Esses dias, acometido por mais uma dessas insônias que rolam vez ou outra, ficou muito tempo olhando o teto do seu quarto. Só então percebeu que estava claro. Não por que o sol nascia ou por que alguma lâmpada estava acesa, mas por que as luzes da rua entupiam o quarto com fiapos de cor laranja, e a televisão com aquela estável luz vermelha, e os estabilizadores verdes e o celular na tomada, tudo compactuava para que o quarto estivesse  com uma penumbra multicolorida que delatava os contornos de tudo o que ali continha.

Se perguntou se conseguiria simular, naquele lugar, às 3:45 da noite, um ambiente escuro. Não podia ser tão difícil! Fechou as janelas, desligou os estabilizadores, tirou o celular da tomada. Ainda via. Um resquício de luz ainda preenchia o quarto vinda da janela, que era parcamente tampada pela cortina de pano fino.

Ficou ligeiramente desanimado. Imagine como seria ter uma noite de sono sem nenhum resquício de luz, se o cérebro não se sentiria mais confortável assim! Imaginou que nunca poderia simplesmente se enfiar no quarto e desaparecer na escuridão. Imaginou que nunca poderia confundir se estava de olhos abertos ou fechados – não sabia nem se era possível.

Levantou da cama e saiu do quarto. Demorou muito tempo para encontrar o interruptor do corredor e quase bateu com a cabeça na parede na busca. Acendeu e apagou novamente a luz. Percebeu, então, que estava na escuridão plena de um corredor com todas as portas fechadas e sem janela.

Tinha sumido do universo.

PEQUENAS EPIFANIAS. Caio Fernando Abreu. In: Pequenas epifanias: crônicas (1986-1995). Porto Alegre: Sulina, p.13-15.

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de ‘minha vida’. Outros fragmentos, daquela ‘outra vida’. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — Tentação — na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ela pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprassse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de fel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

A maioria dos meus textos saem de pequenas epifanias aleatórias que anoto no celular. São sinapses que me acometem a qualquer instante, seja na aula de psicologia, seja numa noite de insônia. Acontece que nem todos são “aptos” a entrar no blog. Talvez por serem pessoais demais, talvez por serem uma fritação demasiado distante para que mentes que não a minha possam entender.

Esses dias minha memória de notas do celular lotou (sim!!!!) e, na hora de fazer uma limpeza, reli-as todas. 5, assustadoramente, descreviam intrinsecamente minha perspectiva de felicidade – que é eternamente mutável, como sabem – e se completavam, mesmo que distassem meses uma das outras. Era o conjunto de 2013. Dezembro, afinal!

Hoje escrevi o que seria a sexta parte. Mas essa também caiu no abismo dos textos inaptos – ele ainda tá só no início do ciclo. Talvez daqui a um ano ela esteja por aqui.

***
Eu lembro que andava contente pelas ruas contemplando com um sorriso bobo o raiar do sol e pensando em como a vida vinha me fazendo bem, feliz, alegre, me dando tudo o que eu mais queria e tudo o que eu nem queria mais. O problema é que faltava uma pessoa, um alguém não pra somar a felicidade, mas pra dividir, por que muita alegria assim, quando a gente guarda só pra gente, enjoa, e como ser feliz quando até a felicidade enjoa? Muita felicidade é como muita bala, ou você enjoa e para, ou você passa mal. A ideia é sempre dividir com alguém, ter alguém que vai sorrir de te ver sorrindo e vai sorrir pra você por que sabe que você vai sorrir de volta, e foi aí que a vida, dando sequência à esse trabalho magistral de me fazer a pessoa mais feliz do mundo, fez você cair bem na minha frente, como um coco que cai de uma árvore e, se não cai em você e machuca, te provê uma bela cocada. “Continua assim, vida”, lembro de pensar olhando a aurora no horizonte. “Logo, logo, estabiliza”.

