Uma quinta comum na cabeça do Almeida

Todas as quintas, quando saio do estágio, ando alguns quilômetros de Copacabana até a mesma pastelaria, falo com a mesma chinesa e peço o mesmo yakisoba. É uma tradição minha comigo mesmo, um role que faço em solitude pra curtir um pouquinho a vida sem distrações de terceiros. Peço sempre o yakisoba de legumes, o mais barato, e como-o com a água do bebedouro da faculdade que carrego na bolsa. Ontem não foi diferente. Esse mês estou mais duro que pau de tarado, fazendo cortes em todo tipo de gasto, mas o mimo do yakisoba segue inabalável.

Acabava de anoitecer quando eu cheguei na pastelaria, e a chinesa, que já deve me conhecer, acudiu com o pedido. Sentei numa mesa e me distrai vendo coisa qualquer no celular, quando uma mulher me abordou. Suja, cabelo ralo, mal vestida, pedia-me 2 reais. As centenas de sinapses me lembrando que eu não podia gastar dinheiro tardaram a vir, e antes que eu notasse já estava com a carteira aberta catando dois reais. A moça me agradeceu, deu um beijo na bochecha, disse que Deus me protegeria e que era pra eu aproveitar enquanto podia trabalhar, pois ela queria e já não podia.

Se aquilo me comoveu? É evidente que não. A moça foi embora e dentro de poucos instantes sumiu de vista e deixou de existir para mim, igual aos dois reais em seu bolso. Por que então gastei o dinheiro que não podia com uma pessoa que dali a instantes deixaria de existir?

Pelo mesmo motivo que construo tradições comigo mesmo – massagear o ego.
Sentir-me bem comigo mesmo.
E é exatamente assim com todas as pessoas. A diferença é que eu admito.

Não existe motivo algum para dar esmolas. Você não concebia a existência da pessoa antes, tampouco conceberá dali a instantes. Em verdade, você sequer se importa. A existência dela te causa uma angústia, um estado de pena que se mistura com impotência, e esse estado não pode se prolongar. É por isso que os mendigos se mantem sujos, e é por isso que deficiências são tão exploradas quando no corpo de um pedinte – quanto mais ele te afetar negativamente, maiores são as chances de conseguir uma esmola.

O ato de dar esmolas é um placebo pra angústia causada pelo estado do outro. E funciona perfeitamente, pois as pessoas ainda se enganam achando-se altruístas. Altruísmo seria tirar o mendigo da rua, dar-lhe abrigo, comida e carinho. Ao invés disso, dá -se moedas perdidas do bolso e aguarda-se até o momento em que a lástima de sua existência deixará de incomodar.

Altruísmo não passa de uma característica que todos querem dizer que tem – e podem, à medida que são egoístas.

***

“Se esmolas só fossem dadas por piedade, todos os mendigos teriam morrido de fome.”
– Nietzsche

***

Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Recordación

Conversei com muita gente – muita! – desconhecida e de outros países nessa Copa, só que dois em especial me chamaram muita atenção. Colombianos, ambos. O primeiro era atarracado, com a pele morena e calvície começando a aparecer no topo do casco de cabelos negros. Estava acompanhado de um cara mais velho, branco e magro, bem mais sorridente e até um pouco invasivo. Sentaram-se ambos do meu lado e de mais dois amigos enquanto comíamos, e o primeiro me perguntou como fazia pra ligar pra determinado número que tinha anotado no celular. Nós também não sabíamos e quebramos o coco tentando descobrir, até que eu percebi que faltava um 9 antes do número e era isso que dificultava tudo. Depois ainda emprestei meu celular pro colombiano ligar pro número.

Eu e meus amigos estávamos sendo perfeitamente atenciosos, mas ainda assim me sentia em dívida – conversar com gringos sempre me deixa meio defensivo. Estar diante daquela pessoa tão diferente, que veio de tão longe e está vivendo uma realidade tão diferente da minha! E ainda ter que manter uma conversa minimamente sã em outra língua! Não tenho todo esse rebolejo…

Enquanto o primeiro usava meu celular, o segundo tentava puxar assunto e contar piadas, mas o portunhol não ajudava a nenhum dos lados. Tentamos, sorrimos, mas eu parecia meio defensivo diante da incapacidade de me comunicar, enquanto meus amigos pareciam simplesmente não se importar muito com o fato daquela pessoa tão diferente falar e rir de coisas ininteligíveis do nosso lado.

O primeiro, então, me devolve o celular, dá um sorriso absurdamente atencioso e me entrega uma nota de 1000 pesos colombianos. Eu não fazia ideia de quanto aquilo valia, então o colombiano avisa: vale mais ou menos 1 real de vocês. É só de recordación…

Esse tipo de coisa me quebra. Eu sinto logo vontade de abraçar a pessoa.

