saí escrevendo; tava pensando.

Era segunda-feira, 31 de outubro. Meu aniversário. As ruas da Lapa estavam tomadas. Uma grande disputa política ia terminar em questão de horas: de um lado, Marcelo Freixo, representando uma esquerda meio extrema, idealista e intransingente, mas com ótimas intenções e expertise; do outro, Marcelo Crivella, o homem cujo nome se jogado no Youtube o primeiro resultado será um pedido de doação a fieis evangélicos, representando tudo que há de pior nesse país: a direita ultraconservadora, a igreja evangélica, a corrupção e a família Garotinho.

Cheguei nas ruas da Lapa junto com minha ex-namorada e um amigo antes do anoitecer. Bebemos algumas cervejas, ouvimos aqui e ali que havíamos perdido, combinamos entre si de não se deixar abater pois, afinal, era meu aniversário. Acabou que perdemos mesmo, e de lavada, pois o Rio de Janeiro nunca soube votar, e decidimos portanto beber duas catuabas nós três.

Não sei exatamente como, quando, ou por que, mas em algum momento encontramos um grupo de amigos deste meu amigo, entre eles uma menina muito divertida e um cara nojentinho com toda a pinta de gay. Eu e o bonde estávamos absolutamente fora desta realidade após as catuabas e mais algumas cervejas e uns becks e coisas semelhantes, quando subimos algumas escadas da Lapa e entramos em um bar iluminado, com mesas de sinuca e uma salinha escura com karaokê.

Fomos ao karaokê, cantamos duas ou três músicas, e então o grupo começou a se dispersar pelo salão. Eu estava completamente bêbado. Nunca me dei muito bem com nenhum álcool além de cerveja, mas aquela noite estava brilhante; tirando todas as circunstâncias políticas, como sempre neste país. Em algum momento, minha então namorada puxou-me para o banheiro, e eu fui, sem nem entender o que estava acontecendo direito. Quando dei por mim, havíamos transado e estávamos de volta no salão.

O sexo mudou algo em mim. A onda, que me havia levado lá pra cima, fez-me cair lá embaixo. A namorada foi fazer alguma coisa. Eu entrei na salinha escura do karaokê sozinho e comecei a olhar pro chão. Tudo se mexia. Uma euforia me tomava o peito, uma satisfação ardente de ebriedade me esquentava, entreguei-me à parede como a uma cama, e eis que então, sem mais nem menos prosa: chorei.

Comecei a chorar. Muito, muito, muito. Feito uma criança. Ninguém entende nada. As pessoas vão me ver e eu começo a falar coisas desconexas. “Eu não estou triste, eu juro, não sei por que estou chorando”, dizia enquanto os olhos jorravam. Lembro de coisas do passado. “A minha vida inteira fizeram bullying comigo”. Cito exemplos. “Eu tô velho agora”. Fazia 22 anos. “Mas eu tô muito feliz com a minha vida, eu juro”, reafirmava, tentando acalmar todo mundo.

A menina, a amiga do meu amigo, que me acalmou. Olha que maluquice. Estava indo trabalhar num cruzeiro por meses. Ia desembarcar em várias cidades loucas e curtir a vida de viajante. Ela contando as expectativas pra viagem me distraiu e acalmou o choro. Fomos todos comer um hambúrguer. Ganhei desconto por ser o aniversariante. Alguns fogos queimaram no céu, ninguém entendeu por quê. Disseram que era pra mim. Não era, mais acabou sendo.

Mais tarde, já em casa, minha ex-namorada conta que o menino, aquele nojentinho com pinta de gay – você está se perguntando por que eu citei essa informação? -, ele mesmo, tentou beijá-la enquanto eu me desfazia em lágrimas. Veja vocês. Que audácia. Ameacei-lhe de todas as formas possíveis pelo whatsapp. Não cheguei a ver a resposta – dormi.

