Clubismo e prejuízo

Pensei em começar dizendo “o brasileiro é engraçado”. Mas logo me corrigi, pois se tem algo que aprendi bem na faculdade de comunicação é que não existe “o brasileiro”. Não existe, uma vez que dentro do Brasil há uma infinidade de diferenças e pormenores que tornam praticamente impossível uma generalização tamanha. O que existe, e pelo menos a mim parece ser mais comum dizer-se, é uma comparação da ideia de “brasileiro” à classe média de algumas regiões de maior poder aquisitivo do país. Então não é possível dizer que o brasileiro é engraçado. A classe média do Rio-São Paulo é engraçada.

Mas, com o uso da licença poética, e usando o jargão do povo, comecemos sem parecer um jovem babaca universitário:

O brasileiro é engraçado. No que diz respeito ao futebol, principalmente. Esse é um texto sobre futebol. Mas também sobre a capacidade do ser humano de ser consciente e voluntariamente irracional.

Torcer para futebol é um exercício. Como beber cerveja, não é de primeira. Precisa haver a conjunção cósmica correta, o alinhamento entre o momento, o sentimento e a ocasião. O sentimento de apego a um clube não nasce espontaneamente. Às vezes vem da família, com os pais no estádio, ou dos amigos, no bar. Às vezes, como para mim, apenas uma empolgação com o fato de o meu time estar bem logo após uma eletrizante Copa do Mundo de 2010.

Grande parte das pessoas parece não entender isso. É comum conhecer quem não goste de futebol. Quem assista apenas por alto também. Quem só se informe de resultados e polêmicas, das quais o futebol é um gerador infinito e por isso tão explorado em tablóides. E não há problema algum nisso. O problema está no fato de que o brasileiro – e mais uma vez me refiro àquele personagem representado por uma classe média invariavelmente estúpida – gosta de se posicionar a respeito do que ocorre nos times, seleções e vestiários, e é aí que você conhece as mais estapafúrdias linhas de raciocínio, comparadas apenas talvez a de evangélicos explicando suas convicções.

(Neste momento, um paradoxo: sou exatamente o que acabo de criticar – brasileiro, classe média, invariavelmente irracional, provavelmente recorrendo a generalizações infundadas, e me achando diferentão, com a única e exclusiva diferença de que eu sou um pouquinho diferentão mesmo.)

A única coisa que importa a este personagem médio Brasileiro é o resultado. Os chamados analistas de resultados. A partir do resultado do jogo, formam-se as opiniões. Teoricamente faz sentido, mas na prática é outra coisa. Resultados, muitas vezes, não representam os acontecimentos, principalmente no futebol. As bolas vadias, as zebras, a presença definitiva e absoluta do acaso, do imponderável. Este pensamento pode ser assim resumido:

Se o time joga bem, mas perde, está ruim. Se o time joga mal, mas ganha, tudo bem.
Como deveria ser:
Se o time joga bem, mas perde, é chato, mas beleza. Se o time joga mal, mas ganha, tem que cobrar.

Essa é a merda. Por que não se valoriza as boas intenções e boas atuações. Valoriza-se o resultado. Sendo que o resultado negativo sempre vem – às vezes se ganha, às vezes se perde. E, quando se perde, a ignorância e o pensamento rápido nos leva a desprezar o bom trabalho, a mudar de direção sem necessidade, a demitir profissionais competentes.

Isso se estende à outra questão. A lógica clubista possui a sua própria forma de pensar a “justiça” e o “prejuízo”, mostrando que no futebol o brasileiro demonstra mais a sua ética e postura do que se ele mesmo a explicasse. Pode-se resumir mais ou menos assim:

Se o árbitro erra contra você, está ruim. Se erra a seu favor, finja que não viu.
Como deveria ser:
Se o árbitro erra está ruim.

Se um time que eu não gosto é prejudicado, em qualquer situação que seja, eu gosto.
Como deveria ser:
Se um time é prejudicado injustamente, eu não gosto. 

Esses são os três principais circuitos de pensamento que fazem do pensamento brasileiro acerca de futebol uma desgraça. E esta praga, se afetasse apenas às mais baixas camadas da população, não seria de todo ruim. A população, o povão, “o brasileiro”, é realmente desgraçado. É ignorante, burro, incoerente.

