Diálogo sobre todas as coisas.

“Eu estou com um problema, sabe”, disse sentando-se na cadeira e tirando o casaco verde-oliva surrado. “Acabei de me apaixonar perdidamente por 25 minutos.”

“Como assim?”, perguntei intrigado. Ele sempre vinha com aquelas assertivas inesperadas ou divagações filosóficas, e eu sempre o estimulava a desenvolvê-las.

“O que importa mesmo”, disse, ignorando minha pergunta após um longo suspiro “é o percurso, sabe. Minha primeira namorada, eu tinha 15 anos. Durou 6 meses o relacionamento. A segunda, já mais velho, não lembro quanto, durou 4 meses. A terceira. Ah! A terceira durou 15 dias. A quarta nem sequer existiu: ela estava comigo ao mesmo tempo que estava com outro. Nunca consegui dizer-lhe meus sentimentos. A quinta moça me arrebatou durante uma semana. Que belíssimo namoro! Com um aumento substancial e uma volta por cima! De não ocorrer para ocorrer por uma semana, acreditei ter tido grandes avanços ali. Entende o que eu quero dizer?”

Não entendia, na verdade. Balancei a cabeça lentamente pra cima e pra baixo, pois era isso que ele queria que eu fizesse, e esperei que continuasse suas divagações sem fazer nenhuma interrupção.

“Voltou a dar errado! Meu último amor durou 25 minutos! 25 minutos! Eu mal havia decorado o nome dela e já a amava perdidamente. Aquele sorriso, aquele rosto! Meu deus, se pudesse viver de uma só coisa nessa vida, queria que fosse dos beijos daqueles lábios. Queria! Não quero mais. Acabou o amor: ela é comprometida.”

Algo me preocupava. Ninguém consegue deixar de amar só por que descobre que não pode amar a pessoa amada! Demonstrei-lhe esse pensamento, no que ele hesitou um instante e respondeu em seguida:

“Ela está comprometida de um completo idiota. Sabe-se o bastante de uma pessoa pelo que se sabe da pessoa que ela ama.”

“E como sabes que ele é um idiota?”

“E não é evidente?”, perguntou, no que neguei com a cabeça. “Ele é um idiota pois não é eu!”

Agora tudo fazia sentido. Maior que o amor pela moça era o ciúme que dela sentia. Não à toa fora tão efêmero. Como fazer para que ele visse isto? Para que percebesse que a culpa não era nem dela, nem do homem dela, mas dele e somente dele? “E o que faz de ti tão melhor para ela?”, perguntei.

Olhou-me fixamente. Um olhar talvez raivoso, talvez digno de pena, mas fixo, irritantemente fixo. “Eu posso me tornar o que ela quiser. Ele nunca será nada além dele mesmo.”

O raciocínio começava a ficar tortuoso. Já não falava coisa com coisa. Eu precisava ser enfático, agressivo. Era um passo perigoso, mas preciso. Deixara-lhe dissertar, agora era o momento de tomar o controle da discussão. “E por que não te tornaste o que todos os teus amores passados queriam?”, perguntei.

Ele acusou o golpe de primeira. Levantou-se inquieto. Postou-se frente à janela e acendeu um cigarro. A penumbra da sala contrastava com o fiapo de luz que delineava parte do seu rosto. Após uma demorada tragada, virou-se para mim. “Tornei-me. E foi justamente esse o problema”, a voz parecia mais arenosa a cada palavra, a expressão arranhada, frívola “elas não sabiam em momento algum o que queriam; ou melhor – sabiam apenas que a cada momento queriam algo diferente.”

Como ele podia ser tão cego? A resposta estava evidente! Decerto não era a melhor resposta, muito menos a melhor conclusão, mas nem por isso deixava de ser a correta. Talvez estivesse aí a razão de sua cegueira – ela era voluntária, um modo de se proteger. Colocava a culpa nos amores e despia-se da própria culpa. “Eis aí o problema. Tu não podes te tornar o que o outro quer; tu tens que fazer o outro querer o que tu és.”

“Eu não sou nada”, respondeu enfaticamente, pegando o casaco verde-oliva da cadeira e fazendo como se fosse embora, mas parando novamente frente à janela. “Eu não sou nada e sou tudo ao mesmo tempo. Eu sou a diferença, a mudança. O que sou hoje, não serei amanhã. O que fui ontem já não sou hoje. Como queres que eu seja eu mesmo, se o que sou é o contrário de ser qualquer coisa?”

