Sem propor juízo de valor

Pokémon Go é uma brisa muito doida. Tenho passado dias inteiros na rua e é interessante ver a quantidade de pessoas que passaram a andar com o celular na mão. Basta dar uma rápida olhada na tela do indivíduo e já se nota o verde fluorescente e o azul bebê do jogo. No Maracanã, onde tenho trabalhado, um gordinho desengonçado caminha diariamente procurando pokémons. Ele certamente não fazia isso antes. Naquele ambiente, onde tantas – tantas! – pessoas caminham e correm o dia inteiro – inteiro! -, o menino começa a praticar a caminhada por conta de um jogo. Parece um zumbi, mas ao menos levantou do sofá.

O gordinho sedentário pode ser engraçado. Muitas pessoas brincaram com justamente essa situação. Mas hoje, voltando do trabalho, vi um moleque andando na minha rua. Cabelo despenteado, camisa gasta da JMJ e uma cara esquisita, grudada no celular. “Tá jogando Pokémon Go, né safado”, pensei. “Será que tem algum bom por aqui? Vou abrir o meu”, pensei em seguida. “Vou falar com ele pra perguntar”, foi o que estava pensando enfim quando notei que o moleque, além de andar desengonçado, estava babando. Sim – babando. Ele não só era esquisito, mas era uma dessas pessoas que, por alguma razão, tem alguma disfunção e anda por aí todo esquisito e babando. Algumas pessoas tem pena, mas acho um sentimento esquisito. E lá ia, com toda a dificuldade que tinha para andar naquele asfalto fodido, com o rastro de saliva no chão e na camisa gasta, caçando pokémons Méier adentro. Ele também certamente não fazia isso antes. Fiquei preocupado dele ser assaltado, mas se a galera que cuida dele permitiu, deve estar de boa.

Geralmente o público do Pokémon Go é uma rapaziada jovem playboyzinha, que chama os broders pra caçar pokémon por aí, ou simplesmente que precisa percorrer algumas distâncias e aproveita para fazê-lo com o celular nas mãos. Eu tenho caçado nos intervalos do trabalho ou com minha namorada, e faço parte da rapaziada jovem playboyzinha. Os personagens dos dois relatos também, mas cada um do seu jeitinho diferente, adequado às imposições saudáveis (e nem um pouco seguras) do Pokémon Go.

Eu não quero incutir juízo de valor em nenhum desses relatos, pois se num primeiro momento eu também ri ao perceber o menino gordinho zumbizando, num segundo momento me senti péssimo, e senti extrema simpatia pelo moleque. E se num primeiro momento me sensibilizei com o menino babando, em todos os momentos seguintes assim permaneceu.

Chega de estruturar tudo por enquanto

comentava com as pessoas de que detestava ir dormir. Era criança, nem pensava direito nas coisas, só saía dizendo. – Detesto ir dormir. – quando davam ouvidos à criança quieta – Fico horas na cama, girando, girando, girando. Vem um monte de pensamento ruim. – Minha mãe, que já pensava antes de sair dizendo, se reconhecia – eu também, a mesma coisa. Detesto esses momentos antes de dormir.

Que pensamentos ruins que eram é que eu nunca tinha parado pra atentar. Medos, cobranças, hesitações. Eu lembrava da menina que amava, pois sempre amei uma menina, ainda que uma paixão distanciada da realidade, genuinamente impossível, e portanto tristíssima. Lembrava delas e vertia lágrimas. Até os 13 anos eu chorei bastante, devo ter esgotado o estoque. Já chorei com She, do Elvis Costello, e She, do Green Day. Já chorei com aquela do Renato Russo com o RPM. Mas esta tristeza, a de lembrar do amor, ela parecia bonita, confortável até. Aprendi a transformar em arte. Aprendi a transformar em reflexão também. E daí por diante a tristeza que dava, o pensamento ruim que dava, e ele sempre dava, virava inspiração, igualzinho à chuva que cai sem avisar, que pode nos enfurecer ou lavar a alma.

Nem todos assim o foram no entanto. Meu pensamento tropeçava nas cobranças, nas exigências. No colégio que enfiava conhecimentos goela à baixo, com testes e provas e trabalhos e trabalhos e trabalhos e quando eu parava de estudar para um já estava obrigado a estudar para os seguintes e nunca ia bem nas provas por que talvez eu não devesse fazer provas, mas quadros, ou textos, ou histórias, ou imagens, uma porra de uma escultura, até uma parede, ou o que quer que eu quisesse além de provas e trabalhos.

