Aurora em 31 de Março

Quando errei, e errei demais
Aprendi e superei,
Esquecer, jamais.

Nem sempre fui o que sou
E nem poderia ter sido.
Fui muitas pessoas normais
Antes de ser esquisito.

Hoje mesmo eu já nem sei,
Fui tanto mudado e em tanto mudei!
Não mudar é o grande mistério.
O estático me dá cansura.
Não me leve muito a sério,
Já basta a mim essa loucura.

Pierrot le fou

pierrotlefoupinkO último filme maravilhosamente bom que assisti indico a todo ser com olhos deste planeta. Uma das grandes obras de Godard, na realidade nem é tão grandioso assim – sua beleza e genialidade estão nos detalhes, na palheta de cores, nos diálogos despretensiosos. Se chama Pierrot Le Fou, ou “O Demônio das Onze Horas”.

A quem porventura não conheça a obra do Godard, posso explicar do pouco que sei: ele tem filme pra caralho. Você pode encontrar de tudo em sua obra. Por isso, é bom saber no que está se metendo. Pierrot Le Fou é aquele filme de casal forasteiro, bandido, que está constantemente fugindo da lei, e que não consegue sequer confiar um no outro, apesar de amarem-se perdidamente. De um lado, Anna Karina, musa de Godard e sua futura ex-esposa, com o olhar mais expressivo que se verá na história do cinema francês. Do outro, Jean-Paul Belmondo, o mesmo de Acossado, obra-prima de Godard, com seu jeitão cafajeste dos anos 60, roupas sociais largas, cigarro no canto da boca fumado de forma bem charmosa e despojada, cabelo penteado pra trás com costeletas. Você sabe ao que me refiro. Ele, um escritor insatisfeito com sua vida. Ela, uma recém-viúva, que encontra seu marido morto em casa e decide fugir.

Por que eu assisti:
No carnaval decidi que iria prestigiar mais a obra de Godard. Só havia assistido dois filmes e os adorava. Como o carnaval foi bem ruim, acabei aprofundando a pesquisa para toda a Nouvelle Vague. Trouffault é maravilhoso também.

Você devia ver por que:
É bom em todos os aspectos. Bonito, poético, dinâmico, revolucionário, além de ser um clássico do cinema mundial.

Torrent: Aqui
Legenda: Aqui
Créditos: Making Off

Curso no Catete

Na metade do ano passado eu vi o evento no facebook. Era um curso gratuito, oferecido no museu do Catete, que tinha como proposta analisar o mundo contemporâneo estudando textos de Deleuze & Guattari (subjetividades) e Marx (capitalismo). Em todas as terças-feiras a partir de então eu saí mais cedo da faculdade pra chegar e sair mais cedo do estágio, andei por uns 20 minutos pela orla de Copacabana, entrei no metrô na Cantagalo, sempre lotado, por que eram já 18:00, e cheguei no museu do Catete pra assistir à minha aula favorita do semestre.

As primeiras aulas estavam lotadas. A sala dava lugar pra 60 pessoas e tinha tranquilamente mais de 100. Sentávamos no chão, depois ficávamos em pé. Era disputado. No segundo dia cheguei com meia hora de antecedência e só consegui sentar no chão. Estava convicto de que ia esvaziar no futuro – o brasileiro não sabe dar valor ao que é gratuito. Iam pela empolgação, por terem visto a palavra “grátis” e achado que seria legal. Encontrar os amigos, ouvir umas paradas maneiras. Mas presume-se que, sem vínculo, sem receber nada palpável em troca e sendo difícil pra cacete, ia esvaziar. E esvaziou. Na sexta aula já cheguei 5 minutos antes e sentei na parede.

Nunca dei um pio durante a aula. Só uma vez, na verdade, quando o professor se utilizou da cena de um filme pra exemplificar uma situação da leitura, e não lembrava de quem era o filme. “Tarantino!”, lembrei. Fora isso, eu sempre estava mais confuso do que convicto, e até mesmo minhas dúvidas pareciam exigir uma certa convicção para serem externalizadas.

Não que estar convicto fosse lá muito importante. Se tem uma coisa que eu entendi na filosofia de Deleuze é que quase tudo se baseia em fluxos. O exercício do pensamento filosófico é mais importante do que chegar a convicções. Deve ser só comigo, e talvez por isso eu goste tanto de filosofia, mas quando apreendo um novo conhecimento filosófico, daqueles que abala as estruturas, ainda que seja só de leve, aquela sinapse discreta e explosiva, toda a semana já passa ter valido a pena. Me sinto revigorado, feliz, satisfeito. E aquela aula, mesmo sem tantas convicções, mas com tantas sinapses, era sensacional.