O problema é, da mesma forma que acontece com a política, a imprensa também tomar partido. A imprensa é torcedora, é clubista. Chama o Fluminense de Flu e o Flamengo de Mengão. E aí, esses três raciocínios tortos e deficitários, são propagados em rede nacional por praticamente todos os veículos e comunicadores.

É angustiante.

Por que eu tenho minha ideologia. E tenho o meu time.

O povão tem outra ideologia. A grande mídia tem outra ideologia.

É a mesma.

O povão tem outro time. A grande mídia tem outro time.

É o mesmo.

Talvez por isso estejamos igualmente afundados tanto na política quanto no futebol.

A vida está perfeita vírgula

Às vezes a vida é boa. Na maioria das vezes, na real. Só nos falta saber interpretar assim. Às vezes ela só é ruim mesmo. Mas, na maioria das vezes, é boa. Agora, espetacular é coisa rara. Perfeita, jamais.

A vida está perfeita, mas.

Ontem meus pais decidiram viajar. Meus pais nunca viajam. Minha mãe só passa mais de 24 horas fora de casa quando ela se muda. Ela não dorme fora, não viaja, não sai de noite, não faz nada que leve muito tempo fora de casa. Minha mãe às vezes é como um móvel da casa, está sempre ali.

Ontem decidiu viajar. Meu pai ficou desempregado essa semana então estamos cortando uns custos. Mas, poxa. Os últimos 18 anos ele esteve incessantemente escravizado pela capital. Está desempregado, mas está feliz. Foram viajar. Passar dois dias ali em Cachoreira Paulista, há duas horas de casa. Se pudesse, voltavam no mesmo dia, pra não passar muito tempo fora de casa, senão minha mãe pode ter uma síncope, essas coisas. Mas meu pai já não tem mais idade para dirigir de madrugada, então decidiram passar a noite por lá mesmo.

E aí, pela primeira vez em sei lá quantos anos, eu tive 24 horas com a casa livre pra mim. E, pela primeira na vida, a casa estava livre e eu tenho uma namorada.

Foi perfeito.

Sim, plenamente. Sem tirar nem por. Acordamos, tomamos café na varanda, fumamos um beck. Fizemos um almoço maravilhoso. Cebola empanada com molho agridoce e linguiça. Comemos tanto, mas tanto, que caímos no chão da sala e ficamos por ali mesmo. Tiramos uma soneca abraçadinhos. Lavamos a louça, consertamos a cama, limpamos o quarto, pintamos o meu cabelo de loiro e fizemos minha barba. Entre uma atividade e outra fazíamos sexo e brincávamos com minha cachorrinha, que nos acompanhou o tempo todo, além de darmos um dois aqui e ali. Assistimos ao melhor jogo de futebol do ano tomando cerveja, com um Fluminense surpreendente e arrasador metendo 4×2 no vice-líder do campeonato. No quarto gol, pulei pela casa gritando de alegria. Joguei minha roupa longe. Bati na parede e no sofá. Êxtase. Estávamos tão ocupados vivendo que nem notamos já ser hora da janta. Fizemos babata inglesa, com uma batata do tamanho da minha cabeça, queijo, calabresa e maionese. Arrastamos nossas enormes barrigas até o quarto e assistimos Breaking Bad agarradinhos até cairmos no sono.

A gente tinha que acordar 6 horas da manhã, mas quem disse que acordamos. Foi só às 11h que primeiro levantei as pálpebras e sussurrei baixinho “Jujuba, tá na hora”. E um novo dia começava, ainda sem meus pais. Que maravilha a liberdade! Tomamos café e beck e almoço e gozamos de tudo que a vida nos propunha naquele instante. E aí fomos na praia. Que dia maravilhoso para se ir à praia. Só notamos o quanto de calor fazia quando vimos um termômetro na rua apontar 39ºC. Já estávamos quase no Leme.