“Qual o contrário de ser qualquer coisa?”

“Ser tudo.”

Não fazia sentido. Não fazia, simplesmente. Mas eu não sabia o que responder. O que se responde a uma coisa dessas? Estava ele ali, abdicando completamente de qualquer tipo de coerência, e ainda assim me abatia. Eu sabia que ele estava errado, mas não sabia demonstrá-lo. Será que quem estava errado, afinal, era eu? Não era possível. Quem tinha problemas com relacionamentos era ele!

Mas quem é que não tem problemas com relacionamento nesses tempos? Ele tinha essa estranha capacidade de me fazer questionar todas as minhas certezas. Talvez, só talvez, fosse ele o certo, e todos os outros errados. Talvez, só talvez, não existisse certo ou errado.

Invejava sua capacidade de se apaixonar tão perdidamente. Ele invejava minha capacidade de não sofrer por amor, por isso recorria a mim. Mal sabia ele que não sofria por não senti-lo. Fui até ele na janela. Batia um vento forte, frio. Entendi por que pegara o casaco de repente. Não queria sair, queria apenas sentir-se confortável.

Acendi um cigarro junto a ele. “Eu nunca soube o momento certo de dizer “eu te amo”. Acho que nunca vivi um momento certo para dizê-lo”, admiti. “Tu não devia me procurar para conselhos sobre amor. Sou a pior pessoa do mundo pra isso.”

“Não é por isso que te procuro.”

“E por que é então?”

“Porque você é a única pessoa capaz de suplantar seus preconceitos e tentar me entender”.

Decorreu-se uma longa troca de olhares. Estávamos igualmente perdidos. Mas ele me procurara, não eu a ele. Devia estar mais desesperado por respostas do que eu. Alguns instantes se passaram, com ambos fumando em silêncio e olhando a fachada cinza do prédio da frente. “Eu estava lendo algo acerca dessa questão que você levantou”, eu disse, “pode ser que seja útil”.

“O que é?”, perguntou desinteressado. Sentia a tristeza na sua voz.

“Era um psicanalista que discorria acerca dos indivíduos múltiplos, uma certa forma de indivíduo contemporâneo que não consegue se prender a uma única forma de ser, que se adapta aos ambientes e às diferentes situações como um camaleão.”

“Como um camaleão? Por que um camaleão?”, ele perguntou ainda sem me olhar, mas eu sabia que captara seu interesse.

“Por que o camaleão se adapta pra proteger a si mesmo. Ele não o faz por que quer; é por sobrevivência. Sem isso, o mundo acabaria com ele.”. Silêncio. Alguns instantes de reflexão se fizeram necessários. Informações importantes não podem ser atropeladas.

“E você está sugerindo que talvez eu seja um camaleão?”, perguntou. O cigarro que acendera já queimara por inteiro, no que ele jogou pela janela o filtro e o observamos ser levado pela fria brisa que soprava.

“Não estou sugerindo, estou afirmando. Não terminei de falar sobre o que estava lendo.”

“Termine então.”

“O psicanalista sugeria logo em seguida que talvez a maior busca dos indivíduos múltiplos seja a coerência. Coerência na multiplicidade é o termo que ele usa. Ele sugere que, por mais múltiplos, mutáveis, por mais adaptáveis que esses indivíduos sejam, sempre existe uma coerência. Talvez o mundo não a veja, talvez as pessoas não a percebam, mas no fundo, no fundo, existe uma coerência.”

“E como ele pode afirmar isso?”

“Bem, talvez porque se você não é coerente nem para si mesmo, você deixa de fazer sentido. Você enlouquece, entende?”, nesse instante, um vento frio nos estremeceu. Pareceu-me renovador aquele vento limpando os cabelos dos nossos rostos, levando meu cigarro embora e embolando minha cortina com a mesa de canto.

Mais alguns instantes se passaram em silêncio. Ele virou-se, foi até a porta e abriu-a. “Tenho um adendo a sugerir para esse psicanalista”, disse, tornando a virar pra mim. “Loucos somos todos. Viver é uma loucura. A única sanidade dessa vida seria suicidar-se no exato instante em que nos sentimos vivos. Afinal, qual é o ponto de viver, se morreremos no fim das contas?”, fiz como se fosse responde-lo, mas ele levantou o dedo em riste na minha direção, “mas você fez bem em me contar isso. Que sou louco sempre soube. Mas agora sei que, antes de procurar um amor, preciso procurar por alguma coerência em minha loucura. Talvez você devesse fazer o mesmo.”