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Eu lembro que uma coisa me incomodava: a felicidade só existe e é apreciada por existir a tristeza. Essa é a premissa dos opostos – se um não existisse, o outro não seria percebido. Se eu tava tão feliz, sabe, é por que há muito não sentia a tristeza e ela voltaria a qualquer instante. A vida tem dessas coisas, ela balanceia, não sei se a de todo mundo, mas a minha às vezes é, ainda que eu tenha motivos para crer que ela tenda a favorecer a tristeza. De qualquer forma, eu sabia que aquela felicidade era passageira e isso me dava medo de mudar o que quer que fosse – nem que fosse só uma aposta em alguém que, veja bem, a princípio, não poderia me foder de forma alguma. Eu juro que tentei, observei de todos os ângulos, mas como o vento, tu me pareceu inofensiva, até soprar mais forte do que eu sabia ser possível e mostrar todos os perigos que meus olhos não eram capazes de enxergar. Por essa incapacidade, segui com a brisa. A gente não tem tempo pra pensar, muito menos lugar pra voltar se errarmos – a gente só segue sendo levado pela brisa.

(…)

Eu lembro que não queria ir embora. Eu queria ficar ali, olhando você indo, só pra ter em mente, mais tarde, a imagem daquele momento e poder recorrer a ele todas as vezes que sentisse que eu estava sozinho e precisasse da tua companhia. Lembro que não voltei rápido pra casa naquele dia – fiquei observando o sol se deitar por trás das montanhas no horizonte, o céu roxo com tons alaranjados, o vento que mexia as árvores e as pessoas passando. Fiquei observando duas horas sozinho, sentado, celebrando – não só o dia, não só você, mas a vida. Naquele dia eu aprendi que minha vida não depende só de alguém pra ser feliz, sabe, só que facilita bastante. Eu aprendi isso por que poderia estar dizendo exatamente tudo o que disse aqui, mas falando do nascer do sol, pensando em outro dia, com outra pessoa e em outro lugar. Quando estive sozinho em pessoa mas com você no pensamento, percebi que a felicidade estava nos sentimentos que eu me fazia sentir por você. E, como dono deles, posso redirecioná-los para outro e outro e outro. De fato, não queria. Simpatizo. Gosto de você. Mas quando eu gosto o suficiente de alguém pra admiti-lo, parece que esse alguém passa a não mais merecer. Sem contar que a partir do momento em que deposito expectativa em uma pessoa, você, no caso, é de uma dificuldade colossal aceitar a decepção de não tê-las correspondidas, e eu sou preguiçoso, sabe, eu não quero dificuldades.

A culpa, novamente, está em mim. Não por escolher errado, mas por ainda tentar escolher.

“”

Eu sei que a vida continua. Ela tem ciclos, alguns bons, outros nem tanto. O bom terminou e, por favor, não entenda mal, você nem de longe foi a culpada – talvez um catalisador, quem sabe o fogo num paiol com pólvora, mas nunca a culpada. Na verdade, você foi só mais uma figura com a qual eu me imagino conversando eventualmente  – antes de você, eu pensava em outra. E antes dela, outra. A vida é como uma folha de papel em que, para escrevermos um novo parágrafo, precisamos apagar o anterior. Tu foste o novo parágrafo que, tristemente, chegou ao fim e não foi bom o suficiente. Mas eu tenho essa mania de escrever há muito tempo, e isso gera um ego, sabe, eu realmente acredito que eu escrevo muito bem e posso transformar qualquer rabisco em algo no mínimo digno de atenção. Tentarei, impulsivamente, ver alguma beleza no teu parágrafo, quem sabe escrever mais umas linhas com a letra miúda, provavelmente em vão, mas quem sabe um dia não estarei ouvindo uma música qualquer, em um lugar qualquer, com uma pessoa qualquer, e a inspiração para um novo parágrafo surgirá? E aí tu se tornará nada além de poeira de borracha, sendo levada pela mesma brisa que te trouxe.

