Back to bRO

Esses dias voltei a jogar Ragnarok. Não importa o que eu faça, eu sempre volto a jogar Ragnarok. Foi o maior vício da minha adolescência. Com treze, catorze anos, chegava a jogar 16 horas por dia. Era o cavaleiro mais forte do servidor, vice-líder de uma das guildas mais famosas. Todos conheciam Aoshi Shinomori, o Lord Knight que tinha uma carta Samurai Encarnado equipada na espada, e por isso conseguia matar dezenas de pessoas sem sofrer dano nas Guerra do Emperium. No PvP era imbatível. Eu sozinho conquistava castelos que guildas inteiras não conseguiam. Cada habilidade minha deitava, no mínimo, três inimigos.

Fiz muitos amigos. Com 11 anos ainda, fiz meus primeiros grandes amigos na internet graças ao bRO – naquela época, até o orkut era mato. Mal existia o MSN. Um noviço chamado Ban Mido (referência ao saudoso Get Backers, que na época passava no saudoso Animax, e era a única razão pela qual desligávamos o Ragnarok) e uma noviça chamada Jess ~*. Rapidinho eles se tornaram meus melhores amigos. Eu tinha 11, eles 13. O Ban se chamava Ricardo, era um japa com os olhos tão fechados, mas tão fechados, que não entendia como enxergava alguma coisa. A Jess era branquelinha, gordinha, cabelo liso até a cintura. Eu me apaixonei pela Jess depois de um tempo. Mas o Ban também se apaixonou, e ela preferiu ele, como não podia ser diferente na minha vida. Foi uma das grandes angústias da minha vida amorosa. Depois de uns dois anos a amizade se arrefeceu justamente quando eles se casaram no jogo, e a partir de então só upavam em dupla. Nunca mais tive contato com eles.

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Um dos momentos mais tristes de minha carreira no MMORPG. Eles ali, casando. Eu na primeira fila, sofrendo calado.

Depois fiz amizade com um hunter chamado Kuja. Ele tinha 21 anos quando eu tinha 13, e vivia me contando das minas que ele comia na vida real. Eu não sabia se acreditava ou não, mas ele contava e eram histórias divertidas pra caralho. Pegamos lvl99 juntos e fundamos uma guilda. Era um puta amigo, ele. Era o líder da guilda e eu o vice-líder, e foi ele quem me deu a Samurai Encarnado. Chegou um dia pra mim, no meio de Prontera, depois de meses de amizade: “tenho um presente pra você”. E passou a carta. Era simplesmente a carta mais valiosa do servidor brasileiro. Valeria as maiores fortunas da época. “Já que na Guerra eu vou estar de hunter, ela não serve pra mim. E você é quem mais merece. Fica pra você de presente”.

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IGNORA. A DEFESA. DO ADVERSÁRIO.

Eu não sei que fim levou minha amizade com o Kuja. Nunca soube como era a aparência dele, mesmo tendo sido um grande amigo por quase um ano. Se não me engano, ele parou de jogar Ragnarok. Ofereceu para que eu ficasse com a guilda, mas eu também estava desanimado agora que meu único amigo ia sair. Abandonei o Ragnarok pela segunda de muitas vezes.

E voltei semana passada.

Eu não tenho mais saco para upar no ragnarok. Como eu conseguia ficar horas matando monstros, cada um dando 0,01% de experiência, pra depois de dias inteiros de up subir um único nível, de 99? Pior – hoje em dia, você chega ao lvl99, volta pro zero, e depois tem até o lvl175 pra upar de novo. Impensável. Passei mais tempo configurando um bot para upar pra mim do que jogando propriamente.

chapeu_de_fumacentoAgora, estou com o bot fazendo uma quest. Chapéu de Fumacento. Dos dois anos que joguei com o Ban e a Jess, pelo menos uns 4 meses o Ban ficou fazendo essa quest. Quando conseguiu o chapéu, não tirou nunca mais. É o chapéu mais bonito e idealizado de todo o Ragnarok. Estou com o bot há uma semana fazendo sua quest e ainda não cheguei na metade. Acredito que, quando consegui-lo, vou até desanimar de novo do Rag.

Mas preciso fazer essa homenagem ao Ban. E, principalmente, fazer essa homenagem ao Eu do passado, que queria esse chapéu, queria a Jess, e não tinha nenhum dos dois.

Para o Eu de 40 anos.

