Balanço de 2016

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O dicionário da língua inglesa Oxford considerou “Pós-verdade” a palavra de 2016. Pós-verdade, conforme entendi, é essa odiosa postura dos seres humanos de darem mais importância às suas reações emocionais e pessoais do que aos fatos concretos e científicos. Por exemplo: você pode mostrar todos os estudos, exemplos e explicações de que a descriminalização da maconha é o melhor caminho a ser seguido, que a pessoa que é contra permanecerá sendo contra simplesmente por que ela prefere ignorar conscientemente a verdade para tornar a sua impressão pessoal o seu posicionamento definitivo. É pós-verdade por que a verdade simplesmente perde valor diante das crenças pessoais.

Por que isso é importante? Por que às vezes eu tenho a impressão de que nem a galera da Oxford sabia que essa palavra seria TÃO precisa em 2016. Eles não podiam imaginar que os EUA elegeriam um cara que prometeu construir um muro ao redor do país. Eles não podiam imaginar que um grupo de políticos corruptos conseguiriam tirar uma presidente inocente do poder – COM O APOIO PÚBLICO – simplesmente para continuar roubando. Eles não podiam imaginar que o Reino Unido retrocederia uns 200 anos se retirando da União Européia. Eles não poderiam imaginar que os protestos ocorridos em 2011 culminariam numa guerra civil sangrenta com tudo pra se tornar uma guerra mundial. Eles não poderiam imaginar a quantidade de coisas absolutamente absurdas que aconteceriam em 2016, movidas exclusivamente pelas impressões pessoais e pelo descaso com a realidade de uma galera que simplesmente não se importa com a verdade.

2016 foi o ano do impossível. Em 2015, se nos contassem o que aconteceria em 2016, teríamos considerado impossível. Um golpe? Trump? Nunca!

2016 foi o ano do costume. Bateram, bateram, bateram. Bateram tanto que nos acostumamos. Todos os dias acordamos ansiosos por ligar os celulares e descobrirmos qual desgraça acometera o planeta enquanto dormíamos. Ansiosos por saber a que novo ponto do poço chegaria nossa República, nossa humanidade, nossos conhecidos.

2016 foi o ano das Mortes Midiáticas. Parece que até então a mídia não havia notado o quão lucrativa é a morte. Talvez até notasse, mas acreditasse que se restringia às mortes trágicas ou de grandes ícones. Em 2016, qualquer morte era A morte. Todo dia havia uma nova morte, como se o ato de morrer tivesse sido inaugurado mês passado. Era aquele-ator-com-nome-esquisito-da-novela, era aquele-cantor-que-ninguém-ouvia, era a mãe-daquela-atriz-que-só-teve-um-papel. Todo dia algum fulano morria e lá estava a mídia para fazer parecer uma grande coisa, e lá estava o povo, a massa de manobra que batia palmas efusivas engolindo pílulas de emoção barata.

2016 foi o ano da pasteurização das emoções. Foi tanta raiva, tanto ódio, tanta propagação de mal gratuitamente, que nos tornamos praticamente imunes a eles. Uma nova desgraça pipoca em nosso feed e já pensamos: mais uma? O que foi dessa vez? Ah, só um morto? Ah, foi longe daqui?

Em 2016 nos impuseram tudo. Impuseram-nos a morte, a emoção e a lição. Pois até como sentir queriam nos ensinar no Facebook. Aprendemos a administrar nossas emoções, pois esse ano nos instigou tantas que faltava coração para senti-las. O avião da Chapecoense nos entristeceu, mas porra, uma semana depois caiu outro avião? Ah, esse aí vamos ignorar por que o da Chapecoense já preencheu a cota de tristeza. Aprendemos que devemos ficar tristes com massacres, mas só se forem de pessoas da nossa religião. Lá em Aleppo, por exemplo, não parece importar – é longe pra caralho e ainda são tudo terrorista, né.

2016 foi o ano do tom professoral entoado por ignorantes. Nunca antes os imbecis falaram com tanta veemência tantos absurdos. E 2016 também nos iluminou a vista para vermos que não eram apenas os “coxinhas” de direita o problema. Mostrou-nos que a esquerda é tão ou mais deprimente, simbolizada por meia dúzia de sindicalistas ultrapassados e adolescentes de sexualidades instáveis procurando alguma certeza em xingamentos e ódio gratuito. Como se já não existisse ódio o suficiente no mundo, 2016 foi o ano em que a galera se uniu exclusivamente para criar novas formas de professar o ódio.

