Curso no Catete

Na metade do ano passado eu vi o evento no facebook. Era um curso gratuito, oferecido no museu do Catete, que tinha como proposta analisar o mundo contemporâneo estudando textos de Deleuze & Guattari (subjetividades) e Marx (capitalismo). Em todas as terças-feiras a partir de então eu saí mais cedo da faculdade pra chegar e sair mais cedo do estágio, andei por uns 20 minutos pela orla de Copacabana, entrei no metrô na Cantagalo, sempre lotado, por que eram já 18:00, e cheguei no museu do Catete pra assistir à minha aula favorita do semestre.

As primeiras aulas estavam lotadas. A sala dava lugar pra 60 pessoas e tinha tranquilamente mais de 100. Sentávamos no chão, depois ficávamos em pé. Era disputado. No segundo dia cheguei com meia hora de antecedência e só consegui sentar no chão. Estava convicto de que ia esvaziar no futuro – o brasileiro não sabe dar valor ao que é gratuito. Iam pela empolgação, por terem visto a palavra “grátis” e achado que seria legal. Encontrar os amigos, ouvir umas paradas maneiras. Mas presume-se que, sem vínculo, sem receber nada palpável em troca e sendo difícil pra cacete, ia esvaziar. E esvaziou. Na sexta aula já cheguei 5 minutos antes e sentei na parede.

Nunca dei um pio durante a aula. Só uma vez, na verdade, quando o professor se utilizou da cena de um filme pra exemplificar uma situação da leitura, e não lembrava de quem era o filme. “Tarantino!”, lembrei. Fora isso, eu sempre estava mais confuso do que convicto, e até mesmo minhas dúvidas pareciam exigir uma certa convicção para serem externalizadas.

Não que estar convicto fosse lá muito importante. Se tem uma coisa que eu entendi na filosofia de Deleuze é que quase tudo se baseia em fluxos. O exercício do pensamento filosófico é mais importante do que chegar a convicções. Deve ser só comigo, e talvez por isso eu goste tanto de filosofia, mas quando apreendo um novo conhecimento filosófico, daqueles que abala as estruturas, ainda que seja só de leve, aquela sinapse discreta e explosiva, toda a semana já passa ter valido a pena. Me sinto revigorado, feliz, satisfeito. E aquela aula, mesmo sem tantas convicções, mas com tantas sinapses, era sensacional.

deleuzeyguattari

KKKK Ó OS MALUCO ACHANDO QUE ENTENDERU NOIS KKKKKKKKKKKKK

Nos intervalos, por vezes tive companhia. Um ex-professor meu de literatura, que eu admirava – e admiro ainda – também fez o curso. Notei que estava em um lugar com pessoas inteligentes quando vi aquele cara lá. Foi ele que me fez gostar de poesia. Ele que interpretou, de forma teatral e até exagerada, Soneto de Fidelidade em frente à turma quando eu tinha 17 anos. Bateu no peito, puxou a camisa, socou a parede. Contou da vida dele. Estava apaixonado por uma curitibana. Exemplificava o sentimento do poema com a cena dele acordando e vendo os olhos da curitibana. Nos fez retomar sensações, como que, se isso fosse possível, explicando a poesia. Digeriu verso por verso. E dedicou uma aula de 2 horas a analisar a obra de Machado de Assis, com especial atenção e sensibilidade para Dom Casmurro. Em um curso de pré-vestibular?! Isso parecia loucura. Mas ele bancou.

A primeira vez que fui falar com ele, sabia que não me reconheceria. Mas só de chegar perto “Ih! Eu te conheço! Pensi Méier, né?”. Aquele não era mesmo um lugar para eu ter convicções. Conversamos, tomamos café. Debatemos política, referenciamos filmes, livros. Desmistifiquei a imagem que tinha dele. Mostrei que eu não tinha me tornado um quadrado como tantos daquela turma. Tudo nos intervalos de 15 minutos da aula. Só não consegui convidá-lo para um beck, que era o que eu mais queria.

Após alguns meses, eram raros os remanescentes. Coisa de 25, 30 alunos. Era preciso estar envolvido para estar ali. Na sala, os tipos mais esquisitos e os mais legais. Fui perdidamente apaixonado por uma menina de dread. Não era todo de dread, mas o cabelo castanho, liso, o olhar fatal, daqueles que dá até um certo receio, o tabaco, uma tatuagem na panturrilha, e só aí você percebia alguns dreads no cabelo. Nunca conversamos. Ela estava no patamar da idealização e assim permaneceria, até por que o diálogo nos colocaria na situação de tornar aquilo real, e a realidade é quase sempre, nesses casos, decepcionante. Uma mulher, psicóloga, como repetia sempre, meio coroa já, uns 50 e tantos anos, fazia questão de falar toda aula. Pausadamente, bem lento e enrolado. Nunca consegui prender minha atenção no que dizia, mas gostava de saber que pessoas velhas e inteligentes frequentavam o mesmo ambiente que eu. E não só ela me deu essa sensação. Uma vez, levei um grande amigo na aula. Comentamos, por alto, sobre La Danza, do Jodorowsky, o diretor mais esquisito e maravilhosamente pica do cinema mundial, e três pessoas de reflexo viraram e confirmaram: Jodorowsky é foda mesmo. Nos adicionaram no Face e tudo. Além deles, tinha dois intercambistas franceses que iam pra aula com um grupinho meio alternativo. Uma menina muito branca e muito magra que sempre sentava na frente. Uma mina grosseiramente linda. Um casal de adultos. Um idoso. Alguns caras barbudões e inexpressivos.

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Neste registro fotográfico proporcionado pela Estábulo Corporations™ podemos ver a menina de dread, a menina muito magra e branca, o idoso e as máquinas sociais com suas estruturas de socialização e poder.

No último dia de aula eu fui até meio triste. Tinha me apegado ao ambiente, à imagem daquelas pessoas, àquela nutrição semanal de pensamentos filosóficos, àquela descarga de dopamina pós-sinapses. Nem prestei atenção no que diziam. Estava aproveitando o momento. Fim de tarde, daqueles maravilhosos de verão carioca. A aula no auditório do segundo andar, de onde dava pra ouvir um grupinho de idosos tocando samba no primeiro andar. Um cafézinho antes pra dar foco. No intervalo, cheguei no professor. “Po, eu só queria agradecer a você por ter proporcionado esse curso, tão maneiro, tão denso, foi muito bom e construtivo, queria saber se você conhece outras iniciativas como essa, etc”. Ele me convidou para participar do grupo de estudos que ele formaria com alguns alunos daquela aula.

Aí as coisas desandaram.

2 comentários em “Curso no Catete

  1. “Ela estava no patamar da idealização e assim permaneceria, até por que o diálogo nos colocaria na situação de tornar aquilo real, e a realidade é quase sempre, nesses casos, decepcionante.”
    Essa frase me fez ter uma nova percepção dessa vida. Que é preciso ter coragem para ir além da superficialidade e conhecer alguém melhor, deve ser por isso que a maioria das pessoas prefere ser só aparências…

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