“Talvez todos devêssemos”

“Sim. Mas talvez nem todos possam.”, finalizou, saindo do cômodo.

Ao fechar a porta, pude ouvi-lo gritar um “obrigado”.

“Eu é que agradeço”, respondi em silêncio.

Quase errada

É porque eu acho que você vê o nosso relacionamento de uma forma limitada, sabe, quase errada, eu diria. Digo isso ciente de que não há forma certa de amar, mas que também há formas claramente menos certas, quase erradas. Talvez você tenha presenciado diversos relacionamentos que simplesmente não deram certo e acabou desenvolvendo a arrogância de achar que é autossuficiente demais para, numa sociedade em que os padrões sociais ostentam um amor idealizado, achar que pode seguir sozinha. Schopenhauer dizia algo como “na parte monogâmica do mundo, relacionar-se significa dividir seus direitos ao meio e dobrar seus deveres”, e eu acho que deve ser muito parecido com isso que você pensa, ainda que nunca tenha se dado ao trabalho de colocar isso em palavras. Ele não é chamado de autor do pessimismo à toa, sabe? Tu vês mais o lado ruim dos relacionamentos e ignora completamente a parte principal deles: o conforto. É isso, é isso! Eu não quero ser o cara que pede satisfação ou que estraga suas noites, longe disso!, eu quero ser o cara que te remete à ideia de segurança, à noção de, nesse mundo imprevisível e impessoal, ter alguém que promete – com toda a sinceridade do mundo – que vai estar ali pra você, pra te emprestar o casaco se sentir frio, pra puxar papo num domingo vazio, ou só pra tentar com toda a cumplicidade possível ser uma pessoa presente na sua vida. Eu não quero ser o cara que você vê nos filmes, pois costumo me ocupar tentando prover um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. Hoje tu tens tua família, teus pais, teus amigos, mas todas essas pessoas vão, um a um, desaparecendo, tu sabes. Eu sempre quis que meus relacionamentos fossem um consolo, uma mentira que ambos sabemos ser mentira mas mesmo assim nos permitimos acreditar, uma mentira que diz que estaremos lá um pro outro pra sempre, e acredito com plena e absoluta certeza que foi essa mentira que fez todos eles serem de uma intensidade inefável. Não peço que sejas recíproca, ou que pense igual à mim, nada disso. Minhas convicções são apenas minhas, e o que eu quero ser pra você não se relaciona em nada com o que eu quero que você seja pra mim, até por que eu não quero que tu seja quase nada além do que já é. Mas se preferes ver nosso relacionamento mantendo o ideal de que vais ser sempre sozinha consigo mesma e eventuais agregados, acho que não podemos continuar juntos, por que a cada vez que eu disser que te amarei pra sempre, tu me lembrarás de que aquilo não passa de blefe, loucura momentânea, mentira. E disso eu já sei; o amor eterno é uma mentira – mas a mulher que amo deve ser a última a me lembrar disso.

Eu queria te pedir desculpas, é isso. Não consigo parar de me pegar pensando, assim, esporadicamente, em você. Mas calma, calma!, não faça esse semblante de quem sequer lembrava da minha cara e não tem a menor paciência de me ouvir falar de amor, não é disso que eu vou falar. Eu sou aquilo que podemos chamar de uma pessoa racional, você sabe, quer dizer, não sabe não, e é justamente por isso que eu penso tanto em ti: por que tu me deslocou para essa modalidade de pensamento diferente, emotiva, irracional, idiota. Eu olho pro nosso relacionamento tentando entender o que deu errado e não tenho a menor dificuldade de tantas que são as razões! E todas elas, é verdade, foram dadas por mim. O que é que eu estava pensando? Nosso relacionamento foi a maior recaída de personalidade e autocontrole que eu já tive na vida! Me lembro daqueles dias e sinto a mais profunda e absoluta vergonha, e o mais peculiar de tudo é que eu nem gostava tanto assim de você, eu gostava da ideia de você, e isso, ah, isso sim era perfeito. Você era tudo que eu procurava: que gosto musical! Que sorriso! Que jeitinho! encaixava em todos os critérios, parecia até que era a inspiração dos critérios, e isso me afetou em proporções inenarráveis, mexeu comigo de tal forma que eu simplesmente não podia perder a chance de conquistar aquela menina que com tanta naturalidade encenava o papel de mulher dos meus sonhos. Freud diz isso, sabe, de se apaixonar mais pelo desejo do que pelo objeto desejado, e desculpa, mas no nosso romance freudiano tu foste o objeto não-tão-desejado-assim, e é por isso que eu penso em você, é por isso! Por que foi o que eu mais desejei, mais ansiei, e tinha tudo, absolutamente tudo pra ser minha, só que, nessa modalidade de pensamento irracional e emotiva que você – ou, melhor dizendo, a ideia de você – me deslocou, eu fui um exímio retardado, eu fiz de tudo pra afastar você sob a premissa de que tudo o que eu fazia era pra garantir que ia tê-la! Nosso relacionamento foi meu pior fracasso, o maior exemplo de vergonha do meu passado recente, e que fique claro, por favor, que tu não tem quase nada a ver com isso. Me refiro a um relacionamento que aconteceu somente na minha cabeça, cujo tempo tinha uma cadência mais lenta, e para o qual eu não desejo absolutamente nada além de que um dia eu possa acordar e não lembrar que ele existiu. E então te peço desculpas, na mais clara e absoluta conduta de quem repete os mesmos erros, pois te peço desculpas ciente de que tu não se importa, de que tu sequer lembrava do meu rosto até agora a pouco, mas peço-as para tentar dormir tranquilo sabendo que a imagem que eu tenho de ti está ciente de que eu não sou o que eu fui.