É difícil escrever uma carta pra ti por que eu sempre te imagino careca e meio gordo, e isso é uma visão bem decepcionante. Me disseram desde cedo que eu ficaria assim, que nem meu pai e meu irmão. Fico imaginando se você ainda consegue se olhar no espelho de vez em quando e pensar “wow, eu tô bonitão hoje, ein”. Acho bastante difícil.

Por conta disso eu espero que você seja interessante. É tudo o que eu peço. Eu me esforço demais para me tornar uma pessoa interessante para que você fique velho, careca e sem graça. Pode trabalhar com o que quiser – contanto que você tenha orgulho de dizer que o faz. Quando te perguntarem na rua, você dirá com orgulho. Eu confio no seu bom senso.

Eu espero que você tenha conquistado uma mulher. Vá, lá. Você sempre foi dos caras que preferem a monogamia, o conforto de um amorzinho, então se com 40 anos você ainda estiver na busca, definitivamente tem algum problema aí. Porra, desculpa aí, cara. Pesado dizer isso. Mas é verdade. Não precisa ter filhos não, aliás, não tenha. Você ainda está ocupado viajando o mundo com a sua mina.

Eu também espero que você tenha obtido pelo menos dois dos diplomas que eu digo que você terá. E lançado pelo menos um livro. Qual é, né. Esse é seu único sonho desde que você  tinha 16 anos, cara. Por favor, tenha tomado vergonha na cara pra fazer isso logo. E, se tiver sido um fracasso, VAI LANÇAR OUTRO! Você tá fadado a ser grande, cara. O mundo pode te fazer achar que não, mas você sempre soube que o mundo é burro pra cacete. Você vai ser grande, se ainda não for. E, se não for, que não seja por falta de tentativas. Só não seja preguiçoso. Não seja resignado.

E te liga – você não precisa de tanto dinheiro assim, né. Vai com calma no trabalho. A vida é muito mais do que isso. Ser bem sucedido é foda – mas cultivar relações e interesses também é.

Tomara que você seja de boa, com felicidades frequentes e as tristezas, que eu sei que você terá, passageiras. Tomara que o peso da saudade só tenha te deixado mais forte, que todas as dores tenham enrijecido teu tecido, e que todos os erros que me fazem pensar “pelo menos me trouxe aprendizado” tenham servido de alguma coisa. Se já são muitos agora, imagino a lista que você assina.

Pra ser sincero, eu aposto que você é feliz. Apesar de não viver pensando em você, construí um terreno bastante fértil ao teu crescimento. É possível que tu se perca, que o dia-a-dia te consuma e a sociedade entediante te engula. Mas, sinceramente? Tá tudo bem também. Eu confio em você. Se quem se perdeu foi você, aposto que teve suas razões. E tenho plena convicção que continuará acompanhado de si mesmo, o que não podia ser melhor companhia.

Quotes de mim mesmo

Você nunca foi, nem nunca é, mas sempre será minha. Não no tempo frio e sem beleza do relógio, que bate mecanicamente indicando tua ausência, mas no futuro próximo e inalcançável da minha autodestrutiva mente, na qual todas as coisas por vir me impedem de prestar atenção no que não veio e no que não está. (– 19/05/2013)

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Eu vivo vendo teu rosto em outros rostos. Já pensei que fosse eu te procurando em todo mundo e te encontrando em alguns, mas percebi que sou só eu querendo muito que seja você, e me dando o direito de, por poucos segundos, acreditar que é.

Sigo na tua busca. Aparece aí qualquer dia. (- 02/06/2013)

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Te ver me gerava uma descarga tão intensa de epinefrina que diversas vezes eu o quis e a gente não se esbarrava. Sempre andando atento pelas ruas, ansiando por captar o menor sinal de você. Às vezes, olhando de longe, um sorriso parecido me enganava, ou um cabelo ao vento me iludia. Eu queria te ver e era por isso que não via. Esse é o barato do acaso, ele não se desmarca, nem se atrasa, nem se esquece. Ele só acontece e é verdadeiro, sem teatro, ali no improviso. A gente não pode querer, se não ele não rola. As coisas mudam de lugar só para nós não chegarmos a lugar nenhum. A questão é que tantas vezes eu quis te ver – e caramba, foram tantas! – só para te ter de volta, mas agora eu não quero te ver para não termos nada. Eu mudei, você já tinha mudado. Aquele abraço ainda significa muito, por algum motivo, mas aquele cumprimento falso e o sorriso bobo, o “e aí, como vai” e o “vou bem e você” já não enganam mais. A aura não se deixa mais misturar. Mas vai explicar isso pra acaso. (- 25/08/2013)

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Perguntei à todas as coisas que esqueci o motivo de tu não estar com elas; me disseram que tu não cabia lá.

