O tal do networking

Primeira aula do curso de direção de arte na ESPM. Eram 9:00 e eu tinha acabado de chegar no prédio no centro do Rio pela primeira vez. O email dizia sala 603, mas não tinha nada nessa sala. Ouvi pessoas perdidas como eu no corredor rumando à sala 905, mas chegando lá também não era a minha – era redação publicitária. Primeiras impressões do novo curso: já estou perdido neste lugar. Bom que na busca incessante pela sala já fiz primeiros contatos com uma dupla de pessoas igualmente perdidas. Nada melhor pra fazer amizades do que estar perdido em um prédio desconhecido.

Achada a sala – a aula ocorre na verdade na sala 404, vai entender – começa a aula. O professor se apresenta: diretor de criação da agência pica tal, agência pica X e outras duas agências não tão picas assim. Professor da ESPM. DJ, por que todo mundo é DJ hoje em dia, né? O curso vai ser assim: aula, aula, aula, chopp pago pelos professores, aula, aula, chopp pago pelos professores, aula, festa.

Já gostei do curso.

“É importante fazer networking nesse meio”, justificou o professor. Tá certo. “Agora liguem seus computadores aí”

Puta merda, a turma inteira já tá com o MAC ligado, menos eu. Como é que liga essa merda? Vou passar o dedo disfarçadamente pelas laterais, hm, parte de baixo, parte de cima, caralho cadê o botão, será que é touch essa porra?, nem é, puta merda os cara já tão mexendo no computador como liga essa caralha? Primeira impressão que vou passar pros caras do networking publicitário é que eu não sei nem ligar a porra do computador, fodeu.

“Ai, brou? Como ligo isso aqui?”, perguntei discretamente, mas a turma tava em silêncio, então geral ouviu. “Ah, é só apertar aqui”. Maldito botão escondido. “Eu também não sabia, hehe”. Menos mal.

“Quero que vocês entrem no site dafont.net e escolham uma font que diga algo sobre vocês. Escrevam seu nome com ela e me enviem”, pediu o professor. Ok, feito. Escolhi Typewriter Handmade. Aí ele abre as imagens no projetor e pede para explicarmos a escolha. A primeira menina começa. “Achei bonita, sabe. Bem… solta, assim, né”. Aí o professor conta um pouco da história da fonte, e assegura: é, é bonita mesmo. Guilherme, explica a tua aí. “A minha explicação é menos estética e mais pessoal, escolhi typewrite handmade por que apesar de trabalhar com design eu gosto de escrever, escrevo demais, desde os treze anos, aí achei que uma letra de máquina de escrever feita à mão representava bem essa dualidade quase paradoxal da minha vida”.

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Pessoal me olhou meio estranho. O professor fez uma leve careta, não sei se impressionado ou despeitado. Ninguém tinha percebido que eu sou meio maluco até então. “É, você escolheu pelo conceito, o conceito é muito importante também” e contou um pouco da fonte. Perguntou da minha faculdade, disse que estudou na UFRJ também, perguntou como tava lá. Sempre me sinto bem quando estou em um ambiente em que quase todos são de faculdades particulares. Lembro da música da torcida organizada da UFRJ: “você tentou, não conseguiu! Federal: melhor do Brasil!”. Mas tive que admitir: o palácio vai acabar. Metade do prédio tá fechado. O teto tá podre, outro dia desmoronou uma parte, e tinha uma colônia de gambás vivendo nas telhas, que desmoronou junto com a merda de gambá de anos.

Federal, melhor do Brasil!!!!

Todas as pessoas depois de mim reforçaram a explicação da fonte com os “por que é bonita” ou “por que achei que meu nome ficou legal com ela”. Me senti pretensioso. Mas eu sou da federal, é normal ter mais desenvoltura. Ou pretensão.

Termina a aula e eu nunca sei como agir. Digo nunca por que já fui a três aulas e ainda não aprendi como se age. Por que as pessoas demoram tanto para guardar o material? Eu só pus a mochila nas costas e estava pronto para descer. Descer o elevador conversando com os novos amigos, fazendo networking. Tudo em publicidade é em inglês, já notaram? Fazemos jobs, releases, briefings, social media. Networking. Tava animado pra fazer o networking, demonstrar para aqueles mortais que eu sou um cara pica que está disposto a fazer novos amigos. Mas os caras são muito lentos pra arrumar a mochila. Dou uma passada rápida no banheiro, lavo as mãos, ajeito o cabelo, volto pra sala – a turma ainda tá lá, agora falando com o professor. Ah, entendi. O networking tava ali.