E aí, meus amigos. É tibum na água. Geladinha, cheia de ondinhas, perfeita. Minha jujuba é a coisa mais linda embaixo d’água. Ela e seu 1,45m, seus dois quilos de bochecha boiando, suas perninhas fininhas dando bananeira e sua franja de indiazinha. A praia já não é mais praia sem ela ali.

Deitado na areia, fiquei pensando com ela.

Estou desempregado. Mas estou mais feliz do que nunca.

Mas emprego traz liberdade, ela argumentou.

Traz? Estamos na praia numa terça-feira. Nos divertimos o dia inteiro por apenas 7 reais da passagem. Empregados estaríamos num escritório maldizendo a vida, estressados, suados, irritados. Brigaríamos com os outros e entre nós. Seríamos explorados, acordaríamos cedo, pegaríamos engarrafamento, ônibus lotado. Que liberdade é essa? A liberdade, eu disse, é uma ilusão. Estamos sempre expostos a imposições superiores. Leis da natureza, leis da sociedade, leis do nosso chefe, leis da nossa vizinhança, leis da nossa casa. A liberdade não existe. A liberdade não existe. A. Liberdade. Não. Existe. É tudo uma questão de negociação. Tudo. Cada dia, cada diálogo, cada relação. É tudo negociação. Por que a liberdade é um ideal que devemos nos pautar, não uma realidade. Não um emprego. Não um carro. Uma casa. Estar solteiro.

Liberdade é acordar a hora que quer, com a pessoa que você quer. Comer o que você quer. Fazer o que você quer. Por que você pode. E amanhã não vai poder. Por que vai ter um emprego, já que o emprego nos traz conforto, e nós queremos conforto, não liberdade. Nós aceitamos ser escravizados pelo conforto, não pela liberdade. Então quando estar desempregado me tirar meu conforto, aí sim vou querer um emprego.

Hoje, agradeço ao destino – que tantas vezes maldizemos, mas jamais endereçamos gracejos – pelas 48h maravilhosas de liberdade que me deu. Pela vida maravilhosa que me deu. Pela namorada. Pelos pais. Pela casa. Comida. Inteligência, saúde. Time. Segurança. Conforto. Por tudo que o destino, numa conjuntura improvável e infinita de acasos, me deu de mãos beijadas no dia de hoje.

Obrigado, universo.

O dia de hoje foi perfeito, mas
não foi eterno.

mais uma vez me irrita a mediocridade e comodismo dos outros

Ontem eu voltei às aulas pela última vez e já me estressei. Não última, última, por que eu ainda farei muitas aulas nesta vida, mas foi a última vez na faculdade. Era, inclusive, a matéria da qual sairá o meu projeto de TCC.

O professor ensinava as diretrizes de um TCC. O que pensar, como discernir as coisas, dividir os pensamentos, metodologia, preparação, etc, e eis que avisa – vocês precisarão ler um, e apenas um, texto. Tem algumas páginas e é em inglês.

Nisso, uma aluna do oitavo período de publicidade e marketing da UFRJ, levanta a mão e reclama – professor, e quem não sabe inglês?

O cara ficou espantado. Sério isso, filha?, deve ter pensado. “Galera, saber inglês é precedente fundamental para se formar em comunicação”, respondeu com uma paciência rara em professores de faculdade. Só com essa frase, e a despeito da paciência do cara, a mina já se estressou. Universitário adora se estressar com professor, né. É a chama combativa da juventude. E então começa o discurso vitimista “ah professor você não pode cobrar isso nunca me cobraram isso o governo não me deu condições de fazer um curso e eu não tenho dinheiro para pagar um então você não pode me cobrar que eu saiba se o governo nunca me deu essa possibilidade TÁ”.

Neste ponto, o professor diferiu de mim. Eu teria dito:

“Quem aqui fala inglês?”, quando a esmagadora maioria levantasse a mão, perguntaria – “eu devo adaptar meu trabalho para você ou você que deve se adaptar ao nível de cobrança do ambiente em que está?”