No dia seguinte, acordei com a pior ressaca da minha vida. A cabeça explodia. Nenhum remédio ficava no estômago. Uma grande explosão de dor e sofrimento, jorrando desgraça por todos os meus orifícios. Fui parar no hospital.

Foi a última vez que eu passei mal. Até, bem…

Era terça-feira, 31 de outubro. Meu aniversário. Meus pais me parabenizaram logo quando acordei. Por todo lugar que passava, alguém me dava parabéns. No trabalho, uma explosão de carinho e amor. Já no corredor, Carolzinha, a menina mais gracinha de todas, veio correndo me dar um abraço. E muitos outros queridos vieram à minha sala depois. Uma tempestade infinita de amor e carinho.

Almoçamos no meu lugar favorito. O atendimento foi uma desgraça. Sempre é muito bom, mas aquele dia foi uma desgraça. Fizemos piada, tomamos duas cervejas e comi até não aguentar mais. À tarde, quando todos no escritório se juntaram para fazer a reunião diária de tarefas, a sala foi invadida por dezenas de cabeças gritando parabéns. Um bolo maravilhoso foi posto em minhas mãos, as quais eu usava para esconder minha cara vermelha feito um tomate. Não parava de entrar gente pela porta. As outras salas ouviam o barulho e vinham se juntar à galera. Que sentimento gostoso de amor. Que sentimento esquisito de vergonha!

“Discurso!”, gritaram. Fingi que não ouvi. Até conseguiria dizer uma palavra ou outra, mas como não fizeram tanta questão, não insisti também. Só queria abraçar um a um ali, dizer obrigado e entupi-los de bolo e amor. Chegando em casa, meus pais me receberam com mais um bolo e salgadinhos. Fui dormir após duas vitórias no lol e um beck merecido de skunk.

No dia seguinte, acordei com um bug generalizado por todo o corpo. A cabeça explodia. Nenhum remédio ficava no estômago. Uma grande explosão de dor e sofrimento, jorrando desgraça por todos os meus orifícios. Não fui parar no hospital, por que nem sair da cama conseguia.

Só fui acordar lá pras 17h. Mamãe me serviu um almocinho, coloquei no jogo do Real Madrid e dormi de novo até 20h. Tive que cancelar uma comemoração de aniversário. Embolou minha semana inteira.

Resolvi contar isso tudo pelo esquisito simbolismo de ter passado mal dois anos seguidos pontualmente no dia após o meu aniversário. Pode ter uma infinidade de simbolismos nisso. Ou pode ser só coincidência mesmo.

Eu sou um cara muito tranquilo. A vida passa e eu não me deixo afetar muito por ela. Envelhecer, contudo, mexe comigo. Entristece mais que qualquer coisa. As coisas passam, as pessoas também, eu consigo lidar com isso. Mas eu mesmo passar, isso é chato. O rosto que eu tive e não posso ter de novo? A juventude se esvaindo a cada dia pelos dedos? Eu sempre achei que os 15 seriam o melhor ano da minha vida. Foi mesmo. Depois foi os 18, os 21. Foi tudo bom pra caralho. E não volta nunca mais.

Isso mexe comigo mais do que qualquer coisa. Terá sido isso, a razão da explosão?

Ou uma recusa primitiva do corpo à tudo o que eu tenho ingerido? Uma recusa simbólica ao álcool, à vida, às submissões cotidianas? Terá sido meu inconsciente tentando expressar por meio da dor sua insatisfação por envelhecer assim?

Será que eu envelheci como eu queria envelhecer?

A vida é boa, mas é o bastante?

De que importa isso, afinal? Que importância eu tenho?

Não seria pior envelhecer em uma cadeia, como tantos?

Ou não seria a mesma coisa, no final das contas?

Todo esse tempo perdido. Pra mim, o ano acaba no aniversário.

Foda-se 2018. Meus 23 anos já começaram.