Hugo certo dia foi convidado a participar de um reality show. O programa consistia em: colocar uma determinada quantidade de pessoas em um ambiente dividido ao meio e atazanar-lhes os nervos de todas as formas possíveis só pra ver o que acontecia.

De vez em quando, o apresentador do reality aparecia, só sua cabeça, num enquadramento um tanto quanto hostil e ao mesmo tempo superficial, e obrigava os participantes a apontarem o dedo na cara de uma pessoa e dizer por qual motivo toda a audiência devia destestá-lo.

Após a saraivada de pedras, o pobre acusado é chamado pelo apresentador a se defender em um discurso de 30 segundos. Hugo, certa vez, foi este acusado.

– Acho meio infundado eu ter que defender a mim mesmo – disse – pois tudo o que eu fiz, eu fiz pensando estar certo, e por mais que eu tenha errado, a minha intenção era estar fazendo a coisa certa, e eu não sei quanto a vocês, mas em um ambiente em que todo mundo só quer parecer certo, acho quer querer fazer o certo ainda é a melhor atitude.

Hugo foi eliminado do programa. Não nessa semana. O discurso comoveu toda a audiência. Mas na semana seguinte Hugo disputou a permanência no reality com um cara muito mais bonito que ele e a audiência já tinha esquecido do discurso.

Foi um bom dia.

Maurício andava pela rua com o ar de que alguma coisa tinha acontecido e só ele não percebera ainda. Como numa final de campeonato de futebol,  ou no dia seguinte ao do fim da novela. Olhava para os lados e via as pessoas andando apressadas, desconjuntadas, até dando pequenas corridinhas. Não eram muitas: por algum motivo assustador, as ruas estavam vazias, apenas poucas pessoas precisando se locomover rapidamente.

Olhou de soslaio para o lado e viu um carro freando dramaticamente numa esquina. Uma mulher saía correndo dele, e as pessoas ao redor se aproveitaram da descarga de adrenalina que aquela cena havia injetado na situação e começaram a correr também – cada uma seguindo seu caminho.

Via alguns carros, poucos ligados, a maioria com pessoas dentro deles estacionados. Alguns, nas ruas menos iluminadas, podia ver que tremiam. Os hotéis estavam cheios todos, mas em muitos sequer havia alguém na portaria. Passava na frente de um quando o olhou distraído e viu uma faxineira, empregada do hotel, sentada num banco da recepção com o porteiro. Era chique – o porteiro usava terno, gravata e tinha até um paninho no bolso do blazer. A moça, faxineira, é verdade, mas bonita também, com uma elegância peculiar única das pessoas que são felizes. Ambos conversavam de mãos dadas e sorrisos tímidos no canto da boca.

Continuou andando, já nem sabia mais pra onde. Provavelmente um meteoro cairia na cidade, ou uma dessas empresas de energia nuclear teria dado merda, ou um tsunami até. Olhou rápido para um bar e viu uma mesa de velhos, todos com camisas dos seus times de futebol, tomando um copo de cerveja e rindo com os amigos. Aproximou-se dali e pode ver, dentro do bar, uma TV ligada no jornal: os dois âncoras, um homem e uma mulher, ele com toda a calma e roboticidade comum aos âncoras de jornal, ela com a timidez das mulheres felizes e pegas de surpresa, protagonizavam um pedido de casamento.

