A vida está perfeita vírgula

Às vezes a vida é boa. Na maioria das vezes, na real. Só nos falta saber interpretar assim. Às vezes ela só é ruim mesmo. Mas, na maioria das vezes, é boa. Agora, espetacular é coisa rara. Perfeita, jamais.

A vida está perfeita, mas.

Ontem meus pais decidiram viajar. Meus pais nunca viajam. Minha mãe só passa mais de 24 horas fora de casa quando ela se muda. Ela não dorme fora, não viaja, não sai de noite, não faz nada que leve muito tempo fora de casa. Minha mãe às vezes é como um móvel da casa, está sempre ali.

Ontem decidiu viajar. Meu pai ficou desempregado essa semana então estamos cortando uns custos. Mas, poxa. Os últimos 18 anos ele esteve incessantemente escravizado pela capital. Está desempregado, mas está feliz. Foram viajar. Passar dois dias ali em Cachoreira Paulista, há duas horas de casa. Se pudesse, voltavam no mesmo dia, pra não passar muito tempo fora de casa, senão minha mãe pode ter uma síncope, essas coisas. Mas meu pai já não tem mais idade para dirigir de madrugada, então decidiram passar a noite por lá mesmo.

E aí, pela primeira vez em sei lá quantos anos, eu tive 24 horas com a casa livre pra mim. E, pela primeira na vida, a casa estava livre e eu tenho uma namorada.

Foi perfeito.

Sim, plenamente. Sem tirar nem por. Acordamos, tomamos café na varanda, fumamos um beck. Fizemos um almoço maravilhoso. Cebola empanada com molho agridoce e linguiça. Comemos tanto, mas tanto, que caímos no chão da sala e ficamos por ali mesmo. Tiramos uma soneca abraçadinhos. Lavamos a louça, consertamos a cama, limpamos o quarto, pintamos o meu cabelo de loiro e fizemos minha barba. Entre uma atividade e outra fazíamos sexo e brincávamos com minha cachorrinha, que nos acompanhou o tempo todo, além de darmos um dois aqui e ali. Assistimos ao melhor jogo de futebol do ano tomando cerveja, com um Fluminense surpreendente e arrasador metendo 4×2 no vice-líder do campeonato. No quarto gol, pulei pela casa gritando de alegria. Joguei minha roupa longe. Bati na parede e no sofá. Êxtase. Estávamos tão ocupados vivendo que nem notamos já ser hora da janta. Fizemos babata inglesa, com uma batata do tamanho da minha cabeça, queijo, calabresa e maionese. Arrastamos nossas enormes barrigas até o quarto e assistimos Breaking Bad agarradinhos até cairmos no sono.

A gente tinha que acordar 6 horas da manhã, mas quem disse que acordamos. Foi só às 11h que primeiro levantei as pálpebras e sussurrei baixinho “Jujuba, tá na hora”. E um novo dia começava, ainda sem meus pais. Que maravilha a liberdade! Tomamos café e beck e almoço e gozamos de tudo que a vida nos propunha naquele instante. E aí fomos na praia. Que dia maravilhoso para se ir à praia. Só notamos o quanto de calor fazia quando vimos um termômetro na rua apontar 39ºC. Já estávamos quase no Leme.

E aí, meus amigos. É tibum na água. Geladinha, cheia de ondinhas, perfeita. Minha jujuba é a coisa mais linda embaixo d’água. Ela e seu 1,45m, seus dois quilos de bochecha boiando, suas perninhas fininhas dando bananeira e sua franja de indiazinha. A praia já não é mais praia sem ela ali.

Deitado na areia, fiquei pensando com ela.

Estou desempregado. Mas estou mais feliz do que nunca.

Mas emprego traz liberdade, ela argumentou.

Traz? Estamos na praia numa terça-feira. Nos divertimos o dia inteiro por apenas 7 reais da passagem. Empregados estaríamos num escritório maldizendo a vida, estressados, suados, irritados. Brigaríamos com os outros e entre nós. Seríamos explorados, acordaríamos cedo, pegaríamos engarrafamento, ônibus lotado. Que liberdade é essa? A liberdade, eu disse, é uma ilusão. Estamos sempre expostos a imposições superiores. Leis da natureza, leis da sociedade, leis do nosso chefe, leis da nossa vizinhança, leis da nossa casa. A liberdade não existe. A liberdade não existe. A. Liberdade. Não. Existe. É tudo uma questão de negociação. Tudo. Cada dia, cada diálogo, cada relação. É tudo negociação. Por que a liberdade é um ideal que devemos nos pautar, não uma realidade. Não um emprego. Não um carro. Uma casa. Estar solteiro.

Liberdade é acordar a hora que quer, com a pessoa que você quer. Comer o que você quer. Fazer o que você quer. Por que você pode. E amanhã não vai poder. Por que vai ter um emprego, já que o emprego nos traz conforto, e nós queremos conforto, não liberdade. Nós aceitamos ser escravizados pelo conforto, não pela liberdade. Então quando estar desempregado me tirar meu conforto, aí sim vou querer um emprego.

Hoje, agradeço ao destino – que tantas vezes maldizemos, mas jamais endereçamos gracejos – pelas 48h maravilhosas de liberdade que me deu. Pela vida maravilhosa que me deu. Pela namorada. Pelos pais. Pela casa. Comida. Inteligência, saúde. Time. Segurança. Conforto. Por tudo que o destino, numa conjuntura improvável e infinita de acasos, me deu de mãos beijadas no dia de hoje.

Obrigado, universo.

O dia de hoje foi perfeito, mas
não foi eterno.

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