Curso no Catete

Na metade do ano passado eu vi o evento no facebook. Era um curso gratuito, oferecido no museu do Catete, que tinha como proposta analisar o mundo contemporâneo estudando textos de Deleuze & Guattari (subjetividades) e Marx (capitalismo). Em todas as terças-feiras a partir de então eu saí mais cedo da faculdade pra chegar e sair mais cedo do estágio, andei por uns 20 minutos pela orla de Copacabana, entrei no metrô na Cantagalo, sempre lotado, por que eram já 18:00, e cheguei no museu do Catete pra assistir à minha aula favorita do semestre.

As primeiras aulas estavam lotadas. A sala dava lugar pra 60 pessoas e tinha tranquilamente mais de 100. Sentávamos no chão, depois ficávamos em pé. Era disputado. No segundo dia cheguei com meia hora de antecedência e só consegui sentar no chão. Estava convicto de que ia esvaziar no futuro – o brasileiro não sabe dar valor ao que é gratuito. Iam pela empolgação, por terem visto a palavra “grátis” e achado que seria legal. Encontrar os amigos, ouvir umas paradas maneiras. Mas presume-se que, sem vínculo, sem receber nada palpável em troca e sendo difícil pra cacete, ia esvaziar. E esvaziou. Na sexta aula já cheguei 5 minutos antes e sentei na parede.

Nunca dei um pio durante a aula. Só uma vez, na verdade, quando o professor se utilizou da cena de um filme pra exemplificar uma situação da leitura, e não lembrava de quem era o filme. “Tarantino!”, lembrei. Fora isso, eu sempre estava mais confuso do que convicto, e até mesmo minhas dúvidas pareciam exigir uma certa convicção para serem externalizadas.

Não que estar convicto fosse lá muito importante. Se tem uma coisa que eu entendi na filosofia de Deleuze é que quase tudo se baseia em fluxos. O exercício do pensamento filosófico é mais importante do que chegar a convicções. Deve ser só comigo, e talvez por isso eu goste tanto de filosofia, mas quando apreendo um novo conhecimento filosófico, daqueles que abala as estruturas, ainda que seja só de leve, aquela sinapse discreta e explosiva, toda a semana já passa ter valido a pena. Me sinto revigorado, feliz, satisfeito. E aquela aula, mesmo sem tantas convicções, mas com tantas sinapses, era sensacional.

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KKKK Ó OS MALUCO ACHANDO QUE ENTENDERU NOIS KKKKKKKKKKKKK

Nos intervalos, por vezes tive companhia. Um ex-professor meu de literatura, que eu admirava – e admiro ainda – também fez o curso. Notei que estava em um lugar com pessoas inteligentes quando vi aquele cara lá. Foi ele que me fez gostar de poesia. Ele que interpretou, de forma teatral e até exagerada, Soneto de Fidelidade em frente à turma quando eu tinha 17 anos. Bateu no peito, puxou a camisa, socou a parede. Contou da vida dele. Estava apaixonado por uma curitibana. Exemplificava o sentimento do poema com a cena dele acordando e vendo os olhos da curitibana. Nos fez retomar sensações, como que, se isso fosse possível, explicando a poesia. Digeriu verso por verso. E dedicou uma aula de 2 horas a analisar a obra de Machado de Assis, com especial atenção e sensibilidade para Dom Casmurro. Em um curso de pré-vestibular?! Isso parecia loucura. Mas ele bancou.

A primeira vez que fui falar com ele, sabia que não me reconheceria. Mas só de chegar perto “Ih! Eu te conheço! Pensi Méier, né?”. Aquele não era mesmo um lugar para eu ter convicções. Conversamos, tomamos café. Debatemos política, referenciamos filmes, livros. Desmistifiquei a imagem que tinha dele. Mostrei que eu não tinha me tornado um quadrado como tantos daquela turma. Tudo nos intervalos de 15 minutos da aula. Só não consegui convidá-lo para um beck, que era o que eu mais queria.