É um tema difícil de se abordar por que é muito tênue a linha entre a falta de oportunidade e o conformismo. Mas uma pessoa que se pretende formar pela maior faculdade do país precisa no mínimo falar inglês, não? “Eu não tive condição de pagar um curso”, então você não tem condição de estar aqui. Desculpe, mas as coisas são como são, por mais injustas e cruéis que sejam. Você não tem condição de se tornar uma comunicadora e influenciadora se não consegue sequer se informar por uma mídia gringa. Você não tem condição de fazer um trabalho relevante o suficiente para fazer jus à sua faculdade, se não consegue ler nem escrever literatura acadêmica de relevância, pois para ser relevante precisa ser em inglês. Você não precisa SER relevante. Mas precisa estar apta a sê-lo. E você não o é.

As pessoas adeptas desse discurso de “se o governo não me deu oportunidade, você não pode me cobrar” só serve para justificar a preguiça dessas pessoas.

Que aqui seja feito um adendo – o título de preguiça não se refere a todos. É evidente que um jovem mal alimentado, cujos pais trabalham exaustivamente, cuja casa é alvo de tiroteios e drogados, cuja escola é fraca e falha, cujos amigos são de má formação, deste jovem não podemos cobrar o inglês. Mas este jovem também não estará pleiteando um diploma na ufrj. É cruel, mas é fato. A menina estava. Ela teve condições. O governo já a carregou pela mão até ali. E ela não conseguiu entregar-lhe nada além do ESTRITAMENTE MÍNIMO.

O sistema não mudará por que você foi prejudicado por ele. O sistema não vai mudar para te abraçar. Todos ali sabem um conteúdo. Se você não sabe, o deficiente é você, e isso é um problema exclusivamente seu. Não importam seus motivos. Todo mundo tem motivo. Fosse uma entrevista de emprego, você seria automaticamente excluída. Fosse um professor mais rígido, você tomaria um fora e seria ignorada.

É a mesma ideia do cara que contrata estagiário. Se o contratante exige inglês, adobe, Office, experiência, portfólio, é por que sempre tem gente que tem isso tudo! Pra que ele vai contratar um indivíduo que não sabe nada, podendo contratar um que sabe pra caralho? Você faria o mesmo. Se o mercado está difícil, VOCÊ deve ter o diferencial. Gente com o básico tá sobrando por aí. Não é o estágio que deve te contratar enquanto você ainda é INCOMPETENTE e te dar toda a formação para você.

A menina monoglota, ao invés de reclamar de não saber inglês, podia ter feito uma série de coisas – não só cursos particulares, que apesar de caros, oferecem bolsas acessíveis, mas cursos em comunidades, que se ela tão pobre fosse certamente conheceria algum, ou fazer jus ao fato de ser a primeira geração a ter acesso a internet e APRENDER SOZINHA. Se o mundo não te dá nada, TE VIRA SOZINHA! Ninguém vai se virar por você. Um professor te amolece aqui e ali, mas o teu chefe não o fará amanhã. Há páginas na internet, cursos completos no youtube, aulas particulares online, aplicativos como o duolingo, além de, meu deus, a PRÓPRIA UFRJ OFERECER CURSOS GRATUITOS DE LÍNGUAS!

Enfim, o professor, demonstrando uma calma que em mim é escassa, mudou o trabalho da turma inteira por uma retardatária. E houve quem desse razão.

Por que as regras devem ser feitas mesmo pela exceção. E o grupo inteiro deve se atrasar pelo retardatário.

É assim mesmo que as coisas funcionam fora da faculdade.

As pessoas são preguiçosas. Acomodadas. Se gastassem metade do tempo que passam reclamando, estudando, seus problemas seriam resolvidos. Mas continue esperando que o sistema e o Estado mudem o jogo para você, ô café-com-leite. Amanhã você se comprazerá com um emprego meia-boca que lhe caiu do céu, enquanto eu alçarei, se tudo der certo, vôos bem mais altos com meu próprio impulso. Pois, se para aprender inglês precisei de curso, espanhol e italiano aprendi sozinho.