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KKKK Ó OS MALUCO ACHANDO QUE ENTENDERU NOIS KKKKKKKKKKKKK

Nos intervalos, por vezes tive companhia. Um ex-professor meu de literatura, que eu admirava – e admiro ainda – também fez o curso. Notei que estava em um lugar com pessoas inteligentes quando vi aquele cara lá. Foi ele que me fez gostar de poesia. Ele que interpretou, de forma teatral e até exagerada, Soneto de Fidelidade em frente à turma quando eu tinha 17 anos. Bateu no peito, puxou a camisa, socou a parede. Contou da vida dele. Estava apaixonado por uma curitibana. Exemplificava o sentimento do poema com a cena dele acordando e vendo os olhos da curitibana. Nos fez retomar sensações, como que, se isso fosse possível, explicando a poesia. Digeriu verso por verso. E dedicou uma aula de 2 horas a analisar a obra de Machado de Assis, com especial atenção e sensibilidade para Dom Casmurro. Em um curso de pré-vestibular?! Isso parecia loucura. Mas ele bancou.

A primeira vez que fui falar com ele, sabia que não me reconheceria. Mas só de chegar perto “Ih! Eu te conheço! Pensi Méier, né?”. Aquele não era mesmo um lugar para eu ter convicções. Conversamos, tomamos café. Debatemos política, referenciamos filmes, livros. Desmistifiquei a imagem que tinha dele. Mostrei que eu não tinha me tornado um quadrado como tantos daquela turma. Tudo nos intervalos de 15 minutos da aula. Só não consegui convidá-lo para um beck, que era o que eu mais queria.

Após alguns meses, eram raros os remanescentes. Coisa de 25, 30 alunos. Era preciso estar envolvido para estar ali. Na sala, os tipos mais esquisitos e os mais legais. Fui perdidamente apaixonado por uma menina de dread. Não era todo de dread, mas o cabelo castanho, liso, o olhar fatal, daqueles que dá até um certo receio, o tabaco, uma tatuagem na panturrilha, e só aí você percebia alguns dreads no cabelo. Nunca conversamos. Ela estava no patamar da idealização e assim permaneceria, até por que o diálogo nos colocaria na situação de tornar aquilo real, e a realidade é quase sempre, nesses casos, decepcionante. Uma mulher, psicóloga, como repetia sempre, meio coroa já, uns 50 e tantos anos, fazia questão de falar toda aula. Pausadamente, bem lento e enrolado. Nunca consegui prender minha atenção no que dizia, mas gostava de saber que pessoas velhas e inteligentes frequentavam o mesmo ambiente que eu. E não só ela me deu essa sensação. Uma vez, levei um grande amigo na aula. Comentamos, por alto, sobre La Danza, do Jodorowsky, o diretor mais esquisito e maravilhosamente pica do cinema mundial, e três pessoas de reflexo viraram e confirmaram: Jodorowsky é foda mesmo. Nos adicionaram no Face e tudo. Além deles, tinha dois intercambistas franceses que iam pra aula com um grupinho meio alternativo. Uma menina muito branca e muito magra que sempre sentava na frente. Uma mina grosseiramente linda. Um casal de adultos. Um idoso. Alguns caras barbudões e inexpressivos.

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Neste registro fotográfico proporcionado pela Estábulo Corporations™ podemos ver a menina de dread, a menina muito magra e branca, o idoso e as máquinas sociais com suas estruturas de socialização e poder.

No último dia de aula eu fui até meio triste. Tinha me apegado ao ambiente, à imagem daquelas pessoas, àquela nutrição semanal de pensamentos filosóficos, àquela descarga de dopamina pós-sinapses. Nem prestei atenção no que diziam. Estava aproveitando o momento. Fim de tarde, daqueles maravilhosos de verão carioca. A aula no auditório do segundo andar, de onde dava pra ouvir um grupinho de idosos tocando samba no primeiro andar. Um cafézinho antes pra dar foco. No intervalo, cheguei no professor. “Po, eu só queria agradecer a você por ter proporcionado esse curso, tão maneiro, tão denso, foi muito bom e construtivo, queria saber se você conhece outras iniciativas como essa, etc”. Ele me convidou para participar do grupo de estudos que ele formaria com alguns alunos daquela aula.

Aí as coisas desandaram.

Ele a pega cuidadosamente pela mão, os olhares se cruzam enfim. Ela faz careta, não queria lidar com aquilo. Conheciam-se de outros tempos. Ele sorri debochado. Aproxima-se. No ouvido, baixinho:

– Nós somos pessoas completamente diferentes. Parecidas, numa primeira olhada, superficialmente, chegamos até a nos enganar. Mas completamente diferentes. Você é leonina e eu transbordo escorpião. O mundo fica diferente, a forma de lidar, pensamos agimos e sentimos. Mas se tem uma coisa que foi acima de tudo isso, essa coisa era o nosso beijo. Ah… Nosso beijo era bom demais, incomparável. Uma vez disse que passaria nele a eternidade e teria cumprido se você permitisse. Sinto falta de beijos assim nos encontros fortuitos e romances passageiros que encontro por aí. Se pudéssemos nos encontrar e ficar em silêncio, que casal faríamos! De dar inveja! Mas fomos escravos do diálogo, e aonde isso nos trouxe?

