretar assim. Às vezes ela só é ruim mesmo. Mas, na maioria das vezes, é boa. Agora, espetacular é coisa rara. Perfeita, jamais.

A vida está perfeita, mas.

Ontem meus pais decidiram viajar. Meus pais nunca viajam. Minha mãe só passa mais de 24 horas fora de casa quando ela se muda. Ela não dorme fora, não viaja, não sai de noite, não faz nada que leve muito tempo fora de casa. Minha mãe às vezes é como um móvel da casa, está sempre ali.

Ontem decidiu viajar. Meu pai ficou desempregado essa semana então estamos cortando uns custos. Mas, poxa. Os últimos 18 anos ele esteve incessantemente escravizado pela capital. Está desempregado, mas está feliz. Foram viajar. Passar dois dias ali em Cachoreira Paulista, há duas horas de casa. Se pudesse, voltavam no mesmo dia, pra não passar muito tempo fora de casa, senão minha mãe pode ter uma síncope, essas coisas. Mas meu pai já não tem mais idade para dirigir de madrugada, então decidiram passar a noite por lá mesmo.

E aí, pela primeira vez em sei lá quantos anos, eu tive 24 horas com a casa livre pra mim. E, pela primeira na vida, a casa estava livre e eu tenho uma namorada.

Foi perfeito.

Sim, plenamente. Sem tirar nem por. Acordamos, tomamos café na varanda, fumamos um beck. Fizemos um almoço maravilhoso. Cebola empanada com molho agridoce e linguiça. Comemos tanto, mas tanto, que caímos no chão da sala e ficamos por ali mesmo. Tiramos uma soneca abraçadinhos. Lavamos a louça, consertamos a cama, limpamos o quarto, pintamos o meu cabelo de loiro e fizemos minha barba. Entre uma atividade e outra fazíamos sexo e brincávamos com minha cachorrinha, que nos acompanhou o tempo todo, além de darmos um dois aqui e ali. Assistimos ao melhor jogo de futebol do ano tomando cerveja, com um Fluminense surpreendente e arrasador metendo 4×2 no vice-líder do campeonato. No quarto gol, pulei pela casa gritando de alegria. Joguei minha roupa longe. Bati na parede e no sofá. Êxtase. Estávamos tão ocupados vivendo que nem notamos já ser hora da janta. Fizemos babata inglesa, com uma batata do tamanho da minha cabeça, queijo, calabresa e maionese. Arrastamos nossas enormes barrigas até o quarto e assistimos Breaking Bad agarradinhos até cairmos no sono.

A gente tinha que acordar 6 horas da manhã, mas quem disse que acordamos. Foi só às 11h que primeiro levantei as pálpebras e sussurrei baixinho “Jujuba, tá na hora”. E um novo dia começava, ainda sem meus pais. Que maravilha a liberdade! Tomamos café e beck e almoço e gozamos de tudo que a vida nos propunha naquele instante. E aí fomos na praia. Que dia maravilhoso para se ir à praia. Só notamos o quanto de calor fazia quando vimos um termômetro na rua apontar 39ºC. Já estávamos quase no Leme.

E aí, meus amigos. É tibum na água. Geladinha, cheia de ondinhas, perfeita. Minha jujuba é a coisa mais linda embaixo d’água. Ela e seu 1,45m, seus dois quilos de bochecha boiando, suas perninhas fininhas dando bananeira e sua franja de indiazinha. A praia já não é mais praia sem ela ali.

Deitado na areia, fiquei pensando com ela.

Estou desempregado. Mas estou mais feliz do que nunca.

Mas emprego traz liberdade, ela argumentou.

Traz? Estamos na praia numa terça-feira. Nos divertimos o dia inteiro por apenas 7 reais da passagem. Empregados estaríamos num escritório maldizendo a vida, estressados, suados, irritados. Brigaríamos com os outros e entre nós. Seríamos explorados, acordaríamos cedo, pegaríamos engarrafamento, ônibus lotado. Que liberdade é essa? A liberdade, eu disse, é uma ilusão. Estamos sempre expostos a imposições superiores. Leis da natureza, leis da sociedade, leis do nosso chefe, leis da nossa vizinhança, leis da nossa casa. A liberdade não existe. A liberdade não existe. A. Liberdade. Não. Existe. É tudo uma questão de negociação. Tudo. Cada dia, cada diálogo, cada relação. É tudo negociação. Por que a liberdade é um ideal que devemos nos pautar, não uma realidade. Não um emprego. Não um carro. Uma casa. Estar solteiro.

Liberdade é acordar a hora que quer, com a pessoa que você quer. Comer o que você quer. Fazer o que você quer. Por que você pode. E amanhã não vai poder. Por que vai ter um emprego, já que o emprego nos traz conforto, e nós queremos conforto, não liberdade. Nós aceitamos ser escravizados pelo conforto, não pela liberdade. Então quando estar desempregado me tirar meu conforto, aí sim vou querer um emprego.

Hoje, agradeço ao destino – que tantas vezes maldizemos, mas jamais endereçamos gracejos – pelas 48h maravilhosas de liberdade que me deu. Pela vida maravilhosa que me deu. Pela namorada. Pelos pais. Pela casa. Comida. Inteligência, saúde. Time. Segurança. Conforto. Por tudo que o destino, numa conjuntura improvável e infinita de acasos, me deu de mãos beijadas no dia de hoje.

Obrigado, universo.

O dia de hoje foi perfeito, mas
não foi eterno.

mais uma vez me irrita a mediocridade e comodismo dos outros

Ontem eu voltei às aulas pela última vez e já me estressei. Não última, última, por que eu ainda farei muitas aulas nesta vida, mas foi a última vez na faculdade. Era, inclusive, a matéria da qual sairá o meu projeto de TCC.