Nos despedimos – sem a menor melhora nas capacidades comunicativas – e eles foram embora.

Me arrependo até agora de não ter dado nada de recordación pra ele. Nem que fosse a balinha de caramelo que eu tinha no bolso.

***

O outro colombiano que marcou foi já na final, logo após a Alemanha se consagrar tetra. Eu estava com a camisa da Argentina, não por torcer por ela – longe disso! -, mas é por que tenho a religiosidade futebolística de jamais usar a camisa do time no dia do jogo. Sempre que uso camisa do fluminense em dia de jogo, ele perde. Sempre que uso camisa da seleção em dia de jogo, ela perde. É simples.

Então usei a camisa da Argentina.

E ela perdeu.

A ideia era simples – se a Alemanha ganhar, comemoro! Eu tava torcendo pra ela!
Se a Argentina ganhar, comemoro também, afinal, estou com a camisa dela! Eu posso!

E eis que um cenário interessante se desenha: o céu escuro, as ruas da tijuca iluminadas pelos postes de luz e pelos fogos do Maracanã, que naquele exato instante via a taça de campeão do mundo ser erguida pelo capitão alemão. Argentinos, alemães, brasileiros, gringos de todos os cantos do mundo andavam pelas ruas com suas bandeiras, cantando e comemorando, ou apenas se lamentando. Cornetas, gritos, cantos – pura vida.

Paramos – eu e um casal amigo – em frente a um bar. Queríamos ir até o Maracanã nos unirmos àquela massa de pessoas ensandecidas até percebermos que não havia massa alguma; um grupo de policiais militares impedia o acesso a todas as ruas do entorno do Maracanã.

De um lado, pessoas do mundo inteiro andando contentes. Do outro, uma barreira de policiais. À minha frente, a televisão do bar, presa ao teto, transmitindo as cenas da campeã Alemanha. Acima, fogos de artifício.

Atrás de mim, um colombiano me cutucava. Baixinho, meio sujo, meio hippie, com um sorriso sincero.

“Quieres una pulsera?”

“No, gracias”

“Paga quanto quieres. Recordación.”

Olhei pras pulseiras que ele carregava naquela madeirinha vestida de veludo escuro – eram super simples, até meio feias, mas aquela cena me deixou comovido. Saquei a carteira. Tinha uma nota de 20 e uma de 5. Dei a de cinco, por que recordación não está me alimentando ainda.

Os instantes do cara amarrando a pulseira no meu braço me mostravam que aquele instante era especial, mas não entendia ainda por quê.Talvez já estivesse acostumado com a Copa, que já acontecia há um mês e pouco, e que acabava naquele exato instante, pra só voltar – se voltar – daqui a 60 anos.

Vai deixar saudades.

E recordações.

Uma parada engraçada aconteceu esses dias. Comentei em algum grupo aleatório que eu fazia comunicação na faculdade e estudava psicologia por hobby, e uma mina de 18 anos me adicionou por que também gostava de psicologia. Conversa vai, conversa vem, percebi rapidamente que a profundidade daquela menina era equiparável à de um aquário em miniatura. Nesse tipo de situação, em que pessoas desconhecidas e intelectualmente limitadas vem falar comigo, acabo tomando uma postura meio “ok, precisamos ter paciência aqui, a moça não tem culpa de ser assim”.

Eis que, depois de pouco tempo, a mina me pergunta como eu consigo conciliar os estudos. Respondo: basta não ter preguiça de pensar. Quando se gosta de uma matéria como psicologia ou filosofia, você a lê por que ela te suscita pensamentos que você gosta. Dessa forma, não tendo preguiça de pensar, o estudo ocorre pela própria vivência e reflexão da matéria. Perguntei se a moça tinha preguiça de pensar, no que ela me responde “eu tenho preguiça até de dormir, você acha que eu consigo ler?”.

Aí parei um instante. Ok, ser limitado é uma coisa que eu aceito – eu também sou limitado em diversos pontos, todos somos. Mas se uma mina se propõe a estudar psicologia e vir falar com um maluco que se amarra em psicologia, e diz que tem preguiça de estudar, aí eu comecei a ficar meio desconcertado da cabeça. Mantive a calma e disse: “poxa, você precisa mudar isso. No mundo tem tanta gente burra, que se os que conseguem ser letrados e com ensino fundamental tem preguiça de pensar, estaremos todos perdidos”.

Eis que a moça responde de pronto: Ei, eu também sou burra, não gostei do preconceito.

