Pierrot le fou

pierrotlefoupinkO último filme maravilhosamente bom que assisti indico a todo ser com olhos deste planeta. Uma das grandes obras de Godard, na realidade nem é tão grandioso assim – sua beleza e genialidade estão nos detalhes, na palheta de cores, nos diálogos despretensiosos. Se chama Pierrot Le Fou, ou “O Demônio das Onze Horas”.

A quem porventura não conheça a obra do Godard, posso explicar do pouco que sei: ele tem filme pra caralho. Você pode encontrar de tudo em sua obra. Por isso, é bom saber no que está se metendo. Pierrot Le Fou é aquele filme de casal forasteiro, bandido, que está constantemente fugindo da lei, e que não consegue sequer confiar um no outro, apesar de amarem-se perdidamente. De um lado, Anna Karina, musa de Godard e sua futura ex-esposa, com o olhar mais expressivo que se verá na história do cinema francês. Do outro, Jean-Paul Belmondo, o mesmo de Acossado, obra-prima de Godard, com seu jeitão cafajeste dos anos 60, roupas sociais largas, cigarro no canto da boca fumado de forma bem charmosa e despojada, cabelo penteado pra trás com costeletas. Você sabe ao que me refiro. Ele, um escritor insatisfeito com sua vida. Ela, uma recém-viúva, que encontra seu marido morto em casa e decide fugir.

Por que eu assisti:
No carnaval decidi que iria prestigiar mais a obra de Godard. Só havia assistido dois filmes e os adorava. Como o carnaval foi bem ruim, acabei aprofundando a pesquisa para toda a Nouvelle Vague. Trouffault é maravilhoso também.

Você devia ver por que:
É bom em todos os aspectos. Bonito, poético, dinâmico, revolucionário, além de ser um clássico do cinema mundial.

Torrent: Aqui
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Créditos: Making Off

Somewhere in Palilula (2012)

Em minhas incursões cinéfilas por filmes de países estranhos, me deparei com uma das melhores obras de arte que meus olhinhos já prestigiaram numa tela. Na Romênia, em 2012, um filme que retrata uma cidadezinha do interior em plena década de 60, ainda sob o domínio da URSS. Meio surrealista, cada personagem da trama possui sua especificidade no contexto geral da cidade de Palilula, um lugar onde “comer é capricho, beber é regra”. Nela chega Serafim, um pediatra mandado pra lá por puro acaso, uma vez que há anos não nascia uma criança. “Quando uma criança nasce, um adulto morre” é a lei de Palilula. Sem função, Serafim precisa se adaptar às excentricidades de uma sociedade que encontra no álcool o escapismo de suas vidas hostis, vazias e melancólicas (adjetivos expressos perfeitamente pela fotografia). E a trilha sonora ainda é uma graça.

Somewhere in Palilula (2012)

Info: Filmow
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Essa cena é tão linda que me dei ao trabalho de tirá-la do filme e upá-la no youtube.
Primeiro material audiovisual powered by ESTÁBULO CORPORATIONS.

Trier

Como um estudante de comunicação – curso que engloba tanto produção audiovisual quanto jornalismo e publicidade – eu tenho diversas oportunidades de fazer trabalhos realmente muito fodas. Um deles foi esse, feito na minha aula de Audiovisual II (que é, basicamente, uma aula de cinema) em que eu poderia escrever 5 laudas sobre qualquer tema que se relacionasse com “a forma de se construir verdade no cinema”. É claro, o conceito de “verdade no cinema” fora o tema das discussões de todo o período, então é possível que não seja 100% compreensível para quem não estudou esse assunto.

Mas é suficientemente compreensível e interessante pra quem gosta de Lars von Trier, então fiquem de boa!