O professor ensinava as diretrizes de um TCC. O que pensar, como discernir as coisas, dividir os pensamentos, metodologia, preparação, etc, e eis que avisa – vocês precisarão ler um, e apenas um, texto. Tem algumas páginas e é em inglês.

Nisso, uma aluna do oitavo período de publicidade e marketing da UFRJ, levanta a mão e reclama – professor, e quem não sabe inglês?

O cara ficou espantado. Sério isso, filha?, deve ter pensado. “Galera, saber inglês é precedente fundamental para se formar em comunicação”, respondeu com uma paciência rara em professores de faculdade. Só com essa frase, e a despeito da paciência do cara, a mina já se estressou. Universitário adora se estressar com professor, né. É a chama combativa da juventude. E então começa o discurso vitimista “ah professor você não pode cobrar isso nunca me cobraram isso o governo não me deu condições de fazer um curso e eu não tenho dinheiro para pagar um então você não pode me cobrar que eu saiba se o governo nunca me deu essa possibilidade TÁ”.

Neste ponto, o professor diferiu de mim. Eu teria dito:

“Quem aqui fala inglês?”, quando a esmagadora maioria levantasse a mão, perguntaria – “eu devo adaptar meu trabalho para você ou você que deve se adaptar ao nível de cobrança do ambiente em que está?”

É um tema difícil de se abordar por que é muito tênue a linha entre a falta de oportunidade e o conformismo. Mas uma pessoa que se pretende formar pela maior faculdade do país precisa no mínimo falar inglês, não? “Eu não tive condição de pagar um curso”, então você não tem condição de estar aqui. Desculpe, mas as coisas são como são, por mais injustas e cruéis que sejam. Você não tem condição de se tornar uma comunicadora e influenciadora se não consegue sequer se informar por uma mídia gringa. Você não tem condição de fazer um trabalho relevante o suficiente para fazer jus à sua faculdade, se não consegue ler nem escrever literatura acadêmica de relevância, pois para ser relevante precisa ser em inglês. Você não precisa SER relevante. Mas precisa estar apta a sê-lo. E você não o é.

As pessoas adeptas desse discurso de “se o governo não me deu oportunidade, você não pode me cobrar” só serve para justificar a preguiça dessas pessoas.

Que aqui seja feito um adendo – o título de preguiça não se refere a todos. É evidente que um jovem mal alimentado, cujos pais trabalham exaustivamente, cuja casa é alvo de tiroteios e drogados, cuja escola é fraca e falha, cujos amigos são de má formação, deste jovem não podemos cobrar o inglês. Mas este jovem também não estará pleiteando um diploma na ufrj. É cruel, mas é fato. A menina estava. Ela teve condições. O governo já a carregou pela mão até ali. E ela não conseguiu entregar-lhe nada além do ESTRITAMENTE MÍNIMO.

O sistema não mudará por que você foi prejudicado por ele. O sistema não vai mudar para te abraçar. Todos ali sabem um conteúdo. Se você não sabe, o deficiente é você, e isso é um problema exclusivamente seu. Não importam seus motivos. Todo mundo tem motivo. Fosse uma entrevista de emprego, você seria automaticamente excluída. Fosse um professor mais rígido, você tomaria um fora e seria ignorada.

É a mesma ideia do cara que contrata estagiário. Se o contratante exige inglês, adobe, Office, experiência, portfólio, é por que sempre tem gente que tem isso tudo! Pra que ele vai contratar um indivíduo que não sabe nada, podendo contratar um que sabe pra caralho? Você faria o mesmo. Se o mercado está difícil, VOCÊ deve ter o diferencial. Gente com o básico tá sobrando por aí. Não é o estágio que deve te contratar enquanto você ainda é INCOMPETENTE e te dar toda a formação para você.

A menina monoglota, ao invés de reclamar de não saber inglês, podia ter feito uma série de coisas – não só cursos particulares, que apesar de caros, oferecem bolsas acessíveis, mas cursos em comunidades, que se ela tão pobre fosse certamente conheceria algum, ou fazer jus ao fato de ser a primeira geração a ter acesso a internet e APRENDER SOZINHA. Se o mundo não te dá nada, TE VIRA SOZINHA! Ninguém vai se virar por você. Um professor te amolece aqui e ali, mas o teu chefe não o fará amanhã. Há páginas na internet, cursos completos no youtube, aulas particulares online, aplicativos como o duolingo, além de, meu deus, a PRÓPRIA UFRJ OFERECER CURSOS GRATUITOS DE LÍNGUAS!

Enfim, o professor, demonstrando uma calma que em mim é escassa, mudou o trabalho da turma inteira por uma retardatária. E houve quem desse razão.

Por que as regras devem ser feitas mesmo pela exceção. E o grupo inteiro deve se atrasar pelo retardatário.

É assim mesmo que as coisas funcionam fora da faculdade.

As pessoas são preguiçosas. Acomodadas. Se gastassem metade do tempo que passam reclamando, estudando, seus problemas seriam resolvidos. Mas continue esperando que o sistema e o Estado mudem o jogo para você, ô café-com-leite. Amanhã você se comprazerá com um emprego meia-boca que lhe caiu do céu, enquanto eu alçarei, se tudo der certo, vôos bem mais altos com meu próprio impulso. Pois, se para aprender inglês precisei de curso, espanhol e italiano aprendi sozinho.

“O Estado não é teu pai,
Deus não te deve nada”