Após alguns meses, eram raros os remanescentes. Coisa de 25, 30 alunos. Era preciso estar envolvido para estar ali. Na sala, os tipos mais esquisitos e os mais legais. Fui perdidamente apaixonado por uma menina de dread. Não era todo de dread, mas o cabelo castanho, liso, o olhar fatal, daqueles que dá até um certo receio, o tabaco, uma tatuagem na panturrilha, e só aí você percebia alguns dreads no cabelo. Nunca conversamos. Ela estava no patamar da idealização e assim permaneceria, até por que o diálogo nos colocaria na situação de tornar aquilo real, e a realidade é quase sempre, nesses casos, decepcionante. Uma mulher, psicóloga, como repetia sempre, meio coroa já, uns 50 e tantos anos, fazia questão de falar toda aula. Pausadamente, bem lento e enrolado. Nunca consegui prender minha atenção no que dizia, mas gostava de saber que pessoas velhas e inteligentes frequentavam o mesmo ambiente que eu. E não só ela me deu essa sensação. Uma vez, levei um grande amigo na aula. Comentamos, por alto, sobre La Danza, do Jodorowsky, o diretor mais esquisito e maravilhosamente pica do cinema mundial, e três pessoas de reflexo viraram e confirmaram: Jodorowsky é foda mesmo. Nos adicionaram no Face e tudo. Além deles, tinha dois intercambistas franceses que iam pra aula com um grupinho meio alternativo. Uma menina muito branca e muito magra que sempre sentava na frente. Uma mina grosseiramente linda. Um casal de adultos. Um idoso. Alguns caras barbudões e inexpressivos.

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Neste registro fotográfico proporcionado pela Estábulo Corporations™ podemos ver a menina de dread, a menina muito magra e branca, o idoso e as máquinas sociais com suas estruturas de socialização e poder.

No último dia de aula eu fui até meio triste. Tinha me apegado ao ambiente, à imagem daquelas pessoas, àquela nutrição semanal de pensamentos filosóficos, àquela descarga de dopamina pós-sinapses. Nem prestei atenção no que diziam. Estava aproveitando o momento. Fim de tarde, daqueles maravilhosos de verão carioca. A aula no auditório do segundo andar, de onde dava pra ouvir um grupinho de idosos tocando samba no primeiro andar. Um cafézinho antes pra dar foco. No intervalo, cheguei no professor. “Po, eu só queria agradecer a você por ter proporcionado esse curso, tão maneiro, tão denso, foi muito bom e construtivo, queria saber se você conhece outras iniciativas como essa, etc”. Ele me convidou para participar do grupo de estudos que ele formaria com alguns alunos daquela aula.

Aí as coisas desandaram.

O tal do networking

Primeira aula do curso de direção de arte na ESPM. Eram 9:00 e eu tinha acabado de chegar no prédio no centro do Rio pela primeira vez. O email dizia sala 603, mas não tinha nada nessa sala. Ouvi pessoas perdidas como eu no corredor rumando à sala 905, mas chegando lá também não era a minha – era redação publicitária. Primeiras impressões do novo curso: já estou perdido neste lugar. Bom que na busca incessante pela sala já fiz primeiros contatos com uma dupla de pessoas igualmente perdidas. Nada melhor pra fazer amizades do que estar perdido em um prédio desconhecido.

Achada a sala – a aula ocorre na verdade na sala 404, vai entender – começa a aula. O professor se apresenta: diretor de criação da agência pica tal, agência pica X e outras duas agências não tão picas assim. Professor da ESPM. DJ, por que todo mundo é DJ hoje em dia, né? O curso vai ser assim: aula, aula, aula, chopp pago pelos professores, aula, aula, chopp pago pelos professores, aula, festa.

Já gostei do curso.

“É importante fazer networking nesse meio”, justificou o professor. Tá certo. “Agora liguem seus computadores aí”

Puta merda, a turma inteira já tá com o MAC ligado, menos eu. Como é que liga essa merda? Vou passar o dedo disfarçadamente pelas laterais, hm, parte de baixo, parte de cima, caralho cadê o botão, será que é touch essa porra?, nem é, puta merda os cara já tão mexendo no computador como liga essa caralha? Primeira impressão que vou passar pros caras do networking publicitário é que eu não sei nem ligar a porra do computador, fodeu.