“O Estado não é teu pai,
Deus não te deve nada”

o golpe

No colégio, minhas turmas costumavam ter umas 30 pessoas. Ninguém curtia muito história. Uns dormiam, os outros conversavam. Os professores eram sequelados e tornavam as aulas insuportáveis. Eu tinha que estudar sozinho. Todos tínhamos, mas quase ninguém estudava. História se aprende lendo. Mas dava pra passar na interpretação de texto. Dava pra passar fazendo trabalhinho. Dava no chute. E olha que meus colégios sempre foram puxados. Nos mais fracos da região, talvez ninguém soubesse sequer o que houve em 64. Ja não sabiam no meu, caro, particular e puxado.

Hoje, o que me conforta é essa história. Não sei vocês, mas eu estou do lado certo da história. Eu a conheço, a estudei, e sei que estou do lado certo. Os golpistas serão desmascarados nos livros de amanhã. Eu sei disso. Mas este é um conforto que de nada me serve. Pois, na realidade, o Temer é presidente graças a quem jamais deve ter aberto um livro de história sequer.

Vocês, povo golpista, das camisas da cbf, do Fora PT, das vaias nos estádios, do pato gigante, do eleitorado Bolsonaro, vocês são o que há de pior no mundo. Vocês são burros e querem dar opinião. Vocês visam o Eu em detrimento do Nós. Vocês não leem, não se informam, não estudam, não tem empatia. Acreditam na Globo, no Aécio e no Alexandre Frota. Mas duvidam de seus professores, do Chico Buarque e da mídia Internacional. Seus argumentos são infundados e sua retórica é mais rasa que uma poça. Vocês cheiram a merda e impoem seu cheiro ao país inteiro, mantendo esse país a desgraça da qual vocês querem se proteger. E é por isso que pessoas como a Dilma precisam – e vão – continuar surgindo. Por que, se dependesse de vocês, ainda estávamos na idade média.

Parabéns, imbecis,
O Temer é presidente.

2018 tem eleição. (A PRINCÍPIO)
Preparem o próximo golpe, pois serão novamente derrotados.

Derrotados.

DERROTADOS.

13606728_1129162547141955_4654809028161005963_n

 

Nietzsche diz em alemão: es denkt in mir, que significa algo pensa em mim. Perceba que não é ‘eu penso’, e sim algo pensa em mim. Isso é fundamental. Em outras palavras, o que acontece é que você não é senhor do próprio pensamento. O pensamento é uma atividade do seu corpo que transcende o seu controle consciente. Algo pensa em mim… portanto, existe uma força que pensa em mim, e que obviamente escapa à minha decisão, ao meu controle, a minha deliberação, e assim por diante.

Psicodrama

O drama desnuda a alma. Se todos os dias nos escondemos tanto em preocupações efêmeras e máscaras sociais, no drama permitimos a manifestação do verdadeiro estado de nossa alma. Gritamos o que antes fora calado e sentimos pulsar tenras paixões, vivas e desnudas após um longo encobrimento. Conhecemos a nós e aos nossos sentimentos, encontrando aí novos traços do personagem que criamos para o enredo de nossas vidas, e os traçamos com força, em total despeito às censuras e normas sociais. No drama expomos quem somos, nossas ambições e desprezos, nossas falhas e méritos. Sem paixão não há drama, tampouco se sustenta o contrário. São faces da mesma moeda, que gira eternamente sem repousar num lado. Viramos então a arte e o espectador. A construção e a obra. O processo e o resultado. No drama nos reconhecemos como emaranhados de confissões e incertezas, desesperadamente silenciadas, enrolados e embaralhados como nós. Em tempos de corações partidos, qual o seu fio nesta trama?

A Sabedoria da Calma e a Vontade de Mediocridade

O pessoal que entrou na faculdade junto comigo já está preparando seu TCC. Esta situação refuta o pensamento aparentemente plausível de que a idade traz consigo maturidade e inteligência. Vejo nestes jovens, tão apressados e atabalhoados, a recorrência dos mesmos erros daqueles adolescentes espinhentos que, no terceiro ano, tinham pressa para entrar na faculdade. Tanta pressa tinham eles, que entravam em cursos que não queriam, apenas para poder entrar logo em algum curso, e tão logo se apercebiam do erro cometido, saíam de seus cursos, investiam outro ano em pré-vestibular, e aí sim entravam no curso que seus corações mandavam.