EI-LO:

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A IDEIA DE VERDADE NA OBRA DE LARS VON TRIER

Curso de Graduação em Comunicação Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Escola de Comunicação/ 1º Semestre de 2014

Quando Lars von Trier apresentou ao público a proposta de Ninfomaníaca, ninguém sabia exatamente o que esperar. O diretor, conhecido invariavelmente por transmitir emoções fortes, muitas vezes ligadas a alguma forma de choque, se propunha a tratar de um tema que poderia tender quase a um trabalho antropológico, mas também poderia se postar como apenas uma história repleta de sexo.

O que proponho analisar é a forma como ele transita entre esses termos para, durante as 4 horas de duração da película, utilizar uma forma peculiar de trabalho com a verdade – ou pelo menos tentar. Para tanto, pretendo analisar o movimento artístico que ele fundou, o Dogma 95, e fazer uma breve análise acerca de Dogville, outro filme do diretor.

O DIRETOR

O dinamarquês Lars von Trier tem um histórico de produção cinematográfica que diz muito sobre si: em 1995, foi um dos criadores do movimento chamado “Dogma 95”. A intenção do manifesto era a criação de um cinema mais realista e menos comercial, seguindo 10 regras estabelecidas por Trier e Thomas Vintenberg, e são elas:

  1. As filmagens devem ser feitas no local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).
  2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).
  3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
  4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
  5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.
  6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, Sexo, etc. não podem ocorrer).
  7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).
  8. São inaceitáveis os filmes de gênero.
  9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.
  10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

 

Peter Schepelern, professor de cinema da Universidade de Copenhagen, refletiu sobre o movimento:

“Há mais do que apenas um toque de masoquismo nessa forma de fazer filmes. A tortura ao qual eles se expõem deve ser vista como uma forma de forçar resultados que quebrem os padrões. Os artistas do Dogma se punem das formas mais difíceis, na expectativa de que isso os levará a libertação artística. Enquanto a maioria se adapta ao convencional, e trabalha de acordo com regras já estabelecidas, von Trier força si mesmo a experimentar novas formas de trabalho.”

(Fonte: SCHEPELERN, Peter. The King of Dogme. Danish Film Institute, 2005.)

 

Mesmo sendo um dos idealizadores do manifesto, Trier fez apenas um filme seguindo todas suas diretrizes, Idioterne (1996). Sua produção posterior, no entanto, é claramente influenciada pelos preceitos do Dogma 95 de fazer filmes menos comerciais e mais realistas.

Essa forma de trabalhar com o cinema trouxe ao diretor algumas criações notáveis, como Dançando no Escuro (2000), Dogville (2003) e Melancolia (2011).

DOGVILLE (2003)

Dogville faz parte de uma trilogia – mesmo que só dois tenham sido feitos – de filmes cuja história se passa nos EUA, ainda que nenhuma cena seja lá gravada. O único cenário durante todo o longa é um galpão, com divisórias marcadas no chão por fitas brancas e parcamente iluminado. A história se debruça sobre a chegada de Grace, uma desconhecida, à Dogville, uma pequena vila americana.

Trier usa em Dogville um recurso que repetirá em Ninfomaníaca – por meio de diálogos bem trabalhados, apresenta os personagens com uma certa profundidade e, quando o espectador acredita já conhece-los, Trier o choca, mostrando-os tomar atitudes que demostram um nível de frieza e crueldade até então desconhecido.

O choque se dá, em primeira instância, pela decepção com o personagem. É difícil entender que a idosa gentil ou que a criança bonitinha poderiam ser pessoas tão sádicas. Em segunda instância, choca-se por suscitar o pensamento de quão nefasto pode ser o humano quando este tem poder sobre outro.

O choque é cruel, mas é claro. Alicerça-se na decepção e transmite uma mensagem de repúdio à bíblia e à sociedade americana – ainda que travestida de ocorridos corriqueiros em uma vila.

 

Outro recurso utilizado em Dogville que se repetirá em quase todos os filmes do diretor, incluindo Ninfomaníaca, é a divisão do filme em capítulos. Numa clara tentativa de deixar óbvio que aquilo não se trata de uma história real, o diretor constrói um filme com narrador, prólogo e nove capítulos, todos com título.

