Em 2013, não havia revolta. Havia insatisfação. Não gritávamos Fora Dilma. Gritávamos Fora Cabral e Não Vai Ter Copa. Pichavam pontos de ônibus por que a luta era contra o aumento da passagem. E xingava-se o Cabral e o Paes por que a luta era contra o sucateamento do ensino e da saúde pública do Rio de Janeiro. Os caras foram eleitos, manipulando uma maioria ignorante, obviamente, pois não há como chamar de outra coisa um eleitorado que mantém pessoas como o Cabral no poder há tantos anos, mas foram eleitos.

Hoje, não. Fomos roubados. Meia dúzia de engravatados disseram pra 54 milhões de pessoas: a gente faz o que quer. Nós devemos dizer: não fazem, não. É difícil, eles ainda são apoiados por uma maioria ignorante e manipulada, e eles tem dinheiro, e cacetete e advogado. Mas nós somos 54 milhões. Com muito menos se resistiu à ditadura. Tem que quebrar banco, sim. E ponto de ônibus. E carro de rico. E a entrada da Folha de São Paulo. E vaiar a Globo. E xingar a Globo. E quebrar o PROJAC. Quebrar a casa do Pedro Paulo. Tem que botar fogo na Rio Branco. Tem que fazer disso aqui um inferno, pois já somos governados pelo capeta.

mais uma vez me irrita a mediocridade e comodismo dos outros

Ontem eu voltei às aulas pela última vez e já me estressei. Não última, última, por que eu ainda farei muitas aulas nesta vida, mas foi a última vez na faculdade. Era, inclusive, a matéria da qual sairá o meu projeto de TCC.

O professor ensinava as diretrizes de um TCC. O que pensar, como discernir as coisas, dividir os pensamentos, metodologia, preparação, etc, e eis que avisa – vocês precisarão ler um, e apenas um, texto. Tem algumas páginas e é em inglês.

Nisso, uma aluna do oitavo período de publicidade e marketing da UFRJ, levanta a mão e reclama – professor, e quem não sabe inglês?

O cara ficou espantado. Sério isso, filha?, deve ter pensado. “Galera, saber inglês é precedente fundamental para se formar em comunicação”, respondeu com uma paciência rara em professores de faculdade. Só com essa frase, e a despeito da paciência do cara, a mina já se estressou. Universitário adora se estressar com professor, né. É a chama combativa da juventude. E então começa o discurso vitimista “ah professor você não pode cobrar isso nunca me cobraram isso o governo não me deu condições de fazer um curso e eu não tenho dinheiro para pagar um então você não pode me cobrar que eu saiba se o governo nunca me deu essa possibilidade TÁ”.

Neste ponto, o professor diferiu de mim. Eu teria dito:

“Quem aqui fala inglês?”, quando a esmagadora maioria levantasse a mão, perguntaria – “eu devo adaptar meu trabalho para você ou você que deve se adaptar ao nível de cobrança do ambiente em que está?”

É um tema difícil de se abordar por que é muito tênue a linha entre a falta de oportunidade e o conformismo. Mas uma pessoa que se pretende formar pela maior faculdade do país precisa no mínimo falar inglês, não? “Eu não tive condição de pagar um curso”, então você não tem condição de estar aqui. Desculpe, mas as coisas são como são, por mais injustas e cruéis que sejam. Você não tem condição de se tornar uma comunicadora e influenciadora se não consegue sequer se informar por uma mídia gringa. Você não tem condição de fazer um trabalho relevante o suficiente para fazer jus à sua faculdade, se não consegue ler nem escrever literatura acadêmica de relevância, pois para ser relevante precisa ser em inglês. Você não precisa SER relevante. Mas precisa estar apta a sê-lo. E você não o é.

As pessoas adeptas desse discurso de “se o governo não me deu oportunidade, você não pode me cobrar” só serve para justificar a preguiça dessas pessoas.