De fato, não queria. Simpatizo. Gosto de você.

Adoraria que fosse tu que me desse uma folha nova pra continuarmos escrevendo essa história, mas eu escrevo com uma frequência muito grande e tu não parece disposta a me ajudar.

Então fazer o que?

.

ImagemA vida é a eterna repetição dessa imagem.

A bíblia é grande, eu sei, Leitor, mas se achegue, sente-se confortavelmente e pare de se preocupar com as outras abas do computador. Saiba que nesse instante é importante estarmos a sós conosco mesmos, eu como escritor e tu como leitor. Vou contar uma história, uma memória, na verdade, e talvez ela não seja interessante, mas me fez muito bem escrevê-la, então não tente gostar dela se não estiver disposto a mergulhar no que é dito em cada palavra e participar dessa viagem tão plenamente quanto eu.

***

hopper.nighthawks

Acho assustador lembrar em como eu ficava em outra modalidade de pensamento enquanto estava com você. É como lembrar de outra vida, de outra pessoa – aqueles dias foram como se eu vivesse uma vida que não a minha. Eu nem lembro como a gente começou a se falar, mas lembro que em pouquíssimo tempo as coisas pareciam nos ligar, talvez fosse inconscientemente, pelo menos pra mim era  a maior parte, ou talvez você estivesse planejando tudo isso pelo modo como vocês, sábias mulheres, conseguem sempre planejar a forma como abordar e fazer um homem se apaixonar, o caso é que a gente acabava se achegando, meio devagarzinho, meio de bobeira, fosse no intervalo, fosse antes da aula, às vezes depois dela, até nas quartas feiras que nem tinha aula, mas a gente ia pro colégio só pra “estudarmos” – tô colocando aspas por que eu só ia pra ficar com você, caso você realmente fosse pra estudar (o que, olhando agora, acho improvável) – e acabávamos ficando só juntos mesmo naquela sala mal iluminada e com odores estranhos, mas que era até bem aconchegante. Quantas tardes eu não passei naquela sala, fosse com você, fosse com meus amigos, fosse sozinho, olhando pra parede e refletindo, ou às vezes até estudando, por que nós tínhamos realmente que estudar um bucado naquela época! Se você me pedir para desenhar um retrato daquele ano, certamente seria de nós dois em primeiro plano com aquela sala de plano de fundo, e alguns dos nossos amigos em segundo plano, talvez sentados por ali em outras mesas – você lembra como aquelas mesas tinham tamanhos e alturas diferentes, e às vezes você podia estar sentado numa cadeira de 70cm de altura e conversar com os outros que estavam numa de 50cm? Era quase um degrau de diferença, e isso às vezes era engraçado, como aquela sutil vontade que nos dá de sentar sempre no banco mais alto do ônibus -, poderia até não ter nenhum amigo nosso, apenas aquelas pessoas que a gente tinha que conviver por que vez ou outra decidiam usar a sala também. O que importa é que nessa fotografia certamente teria eu e você em primeiro plano, ainda que você não tenha estado presente na maior parte do ano, mais ou menos como o fato de a capa do Pulp Fiction ser aquela menina que só participa de uns poucos 40 minutos, mas que certamente teve algumas importância especial para o telespectador – ou pro próprio Tarantino. Eu me lembro também de comentar de forma boba, quase infantil, para uma amiga muito chegada, que se vangloriava constantemente de ser “mãezona” – corretamente, pois realmente era muito e eu a adorava por isso – de todos os detalhes das coisas que nós vivenciávamos, não todos, mas os que eu considerava mais importantes, como aquele dia em que a gente ficou de mãos dadas quase que inconscientemente (falando por mim novamente) e mais tarde você comentou que havia gostado de segurar minha mão. Que coisa boba, homossexual e desnaturada de um homem se lembrar depois de tanto tempo. Mas, veja bem, eu me lembro com o melhor dos saudosismos, como uma coisa que me deixou muito feliz e foi muito bem apreciada, não há nenhuma amargura na minha memória, este é apenas um relato de uma noite de meditação em que me veio à mente esses momentos e resolvi me aprofundar neles por serem realmente muito felizes como recordação.