Diante daquela cena, todos os velhos sentados à mesa fizeram silêncio, pegaram suas carteiras e, observando uma foto 3×4 que carregavam ali, transpareceram uma leve comoção. A cena lhe pareceu um tanto estranha pela instintividade – para aqueles homens, o ritual foi como comemorar por um gol ou fechar os olhos ao dormir. Foi então que Maurício percebeu que todas as pessoas que estavam em pé corriam, enquanto todas as sentadas estavam calmas. Procurou por um banco para ver se tinha alguma coisa a ver e, ao sentar em um que achou num canto escuro, percebeu que não, não tinha nada a ver.

Levantou-se e saiu do bar procurando por alguma explicação. Passou por uma praça, onde uma cena lhe espantou: viu dois casais, um hetero e um não. Os dois conviviam, não juntos, é verdade, pois cada casal estava unicamente intrigado com a própria conversação, mas em plena harmonia com o outro.

Passou em frente a uma igreja abarrotada de pessoas. Ora, pensou Maurício, é claro! “Vamos todos morrer e só eu não me liguei disso”. Se aproximou para ver se conseguia alguma informação. Percebeu o quão estranho seria perguntar “por que você está aqui?”, mas a situação toda era tão estranha que não havia outra alternativa.

– Por que – respondeu a primeira idosa – eu aprendi a amar.

Aquilo lhe deu um baque. “Ora bolas! Esses religiosos sempre falando de amor!”

Saiu da igreja e já começou a ficar um pouco desesperado. A estranheza dos últimos instantes lhe fizera perceber  que, de fato, alguma coisa estava errada e só ele não sabia o que era. Continuou andando já sem saber para onde, até que percebeu que aquele lugar não lhe era de todo estranho: frequentara-o alguns meses antes, quando uma ex namorada morava ali. Depois que terminou com ela, percebeu que não havia mais motivos para voltar ali, apesar de ainda gostar do lugar. Tinha um pequeno parque um quarteirão depois da casa dela, onde ele se sentou e esperou pelo evidente apocalipse que, era claro, se aproximava. O céu estava com nuvens densas e escuras, mas o sol se pondo por trás delas dava uma coloração bonita ao fim da tarde.

Maurício encarou o chão por alguns instantes, desnorteado, e, quando olhou pra frente, pode ver que sua ex se aproximava andando rapidamente. Sentou-se do lado dele, segurou-lhe as mãos, e disse:

– Ainda bem que você me ligou.

– Eu… eu te liguei? – perguntou assustado, pois não se lembrava de nada de mais de uma hora atrás.

– Sim, seu idiota. – ela respondeu com um sorriso estampado – eu também… eu também ainda te amo.

Aquilo fez Maurício entender tudo. Era claro! Evidente!

O amor enfim começou a funcionar.

Estamos aqui parados a tanto tempo só falando e falando e falando como se essa fosse realmente a coisa que mais queremos fazer, como se nas últimas horas o único pensamento firme e latente não fosse se ela vai me beijar quando eu beijá-la ou se ele não me beijar logo – ou “espero que ele não me beije”, quem sabe , eu nunca sei o que você realmente está pensando. Entrar no cinema, nós precisamos é entrar logo naquela sala de cinema que vai abrir daqui a alguns instantes e então estaremos imersos numa escuridão tão densa que com ela sumirá nossos anseios e vexames, e enfim estenderei o braço, e enfim te fitarei em silêncio por instantes, e enfim você vai me olhar de volta e ficar em silêncio olhando pra mim com a resposta estampada no mais fundo poço da tua íris se eu posso ou não ir em frente, e enfim todos os pensamentos desimportantes que atravancam nossa coragem vão sumir como se fossem um alarme de carro acionado na madrugada que enfim é desligado.