(– 06/05/2013)

Sempre nutri muito carinho por pessoas que me recebem bem em suas casas. Não digo “receber bem” no que diz respeito às etiquetas e construções sociais, pois para estas não ligo. Refiro-me às pessoas que abrem mão desses artifícios e naturalmente demonstram que querem me deixar confortável naquela casa. Isso me parece bastante plausível.

O que acontece, no entanto, é que revirava aqui algumas fotos antigas que tenho salvas no computador e me deparei com a de uma moça que há muito tempo não via; era do colégio ainda, e eu nunca fui lá muito chegado a ela. Tentei me lembrar por que não o era mas não conseguia. Pelas fotos, parecia ser simpática comigo, e algumas lembranças me relatam que ela diversas vezes tentava ser realmente amigável. Eu, na maioria das vezes, fui um escroto com ela, mas por vezes até que fui fofinho.

Por fim, me acometeu à mente a razão pela antipatia – uma lembrança de algo ainda mais antigo, quando eu ainda tinha cabelos compridos e os emos ainda eram assunto do Fantástico, na qual a mesma menina, que ia dar uma festa na casa dela, vociferou que não queria que me convidassem pois “não queria aquele emo na casa dela”. Ainda não havíamos sido apresentados, mas não era incomum para mim ouvir coisas desse tipo naquela época.

Fiquei pensando em como isso me afetou tão profundamente e, ainda assim, inconscientemente. Vá lá, eu tinha 14 anos. É compreensível entender que alguém sinta tanta simpatia por quem lhe quer confortável em sua casa. Mas tanto desprezo por uma desconhecida que disse uma besteira dessas?

Quanta amargura!

Não me canso de lembrar como era fácil odiar os outros antigamente.

Hoje queria encontrar aquela moça só pra dar-lhe um abraço.

Ok, talvez um aperto de mão.

DOIS MILEONZE

Achei esse texto aqui que NUNCA POSTEI e escrevi há TRÊS ANOS.

Foi minha primeira FRITAÇÃO DOCUMENTADA, se pa.

Que orgulho!

***

Como você explicaria pra um cego de nascença o que é uma cor?

Ainda que você achasse os adjetivos mais precisos, fizesse as melhores comparações e passasse dias dissertando sobre as cores, o cego não chegaria nem perto de imaginar o que é uma cor. Isso se deve ao fato de que as cores, para o cego, são uma realidade inexistente, como se fossem uma outra dimensão – ele nunca teve contato com aquilo e não tem a menor ideia de sua existência, ainda que o cerque por toda sua vida.

E se, ó bolas, nós formos cegos para outras coisas também?

Conceitos como aura, espírito, alma e chakra são conhecidos e vulgarmente usados por ignorantes que falam sobre aquilo que não sabem para angariar dinheiro de pessoas que também não sabem de nada.

Nos achamos absurdamente espertos por atitudes que tomamos baseados nos nossos conhecimentos concretos sobre a vida – aquelas fórmulas que nos obrigam a decorar, aqueles livros que nos obrigam a ler –, ignoramos conceitos como vida, espiritualidade, sabedoria, pensamento, e nunca entendemos por que precisamos incessantemente buscar a felicidade e nunca a encontramos.

Senhores, se eu tivesse que citar o maior problema da sociedade atual, eu diria que é o fato de que ela não pensa e, em consequência dessa ignorância proposital e resignada, não conhece a si mesmo, nem o seu espírito, nem a sua religiosidade.

Não me refiro especificamente ao fato de pensar em coisas mais subjetivas como as que eu listei ali em cima, mas em pensar em qualquer coisa. As pessoas apenas decoram. Elas não desenvolvem senso crítico, não refletem, não chegam às próprias conclusões. Apenas absorvem conhecimentos programados por pessoas que também não pensam.

Existem diversos conceitos de inteligência e as pessoas só focam no mais raso e simples.

Não é a toa que são tão infelizes e ignorantes.

