A bíblia é grande, eu sei, Leitor, mas se achegue, sente-se confortavelmente e pare de se preocupar com as outras abas do computador. Saiba que nesse instante é importante estarmos a sós conosco mesmos, eu como escritor e tu como leitor. Vou contar uma história, uma memória, na verdade, e talvez ela não seja interessante, mas me fez muito bem escrevê-la, então não tente gostar dela se não estiver disposto a mergulhar no que é dito em cada palavra e participar dessa viagem tão plenamente quanto eu.

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Acho assustador lembrar em como eu ficava em outra modalidade de pensamento enquanto estava com você. É como lembrar de outra vida, de outra pessoa – aqueles dias foram como se eu vivesse uma vida que não a minha. Eu nem lembro como a gente começou a se falar, mas lembro que em pouquíssimo tempo as coisas pareciam nos ligar, talvez fosse inconscientemente, pelo menos pra mim era  a maior parte, ou talvez você estivesse planejando tudo isso pelo modo como vocês, sábias mulheres, conseguem sempre planejar a forma como abordar e fazer um homem se apaixonar, o caso é que a gente acabava se achegando, meio devagarzinho, meio de bobeira, fosse no intervalo, fosse antes da aula, às vezes depois dela, até nas quartas feiras que nem tinha aula, mas a gente ia pro colégio só pra “estudarmos” – tô colocando aspas por que eu só ia pra ficar com você, caso você realmente fosse pra estudar (o que, olhando agora, acho improvável) – e acabávamos ficando só juntos mesmo naquela sala mal iluminada e com odores estranhos, mas que era até bem aconchegante. Quantas tardes eu não passei naquela sala, fosse com você, fosse com meus amigos, fosse sozinho, olhando pra parede e refletindo, ou às vezes até estudando, por que nós tínhamos realmente que estudar um bucado naquela época! Se você me pedir para desenhar um retrato daquele ano, certamente seria de nós dois em primeiro plano com aquela sala de plano de fundo, e alguns dos nossos amigos em segundo plano, talvez sentados por ali em outras mesas – você lembra como aquelas mesas tinham tamanhos e alturas diferentes, e às vezes você podia estar sentado numa cadeira de 70cm de altura e conversar com os outros que estavam numa de 50cm? Era quase um degrau de diferença, e isso às vezes era engraçado, como aquela sutil vontade que nos dá de sentar sempre no banco mais alto do ônibus -, poderia até não ter nenhum amigo nosso, apenas aquelas pessoas que a gente tinha que conviver por que vez ou outra decidiam usar a sala também. O que importa é que nessa fotografia certamente teria eu e você em primeiro plano, ainda que você não tenha estado presente na maior parte do ano, mais ou menos como o fato de a capa do Pulp Fiction ser aquela menina que só participa de uns poucos 40 minutos, mas que certamente teve algumas importância especial para o telespectador – ou pro próprio Tarantino. Eu me lembro também de comentar de forma boba, quase infantil, para uma amiga muito chegada, que se vangloriava constantemente de ser “mãezona” – corretamente, pois realmente era muito e eu a adorava por isso – de todos os detalhes das coisas que nós vivenciávamos, não todos, mas os que eu considerava mais importantes, como aquele dia em que a gente ficou de mãos dadas quase que inconscientemente (falando por mim novamente) e mais tarde você comentou que havia gostado de segurar minha mão. Que coisa boba, homossexual e desnaturada de um homem se lembrar depois de tanto tempo. Mas, veja bem, eu me lembro com o melhor dos saudosismos, como uma coisa que me deixou muito feliz e foi muito bem apreciada, não há nenhuma amargura na minha memória, este é apenas um relato de uma noite de meditação em que me veio à mente esses momentos e resolvi me aprofundar neles por serem realmente muito felizes como recordação.