No terceiro ano, não passei pro curso que eu queria. Resolvi investir um ano no pré-vest, ano no qual estabeleci metas altíssimas e cobrei de mim mesmo como nunca antes havia feito. Enquanto todos os meus colegas do terceiro ano se adaptavam a cursos quaisquer só para poder dizer aos pais que passaram pra faculdade, eu estava estudando fórmula de Bhaskara e química orgânica. Mais da metade dessas pessoas, após o primeiro ano de faculdade, largaram o curso, e hoje estão no início de seus cursos definitivos, enquanto eu, que tive a calma de estudar por mais tempo, já termino o curso ideal para mim sem maiores erros.

As diferenças do ensino médio para agora são duas. A primeira é que as pessoas são mais velhas, maduras e, teoricamente, inteligentes. Não deveriam recorrer no mesmo erro dos adolescentes recém formados. A segunda é que, na faculdade, estuda-se, teoricamente, coisas de seu agrado. Na faculdade, você escolheu seu curso, você deveria gostar dele e gostar de aprender coisas relativas à ele, pois os conhecimentos nele obtidos se reproduzirão em toda a sua carreira, e quanto mais vastos forem, mais efetiva será a carreira.

Por que, então, as pessoas tem tanta pressa em se formar?

Eu realmente não sei. Estudando na UFRJ, você tem a possibilidade de puxar matérias de todas as grades de todos os cursos. Pode-se aprender línguas no departamento de letras, pode-se praticar esportes com as turmas de educação física, pode-se aprender tudo relacionado a arte, história, filosofia e ciências sem maiores esforços. Basta puxar e comparecer.

Neste cenário, terminar a faculdade em 4 anos é a exemplificação máxima de mediocridade. É ater-se ao mínimo do mínimo, desprezar uma infinidade de conhecimentos por uma pressa infundada. Pois não há privilégio algum em formar-se em 4 anos – apenas perderá a meia-entrada em espetáculos e tornar-se-á “desempregado”.

Eu defini o tema do meu TCC no terceiro período. Desde então recolho materiais para embasá-lo, participo de grupos de pesquisa e faço trabalhos teóricos relacionados a este tema. Tenho material não só para um TCC, como também para o mestrado. Nem por isso me sinto pronto para fazê-lo. Quero fazer algo significativo, não apenas algo que vá me fazer formar, pois isto é fácil; quero algo relevante para o pensamento acadêmico.

Vejo, por outro lado, toda a minha turma do primeiro período puxando a matéria de elaboração de TCC, muitos sem fazer a menor ideia ainda do que abordar (afinal, tivemos apenas 3 anos e meio para pensar nisso), fazendo o trabalho unica e exclusivamente para terminar logo a faculdade. Sem um tema definido, já ouvi dizerem “vou fazer qualquer coisa só pra acabar logo com isso”.

Estou no sétimo período. Já terminei grande parte das matérias obrigatórias. Preciso, efetivamente, comparecer a mais duas matérias e elaborar o TCC. Em paralelo, estou desempregado. Aproveito este cenário para puxar matérias em diversos cursos. Estou aprendendo pintura na Escola de Belas Artes, filosofia no Instituto de Filosofia, psicologia no de Psicologia, e cinema com os alunos de audiovisual. Para que sair da faculdade, se tenho tanto ainda a aprender? Por que as pessoas tem tanta pressa em parar de estudar? Não deveríamos ter já superado essa mentalidade rasa de associar estudo a obrigação?

Por favor, me expliquem.

Que a Vontade de Mediocridade é uma força inerente aos seres humanos comuns eu já entendi. As pessoas tem preguiça de ser qualquer coisa além do mínimo exigido. Mas não deveríamos, ao menos nos nossos 20 e tantos anos, sermos melhores que isso?

10678804_864735863546886_4534028058716116157_n

A Sabedoria da Calma – Aquele que mantém a calma diante de todas as adversidades da vida mostra simplesmente ter conhecimento de quão imensos e múltiplos são os seus possíveis males, motivo pelo qual ele considera o mal presente uma parte muito pequena daquilo que lhe poderia advir: e, inversamente, quem sabe desse facto e reflecte sobre ele nunca perderá a calma.

Schopenhauer