Nesse instante fiquei intrigado. “Por que você diz isso?”, perguntei.

“Às vezes sinto que não tenho capacidade”, ela responde.

Pra uma pessoa que se amarra em analisar as outras, uma resposta dessas é como uma mão cheia de doces. Fiquei mega empolgado e não escondi. “Mas se uma pessoa não tem capacidade, não basta ela procurar conhecimento pra passar a tê-la?”, perguntei. “Se você me conhecer melhor, vai entender. As coisas só funcionam comigo quando penso negativo. Se penso positivo, dá errado”. Pedi um exemplo. “Uma vez eu queria muito passar pra um curso mas sabia que não ia conseguir, então não estudei. Acabou que, mesmo sem ter estudado, passei.”

Mais alguém tá impressionado com os caminhos tortuosos que a mente dessa mina traçou ou foi só eu?

“Você não acha que essa é a prova cabal de que você É inteligente, só precisa estudar mais? Veja bem, nem sempre você vai conseguir passar sem estudar nada”, respondi. Mesmo diante das atrocidades que a moça dizia, me mantive impassível e fofo, enquanto resoluções tempestivas já começavam a assolar a mente dela.

“Mas isso não acontece. Eu nunca estudo. É assim que eu penso. u_u”

“O seu pensamento é não pensar por que até então não pensar deu certo?”

“Exatamente.”

“E você ainda quer cursar psicologia?”

“Hahahah, por quê?”

“Por que eu tenho muita pena dos teus futuros clientes”

“Ah, mas eu sempre dou conselhos pros meus amigos”, ela disse. Broder, eu odeio quem diz isso. Puta que pariu, eu queria dar um tapa em quem fala isso. Aliás, um soco. No saco, se fosse homem. Uma vez um amigo disse que poderia ser psicólogo sem sequer fazer faculdade por que ele sempre dava conselhos pra irmã mais nova dele.

Milhares de estudiosos do mundo inteiro tentam entender a mente humana e vem uns retardados achar que ser psicólogo é dar conselhos pra crianças estúpidas de 12 anos.

“Você acha que consegue lidar com pessoas mentalmente instáveis só por que deu conselhos pros seus amigos? Sabe, psicólogos lidam com coisas mais complexas do que problemas de adolescentes…”, respondi.

“Não vou expor minha opinião sobre meu futuro. Você não me conhece e não me entenderá.”

E acabou a conversa. No dia seguinte, fui deletar a mina do facebook e ela já havia me deletado.

Que final trágico!

Reflexões acerca do diálogo:

1- A pior e a melhor coisa da sociedade são a mesma: a liberdade de expressão. É o que possibilita os gênios serem ouvidos, e é o que justifica qualquer estúpido falar a primeira merda que vem à cabeça e se achar no direito de ter a opinião considerada.

2- Será que só eu percebo que o maior problema do mundo não é a burrice em si, mas a resignação com a burrice? Muito pior do que uma criança sem estudo é um jovem que teve estudo e não soube usá-lo, pois ele dirá a todos que tem estudo, o que o dará credibilidade, mas nunca fará uso dele.

3- A cada dia que passa, fica mais difícil conversar com outras pessoas. Elas parecem tão limitadas! Em outros tempos, teria concordado e talvez até trocado uns beijos com essa moça. Hoje, ela me deixa puto e eu a deixo puta. E a lembrança de que Nietzsche morreu louco e solitário volta a figurar entre meus mais profundos medos.

Um texto bem Nerd Calculista sobre um show que eu fui.

Ontem fui em mais um show do Forfun, o quinto ou sexto, se não me engano. Não sei como rola o sentimento de fã com eles em outros estados, mas acho que uma das coisas mais bonitas do Forfun é o fato de eles representarem uma parcela muito específica da sociedade carioca. O que caracteriza essa parcela não cabe a mim explicar – a vivência de um carioca que acompanha a banda nos shows no Rio são a explicação. Mas posso dizer, com certeza, que essa parcela é bastante dedicada à banda.

Não à toa virou quase uma tradição, um rolê obrigatório de todo fã, um dia a ser marcado na agenda: frequentar os shows da banda na Lapa.

Eles vivem fazendo shows por aí… 
mas os na Lapa, 
ah…
esses tem uma energia diferente.

A energia miscigenada e quente da Lapa, que coloca desde o playboy da zona sul na mesma sala quente e alcoolizada do maluco que pegou um trem lá de Campo Grande. Aí pega uma parcela dessa loucura e coloca pra entupir o Circo Voador ou a Fundição Progresso e cantar o show. Cantar, por que o show do Forfun não é só do Forfun – a platéia tem o seu papel, e ele é fundamental.