Teve o dia também em que você foi estudar em uma sala vazia, sozinha, enquanto todos estavam na outra sala, a mal iluminada que falei agora a pouco, e quase que inconscientemente me sentei na mesa em frente à sua e resolvi que queria estudar ali também. “Tem muita gente na outra”, disse. Realmente tinha, sabe. Isso acontecia de vez em quando, de muita gente decidir ficar ali, era uma sala de estudos afinal, só que quando isso acontecia eu preferia ir dar um passeio com os meus amigos e tomar um café, mas naquele dia deixei que eles fossem sozinhos consigo mesmos e me sentei ali, na cadeira da sua frente. A imagem que eu tenho desse momento é engraçada, por que apesar de eu estar na sua frente, nós nos víamos de frente… – o que eu quero dizer é que, apesar de estarmos em uma sala de aula, estávamos cada um em uma extremidade dela com as cadeiras viradas um pro outro, e como era uma sala pequena, isso fazia com que estivéssemos a apenas uns 5 metros de distância mas olhando um de frente pro outro, olhando furtivamente, é claro, eu estudava, lia alguma coisa sobre história, talvez revolta da vacina, essas coisas de história do Brasil que a gente tinha que estudar, você também estudava seja lá o que estudasse, mas vez ou outra ambos deixávamos encontrar uns olhares que denotavam que havia ali uma conversação, ainda que nenhuma palavra fosse proferida e o som do ar condicionado – que era barulhento! – ditasse o ritmo daquela moda.

Lembro de eu voltando pra casa no fim do dia e tentando calcular a partir de qual prédio eu podia finalmente dizer a mim mesmo que já estava na metade do caminho, e então colocava despretensiosamente aquela música, a sua música, que eu havia conhecido na trilha sonora daquele filme que eu assisti só pra puxar assunto com você – ainda que eu tenha dito que já o conhecia antes -, e acabava lembrando de você pelo resto do caminho, e retomava mentalmente algumas conversas que tínhamos tido naquele dia, ou apenas refletia sobre quão chato era o fato de não termos nos encontrado naquele outro dia.

Eu gostei bastante de você, sabe. Não vou dizer que foi amor, lógico que não foi, foi uma sedução, isso mesmo, no sentido que eu li esses dias em algum lugar para “sedução”, que é a possibilidade – não prometida, mas almejada – de haver entre os dois alguma forma de relação sentimental sustentada pela premissa de ambos a almejarem, e essa sedução era uma das muitas coisas que faziam do meu dia marcante, junto com as aulas que eu gostava, as boas partidas que eu tinha no videogame, as conversas que eu tinha com os amigos e tudo o mais. A questão é que essa sedução foi tomando importância maior à medida que aumentava a proximidade dessa relação sentimental mais profunda – a relação sentimental mais rasa existiu a partir do momento em que você sorriu pra mim a primeira vez, e isso pode soar clichê, mas o teu sorriso tem um espaço especial na minha memória – e isso fazia com que você ficasse um tanto quanto mais frequente no meu pensamento. Acho que essa pode ser uma visão cética e psicológica de todo relacionamento saudável, ou talvez seja só um jeito meio esquizofrênico que eu achei pra descrever aquela relação divertida que a gente teve.

O fato é que ela não terminou tão bem, isso é o ponto em que eu acho que nós dois podemos concordar, e também chega a ser engraçado lembrar essa forma por que lembra que eu disse que você me colocava em outra modalidade de pensamento? Então, o fato como ele terminou foi como um retorno à minha modalidade padrão de pensamento, e tal qual como ser acordado bruscamente depois de um sonho demorado e delicioso, fiquei atordoado, atabalhoado, não conseguia sequer por as palavras na ordem certa, principalmente naquele dia em que a gente teve nossa primeira – e única – discussão e eu saí dela me sentindo um completo idiota pelos rumos como ela se seguiu. Você lembra que eu disse “eu não tô nervoso, não tô, sei lá, batendo em você, tô de boa” e você perguntou “você queria bater em mim?” e eu fiquei tipo “what??”. Eu tinha acabado de dizer justamente o contrário! Aí fazendo aquela pergunta você fazia parecer que eu tinha deixado aquilo subentendido! Nunca! Cacete, aquilo me deixou desconcertado. Eu não bateria em você de forma nenhuma, isso nunca sequer me passou pela cabeça – até você dizer, é claro, aí por alguns instantes eu achei aquilo bem sexy, mas prontamente descartei a ideia. O que eu mais queria era te abraçar forte pra cacete e ouvir você dizer que dava pra deixar aquilo tudo pra lá, que era foda mesmo, mas que você tinha feito merda e que eu também tinha vacilado feio, mas dava pra gente esquecer tudo, absolutamente tudo, e começar desde o zero aquela dança. Mas o fim do ano se aproximava, e de repente a gente parou de ter aula de tarde, e aquela possibilidade simplesmente não poderia mais ser, já que a principal razão que a gente tinha pra ficar junto eram aquelas aulas, então o fato de eu não ter te abraçado e você não ter me dito todas aquelas coisas era até plausível, mas chato mesmo foi o jeito como terminou, né. Uma coisa é ser plausível não terminar bem, mas terminar mal é outra história.