Dessa forma, Lars von Trier dirige um filme que o tempo todo reforça ser uma ficção, ambientado em um cenário falso, sob a premissa de ser nos Estados Unidos – mesmo não sendo -, rejeitando ao máximo recursos cinematográficos pré-estabelecidos e ainda assim consegue fazer o espectador se apegar e se decepcionar com todos os personagens, sem excessão. E vai além: consegue fazer o espectador colocar os próprios valores em dúvida.

NINFOMANÍACA (2014)

Rodado em 2012, Nynphomaniac teve quatro lançamentos. Com duração de 5,5 horas, houve o lançamento da versão dividida e com as cenas eróticas cortadas, e o lançamento, no Festival de Berlim, das versões sem cortes. Há, então, quatro peças diferentes acerca de Joe, uma mulher que se diz ninfomaníaca.

O formato que norteará o filme fica evidente logo nos primeiros dez minutos: numa noite fria, Seligman, um idoso que fora à padaria comprar bolo, encontra Joe maltratada e estirada no chão. Leva-a para sua casa, trata-a e dispõe-se a ouvir sua história. O filme, então, começa. Joe é a narradora, que disserta durante todo o filme acerca das suas experiências, e Seligman é o ouvinte, que a interrompe eventualmente para fazer digressões e dividir pensamentos.

Por volta dos 105 minutos, Seligman duvida de determinado ocorrido que Joe narra, no que ela diz: “De que forma você acha que tirará mais proveito da minha história? Acreditando nela ou não?”. O velho concorda, e responde “Você deve ter um motivo pra contar isso”. Esse diálogo prepara o terreno para diversas situações futuras que causariam estranhamento em qualquer pessoa que buscasse uma história verossímil.

Ao dissertar sob a premissa de “você tirará um proveito disso”, Joe diversas vezes narra acontecimentos que beiram o irreal, como visões e coincidências estapafúrdias, levando o espectador a acreditar em mentiras conscientemente.

Se nas primeiras duas horas a trama do filme ainda não fica bem definida, um dos primeiros diálogos da segunda parte (a partir da segunda hora de filme) se encarrega de fazê-lo: Joe conta que não tem um orgasmo desde um ocorrido na tenra infância, e Seligman conta que nunca tivera um orgasmo por ser assexuado.

Eis que, a partir de então, o filme que circunda uma ninfomaníaca passa a tratar sobre duas pessoas que jamais tem orgasmos. Joe como a mulher que os busca incessantemente, sendo incumbida de carregar o fardo de pecadora, e Seligman, que nunca o teve, sendo diversas vezes associado à imagem de Virgem Maria – uma vez até denominando a si mesmo de “puro”.

Após aumentar a aceitabilidade do espectador e fincar profundas raízes psicológicas nos personagens, começa-se a levantar questionamentos morais. Ao escrever esse roteiro, Lars von Trier provavelmente familiarizou-se com os textos de autores como Freud, Nietzsche, Foucault e Deleuze, pois os questionamentos nele levantados já foram estudados a fundo por tais autores. Mas, por meio de todo o trabalho indutivo exercido durante várias horas de filme, poucos textos seriam tão claros e persuasivos.

Primeiro a questão da linguagem é levantada. “A sociedade demonstra a sua impotência frente a problemas concretos removendo palavras do idioma” diz Joe ao ser repreendida por usar a palavra “negro” – que, de acordo com Seligman, é ofensivo. Mais tarde, ela retoma o discurso ao ser repreendida por usar a palavra “ninfomaníaca” em vez de “viciada em sexo”. Essa diferença fica exposta justamente quando ela diz ter uma visão de si mesma na infância ao olhar um espelho. Dessa forma, os “objetivos” das mentiras de Joe começam a se delinear na mente do espectador, que começa a perceber algumas reflexões verdadeiras no discurso da personagem.