Que aqui seja feito um adendo – o título de preguiça não se refere a todos. É evidente que um jovem mal alimentado, cujos pais trabalham exaustivamente, cuja casa é alvo de tiroteios e drogados, cuja escola é fraca e falha, cujos amigos são de má formação, deste jovem não podemos cobrar o inglês. Mas este jovem também não estará pleiteando um diploma na ufrj. É cruel, mas é fato. A menina estava. Ela teve condições. O governo já a carregou pela mão até ali. E ela não conseguiu entregar-lhe nada além do ESTRITAMENTE MÍNIMO.

O sistema não mudará por que você foi prejudicado por ele. O sistema não vai mudar para te abraçar. Todos ali sabem um conteúdo. Se você não sabe, o deficiente é você, e isso é um problema exclusivamente seu. Não importam seus motivos. Todo mundo tem motivo. Fosse uma entrevista de emprego, você seria automaticamente excluída. Fosse um professor mais rígido, você tomaria um fora e seria ignorada.

É a mesma ideia do cara que contrata estagiário. Se o contratante exige inglês, adobe, Office, experiência, portfólio, é por que sempre tem gente que tem isso tudo! Pra que ele vai contratar um indivíduo que não sabe nada, podendo contratar um que sabe pra caralho? Você faria o mesmo. Se o mercado está difícil, VOCÊ deve ter o diferencial. Gente com o básico tá sobrando por aí. Não é o estágio que deve te contratar enquanto você ainda é INCOMPETENTE e te dar toda a formação para você.

A menina monoglota, ao invés de reclamar de não saber inglês, podia ter feito uma série de coisas – não só cursos particulares, que apesar de caros, oferecem bolsas acessíveis, mas cursos em comunidades, que se ela tão pobre fosse certamente conheceria algum, ou fazer jus ao fato de ser a primeira geração a ter acesso a internet e APRENDER SOZINHA. Se o mundo não te dá nada, TE VIRA SOZINHA! Ninguém vai se virar por você. Um professor te amolece aqui e ali, mas o teu chefe não o fará amanhã. Há páginas na internet, cursos completos no youtube, aulas particulares online, aplicativos como o duolingo, além de, meu deus, a PRÓPRIA UFRJ OFERECER CURSOS GRATUITOS DE LÍNGUAS!

Enfim, o professor, demonstrando uma calma que em mim é escassa, mudou o trabalho da turma inteira por uma retardatária. E houve quem desse razão.

Por que as regras devem ser feitas mesmo pela exceção. E o grupo inteiro deve se atrasar pelo retardatário.

É assim mesmo que as coisas funcionam fora da faculdade.

As pessoas são preguiçosas. Acomodadas. Se gastassem metade do tempo que passam reclamando, estudando, seus problemas seriam resolvidos. Mas continue esperando que o sistema e o Estado mudem o jogo para você, ô café-com-leite. Amanhã você se comprazerá com um emprego meia-boca que lhe caiu do céu, enquanto eu alçarei, se tudo der certo, vôos bem mais altos com meu próprio impulso. Pois, se para aprender inglês precisei de curso, espanhol e italiano aprendi sozinho.

“O Estado não é teu pai,
Deus não te deve nada”

Sem propor juízo de valor

Pokémon Go é uma brisa muito doida. Tenho passado dias inteiros na rua e é interessante ver a quantidade de pessoas que passaram a andar com o celular na mão. Basta dar uma rápida olhada na tela do indivíduo e já se nota o verde fluorescente e o azul bebê do jogo. No Maracanã, onde tenho trabalhado, um gordinho desengonçado caminha diariamente procurando pokémons. Ele certamente não fazia isso antes. Naquele ambiente, onde tantas – tantas! – pessoas caminham e correm o dia inteiro – inteiro! -, o menino começa a praticar a caminhada por conta de um jogo. Parece um zumbi, mas ao menos levantou do sofá.

O gordinho sedentário pode ser engraçado. Muitas pessoas brincaram com justamente essa situação. Mas hoje, voltando do trabalho, vi um moleque andando na minha rua. Cabelo despenteado, camisa gasta da JMJ e uma cara esquisita, grudada no celular. “Tá jogando Pokémon Go, né safado”, pensei. “Será que tem algum bom por aqui? Vou abrir o meu”, pensei em seguida. “Vou falar com ele pra perguntar”, foi o que estava pensando enfim quando notei que o moleque, além de andar desengonçado, estava babando. Sim – babando. Ele não só era esquisito, mas era uma dessas pessoas que, por alguma razão, tem alguma disfunção e anda por aí todo esquisito e babando. Algumas pessoas tem pena, mas acho um sentimento esquisito. E lá ia, com toda a dificuldade que tinha para andar naquele asfalto fodido, com o rastro de saliva no chão e na camisa gasta, caçando pokémons Méier adentro. Ele também certamente não fazia isso antes. Fiquei preocupado dele ser assaltado, mas se a galera que cuida dele permitiu, deve estar de boa.

