Estava enrolando para estudar no twitter e eis que surgiu uma reflexão interessante:

acho engraçado como virou piadinha dizer que heterossexualidade é frágil, como se houvesse alguma característica identitária que não fosse

nossas identidades são inconstantes, são fluxos. tentamos defini-las para poder nos apresentar à sociedade e tentar nos entender apenas.¹

hoje eu posso gostar de algo e amanhã eu posso perfeitamente gostar de outra coisa. Não só eu – todo mundo

a única coisa estável na minha identidade é o amor à minha família e amigos, todo o resto é passível de mudança

o que acontece é que a sociedade exige que sejamos coerentes, então as pessoas com menos autoconhecimento se veem na necessidade de estabelecer 1 identidade só

oq invariavelmente dá errado, já que nosso cérebro naturalmente tende à mudança, e a partir daí as pessoas tentam reprimi-las²

Não somos heteros nem gays nem bi – somos momentos. Às vezes temos vontade de um, às vezes do outro.³

Qnd nos estagnamos em uma opção, reprimimos as demais.

Oq não quer dizer que não existam heteros de fato – eu, até hoje, fui exclusivamente hetero.

Já beijei um cara, achei nojento. Amanhã talvez me apaixone por um cara, quem pode dizer? Não vou fechar essa porta.

Mas até hoje fui hetero (ainda que “afeminado”, com gostos “estranhos” e formas de agir e pensar não-tão-pertencentes-ao-imaginário-hetero)⁴

acho isso tudo muito engraçado pq geralmente quem faz essas piadinha são uma rapaziada que é tão perdida qnt os heteros mas se acham mais estáveis pq transformam as ideologias sociais delas em suas identidades e a partir daí o movimento social deixa de ser uma atitude e se torna parte da identidade da pessoa

acho que o mundo inteiro deveria ter umas aulinhas de “História da Sexualidade” do Foucault

ñ que ler filosofia seja necessário pra se entender, mas se vc quer uma referência de pensamento, talvez buscar num dos maiores pensadores da história seja mais produtivo do que buscar no textão do facebook.

Nesse momento, vi na home do twitter o seguinte tweet:

🌼 minha vivência vale muito mais que a teoria de qualquer filósofo 🌼

Esse tweet é o maior exemplo de ignorância e burrice que eu poderia encontrar⁵, mas me deu motivo para encerrar minha elucubração com:

🌼 nossa vivência é uma perspectiva limitada e tendenciosa pelo fato de estarmos interpretando-a de dentro dela.

***

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¹ Pelo que consegui entender no curso de Deleuze e Guatarri que fiz este semestre, o qual analisava o Anti-Édipo, os autores retomam dois conceitos instituídos por Freud: fluxos desejantes e pulsão de morte. Os fluxos desejantes, como o nome sugere, possibilitam nossa capacidade de desejar algo e, assim que o obtemos, passar a desejar outro. Isso se dá por nossos desejos serem inconstantes, fluídos. Mas o que é que faz perdermos o interesse em algo? A pulsão de morte. A pulsão de morte é o que nos leva a interessar-nos apenas pelo novo, pelo que não temos. Há quem diga que ela pode ser negativa, mas pelo contrário – ela é fundamental para que a sociedade possa estar constantemente se reinventando, se desprendendo de conceitos engessados.

² Somos um resultado de uma orquestração constante desses dois processos, majoritariamente inconscientes, e por isso somos (ou, deveríamos ser, ainda que façamos muitas vezes esforços conscientes para impedi-lo) metamorfoses ambulantes.

³ Estudando a História da Sexualidade, Foucault nos conta, por exemplo, que a criação da distinção “homossexual” e “heterossexual” data do século XVII. Anteriormente, existia apenas o “normal” e o “louco”. E aí entra a questão – o que é louco? Isso é relativo (tanto que Foucault mais tarde estudaria A História da Loucura), mas podemos ver como, por exemplo, na Roma antiga ser pedófilo era socialmente aceito, enquanto hoje em dia é loucura. Da mesma forma, para alguns, hoje, homossexualidade é ainda loucura, para tantos outros é tão normal que chega a ser banal.

O importante mesmo é que sexualidade provém dos nossos desejos, e estes são majoritariamente inconscientes. Se são inconscientes, são mutáveis, expansivos, transitórios – e portanto adaptá-lo a um termo é NECESSARIAMENTE burro e limitante.

(Aliás, a linguagem é invariavelmente limitante, mas essa é outra brisa)

⁴ Um dos meus melhores amigos é gay. Ele vivia dizendo que a razão de todos os meus problemas era que eu reprimia minha homossexualidade. Numa festa, cheguei pra ele – broder, me dá um beijo. Foi nojento, como eu imaginei que seria. Mas ter provado e constatado para mim mesmo que eu não era, naquele momento, gay, me deu liberdade para parar de reprimir meus trejeitos e gostos muitas vezes tidos como afeminados. Isso por que me dou a liberdade de ser como eu quero, não como eu deveria.

⁵ Preciso explicar por que? Centenas de pessoas no mundo inteiro, a cada época, estudam todos os filósofos anteriores a si e elaboram suas teorias. Destas centenas, alguns poucos ganham visibilidade. Dali a alguns séculos, destes poucos, no máximo um continua como referência de pensamento.

Mas, é claro, ignoremos todos os grandes pensadores da humanidade e tomemos a nossa perspectiva limitada, ignorante, emocional, tendenciosa, como correta.

Sua vivência só vale alguma coisa para você.

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