Outro momento em que isso ocorre é quando ela conta a história do pedófilo: um homem que tinha atração por crianças e conseguia reprimir essa atração. O argumento dela se baseia no fato de que a esmagadora maioria das pessoas com atração por crianças não dão vazão a esses sentimentos, de forma que julgá-los mal por serem pedófilos seria uma péssima atitude, uma vez que eles não teriam escolha de tal atração e ainda, ao reprimi-la, privam-se de se satisfazer sexualmente.

Há também o momento em que todas as atitudes de Joe são interpretadas por Seligman a partir de uma lógica feminista, levantando questionamentos sobre o papel da mulher na sociedade e como esse papel é tratado em relação ao do homem, principalmente no tange aos “comportamentos sexuais desviados”.

Todas essas discussões são intrincadas em diálogos que ocorrem nos intervalos das cenas das mais diversas experiências sexuais da personagem – com especial atenção para as de sadomasoquismo, que demonstram que poucos diretores podem ser mais aflitivos do que Trier, e que também marcam o reencontro de Joe com o orgasmo.

Alguns recursos pontuais merecem ser lembrados, como o aparecimento de 3+5 na tela em dois momentos, ambos relacionados aos momentos de maior humilhação na vida da personagem, e a tendência a aparecer diversas imagens em diagonal. Galhos, plantas, córregos e outras imagens aparecem em diagonal para serem retomados, no final do filme, na metáfora de que Joe tinha a alma torta.

E eis que o filme termina, por fim, recorrendo novamente ao choque pela decepção. Fica evidente a crítica principal, que é acerca da tendência da sociedade de patologizar tudo o que lhe é anormal, no caso, a ninfomania, enquanto o final nos traz a decepção: o cidadão “puro” é o verdadeiro doente, que reprime sua sexualidade e, quando a exerce, o faz erradamente.

CONCLUSÃO

Experimental, o diretor força-se a desenvolver novos métodos e esforça-se para criar sua marca, de forma que seus filmes conseguem ser absolutamente diferentes entre si mas ainda possuir o “dedo” dele delineado claramente.

Assim, sob a pompa de um “filme de sexo”, Lars von Trier constrói uma obra de arte que suscita reflexões acerca não só da sociedade e como ela se organiza, mas da forma como fazer cinema e trabalhar com o discurso.

Afinal, ele admite contar mentiras, mas em momento algum abre mão de suscitar verdades.

Ninfomaníaca II [2014]

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O bom desse filme novo do Lars Von Trier é que ele trouxe muitas fritações, e uma delas é justamente a razão pela qual eu comecei esse blog: ter um local para anotar minhas fritações. Justamente por elas ocorrerem à noite (o que explica o fato de todo texto ser postado de madrugada), eu as esqueço no dia seguinte. Escrevendo no blog, ainda as divido com a humanidade, e dai, quando eu morrer, as pessoas notarão que eu era um gênio.

Justamente por isso que esse texto muito provavelmente será editado à medida que eu vá refletindo mais sobre o filme.

OBS:::::: se não viu os filmes ainda, vá vê-los e depois vem cá ler.

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Eu gosto do Lars Von Trier por que ele tem o jeito dele. O cartão de visitas em todos os filmes é estampado: chocar.  E esse choque sempre se dá de uma forma repetitiva, engessada, mas nem por isso menos genial. O fato de ele ter feito filmes seguindo as regras do Dogma 95 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dogma_95) o treinaram com a habilidade inigualável de fazer roteiros complexos e profundos (o principal motivo, ao meu ver, pelo qual ele é tão pouco conhecido). O fato de ele ter abandonado o Dogma 95, por outro lado, aliaram os roteiros que já eram fenomenais às mais diversas formas de se fazer cinema.