“Ai, brou? Como ligo isso aqui?”, perguntei discretamente, mas a turma tava em silêncio, então geral ouviu. “Ah, é só apertar aqui”. Maldito botão escondido. “Eu também não sabia, hehe”. Menos mal.

“Quero que vocês entrem no site dafont.net e escolham uma font que diga algo sobre vocês. Escrevam seu nome com ela e me enviem”, pediu o professor. Ok, feito. Escolhi Typewriter Handmade. Aí ele abre as imagens no projetor e pede para explicarmos a escolha. A primeira menina começa. “Achei bonita, sabe. Bem… solta, assim, né”. Aí o professor conta um pouco da história da fonte, e assegura: é, é bonita mesmo. Guilherme, explica a tua aí. “A minha explicação é menos estética e mais pessoal, escolhi typewrite handmade por que apesar de trabalhar com design eu gosto de escrever, escrevo demais, desde os treze anos, aí achei que uma letra de máquina de escrever feita à mão representava bem essa dualidade quase paradoxal da minha vida”.

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Pessoal me olhou meio estranho. O professor fez uma leve careta, não sei se impressionado ou despeitado. Ninguém tinha percebido que eu sou meio maluco até então. “É, você escolheu pelo conceito, o conceito é muito importante também” e contou um pouco da fonte. Perguntou da minha faculdade, disse que estudou na UFRJ também, perguntou como tava lá. Sempre me sinto bem quando estou em um ambiente em que quase todos são de faculdades particulares. Lembro da música da torcida organizada da UFRJ: “você tentou, não conseguiu! Federal: melhor do Brasil!”. Mas tive que admitir: o palácio vai acabar. Metade do prédio tá fechado. O teto tá podre, outro dia desmoronou uma parte, e tinha uma colônia de gambás vivendo nas telhas, que desmoronou junto com a merda de gambá de anos.

Federal, melhor do Brasil!!!!

Todas as pessoas depois de mim reforçaram a explicação da fonte com os “por que é bonita” ou “por que achei que meu nome ficou legal com ela”. Me senti pretensioso. Mas eu sou da federal, é normal ter mais desenvoltura. Ou pretensão.

Termina a aula e eu nunca sei como agir. Digo nunca por que já fui a três aulas e ainda não aprendi como se age. Por que as pessoas demoram tanto para guardar o material? Eu só pus a mochila nas costas e estava pronto para descer. Descer o elevador conversando com os novos amigos, fazendo networking. Tudo em publicidade é em inglês, já notaram? Fazemos jobs, releases, briefings, social media. Networking. Tava animado pra fazer o networking, demonstrar para aqueles mortais que eu sou um cara pica que está disposto a fazer novos amigos. Mas os caras são muito lentos pra arrumar a mochila. Dou uma passada rápida no banheiro, lavo as mãos, ajeito o cabelo, volto pra sala – a turma ainda tá lá, agora falando com o professor. Ah, entendi. O networking tava ali.

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– Olá amigos vamo nos conhece amigos

Fui conversar – mas sabe quando você não consegue pensar em absolutamente nada de interessante para adicionar à conversa em grupo? Então, isso acontece meio que em todas as vezes que eu estou numa conversa em grupo. Fico olhando, sorrindo, concordando com a cabeça. Simpático, disposto, discreto.

Na segunda aula, dois grupinhos já estavam formados – e eu flutuava próximo a um, pois já tinha trocado duas ou três palavras com eles. Mas como fazem amigos facilmente, esses humanos. Duas aulas e já estavam amiguinhos. E eu, que na segunda aula já esqueci o nome de todos eles? No fim da segunda aula, eles decidiram ir ao museu – e não me chamaram.