2016 foi o ano da volta do linchamento. Claro, voltou, mas voltou diferente. Agora está travestido de luta social. Agora, meia dúzia de adolescente imbecil xingando uma pessoa por uma palavra mal colocada ou uma piada mal feita é movimento social. Estão pregando a igualdade e o amor – mas utilizando o ódio e a diferença.

Na real, 2016 foi o ano do desentendimento. Acredito que muitas das questões sociais que ebuliram nesse ano foram resultado do simples fato de que uma minoria entendeu Foucault enquanto a maioria achou que Foucault era Fuck You e se irritou. Uma minoria entendeu que a dominação se dá através do discurso. Entendeu que chamar o “pivete” de “pivete” era uma forma pejorativa de se lidar com um menino que é vítima da sociedade. Entendeu que uma piada pode representar muito mais do que uma simples piada.

O problema é que entenderam isso em um momento de tanto ódio que não tiveram paciência de explicar pra quem tava achando que Foucault era Fuck You. E aí, de um dia pro outro, decidiram ressignificar a palavra Assédio, por exemplo. E daí que tem uma parcela gigante da população que acha que Assédio é sinônimo estupro, enquanto tem uma minoria raivosa que acha que Assédio é qualquer tipo de invasão. E nesse desencontro de termos banhado a tanto ódio, intolerância e sangue, 2016 se sucedeu em meio ao completo e absoluto caos.

2016 pode ser resumido por uma palavra:

Desgosto.

Isso tudo, é claro, em âmbito social. No campo individual eu me dei bem pra caralho.

2016 foi o ano em que eu mais fiz sexo. Nos primeiros dois meses eu fiz sexo com mais gente do que em todo o resto da minha vida. Quando comecei a namorar, então, realizei o sonho de todo adolescente: fazer sexo periodicamente com uma mina absurdamente linda. Essa mina, aliás, se tornou minha namorada. Não só uma namorada. “A” namorada. Quem teve tantos encontros, crushs e peguetes quanto eu sabe como ninguém valorizar uma namorada que é fechamento. Que te entende e te ama verdadeiramente. Que te faz companhia e não está ocupada demais te envolvendo em problemas que só existem na cabeça dela. Que não está ocupada demais descobrindo qual o último sentimento que a internet inventou de transformar em doença psicológica. Que não está ocupada demais procurando um meme pra te responder de forma engraçadinha e vazia simplesmente por que não tem conteúdo pra te responder de forma interessante. Que não está ocupada demais pensando ciclicamente acerca de situações furtivas e esquece de desenvolver um mínimo de profundidade em qualquer assunto que seja. Que não está ocupada demais fingindo não se importar, fingindo ser fria e desapegada pra provar pra si mesma que merece atenção. Em suma, 2016 foi o ano que eu parei de lidar com meninas que tinham a maturidade emocional de uma criança simplesmente por que eu queria beijá-las. E, meus caros, vocês não sabem como isso é bom.

2016 foi o ano em que eu comecei a me sentir mal por estar desempregado. Comecei a trabalhar numa empresa em 2014 e permaneci nela até em abril de 2016. Um bico aqui e ali, uma empreitada aqui, uma iniciativa ali, mas no duro, no duro, fiquei desempregado de abril até dezembro. Namorando, com uma grana guardada e com a faculdade praticamente concluída, aproveitei estes meses como se fossem um prato de comida na frente de um homem faminto.

2016 foi o ano que todos os problemas familiares se resolveram. Meu pai se aposentou e pode dar mais atenção à minha mãe. Meu irmão trabalhou feito um corno mas pôde dar à mulher dele o conforto e alegria que sempre sonharam. Meus avós são felizes, saudáveis e divertidos.

Em 2016 eu passei mais tempo na praia do que trabalhando. Passei mais tempo no bar do que estudando. Passei mais tempo feliz do que reclamando. E passei mais tempo no ônibus do que isso tudo junto.

2016 foi bom pra caralho. E foi horroroso. Foi tão demorado que deu tempo de ser tudo.

Mas calma, calma. Hoje ainda é dia 30. Até amanhã deve morrer mais alguém. E, se bobear, dá tempo até da galera postar textão dizendo como você deve se sentir.

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