“Como assim engessado?”. Como um broder meu sabiamente atentou, Lars Von Trier sempre se propõe a deixar claro que aquilo que está na tela é um filme, uma obra, o que o provê a liberdade de utilizar alguns recursos que em outros filmes não caberiam. O fato da história ser contada em capítulos, com títulos e numeração, por exemplo, não costuma rolar em muitos filmes, mas acontece na maioria dos dele. Também o fato de ter o formato constante e imutável de a mulher narrando a história e o cara a interpelando com digressões, os cortes, as alusões simbólicas (aquele primeiro orgasmo dela e os números 3+5, por exemplo) são alguns dos elementos que compactuam pra isso e pro estilo de Trier ser tão característico.

Mas, acima de tudo, o filme é genial pelas questões que ele levanta. Muito mais do que à igreja, o filme é um ataque claro e barulhento à moral da atualidade. Não bastando o filme ser sobre uma ninfomaníaca, o que já acho um ataque bem notável, mas ainda outros momentos, como o do pedófilo – “pera, ela pagou um boquete a um pedófilo por que ficou com pena?” e aí ela dá uma explicação absolutamente plausível e incomum pelo fato de ter sentido pena! -, ou quando ela chama o cara de “negro” e o velho a reprime, no que ela responde “a sociedade tende a proibir palavras que representem problemas que ela não consegue solucionar”.

(Não estou dizendo que o Lars Von Trier foi o primeiro a levantar essas questões. Vários filósofos já as levantaram. O mérito de Trier está em colocar essas questões, que não são simples, tão bem contextualizadas.)

Papo esse que é retomado mais à frente quando ela se apresenta no grupo de terapia. “Eu sou uma ninfomaníaca”, “aqui nós dizemos ‘dependentes’”. Mais tarde isso serve pra diferenciar Joe das demais do grupo “vocês podem ser só dependentes, eu sou ninfomaníaca. Eu sou isso. É meu desde que eu tive meu primeiro orgasmo”. Não à toa ela pensa nisso quando vê a si mesma como criança no espelho.

Há também a questão do choque, sempre presente em Lars Von Trier. Se em Anticristo eu achei que ele já tivesse atingido o ápice, nesse ele se superou. O suspense durante a cena de masoquismo é tão grande, dramático e minucioso, que torna o ato de estar assistindo a cenas de masoquismo MAIS ANGUSTIANTE do que já o é normalmente.

E o próprio final, ao meu ver, é um baita tapa na cara do telespectador. Tanto que meu primeiro comentário foi “que final cagado, né”. Depois de muitas teorias levantadas entre amigos, divido algumas reflexões: o cara se considerava assexuado, é verdade. Alguns amigos disseram que o velho reprimia a sexualidade dele. Eu acho possível, mas estou incerto. Em algum momento, a Joe fala alguma coisa e o velho a interrompe, citando Freud e dizendo alguma coisa do tipo “você está reprimindo o que você realmente é” (ela responde dizendo que “ele estava caindo no clichê”).

Achei que isso foi uma crítica bem clara à Freud e a essa história de tudo ser alguma coisa reprimida ou inconsciente. O velho sentiu vontade de enfim transar com ela por curiosidade – como ele mesmo tinha dito. Tão velho e nunca fez sexo! E ouve a história inteira de uma ninfomaníaca! De certa forma, é parecido com o pedófilo, que se excita ao ouvir a história da criança.

A subsequente reação dela é mais simples ainda: puta que pariu, eu acabei de narrar um filme de 4 horas sobre minha complexidade e você tenta me foder dormindo? E ainda argumenta “qual o problema? Você já deu pra tanta gente!”? Logo depois de eu ter dito que, puta merda, você era o único amigo que tive na vida?

A tela fica preta. Ela aperta o gatilho. Nada acontece. Ah! Ela não carregou! A pistola é automática, eles falaram disso...É o inconsciente dela, né. “Você fodeu milhares de homens”. Carrega. Atira.

Essa porra desse filme é genial.