 

O tal do networking

Primeira aula do curso de direção de arte na ESPM. Eram 9:00 e eu tinha acabado de chegar no prédio no centro do Rio pela primeira vez. O email dizia sala 603, mas não tinha nada nessa sala. Ouvi pessoas perdidas como eu no corredor rumando à sala 905, mas chegando lá também não era a minha – era redação publicitária. Primeiras impressões do novo curso: já estou perdido neste lugar. Bom que na busca incessante pela sala já fiz primeiros contatos com uma dupla de pessoas igualmente perdidas. Nada melhor pra fazer amizades do que estar perdido em um prédio desconhecido.

Achada a sala – a aula ocorre na verdade na sala 404, vai entender – começa a aula. O professor se apresenta: diretor de criação da agência pica tal, agência pica X e outras duas agências não tão picas assim. Professor da ESPM. DJ, por que todo mundo é DJ hoje em dia, né? O curso vai ser assim: aula, aula, aula, chopp pago pelos professores, aula, aula, chopp pago pelos professores, aula, festa.

Já gostei do curso.

“É importante fazer networking nesse meio”, justificou o professor. Tá certo. “Agora liguem seus computadores aí”

Puta merda, a turma inteira já tá com o MAC ligado, menos eu. Como é que liga essa merda? Vou passar o dedo disfarçadamente pelas laterais, hm, parte de baixo, parte de cima, caralho cadê o botão, será que é touch essa porra?, nem é, puta merda os cara já tão mexendo no computador como liga essa caralha? Primeira impressão que vou passar pros caras do networking publicitário é que eu não sei nem ligar a porra do computador, fodeu.

“Ai, brou? Como ligo isso aqui?”, perguntei discretamente, mas a turma tava em silêncio, então geral ouviu. “Ah, é só apertar aqui”. Maldito botão escondido. “Eu também não sabia, hehe”. Menos mal.

“Quero que vocês entrem no site dafont.net e escolham uma font que diga algo sobre vocês. Escrevam seu nome com ela e me enviem”, pediu o professor. Ok, feito. Escolhi Typewriter Handmade. Aí ele abre as imagens no projetor e pede para explicarmos a escolha. A primeira menina começa. “Achei bonita, sabe. Bem… solta, assim, né”. Aí o professor conta um pouco da história da fonte, e assegura: é, é bonita mesmo. Guilherme, explica a tua aí. “A minha explicação é menos estética e mais pessoal, escolhi typewrite handmade por que apesar de trabalhar com design eu gosto de escrever, escrevo demais, desde os treze anos, aí achei que uma letra de máquina de escrever feita à mão representava bem essa dualidade quase paradoxal da minha vida”.

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Pessoal me olhou meio estranho. O professor fez uma leve careta, não sei se impressionado ou despeitado. Ninguém tinha percebido que eu sou meio maluco até então. “É, você escolheu pelo conceito, o conceito é muito importante também” e contou um pouco da fonte. Perguntou da minha faculdade, disse que estudou na UFRJ também, perguntou como tava lá. Sempre me sinto bem quando estou em um ambiente em que quase todos são de faculdades particulares. Lembro da música da torcida organizada da UFRJ: “você tentou, não conseguiu! Federal: melhor do Brasil!”. Mas tive que admitir: o palácio vai acabar. Metade do prédio tá fechado. O teto tá podre, outro dia desmoronou uma parte, e tinha uma colônia de gambás vivendo nas telhas, que desmoronou junto com a merda de gambá de anos.

Federal, melhor do Brasil!!!!

Todas as pessoas depois de mim reforçaram a explicação da fonte com os “por que é bonita” ou “por que achei que meu nome ficou legal com ela”. Me senti pretensioso. Mas eu sou da federal, é normal ter mais desenvoltura. Ou pretensão.

Termina a aula e eu nunca sei como agir. Digo nunca por que já fui a três aulas e ainda não aprendi como se age. Por que as pessoas demoram tanto para guardar o material? Eu só pus a mochila nas costas e estava pronto para descer. Descer o elevador conversando com os novos amigos, fazendo networking. Tudo em publicidade é em inglês, já notaram? Fazemos jobs, releases, briefings, social media. Networking. Tava animado pra fazer o networking, demonstrar para aqueles mortais que eu sou um cara pica que está disposto a fazer novos amigos. Mas os caras são muito lentos pra arrumar a mochila. Dou uma passada rápida no banheiro, lavo as mãos, ajeito o cabelo, volto pra sala – a turma ainda tá lá, agora falando com o professor. Ah, entendi. O networking tava ali.

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– Olá amigos vamo nos conhece amigos

Fui conversar – mas sabe quando você não consegue pensar em absolutamente nada de interessante para adicionar à conversa em grupo? Então, isso acontece meio que em todas as vezes que eu estou numa conversa em grupo. Fico olhando, sorrindo, concordando com a cabeça. Simpático, disposto, discreto.

Na segunda aula, dois grupinhos já estavam formados – e eu flutuava próximo a um, pois já tinha trocado duas ou três palavras com eles. Mas como fazem amigos facilmente, esses humanos. Duas aulas e já estavam amiguinhos. E eu, que na segunda aula já esqueci o nome de todos eles? No fim da segunda aula, eles decidiram ir ao museu – e não me chamaram.

Sou péssimo fazendo networking.

Mas com um chopp na mão, ah, rapaz, ninguém resiste ao meu charme.