Quantas horas de sua vida os peixes estão tomando?

No “O velho e o mar” do Hemingway, um pescador idoso sente-se desafiado pela sociedade a capturar um peixe, e eis que, na busca que empreende, encontra um peixe gigante que agarra-se ao anzol e puxa seu barco pra bem longe, no alto mar. O idoso encara aquilo como o grande desafio de sua vida, e não mede esforços para resistir às insinuações do peixe. O embate dura dias e muitos quilômetros mar adentro, até que o peixe fraqueja e cai nas redes do velho. Acontece que, na longa volta para terra firme, o cheiro do grande peixe morto chama a atenção de uma infinidade de peixes pequenos, que atacam o barco do velho e se alimentam do peixão, fazendo o velho voltar pra casa, 5 dias depois de deixa-la, de mãos completamente vazias.

Eu sempre achei que essa história fosse sobre o homem que chega na terceira idade e precisa se reafirmar perante o mundo. Sobre a relação do homem com o mar e a natureza. Sobre persistência.

Eu nunca notei o verdadeiro sentido do livro: nenhuma conquista escapará aos olhos dos peixes famintos.

E aí tu arruma um emprego. E o primeiro peixe a morder seu peixão é o banco, que cobra 20 reais pra que você possa ter uma conta pra receber o salário. Depois, o peixe do transporte público te cobra 40 reais por um riocard e 3,80 por cada passagem. Se quiser utilizar trem, pode chegar a 7. Se for de outro município, meu irmãozinho, diga tchau pro teu peixão. Aí tu puxa distraidamente o celular e um peixinho faminto te assalta. Vai comprar um mimo na Internet e o peixe do frete é mais caro que o objeto. Só de pensar no imposto, 1/3 do teu peixão ja é, necessariamente, assaltado pelos peixes do Estado. Aí chegam as contas. E o peixe da luz, da água, do seguro e do gás praticamente acabam com a tua pesca. E ai, quando tu tenta tirar um pouquinho de proveito da tua empresa e trocar os restos do teu peixão por um pouco de entretenimento, não há diversão que não demande pelo menos uns 50 peixes se alimentando da carcaça esvaziada do teu patrimônio.

O mundo está irracionalmente faminto e seu peixe é apetitoso. Mas calma. Tu nem precisava de peixe mesmo, pescador. A tua função no mundo é pescar, não se aproveitar da pesca. Deixa isso pros engravatados. Amanhã o mar te espera novamente e ele não tolera atrasos.

Uma coisa que aprendi estudando Marx é que o dinheiro não vale o quanto ele vale. 5 reais não valem 5 reais. 5 reais valem o tempo que você trabalhou para conquistá-lo. Dinheiro é tempo. Se você ganha 50 reais por tarde de trabalho e gasta 50 reais em uma besteira qualquer, você não está jogando no lixo apenas 50 reais – e sim uma tarde de sua vida.

Quantas horas de sua vida os peixes estão tomando?

Eu tenho pra mim que na real sempre tem uma galera que só ta desesperada pra acreditar em alguma coisa. Sempre houve a imagem do jovem revolucionário que envelhece e vira coxinha . São nossos pais, o ultraje a rigor, aquela música da Elis Regina. Aí que tá. Eu olho pros lados e vejo um bando de adolescente esquerdista que nunca parou pra pensar realmente. São completamente doutrinados. Pela galera da facul, da roda de beck, do facebook. Aí envelhece e muda de doutrina, por que aí ele ja tomou no cu o suficiente pra começar a acreditar na meritocracia. Não consigo levar essa galera a sério – ninguém consegue. Talvez daí surja a convicção quase histerica com que gostam de falar.

A vida está perfeita vírgula

Às vezes a vida é boa. Na maioria das vezes, na real. Só nos falta saber interpretar assim. Às vezes ela só é ruim mesmo. Mas, na maioria das vezes, é boa. Agora, espetacular é coisa rara. Perfeita, jamais.

A vida está perfeita, mas.

Ontem meus pais decidiram viajar. Meus pais nunca viajam. Minha mãe só passa mais de 24 horas fora de casa quando ela se muda. Ela não dorme fora, não viaja, não sai de noite, não faz nada que leve muito tempo fora de casa. Minha mãe às vezes é como um móvel da casa, está sempre ali.

Ontem decidiu viajar. Meu pai ficou desempregado essa semana então estamos cortando uns custos. Mas, poxa. Os últimos 18 anos ele esteve incessantemente escravizado pela capital. Está desempregado, mas está feliz. Foram viajar. Passar dois dias ali em Cachoreira Paulista, há duas horas de casa. Se pudesse, voltavam no mesmo dia, pra não passar muito tempo fora de casa, senão minha mãe pode ter uma síncope, essas coisas. Mas meu pai já não tem mais idade para dirigir de madrugada, então decidiram passar a noite por lá mesmo.

E aí, pela primeira vez em sei lá quantos anos, eu tive 24 horas com a casa livre pra mim. E, pela primeira na vida, a casa estava livre e eu tenho uma namorada.

Foi perfeito.

Sim, plenamente. Sem tirar nem por. Acordamos, tomamos café na varanda, fumamos um beck. Fizemos um almoço maravilhoso. Cebola empanada com molho agridoce e linguiça. Comemos tanto, mas tanto, que caímos no chão da sala e ficamos por ali mesmo. Tiramos uma soneca abraçadinhos. Lavamos a louça, consertamos a cama, limpamos o quarto, pintamos o meu cabelo de loiro e fizemos minha barba. Entre uma atividade e outra fazíamos sexo e brincávamos com minha cachorrinha, que nos acompanhou o tempo todo, além de darmos um dois aqui e ali. Assistimos ao melhor jogo de futebol do ano tomando cerveja, com um Fluminense surpreendente e arrasador metendo 4×2 no vice-líder do campeonato. No quarto gol, pulei pela casa gritando de alegria. Joguei minha roupa longe. Bati na parede e no sofá. Êxtase. Estávamos tão ocupados vivendo que nem notamos já ser hora da janta. Fizemos babata inglesa, com uma batata do tamanho da minha cabeça, queijo, calabresa e maionese. Arrastamos nossas enormes barrigas até o quarto e assistimos Breaking Bad agarradinhos até cairmos no sono.