Pensava inclusive na maior cobrança de todas, que na minha cabeça estava dissociada do colégio, ainda que obviamente não estivesse – a cobrança religiosa. Pois essa era onisciente. Essa era onipesente. Essa te cobra – nós seguimos as regras, nós não pecamos, nós estamos limpos, e portanto você deve estar também. Nós nos abstemos – abstenha-se. E às vezes eu não queria me abster, às vezes eu só queria que alguém gritasse logo que É O RACHA e a partir desta expressão chutávamos a tudo e a todos sem prestar muita atenção em nada.

Cobrava-se tanto, mas tanto, mas tanto, como se quisessem que faltasse tempo ao pensamento livre, que vem exclusivamente a partir do ócio. Falo no passado, parece ser do presente. Nas roupas, na moral, no jeito de ser e agir. Proliferamos, sem perceber, pois quando estamos alienados não notamos que estamos alienados até que alguém vá e nos diga que estamos alienados. Mas recusamos, pois até então pareceu tudo bem, pareceu tudo legal, apesar de que antes de dormir, quando eu desligo a cabeça das cobranças e paro pra pensar na minha vida, eu sinta uma tristeza, um pensamento ruim, mas tá tudo bem, tá tudo legal, eu nem penso nisso durante o dia – que alienação que nada. Quase mudei de assunto, quase já te fiz esquecer o que que era que falávamos, por que é confortável esquecer do que falávamos – da proliferação das cobranças, nós, eu, você, hoje, no presente, agora há pouco na rua, daqui a pouco, agora mesmo. Da proliferação desse cerceamento do pensamento por todos os momentos e aspirações de nossa vida.

Eu era criança e sentia medo e tristeza quando me encontrava comigo antes de dormir. Sentia medo de lembrar do que fizera e do que faria no dia seguinte. Medo dos sonhos, que às vezes, quando tinha medo demais, viravam pesadelos.

Na realidade eu já nem sei se tinha tanto medo assim. Adotei esse discurso do medo para fazer o contraponto com a situação atual, presente, na qual sou destemido e livre. É a analogia mais óbvia, falo de antes e de agora, superei meu problema, me adequei ao discurso corrente da Superação – já posso postar no Facebook. O que não passa de uma mentira, pois o pensamento conservador, de cerceamento, de contenção das liberdades individuais, é constante, é necessário, é como o verso de uma folha. A folha possui dois versos, que apesar de serem dois coexistem de forma tal que uma não existe sem a outra, o verso não é a frente, mas sem a frente não tem verso. E a força de busca pela liberdade é a frente e a força de contenção conservadora é o verso e existimos e coexistimos e isso dá medo e é esse medo que lá na frente torna grandiosas as nossas conquistas.

O passado existiu e foi pleno da forma que foi, trazendo-nos ao instante presente em que todas as coisas são da única forma como poderiam ter sido. Este texto talvez não tenha coerência nem lógica, nem início nem fim, só um monte de palavra falando sem emitir absolutamente som nenhum, e assim mesmo fala-se de tudo e de todos, pois é fruto do pensamento livre, é nele que estamos querendo chegar, eu, você e a galera toda.

Vamos buscar o pensamento livre, vamos pô-lo como ideal, ideal inalcançável, sim, pois o pensamento conservador está em nós, em nossas veias e entranhas, reflexos e instintos, ainda que eu também não goste tanto dessa história de instinto, mas o conservador é necessário. Dizia Freud, dizia Nietzsche, dizia Aristóteles, dizia Buda, dizia a galera toda desde o princípio da história do dizer e do pensar, existe os dois, diziam, Freud chamou de pulsão de vida e pulsão de morte, Nietzsche chamou de Força de Potência, Aristóteles de Physis e Logos, Buda de sei lá o que, e alguns disseram “sigam o caminho do meio”, e outros disseram “foda-se o conservadorismo, extasie-mo-nos de liberdade”, e outros ainda ousaram “você não tem controle nenhum sobre nada então apenas vá a um psiquiatra”.

O caminho do meio. Fui eu que escolhi. Pois na rua faz frio e é gostoso estar quentinho. Pois eu sinto fome e McDonalds é gostoso. E há um custo, há uma cobrança, e eu aprendi a lidar com elas durante toda a minha vida. Às vezes o medo ainda tenta aparecer antes de dormir, mas eu já o conheço, já vi que nessa máscara está só a satisfação por estar vivendo e encarando coisas novas. E assim, sem lenço e sem documento, num sol de quase dezembro, eu vou, e este texto, sem fim nem início, sei lá o que