mais uma vez me irrita a mediocridade e comodismo dos outros

Ontem eu voltei às aulas pela última vez e já me estressei. Não última, última, por que eu ainda farei muitas aulas nesta vida, mas foi a última vez na faculdade. Era, inclusive, a matéria da qual sairá o meu projeto de TCC.

O professor ensinava as diretrizes de um TCC. O que pensar, como discernir as coisas, dividir os pensamentos, metodologia, preparação, etc, e eis que avisa – vocês precisarão ler um, e apenas um, texto. Tem algumas páginas e é em inglês.

Nisso, uma aluna do oitavo período de publicidade e marketing da UFRJ, levanta a mão e reclama – professor, e quem não sabe inglês?

O cara ficou espantado. Sério isso, filha?, deve ter pensado. “Galera, saber inglês é precedente fundamental para se formar em comunicação”, respondeu com uma paciência rara em professores de faculdade. Só com essa frase, e a despeito da paciência do cara, a mina já se estressou. Universitário adora se estressar com professor, né. É a chama combativa da juventude. E então começa o discurso vitimista “ah professor você não pode cobrar isso nunca me cobraram isso o governo não me deu condições de fazer um curso e eu não tenho dinheiro para pagar um então você não pode me cobrar que eu saiba se o governo nunca me deu essa possibilidade TÁ”.

Neste ponto, o professor diferiu de mim. Eu teria dito:

“Quem aqui fala inglês?”, quando a esmagadora maioria levantasse a mão, perguntaria – “eu devo adaptar meu trabalho para você ou você que deve se adaptar ao nível de cobrança do ambiente em que está?”

É um tema difícil de se abordar por que é muito tênue a linha entre a falta de oportunidade e o conformismo. Mas uma pessoa que se pretende formar pela maior faculdade do país precisa no mínimo falar inglês, não? “Eu não tive condição de pagar um curso”, então você não tem condição de estar aqui. Desculpe, mas as coisas são como são, por mais injustas e cruéis que sejam. Você não tem condição de se tornar uma comunicadora e influenciadora se não consegue sequer se informar por uma mídia gringa. Você não tem condição de fazer um trabalho relevante o suficiente para fazer jus à sua faculdade, se não consegue ler nem escrever literatura acadêmica de relevância, pois para ser relevante precisa ser em inglês. Você não precisa SER relevante. Mas precisa estar apta a sê-lo. E você não o é.

As pessoas adeptas desse discurso de “se o governo não me deu oportunidade, você não pode me cobrar” só serve para justificar a preguiça dessas pessoas.

Que aqui seja feito um adendo – o título de preguiça não se refere a todos. É evidente que um jovem mal alimentado, cujos pais trabalham exaustivamente, cuja casa é alvo de tiroteios e drogados, cuja escola é fraca e falha, cujos amigos são de má formação, deste jovem não podemos cobrar o inglês. Mas este jovem também não estará pleiteando um diploma na ufrj. É cruel, mas é fato. A menina estava. Ela teve condições. O governo já a carregou pela mão até ali. E ela não conseguiu entregar-lhe nada além do ESTRITAMENTE MÍNIMO.

O sistema não mudará por que você foi prejudicado por ele. O sistema não vai mudar para te abraçar. Todos ali sabem um conteúdo. Se você não sabe, o deficiente é você, e isso é um problema exclusivamente seu. Não importam seus motivos. Todo mundo tem motivo. Fosse uma entrevista de emprego, você seria automaticamente excluída. Fosse um professor mais rígido, você tomaria um fora e seria ignorada.

É a mesma ideia do cara que contrata estagiário. Se o contratante exige inglês, adobe, Office, experiência, portfólio, é por que sempre tem gente que tem isso tudo! Pra que ele vai contratar um indivíduo que não sabe nada, podendo contratar um que sabe pra caralho? Você faria o mesmo. Se o mercado está difícil, VOCÊ deve ter o diferencial. Gente com o básico tá sobrando por aí. Não é o estágio que deve te contratar enquanto você ainda é INCOMPETENTE e te dar toda a formação para você.

A menina monoglota, ao invés de reclamar de não saber inglês, podia ter feito uma série de coisas – não só cursos particulares, que apesar de caros, oferecem bolsas acessíveis, mas cursos em comunidades, que se ela tão pobre fosse certamente conheceria algum, ou fazer jus ao fato de ser a primeira geração a ter acesso a internet e APRENDER SOZINHA. Se o mundo não te dá nada, TE VIRA SOZINHA! Ninguém vai se virar por você. Um professor te amolece aqui e ali, mas o teu chefe não o fará amanhã. Há páginas na internet, cursos completos no youtube, aulas particulares online, aplicativos como o duolingo, além de, meu deus, a PRÓPRIA UFRJ OFERECER CURSOS GRATUITOS DE LÍNGUAS!

Enfim, o professor, demonstrando uma calma que em mim é escassa, mudou o trabalho da turma inteira por uma retardatária. E houve quem desse razão.

Por que as regras devem ser feitas mesmo pela exceção. E o grupo inteiro deve se atrasar pelo retardatário.

É assim mesmo que as coisas funcionam fora da faculdade.

As pessoas são preguiçosas. Acomodadas. Se gastassem metade do tempo que passam reclamando, estudando, seus problemas seriam resolvidos. Mas continue esperando que o sistema e o Estado mudem o jogo para você, ô café-com-leite. Amanhã você se comprazerá com um emprego meia-boca que lhe caiu do céu, enquanto eu alçarei, se tudo der certo, vôos bem mais altos com meu próprio impulso. Pois, se para aprender inglês precisei de curso, espanhol e italiano aprendi sozinho.

“O Estado não é teu pai,
Deus não te deve nada”

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