Sou péssimo fazendo networking.

Mas com um chopp na mão, ah, rapaz, ninguém resiste ao meu charme.

Hoje foi doido.

O Lucas, vocalista da Fresno, uma das maiores influências desta minha vida, meu artista favorito em diversos aspectos, postou uma foto no twitter. Nesta foto, ele bebia uma água de coco em um bar exatamente igual ao que tem em frente ao meu estágio. Em seguida, postou a localização – Pedra do Leme.

Pensei um pouco…
Pera aí…
Eu estou no estágio… E EU ESTAGIO NO LEME.

Ele estava literalmente há um quarteirão de mim. Sozinho, marcando um dez.

Levantei da mesa, falei pra minha chefe “preciso encontrar um amigo ali na praia, volto em 20 minutos”, e saí.

Comecei a andar boladamente pela rua, em meio àquela ventania de orla de praia mesclada a um fim de tarde de verão. O cenário de aventuras estava armado.

Chegando próximo, olhei e lá estava – o maluco sentado numa mureta, com um copinho, olhando pro mar.

Aproximei-me lentamente, por que ele tava de fone e olhando no celular, e cutuquei o joelho.

– Pô, posso trocar uma ideia contigo 5 minutinhos?
– Claro, galo, senta aí.
– Caraca, eu acabei de fazer uma maluquice…
– Que que tu fez?
– Saí do estágio doidão pra vir te ver.
– Que doidera, galo. Tu estagia com o que?

E aí correu a conversa.

Foram uns 10, 15 minutos, até que ele tomou seu rumo para a passagem de som do show da noite e eu voltei ao trabalho.

Foi irado.

uma anotação no ônibus

O motorista, de fones de ouvido, não ouviu o sinal. O velho, que demorou a descer, passou desapercebido. Só atentaram para ele quando reclamava do motorista. No ponto seguinte, ao parar do ônibus e abrir das portas, o velho preferiu vociferar xingamentos ao motorista a descer do carro. O motorista, de fones ainda, continuou sem ouvir e já se preparava para partir novamente com o velho ainda no ônibus. Aos gritos de todos os passageiros, que tentavam alertar ao motorista a existência do velho, o piloto percebe o velho xingando-o e xinga-o de volta!

Esse caso é interessante. Todos os dois estavam certos e errados ao mesmo tempo, e representavam um papel que por muitas vezes é nosso também.

11159521_846702392061086_3787283401090637649_nO motorista estava errado ao xingar o velho de volta, é verdade, mas estava errado principalmente ao trabalhar de fones. Lidando com a vida de dezenas de passageiros, ele não pode simplesmente abstrair-se do mundo com música!

O fone o impossibilitou ter um conhecimento pleno da situação em que se encontrava, e por isso, ao ver-se xingado sem entender os motivos, reagiu de forma irritadiça.

Em sua cabeça, ele estava certo. Afinal, com as informações que tinha – que eram limitadas pelo uso do fone – a história tornava-o injustiçado. Ele não tinha conhecimento de tudo o que justificava aquela irritação.

O velho, por sua vez, estava errado ao xingar o motorista. Nunca mais o veria! Motoristas também são passiveis de erros, e isso não justifica poder xingá-los quando der na telha! Mas, na perspectiva do velho, ele estava correto de gritar pois, afinal, perdera seu ponto.

Agora vos pergunto – se ambos possuem culpa, de que adianta acusar um de ser mais culpado que o outro?

Recair a culpa sobre um indivíduo jamais consertou situação alguma. Ambos seguiram com suas vidas, cada um se achando mais correto que o outro. Esse caso é interessante por que ilustra uma tendência estupida da sociedade de, diante de algum problema, procurar culpados para serem agredidos, não soluções. Não se admite que talvez não tenhamos a totalidade de informações que envolvem as situações, mas mesmo assim toma-se um posto de sábio detentor da verdade e dá-se o direito de enquadrar os outros.

