Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim! – Nietzsche, Gaia Ciência, §276

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Eu to numa fase em que todo romance tem um fim. Existem os fins sutis, que muitas vezes chamei de perfeitos, pq assim de fato parecem. Eles seguem o roteiro exato do que eu espero de uma relação, que é conhecer a pessoa, empolgar-se de leve, encontrá-la, julgamentos aqui e ali, empolgar-se ainda mais e ser forçado pelo desejo a encontrá-la mais e mais vezes. Esses encontros seguem seu próprio ritmo e possuem suas próprias melodias, cada pessoa a sua. Gosto de ver como pisamos em campos minados de forma esparramada, transitamos entre o bom e ruim buscando encontrar em nós mesmos a melhor versão. E aí tem o sexo, que é sempre bom, ainda que as vezes seja ótimo, incrível, e as vezes só bom. Existe um sentimento latente que te faz pensar, se perguntar, se por em dúvida, será que eu devo, será que eu fiz o certo, será que eu não sou um bosta? Isso estimula a pensar, a refletir, querer crescer e ser um indivíduo ativo, fazer arte, ser dramático, descarregar adrenalina no corpo até então inerte. Até que aos pouquinhos, quase sem se ver, acaba. A emoção acabo-ou… E tudo bem, pq la está a pessoa, e tudo bem, pq a queremos bem também. Mas não mais nos vemos, e aquela emoção vira um resignado carinho distante, sem dor, sem tristeza, só o afastamento comum.

Mas nem sempre é assim o fim. Existe um outro, que muitas vezes chamei de ruim, por assim parecê-lo, mas pensando bem vejo que não, e cogito rebatizá-lo de abrupto. É o romance que seguiu esse mesmo roteiro, mas iludiu a um dos dois de que o fim ainda estava mais longe do que de fato estava. E é uma sensação esquisita, o iludido se vê equivocado, se dá o direito de ser dramático, encontra em si um monte de defeitos e problemas, que sempre estiveram lá mas a aprovação do outro escondia. E daí tira-se uma tristeza resignada, uma autocomiseraçāo confortável, uma inércia dramática que deixa tudo com um tom meio cinza. Nos perguntamos onde erramos e o que faremos, pois nada mais está fazendo muito sentido, e sente-se um monte de coisas, e pensamos, mais do que nunca, mais do que sempre, são os dias em que mais pensamos em nossas vidas. Por isso não é ruim, como já achei. Nada que nos faça pensar é ruim, ainda mais se for algo inevitável, como geralmente são os fins. Pode ser desconfortável, e é bastante, saber que quando o celular vibrar não será a pessoa; quando passar onde se encontraram ela não estará lá; qnd ela quiser beijar ou um abraço não recorrerá você; mas não é ruim. Não no espectro de uma vida. É apenas abrupto. Alguns meses e o romance passa a ser só uma lembrança inócua. Para um, será eterna a sensação de desperdício do que poderia ter sido. Para o outro, como não quis que tivesse sido nada, será apenas um alento, uma lembrança para acarinhar a autoestima.

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