Teve o dia também em que você foi estudar em uma sala vazia, sozinha, enquanto todos estavam na outra sala, a mal iluminada que falei agora a pouco, e quase que inconscientemente me sentei na mesa em frente à sua e resolvi que queria estudar ali também. “Tem muita gente na outra”, disse. Realmente tinha, sabe. Isso acontecia de vez em quando, de muita gente decidir ficar ali, era uma sala de estudos afinal, só que quando isso acontecia eu preferia ir dar um passeio com os meus amigos e tomar um café, mas naquele dia deixei que eles fossem sozinhos consigo mesmos e me sentei ali, na cadeira da sua frente. A imagem que eu tenho desse momento é engraçada, por que apesar de eu estar na sua frente, nós nos víamos de frente… – o que eu quero dizer é que, apesar de estarmos em uma sala de aula, estávamos cada um em uma extremidade dela com as cadeiras viradas um pro outro, e como era uma sala pequena, isso fazia com que estivéssemos a apenas uns 5 metros de distância mas olhando um de frente pro outro, olhando furtivamente, é claro, eu estudava, lia alguma coisa sobre história, talvez revolta da vacina, essas coisas de história do Brasil que a gente tinha que estudar, você também estudava seja lá o que estudasse, mas vez ou outra ambos deixávamos encontrar uns olhares que denotavam que havia ali uma conversação, ainda que nenhuma palavra fosse proferida e o som do ar condicionado – que era barulhento! – ditasse o ritmo daquela moda.

Lembro de eu voltando pra casa no fim do dia e tentando calcular a partir de qual prédio eu podia finalmente dizer a mim mesmo que já estava na metade do caminho, e então colocava despretensiosamente aquela música, a sua música, que eu havia conhecido na trilha sonora daquele filme que eu assisti só pra puxar assunto com você – ainda que eu tenha dito que já o conhecia antes -, e acabava lembrando de você pelo resto do caminho, e retomava mentalmente algumas conversas que tínhamos tido naquele dia, ou apenas refletia sobre quão chato era o fato de não termos nos encontrado naquele outro dia.

Eu gostei bastante de você, sabe. Não vou dizer que foi amor, lógico que não foi, foi uma sedução, isso mesmo, no sentido que eu li esses dias em algum lugar para “sedução”, que é a possibilidade – não prometida, mas almejada – de haver entre os dois alguma forma de relação sentimental sustentada pela premissa de ambos a almejarem, e essa sedução era uma das muitas coisas que faziam do meu dia marcante, junto com as aulas que eu gostava, as boas partidas que eu tinha no videogame, as conversas que eu tinha com os amigos e tudo o mais. A questão é que essa sedução foi tomando importância maior à medida que aumentava a proximidade dessa relação sentimental mais profunda – a relação sentimental mais rasa existiu a partir do momento em que você sorriu pra mim a primeira vez, e isso pode soar clichê, mas o teu sorriso tem um espaço especial na minha memória – e isso fazia com que você ficasse um tanto quanto mais frequente no meu pensamento. Acho que essa pode ser uma visão cética e psicológica de todo relacionamento saudável, ou talvez seja só um jeito meio esquizofrênico que eu achei pra descrever aquela relação divertida que a gente teve.