E eis aí o cerne de toda e qualquer discussão – todos acham-se corretos, ainda que ninguém possua a totalidade de informações acerca das situações. Tampa-se os ouvidos com fones ou com xingamentos, e jamais toma-se para si o lugar da dúvida, da investigação. E nisso persevera uma ignorância travestida de certeza.

Uma quinta comum na cabeça do Almeida

Todas as quintas, quando saio do estágio, ando alguns quilômetros de Copacabana até a mesma pastelaria, falo com a mesma chinesa e peço o mesmo yakisoba. É uma tradição minha comigo mesmo, um role que faço em solitude pra curtir um pouquinho a vida sem distrações de terceiros. Peço sempre o yakisoba de legumes, o mais barato, e como-o com a água do bebedouro da faculdade que carrego na bolsa. Ontem não foi diferente. Esse mês estou mais duro que pau de tarado, fazendo cortes em todo tipo de gasto, mas o mimo do yakisoba segue inabalável.

Acabava de anoitecer quando eu cheguei na pastelaria, e a chinesa, que já deve me conhecer, acudiu com o pedido. Sentei numa mesa e me distrai vendo coisa qualquer no celular, quando uma mulher me abordou. Suja, cabelo ralo, mal vestida, pedia-me 2 reais. As centenas de sinapses me lembrando que eu não podia gastar dinheiro tardaram a vir, e antes que eu notasse já estava com a carteira aberta catando dois reais. A moça me agradeceu, deu um beijo na bochecha, disse que Deus me protegeria e que era pra eu aproveitar enquanto podia trabalhar, pois ela queria e já não podia.

Se aquilo me comoveu? É evidente que não. A moça foi embora e dentro de poucos instantes sumiu de vista e deixou de existir para mim, igual aos dois reais em seu bolso. Por que então gastei o dinheiro que não podia com uma pessoa que dali a instantes deixaria de existir?

Pelo mesmo motivo que construo tradições comigo mesmo – massagear o ego.
Sentir-me bem comigo mesmo.
E é exatamente assim com todas as pessoas. A diferença é que eu admito.

Não existe motivo algum para dar esmolas. Você não concebia a existência da pessoa antes, tampouco conceberá dali a instantes. Em verdade, você sequer se importa. A existência dela te causa uma angústia, um estado de pena que se mistura com impotência, e esse estado não pode se prolongar. É por isso que os mendigos se mantem sujos, e é por isso que deficiências são tão exploradas quando no corpo de um pedinte – quanto mais ele te afetar negativamente, maiores são as chances de conseguir uma esmola.

O ato de dar esmolas é um placebo pra angústia causada pelo estado do outro. E funciona perfeitamente, pois as pessoas ainda se enganam achando-se altruístas. Altruísmo seria tirar o mendigo da rua, dar-lhe abrigo, comida e carinho. Ao invés disso, dá -se moedas perdidas do bolso e aguarda-se até o momento em que a lástima de sua existência deixará de incomodar.

Altruísmo não passa de uma característica que todos querem dizer que tem – e podem, à medida que são egoístas.

***

“Se esmolas só fossem dadas por piedade, todos os mendigos teriam morrido de fome.”
– Nietzsche

***

Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Recordación

Conversei com muita gente – muita! – desconhecida e de outros países nessa Copa, só que dois em especial me chamaram muita atenção. Colombianos, ambos. O primeiro era atarracado, com a pele morena e calvície começando a aparecer no topo do casco de cabelos negros. Estava acompanhado de um cara mais velho, branco e magro, bem mais sorridente e até um pouco invasivo. Sentaram-se ambos do meu lado e de mais dois amigos enquanto comíamos, e o primeiro me perguntou como fazia pra ligar pra determinado número que tinha anotado no celular. Nós também não sabíamos e quebramos o coco tentando descobrir, até que eu percebi que faltava um 9 antes do número e era isso que dificultava tudo. Depois ainda emprestei meu celular pro colombiano ligar pro número.