Eu me pergunto, então, por que é que nós estamos aqui, parados, só falando e falando, encenando em dupla esse texto improvisado cheio de rabiscos, cheio de coisas que não deviam ser ditas e coisas que deviam ser ditas mas não foram, nos expondo ao ridículo e ao julgo, nos expondo à possibilidade de pisarmos fora do tablado e cairmos na plateia, de onde nosso corpo estirado apenas observará o espetáculos das cortinas se fechando e do outro partindo, então você coça a bochecha e comenta alguma coisa sobre o filme que a gente vai ver, mas eu não me interesso pelo filme nem pelo comentário, eu me interesso pelo teu rosto tão cuidadosamente delineado e interpretado pelos meus olhos, e eu agradeço à Deus, ou aos meus pais, ou ao cosmos, ou a Nietzsche, eu agradeço à força que de todas as coisas no mundo e de todos os tempos com seus milhões de minutos, possibilitou que estivéssemos compartilhando esse juntos, comigo olhando e interpretando esses traços do teu rosto que já são bons o suficiente só por existirem, bons pra mim, principalmente, que me sinto tão bem, tão bem! só de vê-los assim de perto e poder – dentro do cinema – tocá-los.

Eu hesito, tu hesitas. Continuamos então nessa malemolência sentimental de apenas aproveitarmos o fato da existência do outro, como uma história que mal nos contemos para saber o final mas ainda nos entregamos ao seu desenrolar, pois sempre fomos desse tipo de curiosos malemolentes que sempre tem dúvidas mas esperam que as respostas venham até nós sem que tenhamos que fazer lá muito esforço.

Eles estavam conversando sentados de boa – ele, ela e algumas outras pessoas. Até que chegou aquele moleque. Ele gostava dela, ela gostava dele, tava rolando um clima, aquele cortejo adolescente, sabem, mas aquele moleque chegou pra atrapalhar. Ele já havia visto aquele moleque outras vezes – a princípio, estranhara no quão cruel a genética pode ser com algumas pessoas. A sociedade não exige tanta coisa pra te aceitar bem! Só que você seja ligeiramente bonito, sociável e inteligente. Mas quando ele viu aquele moleque teve pena de todo o grupo de pessoas que, como aquele moleque, falhavam nessas três características.

E então chegou o moleque, e ela foi falar com ele. Era um grande corredor com o chão cinza grafite e as paredes por vezes amarela, por vezes branca. Ela e aquele moleque foram pro fundo do corredor conversar alguma coisa até que aquele moleque encontrou com um amigo e os três se juntaram.

Ele continuou conversando com aquelas algumas outras pessoas, ainda que vez ou outra espichasse de rabo de olho para ver o que que ela e aquele moleque estavam fazendo. Num desses rápidos exames, percebeu que aquele moleque tinha pegado o celular dela e entregado pro amigo. Este, com seus aproximadamente 1,80m, deu um ligeiro pulo e o colocou em cima da parede, a qualtinha um buraco no seu topo para o basculante que não estava lá por algum motivo.

Ela se desfez. Com sua voz sussurrada, meio como se estivesse o tempo todo falando em falsete, pediu para que eles o devolvessem e não brincassem assim com ela. A cena era misto de tristeza com adorabilidade. Aquele semblante incomodado e aquela voz pedindo “por favor! devolve meu celular!” ecoando daquele ser humano que ele gostava tanto eram os encarregados pela parte adorável. Ele não gostava do sofrimento dela – pelo contrário, gostava do fato de que ela estava tão bem que seu maior sofrimento era o de ser vítima de uma brincadeira idiota. A tristeza, é claro, estava relacionada àquele moleque, que falhara mais uma vez na única exigência que a sociedade fazia para com ele, que era a de não ser um completo desperdício de carbono.

Ele não entendia como ela ainda podia ser amiga daquele moleque. Ficou inconformado e, numa explosão de adrenalina, levantou-se, foi até o fim do corredor e se dirigiu àquele moleque com um “cara, qual o seu problema?”. “Tamo só brincando, cara”, aquele moleque respondeu, “tamo vendo dali de trás e ela não parece que tá se divertindo”, ele disse enquanto dava um pulo esforçado – diferente do outro, ele tinha apenas 1,75m – e recuperava o celular.

Instaurara-se um clima esquisito. Por que ele tinha feito aquilo? Não teria sido demais? E se eles estivessem só brincando? Ele se sentiu meio que aquele menino idiota que aparta a briga no intervalo do colégio na quinta série. Mas o semblante triste dela o fizera tão mal! Na briga do colégio não tem nenhuma menina que ele goste tanto…

Retornou, então, à consciência, e percebeu que a última cena não passara de um devaneio: ainda estava sentado com as outras pessoas observando impassível enquanto aquele moleque e o amigo maltratavam-na. Não sabia como agir.

Então apenas não agiu.

Aquele moleque se compadeceu e a entregou o celular. Ela e aquele moleque voltaram a conversar. Poucos dias depois, namoraram.

Ele não sabia se a culpa era dele ou daquele moleque.