O fato é que ela não terminou tão bem, isso é o ponto em que eu acho que nós dois podemos concordar, e também chega a ser engraçado lembrar essa forma por que lembra que eu disse que você me colocava em outra modalidade de pensamento? Então, o fato como ele terminou foi como um retorno à minha modalidade padrão de pensamento, e tal qual como ser acordado bruscamente depois de um sonho demorado e delicioso, fiquei atordoado, atabalhoado, não conseguia sequer por as palavras na ordem certa, principalmente naquele dia em que a gente teve nossa primeira – e única – discussão e eu saí dela me sentindo um completo idiota pelos rumos como ela se seguiu. Você lembra que eu disse “eu não tô nervoso, não tô, sei lá, batendo em você, tô de boa” e você perguntou “você queria bater em mim?” e eu fiquei tipo “what??”. Eu tinha acabado de dizer justamente o contrário! Aí fazendo aquela pergunta você fazia parecer que eu tinha deixado aquilo subentendido! Nunca! Cacete, aquilo me deixou desconcertado. Eu não bateria em você de forma nenhuma, isso nunca sequer me passou pela cabeça – até você dizer, é claro, aí por alguns instantes eu achei aquilo bem sexy, mas prontamente descartei a ideia. O que eu mais queria era te abraçar forte pra cacete e ouvir você dizer que dava pra deixar aquilo tudo pra lá, que era foda mesmo, mas que você tinha feito merda e que eu também tinha vacilado feio, mas dava pra gente esquecer tudo, absolutamente tudo, e começar desde o zero aquela dança. Mas o fim do ano se aproximava, e de repente a gente parou de ter aula de tarde, e aquela possibilidade simplesmente não poderia mais ser, já que a principal razão que a gente tinha pra ficar junto eram aquelas aulas, então o fato de eu não ter te abraçado e você não ter me dito todas aquelas coisas era até plausível, mas chato mesmo foi o jeito como terminou, né. Uma coisa é ser plausível não terminar bem, mas terminar mal é outra história.

****

Enfim, a fome bate e desse teclado sairiam milhares de recordações que estampavam aquele semblante tão adorável, então não vou me ater muito mais a elas. Um outro dia, quem sabe, pois lembrar dele é sempre uma coisa bonita, divertida, como que olhar um álbum de fotos que a mente garantiu de manter muito bem guardado no estábulo da memória.

Eu queria esclarecer para aqueles que ainda não perceberam uma coisa – eu não sou a professora Carol. (hahaha) Meu nome é Guilherme e a professora de vocês pediu pra eu substituí-la hoje. Vocês devem estar pensando “como diabos a porra desse colégio acha que eu vou aprender alguma coisa com esse mancebo que não deve nem ter terminado a faculdade de letras?” e eu queria interromper-vos logo aí para corrigir: eu não faço letras. Faço comunicação. “Ora porra, o cara é mais novo do que eu, não fez letras, e acha que vai me dar aula de português? Onde é que esse colégio acha essa gente?”. Eu também não sei. Eu juro que eu queria saber, mas não sei. A questão é que ele acha. E, por algum motivo, acreditaram que eu era apto o suficiente para estar aqui, recebendo dinheiro de vocês em troca de conhecimentos que posso prover sobre gramática. Se sou de fato apto? Aí eu não julgo dizer. Mas a primeira coisa que vocês podem aprender nessa aula é que muitas das pessoas que vocês verão na vida não são, de fato, aptas à posição em que estão. Elas, no entanto, souberam fingir com maestria o serem, e isso foi bom o suficiente para elas. Posso não ser apto a ensinar-vos gramática, mas, olhando daqui do tablado, nenhum de vocês está me convencendo de ser lá muito inteligente. Eu, por outro lado, se escrever algumas frases aqui nesse quadro e analisá-las sintaticamente posso convencê-los de que sou. Posso usar palavras difíceis, exemplos de filmes cultos, citar textos antigos, e outras milhões de artimanhas para convencer vocês de que sou inteligente. Vocês, por outro lado, tem duas opções – ou me observam embasbacados, com a boca aberta e a cabeça levemente caída para a esquerda, ou tentam fazer perguntas capciosas para testar se o tal do professor substituto é realmente inteligente. Nesse caso vocês seriam um tanto quanto babacas, por que alunos que tentam ser espertos demais acabam sendo uns babacas, mas eu as responderia com a maior naturalidade e cumplicidade possível – ainda que estivesse falando qualquer merda. Se responderia certo ou não, você só saberia se você fosse, de fato, inteligente, e não estivesse só fingindo. Nesse caso, eu o respeitaria, pois há de se respeitar pessoas que são realmente inteligentes nesses tempos de ignorância consciente e burrice justificada.