Presta atenção no que eu to dizendo aqui, caralho. Vos convido, senhores, a pensar. Apenas. Qual a sua religião? Não dê um nome pra ela, apenas disserte sobre. No que você acredita, criatura? No que não acredita? POR QUÊ? Explique e convença a si mesmo – mas não se engane. Levante questões que as pessoas ignoram. O que você quer fazer na vida? Por quê? Tem certeza?

Rapaziada, dispam-se do que a sociedade lhes impõe. “mimimi eu sempre fui católico”, esse deveria ser o principal motivo pra você tentar mudar isso. “mimimi, eu fui criado com a ideia de que precisamos estudar, trabalhar e formar família”. Como diria Nietzsche: como você formará uma família sem conhecer a si mesmo? Você apenas colocará em uma criança as suas inseguranças e dúvidas.

Não to falando pra abandonar a faculdade, bater na sua mãe e sair de casa, caralho. Apenas pra pensar. Não dói, EU JURO. É um processo longo – monges orientais passam a vida inteira desenvolvendo-o -, mas ninguém precisa ir tão a fundo e faz um bem enorme.

Um dia, quem sabe, cês abrirão os olhos e verão um mundo muito mais colorido.

Esse memória me é tão clara e me remeto a ela tantas vezes que me pergunto como nunca atentei de registrá-la antes.

Tinha menos de 7 anos, uma vez que é ambientada na casa que morei até essa idade. No quarto, especificamente. Acabava de voltar da escola – voltando das minhas complexíssimas aulas do maternal ou primeira série -, jantava, tomava meu banho, vestia um pijama limpinho e deitava na cama pra assistir Disney Club.

Lembro plenamente de sentir que aquele era um dos momentos mais confortáveis da minha vida. Sentia, mas não me dava ao trabalho de atentar para isso. Apenas sentia, na penumbra do meu quarto, que assistir àquele desenho do pato donalds era absolutamente maravilhoso.

Dormia logo depois, com a TV ainda ligada, completamente extasiado.

É interessante como essa lembrança influencia na minha vida: hoje, quando sem sono, refaço exatamente a mesma rotina, mudando apenas o programa de tv. Sem alcançar o mesmo prazer, é claro. As atividades parecem infinitamente mais prazerosas quando feitas na infância.

Lembro que com uns 7 anos eu gostava de uma tal de Geovana. Ela era da minha sala, lá na… primeira série, ou segunda. A forma como eu me relacionava com ela era muito simples: eu não me relacionava com ela.

Minha paixão se devia única e exclusivamente ao fato dela ter um jeito fofinho e um rosto não tão feio, e eu gostar de olhá-la de vez em quando. Aí eu conheci a Priscila. A Priscila, além de ser fofinha e bonitinha, ainda era animada! diferente da Geovana, que era paradinha, paradinha. Tendo em vista o grande sucesso que eu conseguira com a antecessora, adotei a mesma tática com a jovem Priscila: não fiz absolutamente nada pra me aproximar.

A paixão se tornou tão real que ela tinha até a própria música:

Eu lembro de ouvir essa porra no carro dos meus pais e me comover absurdamente, papo de ter que segurar o choro. Foi um bom dia aquele: estava no carro indo pra uma festa de aniversário de um amiguinho. Era uma boa festa, aguardada, a turma inteira ia.

Lembro que mais tarde – minha memória distante é feita em flashes abruptos – estava num túnel, desses de festa de criança, que ia dar em um tobogã que caía numa piscina de plástico. Acontece que o túnel tinha um labirinto, por que ele durava uns 3 andares (as festas de criança eram grandes antigamente, ou eu que era muito pequeno), e enquanto eu desbravava esse labirinto com um amigo highlander, encontrei com Priscila indo no caminho oposto.

Ó céus! Contato direto, aproximação! Que medo me deu de falar com a Priscila. Meu amigo, fanfarrão e, como já dito, highlander, disse “oi Priscila, tudo bem?” e Priscila deve ter falado alguma coisa sobre a amiga dela que tinha vomitado e por isso elas estavam saindo do túnel – o que foi preocupante, pois estávamos andando ajoelhados naquele túnel, e se tivesse vômito, decerto nos acarretaria problemas.

Estava tão tímido que nem consegui falar com Priscila e acabei – por acaso – mantendo a fidelidade à infalível tática: não obtive a menor aproximação com a jovem. Voltei pra casa perfeitamente satisfeito.

Eram bons aqueles tempos.