BDS – Brisas, Dostoievski e Skylab

Um imperativo que tem se levantado em minha vida é o das segundas-feiras. tudo começou – veja você – com uma reflexão do Skylab.

Durmo pouco pra ficar com sono durante o dia. Esse estado sonolento me deixa meio anestesiado e impede que eu faça mais besteiras do que normalmente eu faço; propicia uma certa insensibilidade, fundamental pra atravessar os dias. Uma noite bem dormida é um perigo: me deixa bem disposto e com a corda toda pro que der e vier. Tivesse um sono regular de 8 horas por dia, hoje eu já estaria morto.

Esse excerto é tão incrivelmente importante que eu precisei pensá-lo e repensá-lo dias a fio. E que importância teve cada um desses pensamentos!

Segunda-feira sempre foi um dia complicado. É o dia em que tudo dá errado, o dia em que eu fico em desalinho com o universo – falo besteira, ajo impensadamente, me arrependo de minhas atitudes.

Descansado do fim de semana, estou exagerado de energias para encarar a sociedade e isto é um perigo. Segundas são perigosíssimas.

Lembro de Memórias do Subsolo, do Dostoievski. Não pelo que é dito nele, precisamente, mas pelo que fica-se sugerido e faz-me pensar. Lá se divide a humanidade em dois tipos: os seres de consciência e os de ação.

Os de consciência são pessoas mais contidas, tímidas, que por pensarem muito agem pouco, calculando os riscos e desdobramentos antes de cada passo. Os de ação, por outro lado, agem e falam impulsivamente, sem pensar direito no que quer que seja.

Energia demais me torna um homem de ação. Mas eu sou um homem de consciência, em essência, desde sempre. Aí dá errado. Não possuo aquela leveza inerente das pessoas simpáticas de serem impensadamente agradáveis, espontâneamente divertidas, não tenho essa malemolência; quando agitado, enceno sempre a antipatia e amargura das pessoas socialmente inaptas.

É nos momentos impensados que faço comentários amargos, repreensivos. Falo coisas idiotas para as meninas ou sou grosseiro com os amigos. Convido aquela morena que já me dispensou pra um café e xaveco espontaneamente aquela crush do twitter. Ajo mal no trabalho ou vacilo com algum familiar.

Em suma, eu penso tanto, que quando não penso deixo a desejar. Mais fácil parece ser pra quem não costuma pensar, pois, adaptados a este estado, não se comprometem.

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Minha grande meta de aperfeiçoamento pessoal imediato é dominar as segundas. Um passo brusco, que seria um sonho mas me falta disposição, seria malhar de manhã. Quanto mais energia você gasta nos músculos, menos sobra para o cérebro e a língua. Principalmente na academia, quando você a distribui corretamente por toda a musculatura.

É impossível acordar antes das 8h para malhar, então busco através de concentração e foco manter-me em silêncio, passando em branco, na medida do possível. É claro que, sempre me sendo em excesso, fica difícil, pois sou também conversador e isto também se intensifica com energia acumulada.

Até chegar a essa conclusão, muito sofrimento tive nas noites de segunda, pois ainda exagerado de energia, não conseguia dormir, mas conseguia perceber e sofrer por todas as atrocidades que cometi ao longo do dia. Talvez as noites em que cheguei mais perto de sentir a tal ansiedade que vocês tanto falam.

Sigo lutando.

E esperando a capacidade de acordar cedo cair do céu.

***

A brisa do Memórias do Subsolo, contudo, é bem mais interessante do que isso. Vou apenas reproduzir o trecho do site Encena sobre ele:

***

“Todos os homens diretos e de ação são ativos justamente por serem parvos e limitados. Como explicá-lo? Do seguinte modo: em virtude de sua limitada inteligência, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas causas primeiras e, deste modo, se convencem mais depressa e facilmente que os demais de haver encontrado o fundamento indiscutível para a sua ação e, então, se acalmam; isto é de fato o mais importante.” (p. 29)

“… tenho culpa de ser mais inteligente que todos à minha volta. […] Finalmente, sou culpado porque, mesmo que houvesse em mim generosidade, eu teria com isso apenas mais sofrimento devido à consciência de toda a sua inutilidade.” (p. 21)

“Uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa.” (p. 18)

“… talvez o homem normal deva mesmo ser estúpido.” (p. 22)

“Com efeito, o resultado direto e legal da consciência é a inércia, isto é, o ato de ficar conscientemente sentado de braços cruzados”. (p. 29)

A partir desse argumento, inicia-se um discurso recorrente sobre sua superioridade intelectual, ainda que ele desconstrua tal superioridade a todo o momento. Isso porque mesmo que sua aparente exacerbada inteligência seja motivo de orgulho, também é uma forma de tortura. Pois o homem prático, de natureza idiotizada, acalma-se mais facilmente com suas ações vazias e pela substituição das suas causas primeiras por causas secundárias, sem tanta importância.

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