Eu e meus amigos estávamos sendo perfeitamente atenciosos, mas ainda assim me sentia em dívida – conversar com gringos sempre me deixa meio defensivo. Estar diante daquela pessoa tão diferente, que veio de tão longe e está vivendo uma realidade tão diferente da minha! E ainda ter que manter uma conversa minimamente sã em outra língua! Não tenho todo esse rebolejo…

Enquanto o primeiro usava meu celular, o segundo tentava puxar assunto e contar piadas, mas o portunhol não ajudava a nenhum dos lados. Tentamos, sorrimos, mas eu parecia meio defensivo diante da incapacidade de me comunicar, enquanto meus amigos pareciam simplesmente não se importar muito com o fato daquela pessoa tão diferente falar e rir de coisas ininteligíveis do nosso lado.

O primeiro, então, me devolve o celular, dá um sorriso absurdamente atencioso e me entrega uma nota de 1000 pesos colombianos. Eu não fazia ideia de quanto aquilo valia, então o colombiano avisa: vale mais ou menos 1 real de vocês. É só de recordación…

Esse tipo de coisa me quebra. Eu sinto logo vontade de abraçar a pessoa.

Nos despedimos – sem a menor melhora nas capacidades comunicativas – e eles foram embora.

Me arrependo até agora de não ter dado nada de recordación pra ele. Nem que fosse a balinha de caramelo que eu tinha no bolso.

***

O outro colombiano que marcou foi já na final, logo após a Alemanha se consagrar tetra. Eu estava com a camisa da Argentina, não por torcer por ela – longe disso! -, mas é por que tenho a religiosidade futebolística de jamais usar a camisa do time no dia do jogo. Sempre que uso camisa do fluminense em dia de jogo, ele perde. Sempre que uso camisa da seleção em dia de jogo, ela perde. É simples.

Então usei a camisa da Argentina.

E ela perdeu.

A ideia era simples – se a Alemanha ganhar, comemoro! Eu tava torcendo pra ela!
Se a Argentina ganhar, comemoro também, afinal, estou com a camisa dela! Eu posso!

E eis que um cenário interessante se desenha: o céu escuro, as ruas da tijuca iluminadas pelos postes de luz e pelos fogos do Maracanã, que naquele exato instante via a taça de campeão do mundo ser erguida pelo capitão alemão. Argentinos, alemães, brasileiros, gringos de todos os cantos do mundo andavam pelas ruas com suas bandeiras, cantando e comemorando, ou apenas se lamentando. Cornetas, gritos, cantos – pura vida.

Paramos – eu e um casal amigo – em frente a um bar. Queríamos ir até o Maracanã nos unirmos àquela massa de pessoas ensandecidas até percebermos que não havia massa alguma; um grupo de policiais militares impedia o acesso a todas as ruas do entorno do Maracanã.

De um lado, pessoas do mundo inteiro andando contentes. Do outro, uma barreira de policiais. À minha frente, a televisão do bar, presa ao teto, transmitindo as cenas da campeã Alemanha. Acima, fogos de artifício.

Atrás de mim, um colombiano me cutucava. Baixinho, meio sujo, meio hippie, com um sorriso sincero.

“Quieres una pulsera?”

“No, gracias”

“Paga quanto quieres. Recordación.”

Olhei pras pulseiras que ele carregava naquela madeirinha vestida de veludo escuro – eram super simples, até meio feias, mas aquela cena me deixou comovido. Saquei a carteira. Tinha uma nota de 20 e uma de 5. Dei a de cinco, por que recordación não está me alimentando ainda.

Os instantes do cara amarrando a pulseira no meu braço me mostravam que aquele instante era especial, mas não entendia ainda por quê.Talvez já estivesse acostumado com a Copa, que já acontecia há um mês e pouco, e que acabava naquele exato instante, pra só voltar – se voltar – daqui a 60 anos.

Vai deixar saudades.

E recordações.