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– Olá amigos vamo nos conhece amigos

Fui conversar – mas sabe quando você não consegue pensar em absolutamente nada de interessante para adicionar à conversa em grupo? Então, isso acontece meio que em todas as vezes que eu estou numa conversa em grupo. Fico olhando, sorrindo, concordando com a cabeça. Simpático, disposto, discreto.

Na segunda aula, dois grupinhos já estavam formados – e eu flutuava próximo a um, pois já tinha trocado duas ou três palavras com eles. Mas como fazem amigos facilmente, esses humanos. Duas aulas e já estavam amiguinhos. E eu, que na segunda aula já esqueci o nome de todos eles? No fim da segunda aula, eles decidiram ir ao museu – e não me chamaram.

Sou péssimo fazendo networking.

Mas com um chopp na mão, ah, rapaz, ninguém resiste ao meu charme.

A internet, quando massificou, foi reinventada. A entrada dos adultos nela foi determinante. Chegaram com eles o marketing, as leis, regras, censuras. As pessoas agora podiam ser processadas por comentários. Não era mais a terra sem lei de um dia, mas uma extensão do mundo real com consequências reais. O Facebook também tem uma parcela grande de culpa. Os fóruns, sites de relacionamentos, blogs, páginas, hiperlinks – tudo foi aglutinado em uma única página, onde todos tem nome, sobrenome e amigos. Os comentaristas anônimos dos fóruns foram quase extintos. Os blogs anônimos também. Você não podia mais falar o que você queria falar. Agora o jogo era pra valer. E tava todo mundo participando, por que o smartphone ficou acessível e dá pra pegar o wifi de vários lugares. E ai foram inventar de usar a internet pra fazer movimentação política. Falar de política era chato, era criticável até, na internet antiga – ah, fica falando na internet mas não põe  em prática. Ai essa meia dúzia de gente certinha, que não aderia ao discurso corrente, resolveu se juntar e fazer movimentos, que cresceram e todo mundo começou a querer participar também. Mudou a concepção. Agora, falar de política na internet é maneiro – está mudando o mundo real. A partir dai os resultados são muitos. Muitos avanços sociais acontecem e as ditas ‘minorias’ (que de minoria não tem nada) estão sendo empoderadas, mas uma vez que o empoderamento nas redes se dá a partir da repetição constante. e. insistente. de um discurso, as pessoas burras também resolveram que queriam ser empoderadas – e se dá a partir dai a ascensão de figuras grotescas como Bolsonaro, Sara Winter e Pixuleco. É preocupante. Se tem uma coisa que sempre vem junto de um cérebro fechado é uma boca aberta. Gente burra fala muito, e com convicção. É o que o Umberto Eco disse com “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. E não é uma competição acirrada – os números mostram isso. Tem muita gente sem estudo nesse país. A educação pública é precária , ridícula . É muito fácil ser ignorante e reproduzir o discurso ignorante. Sem falar dos religiosos, né, que são um problema em qualquer camada social. Ficam pensando num mundo de fábula e não percebem o que esta diante deles. Se o poder estiver na insistência, é uma guerra perdida pra ignorância, entende? Dai que eu sou contra esse papo de ser politizado na internet, saca? Eu preferia a antiga. Minha foto era de um anime, ou de uma estrela da Disney, eu tinha o nome que eu quisesse e as pessoas só buscavam entretenimento. Era mais fácil, divertido, e eu não era obrigado a ler tanta coisa burra.

Pra que servem as boas frases se não podemos usá-las?

 

É bastante complicado conviver em sociedade quando você valoriza as boas frases. Este povo parece não apreciar o dialeto rico. Perdi amigos, sofri preconceitos. Se só me faltassem os outros, va lá! Um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde. Mas faltava eu mesmo, e esta lacuna é tudo! O que eu podia fazer se “loucura sim, mas tem seu método” é uma frase que serve para tantos momentos? Eu que me aguente com os comigos de mim é quase um bordão, carrego comigo e o profiro como se uma câmera me enquadrasse de frente. Por muito tempo tive vergonha de ser assim. Hoje estou como se tivesse sido outro. Tento inseri-las no cotidiano, mas com calma, cuidado, cheio de medo de soar pretensioso aos ouvidos críticos dos que não apreciam a beleza de nossa língua. Estou acostumado às críticas, mas ninguém é de ferro, muito menos eu, pois metade de mim é amor, e a outra metade também.

 

Gostaria de lançar aqui e agora o manifesto em prol das grandes frases, um apelo a favor dos quotes fora de hora e das frases de efeito em momentos inoportunos. A literatura é bonita demais para ficar limitada a nossas vozes de leitura. Vamos trazê-la à vida – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de vida. Passe a palavra adiante, apoie a poesia das conversas cotidianas! Se presenciar alguem poetizando, aplauda, emocione-se, jogue flores! E que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja eterno enquanto dure.