“O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta.
Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas desse gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos não estará mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é a prova d’água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não… Se é sincera ou mentirosa. Isso só é importante no teatro. Talvez nem nele. Entendo porque não fala, porque não se movimenta. Sua apatia se tornou um papel fantástico. Entendo e admiro você. Acho que deveria representar este papel até o fim. Até que não seja mais interessante… Então pose esquecer… Como esquece os seus papéis.”

Persona [1966] – Bergman

A Sabedoria da Calma e a Vontade de Mediocridade

O pessoal que entrou na faculdade junto comigo já está preparando seu TCC. Esta situação refuta o pensamento aparentemente plausível de que a idade traz consigo maturidade e inteligência. Vejo nestes jovens, tão apressados e atabalhoados, a recorrência dos mesmos erros daqueles adolescentes espinhentos que, no terceiro ano, tinham pressa para entrar na faculdade. Tanta pressa tinham eles, que entravam em cursos que não queriam, apenas para poder entrar logo em algum curso, e tão logo se apercebiam do erro cometido, saíam de seus cursos, investiam outro ano em pré-vestibular, e aí sim entravam no curso que seus corações mandavam.

No terceiro ano, não passei pro curso que eu queria. Resolvi investir um ano no pré-vest, ano no qual estabeleci metas altíssimas e cobrei de mim mesmo como nunca antes havia feito. Enquanto todos os meus colegas do terceiro ano se adaptavam a cursos quaisquer só para poder dizer aos pais que passaram pra faculdade, eu estava estudando fórmula de Bhaskara e química orgânica. Mais da metade dessas pessoas, após o primeiro ano de faculdade, largaram o curso, e hoje estão no início de seus cursos definitivos, enquanto eu, que tive a calma de estudar por mais tempo, já termino o curso ideal para mim sem maiores erros.

As diferenças do ensino médio para agora são duas. A primeira é que as pessoas são mais velhas, maduras e, teoricamente, inteligentes. Não deveriam recorrer no mesmo erro dos adolescentes recém formados. A segunda é que, na faculdade, estuda-se, teoricamente, coisas de seu agrado. Na faculdade, você escolheu seu curso, você deveria gostar dele e gostar de aprender coisas relativas à ele, pois os conhecimentos nele obtidos se reproduzirão em toda a sua carreira, e quanto mais vastos forem, mais efetiva será a carreira.

Por que, então, as pessoas tem tanta pressa em se formar?

Eu realmente não sei. Estudando na UFRJ, você tem a possibilidade de puxar matérias de todas as grades de todos os cursos. Pode-se aprender línguas no departamento de letras, pode-se praticar esportes com as turmas de educação física, pode-se aprender tudo relacionado a arte, história, filosofia e ciências sem maiores esforços. Basta puxar e comparecer.

Neste cenário, terminar a faculdade em 4 anos é a exemplificação máxima de mediocridade. É ater-se ao mínimo do mínimo, desprezar uma infinidade de conhecimentos por uma pressa infundada. Pois não há privilégio algum em formar-se em 4 anos – apenas perderá a meia-entrada em espetáculos e tornar-se-á “desempregado”.

Eu defini o tema do meu TCC no terceiro período. Desde então recolho materiais para embasá-lo, participo de grupos de pesquisa e faço trabalhos teóricos relacionados a este tema. Tenho material não só para um TCC, como também para o mestrado. Nem por isso me sinto pronto para fazê-lo. Quero fazer algo significativo, não apenas algo que vá me fazer formar, pois isto é fácil; quero algo relevante para o pensamento acadêmico.

Vejo, por outro lado, toda a minha turma do primeiro período puxando a matéria de elaboração de TCC, muitos sem fazer a menor ideia ainda do que abordar (afinal, tivemos apenas 3 anos e meio para pensar nisso), fazendo o trabalho unica e exclusivamente para terminar logo a faculdade. Sem um tema definido, já ouvi dizerem “vou fazer qualquer coisa só pra acabar logo com isso”.

Estou no sétimo período. Já terminei grande parte das matérias obrigatórias. Preciso, efetivamente, comparecer a mais duas matérias e elaborar o TCC. Em paralelo, estou desempregado. Aproveito este cenário para puxar matérias em diversos cursos. Estou aprendendo pintura na Escola de Belas Artes, filosofia no Instituto de Filosofia, psicologia no de Psicologia, e cinema com os alunos de audiovisual. Para que sair da faculdade, se tenho tanto ainda a aprender? Por que as pessoas tem tanta pressa em parar de estudar? Não deveríamos ter já superado essa mentalidade rasa de associar estudo a obrigação?

Por favor, me expliquem.

Que a Vontade de Mediocridade é uma força inerente aos seres humanos comuns eu já entendi. As pessoas tem preguiça de ser qualquer coisa além do mínimo exigido. Mas não deveríamos, ao menos nos nossos 20 e tantos anos, sermos melhores que isso?

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A Sabedoria da Calma – Aquele que mantém a calma diante de todas as adversidades da vida mostra simplesmente ter conhecimento de quão imensos e múltiplos são os seus possíveis males, motivo pelo qual ele considera o mal presente uma parte muito pequena daquilo que lhe poderia advir: e, inversamente, quem sabe desse facto e reflecte sobre ele nunca perderá a calma.

Schopenhauer