Talvez o show de ontem ainda tenha deixado isso mais claro. Não sei se é sempre assim, mas o palco de ontem era absolutamente no meio do público. Era de um formato estranho, que lembrava um hexágono torto. Os microfones eram dispostos em diferentes posições, pra que os vocalistas pudessem cantar pra diversos frontes. Pra subirem no palco, os seguranças tiveram que abrir uma fila no meio da plateia. 

O público sente isso, e respeita. E, principalmente, percebe que faz parte daquilo. É a magia de uma banda independente.

Em Morada, por exemplo. Os chilenos que provavelmente vieram pra aproveitar a Copa e acabaram perdidos na Fundição devem ter se assustado quando, de repente, as luzes se apagaram, alguns sons sensoriais ressoaram pelo ambiente e todos – absolutamente todos – se ajoelharam. Eram os primeiros versos de Morada, que não se canta; recita:

Faço de mim
Casa de sentimentos bons
Onde a má fé não faz morada
E a maldade não se cria
Me cerco de boas intencões
E amigos de nobres corações
Que sopram e abrem portões
Com chave que não se copia
Observo a mim mesmo em silêncio
Porque é nele onde mais e melhor se diz
Me ensino a ser mais tolerante, não julgar ninguém
E com isso ser mais feliz
Sendo aquele que sempre traz amor
Sendo aquele que sempre traz sorrisos
E permanecendo tranquilo aonde for
Paciente, confiante, intuitivo.

 

Ou em Cara Esperto, aquela música que desde sempre é obrigação do público puxar. Em todos os shows que fui do Forfun, em nenhum falha: é sempre o público que puxa. Em algum momento uma música acaba e se ouve meia dúzia de caras cantando Cara Esperto. E aí, o coro aumenta, e aumenta – e mesmo que não queira, a banda tem que tocá-la ali. É uma exigência.

Não que o público seja lá muito exigente! De vez em quando, na constante troca de microfones pra fazer um show 360º, o técnico de som devia estar meio distraído devido à nuvem de THC que plana durante o evento, e frequentemente esquecia de aumentar ou diminuir alguns microfones. O público se divertia vendo aquilo, e tomava como razão pra cantar ainda mais alto.

Tem também aqueles instantes espetaculares de Gruvi Quântico, quando você, já rouco e sem ar, ainda se vê na obrigação moral de vociferar a letra, só pra sentir a maravilha que é respirar fundo e sentir o refrão “Luz, preencha todo o meu ser” fazer um milhão de luzes brancas te engolirem à sua frente.

Entre uma música e outra, elogia-se com outro grito constante, tomado emprestado das arquibancadas de estádio de futebol: puta que pariu, é a melhor banda do Brasil.

O fato é que pra tudo precisa ter timing.

E às vezes o timing falha.

O show de ontem era repleto de convidados e pessoas minimamente conhecidas que tinham alguma coisa para mostrar. Em determinado momento, dois seguranças aparecem do meu lado e me empurram: era a banda Scracho, que enfrentava alguns problemas pra lidar com o palco no meio do público.

Como a intenção era transportá-los discretamente até o palco, quase ninguém do público percebeu. E, por uma daquelas coincidências que devem ser obra de uma força superior muito sádica e bem humorada, todo mundo começa a gritar “puta que pariu! É a melhor banda do Brasil!”.

Imaginem a cara do Danilo, vocalista do Forfun, quando teve que introduzir o Scracho depois disso.

E imaginem a cara do público quando o maluco do Scracho pega o microfone e diz “olha, se o Forfun é a melhor do Brasil, o Scracho bem que podia ser a segunda, né?”, e a reação geral se divide entre risos envergonhados e “UHUUUUUL” daquelas pessoas que sempre fazem Uhuuuul.

Dentre estas e tantas, o show do Forfun caracteriza-se por ser mais que um show. É um esforço conjunto, que nunca depende só da banda, como se o público fosse o quinto, sexto e sétimo membro. Desde as rodinhas punk, que acatam a todas as normas do bom senso, como excluir quem não quer participar e, a mais importante, não dar socos – o que alguns retardados fazem em muitos shows -, até as palmas, gritos, rituais, e simbolismos, o espetáculo ocorre sob uma aura com cheiro de maconha e temperatura um bucado elevada.

Sua a camisa, mas limpa a alma. E eu fico um bastante satisfeito de ter criado o hábito de frequentar esses shows.

O Forfun é uma banda que precisa ser sentida. Mas, pra senti-la, é preciso despir-se dos infinitos preconceitos que a circundam. Por isso, talvez, a energia desses shows na Lapa seja tão única. Nenhum outro local faz tanto sentido pro Forfun se apresentar.