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Enfim, a fome bate e desse teclado sairiam milhares de recordações que estampavam aquele semblante tão adorável, então não vou me ater muito mais a elas. Um outro dia, quem sabe, pois lembrar dele é sempre uma coisa bonita, divertida, como que olhar um álbum de fotos que a mente garantiu de manter muito bem guardado no estábulo da memória.

Numa dessas memórias que me acometem a mente como um relâmpago e na maioria das vezes passam desapercebidas, me vem a imagem de uma velhinha. Eu devia ter uns 4 ou 5 anos, minha mãe tinha me levado para algum lugar mas, por algum motivo, eu não estava com ela, e isso nunca era bom – um lugar em que minha mãe não está nunca é seguro, principalmente se se dá numa fase da vida em que todas as minhas economias acumuladas somavam 7 reais.

E eis que, em meio à apreensão da solidão, me surge a velha, sorridente, brilhante, com seu vestido desses tecidos que parecem ser aconchegantes mas que só ficam bem em velhinhas simpáticas. Abrindo um sorriso, ela me olá e pergunta meu nome. A apreensão se soma ao susto – aquela imagem desconhecida e comunicativa transgredira a barreira de não conversar com desconhecidos que minha mãe impusera em todos meus poucos anos de vida. Era errado, era um crime, mas ainda assim: parecia tão amável a velhinha!

Eu a enxergava por meio de uma grade; ela estava sentada num banco, talvez na sacada de sua casa. Dei dois passos para o lado, de forma que a grade tornara-se muro. Pude ouvi-la dizendo, quase como num suspiro: “foi embora”.

Uma profunda tristeza me acometeu. “Não fui embora, moça, apenas não posso falar com você”, quis responder, mas de onde surgia tanta dificuldade? Da timidez, decerto. Do medo, talvez. Da pena – quem sabe? De qualquer forma, minha mãe deve ter chegado e eu fui, de fato, embora.

Pensando hoje, aquela velhinha já deve estar morta. Vez ou outra ainda sou acometido pela lembrança daquele suspiro que ela dera na minha ausência, depois de uma tentativa tão sincera de estabelecer o colóquio, e me pego arrependido de não ter ido lá fazer-lhe companhia. Penso que, afinal, quem foi embora foi ela. E eu continuo aqui, à mercê da sua memória, ironicamente só.

Numa dessas memórias aleatórias que estupram nossa mente vez ou outra lembrei de um dia muito, muito distante, daqueles tempos tão distantes em que  você lembra deles até meio escuros, como se tivesse sempre alguma luz queimada ou nublado, e sempre tem alguma professora escrota. Não que todas as professoras em geral fossem escrotas quando eu era criança, mas todas as minhas eram. Lembro um dia que, por algum motivo, alguma professora escrota precisara faltar a aula e uma psicóloga do colégio a substituiu – colégio pequeno tem essas coisas.

Minha imagem de psicólogos àquela época era clara: pessoas que sempre mimizam sobre como deve ser a criação de crianças. Apesar de serem em suma e perceptivelmente apenas uns mimizentos, aquela psicóloga em especial era legal. E ela não era nem bonita pra eu achar isso, era bem feia até, e muito menos era “legal” no sentido descolado da palavra, ela se vestia com umas roupas xadrez ou uns terninhos coloridos e tinha sempre um cabelo muito curto. Ela era legal por que ria o tempo inteiro. Se alguém ri tanto, é por que deve ter muita graça pra compartilhar contigo. Do bom dia ao boa noite aquela mulher tava rindo. Eu juro ter passado muitos instantes me perguntando se ela não sentia alguma dor ou cãibra na bochecha.

E daí teve esse dia em que ela foi substituir a professora e, por algum motivo nesse universo, ela decidiu que era apta o suficiente pra dar aula sobre qualquer coisa que não fosse psicologia. “Ora bolas, minha senhora, eu tenho por volta de 4 ou 5 anos”, eu pensei algo parecido, “e você acha que sabe mais do que eu sobre alguma matéria que eu estudo há 4 ou 5 anos? Você nem professora é, mulher”. Ela então, com aquele sorriso afoitamente constante, ajeitou seu casaquinho verde-escuro – não tenho certeza se era verde escuro, mas é essa a imagem que eu tenho dela no instante -, pegou um giz e começou a vomitar regras da gramática no quadro. Possivelmente o alfabeto. “Esta mulher está dizendo um bando de asneiras”, pensei, “não copiarei nada disso aí”.