maço

Comprou um maço de cigarros. Queria fumar um ou dois, não é fumante, sequer gosta de fumar, mas já tinha tomado uma cerveja e sentiu que aquele dia tava com cara de cigarro. Ao voltar pra casa, de noite, tateou o bolso e sentiu o maço com aqueles dois espaços faltando.

O cobrador do ônibus era desses que conversam. Falam muito, mas dizem pouco. Engatou uma conversa com o motorista e, diante daquele barulho, todo o ônibus os ouvia. “Outro dia fui tomar uma cerveja”, começou a contar enquanto abria os braços e acariciava o bigode “e não é que um cara me pediu um cigarro? Eu disse: só tenho um aqui, mas compro um maço e te dou. Ele respondeu “não precisa, não fumo um maço”. Que folgado! To oferecendo um cigarro, ele acha que estou oferecendo um maço, e ainda recusa! Acabei não comprando nada pra ele no fim das contas”.

Tateou o bolso. Lá estava ele: o maço com menos dois cigarros. Levantou, foi até o cobrador e estendeu-lhe o braço com a caixa em mãos. “Toma, é pra você. Aqui tem 18 cigarros. As próximas 18 vezes que alguém te pedir um cigarro, você vai lembrar desse maço e vai dar um a elas. A única excessão é se for o seu último cigarro, nesse caso você pode dar uma desculpa.”

Saiu do ônibus enquanto o cobrador observava intrigado. Sabia que ele podia não cumprir o acordo – podia simplesmente desembolsar um maço. Queria, no entanto, que todas as vezes que alguém pedisse um cigarro ao cobrador, ele lembrasse que havia impossibilitado 18 boas ações de um passageiro aleatório apenas pela ganância de ganhar um maço deficiente de graça.

Talvez isso o fizesse pensar em quantas vezes não colocamos interesses particulares na frente de uma boa ação que beneficia a mais pessoas. Talvez o fizesse pensar “afinal, o que é uma boa ação?”. “Neguei um cigarro, salvei células do pulmão dele!”. Ou talvez só tenha impossibilitado o sacio do desejo passageiro de 18 pessoas. Afinal, o que é a vida senão uma sucessão de desejos passageiros? Não salvara a vida de ninguém! Impossibilitara apenas uma boa ação.

Foi a forma mais interessante que achara de se livrar de um maço. Tateou os bolsos e não sentia mais nada além de curiosidade.