Geralmente o público do Pokémon Go é uma rapaziada jovem playboyzinha, que chama os broders pra caçar pokémon por aí, ou simplesmente que precisa percorrer algumas distâncias e aproveita para fazê-lo com o celular nas mãos. Eu tenho caçado nos intervalos do trabalho ou com minha namorada, e faço parte da rapaziada jovem playboyzinha. Os personagens dos dois relatos também, mas cada um do seu jeitinho diferente, adequado às imposições saudáveis (e nem um pouco seguras) do Pokémon Go.

Eu não quero incutir juízo de valor em nenhum desses relatos, pois se num primeiro momento eu também ri ao perceber o menino gordinho zumbizando, num segundo momento me senti péssimo, e senti extrema simpatia pelo moleque. E se num primeiro momento me sensibilizei com o menino babando, em todos os momentos seguintes assim permaneceu.

Chega de estruturar tudo por enquanto

comentava com as pessoas de que detestava ir dormir. Era criança, nem pensava direito nas coisas, só saía dizendo. – Detesto ir dormir. – quando davam ouvidos à criança quieta – Fico horas na cama, girando, girando, girando. Vem um monte de pensamento ruim. – Minha mãe, que já pensava antes de sair dizendo, se reconhecia – eu também, a mesma coisa. Detesto esses momentos antes de dormir.

Que pensamentos ruins que eram é que eu nunca tinha parado pra atentar. Medos, cobranças, hesitações. Eu lembrava da menina que amava, pois sempre amei uma menina, ainda que uma paixão distanciada da realidade, genuinamente impossível, e portanto tristíssima. Lembrava delas e vertia lágrimas. Até os 13 anos eu chorei bastante, devo ter esgotado o estoque. Já chorei com She, do Elvis Costello, e She, do Green Day. Já chorei com aquela do Renato Russo com o RPM. Mas esta tristeza, a de lembrar do amor, ela parecia bonita, confortável até. Aprendi a transformar em arte. Aprendi a transformar em reflexão também. E daí por diante a tristeza que dava, o pensamento ruim que dava, e ele sempre dava, virava inspiração, igualzinho à chuva que cai sem avisar, que pode nos enfurecer ou lavar a alma.

Nem todos assim o foram no entanto. Meu pensamento tropeçava nas cobranças, nas exigências. No colégio que enfiava conhecimentos goela à baixo, com testes e provas e trabalhos e trabalhos e trabalhos e quando eu parava de estudar para um já estava obrigado a estudar para os seguintes e nunca ia bem nas provas por que talvez eu não devesse fazer provas, mas quadros, ou textos, ou histórias, ou imagens, uma porra de uma escultura, até uma parede, ou o que quer que eu quisesse além de provas e trabalhos.

Pensava inclusive na maior cobrança de todas, que na minha cabeça estava dissociada do colégio, ainda que obviamente não estivesse – a cobrança religiosa. Pois essa era onisciente. Essa era onipesente. Essa te cobra – nós seguimos as regras, nós não pecamos, nós estamos limpos, e portanto você deve estar também. Nós nos abstemos – abstenha-se. E às vezes eu não queria me abster, às vezes eu só queria que alguém gritasse logo que É O RACHA e a partir desta expressão chutávamos a tudo e a todos sem prestar muita atenção em nada.