Pouco tempo depois de terminar de escrever, a mulher virou-se para a turma com aquele sorriso beirando o doentio e veio diretamente ao paradeiro de meu assento. “Guilherme”, ela disse com um sorriso complacente mas que já estava ali naquela cara a tanto tempo que chegava a ser ofensivo. “Eu”, respondi com minha voz fina e afeminada de 4 ou 5 anos. “Por que você não está copiando?”. “Desgraçada, me pegou”, pensei pouco antes de começar a esboçar formas de escapar do purgatório social que me acometeria se ela descobrisse meu despeito. “Já terminei de copiar, tia”, o tia soou meio desnecessário, mas eu precisava ser adorável. “Então deixe-me ver”. “Esta pilantra não é boba” uma das vozes que eu ouvia naquele tempo me soara ao pé do ouvido. Abri desesperado meu caderno para ganhar algum tempo, e comecei a folheá-lo sem rumo. “Não lembro onde tá” disse cinicamente quando folhear o caderno – daqueles que ainda eram presos com grampos e não argolas, lembram? – começou a ser constrangedor.

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“Você não copiou, não é, Guilherme?” ela respondeu, escondendo o sorriso unicamente durante o tempo em que proferia a frase. Nesse instante, um rosto passivo, quase inexpressivo acometeu-lhe o rosto. Não havia raiva, ou ódio, ou repreensão, apenas não havia um sorriso também.

 Por um instante, percebi que eu era uma criança de 4 ou 5 anos e agi como tal – uma culpa absurda recaiu sobre minhas costas e eu precisei admitir: “não”. Ela apenas fez uma cara de repreensão, como que torcendo uma das bochechas e cerrando a sobrancelha ao som de um “tsc, tsc”, abriu meu caderno e apenas me mandou copiar de uma vez por todas.

“Maldita mulher”, pensei com meus botões enquanto ela voltava para o quadro “Me colocou em calças curtas”. Nunca mais respeitei as autoridades daquele colégio. Certamente eles também eram apenas marionetes daquele sorriso manipulativo.

uma carta ao passado.

Eu queria agradecer. Vocês me proveram uma memória pra que eu brincasse todas as vezes em que estivesse sozinho, como se o rosto de vocês fosse de lego e eu os montasse e desmontasse como melhor me aprouvesse esse tempo todo. Você, caramba, eu gostei demais de você. Eu acho que nunca vou gostar tanto de ninguém, e olha que eu digo isso depois de quase quatro anos. Você me traiu, mas tudo bem, sabe, você me ensinou que eu definitivamente não posso confiar em ninguém, nem na pessoa com esse sorriso bobo tão anormalmente adorável e essa dificuldade de respirar enquanto beija que eu reproduzi diversas vezes na minha memória, como um cinema cuja tela foram minhas pálpebras e público sempre aplaudiu de pé.

E você… bem, você me trocou. Olha, devo dizer que você me machucou um bucado. Eu sempre fui desses que se entristece mais com o desperdício do que podia ter sido do que com a decepção do que foi. Mas você flutuou bem sobre as entrelinhas, omitiu o certo e me fez ficar contra mim mesmo logo após me trocar por uma pessoa que, veja bem, te faz tão feliz! Será que eu também faria? De fato, no seu caso acho que eu deveria ficar contente de não ter sido o que poderia, afinal, ter sido o que de fato foi parece melhor para ambos. Mas, caramba, aquele teu jeito de me pedir as coisas nunca, e eu tô falando sério, nunca vai se apagar da minha mente, mesmo que fosse só pra te fazer companhia enquanto você ia comprar um chocolate.

E você, poxa, você quem sacaneou fui eu. Desculpa por isso. Eu juro que me arrependi, mas você, caramba, você não conseguia mesmo perdoar ninguém, né? Se tem uma coisa que eu tenho saudade era daquele teu olhar de quem tava puta quando eu te provocava, seguido por aquele drama clássico até eu declarar todo o meu amor. Eu exagerava, você sabe, mas não mentia. Eu lembro que uma vez nos abraçamos e beijamos com tanta certeza que até a passagem do tempo pareceu duvidosa, e era de uma brasa tão ardente quanto a ponta de um cigarro recém aceso, mas se apagou mais rápido que uma fogueira na tempestade.

Eu não consegui esquecer vocês e não vai ser agora que vou conseguir. Nem tudo pro mal, nem tudo pro bem, apenas tudo devidamente armazenado no subconsciente.

Ah! Temos, por fim, você. Mas você eu descubro daqui a um tempo.