(Percebam que em momento algum eu precisei falar sobre sexo)

Naked [1993]

“”Naked” é forte em todos os seus sentidos: abordagem, elenco, estética e diálogos. E principalmente, forte em conseguir fazer tudo isso funcionar junto. É um convite para um mergulho nas profundezas humanas, nas entranhas de um ser desprovido de pudor, nu e transparente, sem capa protetora. Johnny é um personagem incrível, quase inacreditável. Sua mente vaga a esmo pelas ruas de Londres, seu niilismo ataca qualquer viajante que trombe por perto, suas dúvidas transbordam em discursos existencialistas. “Naked” parece mostrar que nós, personagens da vida, vivemos quase como um castigo, arrastando a carga de sermos errados e possuímos a incapacidade de evoluir. Indaga o fim do mundo, propõe a transcendência… Tudo explorado com ironia, na base das contradições do pensamento.”

– Diana Seelaender

Legendas
Torrent

Un Poco de Chocolate [2008]

Tenho essa mania de assistir aos filmes estrangeiros mais absolutamente aleatórios que consigo achar. Já passei por cinema Sérvio aos confins do alternativo alemão, passando pelos mais recentes franceses e por alguns espanhóis. Mas existe um que me agradou mais do que qualquer outro em muito tempo:

Maria e Lucas são irmãos idosos e viúvos. Lucas é daqueles velhinhos absolutamente adoráveis que vez ou outra delira e é acometido por imagens do passado – sua primeira e única paixão, Rosa, seus amigos de carpintaria, todos já mortos, os dias na praia, no barco, e situações semelhantes. María é viúva de um homem que morreu afogado, e talvez por isso ela goste tanto de passar tempo na banheira escrevendo histórias e lembrando do noivo. Também é absolutamente adorável, sempre sorridente e fraternal, como aquelas pessoas que você gostaria de adotar para si só pra tê-la por perto sempre que quiser.

Marcos está ligeiramente perturbado; saiu de casa por conflitos familiares e vagava pela cidade até que conhece Lucas e passa a acompanhá-lo em suas andanças pela cidade. Ouve suas histórias, seus conselhos e lhe faz a companhia que um velhinho adorável precisa. Até que conhece Roma, a criatura simplesmente mais absolutamente linda e impecável da face dessa Terra. Se houver uma alma gêmea nessa mundo, certamente é essa menina. Roma se junta então ao grupo e os 4 são perfeitamente adoráveis juntos.

O mais confortável e bonito nesse filme é que todos estão sempre sorrindo. Lucas às vezes lembra de estar na estação do bonde com Rosa, e ela lhe dá um beijo de despedida. Ele se pega, então, lembrando daquele beijo com o maior amor e inocência que uma pessoa pode ter. Mais tarde, pergunta a Marcos “sua namorada lhe dá todos os beijos que você quer?”, no que ele responde “sim”. “Que bom! Que bom! Rosa costuma ser econômica comigo…” e você simplesmente se vê querendo abraçar sua televisão.

O filme não tem um ápice, uma história com início, meio e fim. Ela simplesmente acontece, e você se sente perfeitamente à vontade em apenas acompanhar a história daquele velhinho tão simpático.

Imagino que dos, sei lá, 5 leitores que esse blog tem, apenas 3 chegaram ao final desse texto – os outros 2 desistiram ao ver que era falando de um filme. Vocês 2, amigos, baixem-no e hão de me agradecer.

 

Torrent
Legenda
Filmow (que comprova o que eu disse)

Hair [1979]

A vida inteira disse que Hair era meu filme preferido mas nunca tive saco pra explicar as diversas fritações que já tive com ele. Tentarei expô-las todas aqui. Mas, antes de qualquer coisa, se você não viu esse filme, faça-o agora. Pelo amor de Deus, é um favor que você faz a si mesmo. Para facilitar, eis aí o link pra download do filme e da legenda (eu mesmo upei, não liguem pro nome estranho, é do legendas.tv), e aqui tem o link pra você ir vendo as músicas pelo youtube, o que não é láaa ver o filme, mas já é alguma coisa.

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