Cobrava-se tanto, mas tanto, mas tanto, como se quisessem que faltasse tempo ao pensamento livre, que vem exclusivamente a partir do ócio. Falo no passado, parece ser do presente. Nas roupas, na moral, no jeito de ser e agir. Proliferamos, sem perceber, pois quando estamos alienados não notamos que estamos alienados até que alguém vá e nos diga que estamos alienados. Mas recusamos, pois até então pareceu tudo bem, pareceu tudo legal, apesar de que antes de dormir, quando eu desligo a cabeça das cobranças e paro pra pensar na minha vida, eu sinta uma tristeza, um pensamento ruim, mas tá tudo bem, tá tudo legal, eu nem penso nisso durante o dia – que alienação que nada. Quase mudei de assunto, quase já te fiz esquecer o que que era que falávamos, por que é confortável esquecer do que falávamos – da proliferação das cobranças, nós, eu, você, hoje, no presente, agora há pouco na rua, daqui a pouco, agora mesmo. Da proliferação desse cerceamento do pensamento por todos os momentos e aspirações de nossa vida.

Eu era criança e sentia medo e tristeza quando me encontrava comigo antes de dormir. Sentia medo de lembrar do que fizera e do que faria no dia seguinte. Medo dos sonhos, que às vezes, quando tinha medo demais, viravam pesadelos.

Na realidade eu já nem sei se tinha tanto medo assim. Adotei esse discurso do medo para fazer o contraponto com a situação atual, presente, na qual sou destemido e livre. É a analogia mais óbvia, falo de antes e de agora, superei meu problema, me adequei ao discurso corrente da Superação – já posso postar no Facebook. O que não passa de uma mentira, pois o pensamento conservador, de cerceamento, de contenção das liberdades individuais, é constante, é necessário, é como o verso de uma folha. A folha possui dois versos, que apesar de serem dois coexistem de forma tal que uma não existe sem a outra, o verso não é a frente, mas sem a frente não tem verso. E a força de busca pela liberdade é a frente e a força de contenção conservadora é o verso e existimos e coexistimos e isso dá medo e é esse medo que lá na frente torna grandiosas as nossas conquistas.

O passado existiu e foi pleno da forma que foi, trazendo-nos ao instante presente em que todas as coisas são da única forma como poderiam ter sido. Este texto talvez não tenha coerência nem lógica, nem início nem fim, só um monte de palavra falando sem emitir absolutamente som nenhum, e assim mesmo fala-se de tudo e de todos, pois é fruto do pensamento livre, é nele que estamos querendo chegar, eu, você e a galera toda.

Vamos buscar o pensamento livre, vamos pô-lo como ideal, ideal inalcançável, sim, pois o pensamento conservador está em nós, em nossas veias e entranhas, reflexos e instintos, ainda que eu também não goste tanto dessa história de instinto, mas o conservador é necessário. Dizia Freud, dizia Nietzsche, dizia Aristóteles, dizia Buda, dizia a galera toda desde o princípio da história do dizer e do pensar, existe os dois, diziam, Freud chamou de pulsão de vida e pulsão de morte, Nietzsche chamou de Força de Potência, Aristóteles de Physis e Logos, Buda de sei lá o que, e alguns disseram “sigam o caminho do meio”, e outros disseram “foda-se o conservadorismo, extasie-mo-nos de liberdade”, e outros ainda ousaram “você não tem controle nenhum sobre nada então apenas vá a um psiquiatra”.

O caminho do meio. Fui eu que escolhi. Pois na rua faz frio e é gostoso estar quentinho. Pois eu sinto fome e McDonalds é gostoso. E há um custo, há uma cobrança, e eu aprendi a lidar com elas durante toda a minha vida. Às vezes o medo ainda tenta aparecer antes de dormir, mas eu já o conheço, já vi que nessa máscara está só a satisfação por estar vivendo e encarando coisas novas. E assim, sem lenço e sem documento, num sol de quase dezembro, eu vou, e este texto, sem fim nem início, sei lá o que

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Nietzsche diz em alemão: es denkt in mir, que significa algo pensa em mim. Perceba que não é ‘eu penso’, e sim algo pensa em mim. Isso é fundamental. Em outras palavras, o que acontece é que você não é senhor do próprio pensamento. O pensamento é uma atividade do seu corpo que transcende o seu controle consciente. Algo pensa em mim… portanto, existe uma força que pensa em mim, e que obviamente escapa à minha decisão, ao meu controle, a minha deliberação, e assim por diante.