A gente tinha que acordar 6 horas da manhã, mas quem disse que acordamos. Foi só às 11h que primeiro levantei as pálpebras e sussurrei baixinho “Jujuba, tá na hora”. E um novo dia começava, ainda sem meus pais. Que maravilha a liberdade! Tomamos café e beck e almoço e gozamos de tudo que a vida nos propunha naquele instante. E aí fomos na praia. Que dia maravilhoso para se ir à praia. Só notamos o quanto de calor fazia quando vimos um termômetro na rua apontar 39ºC. Já estávamos quase no Leme.

E aí, meus amigos. É tibum na água. Geladinha, cheia de ondinhas, perfeita. Minha jujuba é a coisa mais linda embaixo d’água. Ela e seu 1,45m, seus dois quilos de bochecha boiando, suas perninhas fininhas dando bananeira e sua franja de indiazinha. A praia já não é mais praia sem ela ali.

Deitado na areia, fiquei pensando com ela.

Estou desempregado. Mas estou mais feliz do que nunca.

Mas emprego traz liberdade, ela argumentou.

Traz? Estamos na praia numa terça-feira. Nos divertimos o dia inteiro por apenas 7 reais da passagem. Empregados estaríamos num escritório maldizendo a vida, estressados, suados, irritados. Brigaríamos com os outros e entre nós. Seríamos explorados, acordaríamos cedo, pegaríamos engarrafamento, ônibus lotado. Que liberdade é essa? A liberdade, eu disse, é uma ilusão. Estamos sempre expostos a imposições superiores. Leis da natureza, leis da sociedade, leis do nosso chefe, leis da nossa vizinhança, leis da nossa casa. A liberdade não existe. A liberdade não existe. A. Liberdade. Não. Existe. É tudo uma questão de negociação. Tudo. Cada dia, cada diálogo, cada relação. É tudo negociação. Por que a liberdade é um ideal que devemos nos pautar, não uma realidade. Não um emprego. Não um carro. Uma casa. Estar solteiro.

Liberdade é acordar a hora que quer, com a pessoa que você quer. Comer o que você quer. Fazer o que você quer. Por que você pode. E amanhã não vai poder. Por que vai ter um emprego, já que o emprego nos traz conforto, e nós queremos conforto, não liberdade. Nós aceitamos ser escravizados pelo conforto, não pela liberdade. Então quando estar desempregado me tirar meu conforto, aí sim vou querer um emprego.

Hoje, agradeço ao destino – que tantas vezes maldizemos, mas jamais endereçamos gracejos – pelas 48h maravilhosas de liberdade que me deu. Pela vida maravilhosa que me deu. Pela namorada. Pelos pais. Pela casa. Comida. Inteligência, saúde. Time. Segurança. Conforto. Por tudo que o destino, numa conjuntura improvável e infinita de acasos, me deu de mãos beijadas no dia de hoje.

Obrigado, universo.

O dia de hoje foi perfeito, mas
não foi eterno.

Na campanha da legalidade em 1961, Leonel Brizola ensinou como se barra um golpe no país. Jânio tinha renunciado e Jango, seu vice, estava viajando na China. Os militares se assanharam em tomar o poder, imediatamente, Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, conclama o povo de seu estado à pegar em armas e barrar o golpe. Os sindicatos iniciam greves políticas, os estudantes cercam o palácio em apoio ao governador. Na sede do Governo, Brizola manda instalar uma metralhadora antiaérea depois de saber que haviam ordens da junta militar em bombardear o lugar e ali faz o histórico discurso para o povo riograndense na rádio:

“Não nos submeteremos a nenhum golpe. Que nos esmaguem. Que nos destruam. Que nos chacinem nesse palácio. Chacinado estará o Brasil com a imposição de uma ditadura contra a vontade de seu povo. Esta rádio será silenciada. O certo é que não será silenciada sem balas. Resistiremos até o fim.

(…)

Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul! Não desejo sacrificar ninguém, mas venham para a frente deste Palácio, numa demonstração de protesto contra essa loucura e esse desatino. Venham, e se eles quiserem cometer essa chacina, retirem-se, mas eu não me retirarei e aqui ficarei até o fim. Poderei ser esmagado. Poderei ser destruído. Poderei ser morto. Eu, a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. Não importa. Ficará o nosso protesto, lavando a honra desta Nação. Aqui resistiremos até o fim. A morte é melhor do que vida sem honra, sem dignidade e sem glória. Aqui ficaremos até o fim. Podem atirar. Que decolem os jatos! Que atirem os armamentos que tiverem comprado à custa da fome e do sacrifício do povo! Joguem essas armas contra este povo. Já fomos dominados pelos trustes e monopólios norte-americanos. Estaremos aqui para morrer, se necessário. Um dia, nossos filhos e irmãos farão a independência do nosso povo!

Um abraço, meu povo querido! Se não puder falar mais, será porque não me foi possível! Todos sabem o que estou fazendo! Adeus, meu Rio Grande querido! Pode ser este, realmente, o nosso adeus! Mas aqui estaremos para cumprir o nosso dever.”

A Dilma?

Foi andar de bicicleta.

(Trecho anterior ao quote escrito pelo broder Raphael Almeida)