Insetos

Olha, me desculpa. Do fundo do coração, eu realmente não queria ter feito isso, mas foi meio que uma necessidade. Você, sim, foi você quem me pôs nessa situação. Tu acha que eu não preferia termos ficado bem, abraçados, assistindo a algum filme numa tarde gelada de domingo embaixo dos cobertores, comendo pipoca e trocando carícias vez ou outra? Tu realmente acha que eu gosto de estar nessa situação, de ter de fazer escolher drásticas e difíceis como essa? Ah, me deixe te ajudar, tem um bicho aqui no teu rosto, uma mosca, acho, não sei, é pequena ela. Mas é claro que eu preferia ter ficado de bem. Ora, eu te amo! Eu te amo, amei e amarei, em todas as conjugações possíveis e viáveis, exceto amava, que subentende não mais amar, o que não é verdade. Você se importa de eu acender um cigarro? Ah, bem, acho que você não ta mais em posição de se importar com isso, ou com qualquer coisa, na verdade. Sei que devia parar, é feio, fedorento e desde que tu me disse que estava tossindo com um certo ar de doente que venho percebendo que este cigarro tem me causado maus bocados. É o veredicto: pararei de fumar a partir de hoje. Eu e você estamos começando uma nova etapa de nossas vidas, e nada melhor para começar novas etapas do que fazer promessas que nós realmente esperamos cumprir, embora, no fundo, saibamos que não a conseguiremos. Qual a tua? Olha, só uma sugestão, tente, a partir de agora, não trair mais quem tu diz amar. Por que isso realmente machuca. Chorei por muito tempo, e olha que eu nunca choro, tu sabe. Além do choro, uma arrebatadora depressão me fez ficar preso à cama por dias, quiçá semanas. Perdi a noção do tempo, já que nem a janela eu abri e no relógio acabara a bateria. Ah, caramba, me desculpa! Você é alérgica a cigarro, não é? Faz tanto tempo que não fico perto de você de verdade. Só em pensamento. Meu pensamento não te deixara um único instante desde que conheci o gosto de ter a tua imagem na minha mente pela primeira vez. Me desculpe, de verdade, por te por nesta situação. Apagarei meu cigarro logo após este trago. Pronto, está apagado. Tu sabe, eu sou muito esquecido. Uma coisa, porém, que eu nunca esqueci, foi o quanto eu te amo. Diferente de tu, que durante todo o tempo que estava lá, com ele, esquecia de mim, não é? Mas tudo bem, agora ta tudo bem. Eu já sofri muito, fiquei muito triste e, apesar de ainda alimentar um certo rancor lá no fundo, bem no fundo, do meu coração, eu já te perdoei. Quer dizer, te perdoei agora. Agora, te vendo assim, conversando contigo com toda a sinceridade, sem pudor ou receio de falar qualquer coisa. Nossa! Ainda não tinha sentido, mas agora que passou uma corrente de vento percebi o quão mal cheirosa você está. A vida dá voltas, hein? Não foi no chuveiro, que vocês ficaram? É, ele me contou tudo. Você me perguntou como eu tinha descoberto, não? Ele foi lá na minha casa e disse “amigo, tu já erraste alguma vez em vida? Um erro que tenha feito todos os outros erros parecerem sem a menor importância? Um erro, ah meu amigo, tu és de grandessíssima estima pra mim, por favor, não esqueça disso nunca. Este erro foi tão grande que só mesmo dissertando-o conseguirei explicá-lo: amigo, trai tua confiança.”. Contou-me os detalhes mais sórdidos. Acho que pensou que eu não me importaria. Entenderia que vocês estavam apaixonados, que era algo além do controle de vocês. Devo admitir que tenho parte da culpa por ele pensar isso: fiquei completamente calado. Não proferi uma única ofensa, não o agredi uma única vez. Não lhe toquei em um único fio de cabelo. Só sugeri que deixasse meu aposento e não mais voltasse, nunca mais. Dei certa ênfase ao nunca, espero que ele tenha percebido. Ah, esse inseto está de novo no seu rosto. Será outro, ou o mesmo? Muitos insetos vão te cercar agora, sabe. Acho que é melhor você se acostumar a eles, pode ser algo realmente necessário a partir de agora. Enfim. A polícia logo menos chegará. Cruzei com um vizinho enquanto entrava aqui, e creio que ele se assustou ao me ver segurando um cutelo. Apostaria todo o meu dinheiro que ele ligou para a polícia assim que saí do elevador. Mas não será preciso, sabe. Meu dinheiro já não é mais meu mesmo. Nada mais me pertence. Em fato, daqui a instantes nem minha vida pertencerá a mim. Opa, a sirene. Ah, se eu tivesse mesmo apostado, hein? Enfim. Preciso ir. Tome um último beijo de despedida. Despedida não, certo? Iremos ambos para o mesmo local em breve, imagino. Tu foste na frente, mas já chego. Sempre fui mais rápido que você mesmo.