Balanço de Fim de Ano (v. 2015)

12244818_1060319223988548_4547245202949974239_oApesar de ter sido bem construtivo e criador, esse ano foi bem menos interessante e produtivo que os passados. Foi uma vibe menos de descobertas e mais de reforço e estabelecimento de fundamentos do pensamento e da psique. Nos últimos anos eu colhi tantos ensinamentos que foi necessário chegar um momento e organizá-los, enraizá-los. Não basta apenas escrever mil coisas no caderno durante a aula – é preciso, passado um tempo, relê-lo e fixá-lo.

Minha produção ao mundo foi pífia. Não considero meu estágio como produção ao mundo – no estágio sou apenas mais uma engrenagem fazendo o sistema se mover. Meu conceito de produção vem do pensamento grego, pautado na ideia do cosmo. Já expliquei cosmo aqui – “em grego antigo: lit. “ordem”, ”beleza”, ”harmonia”. a totalidade de todas as coisas deste universo ordenado, desde as estrelas, até as partículas subatômicas.” – a partir do qual se afirma que todos os indivíduos vieram ao mundo com um talento que fundamenta sua existência, sua participação neste universo ordenado, e é seu dever ético para com o cosmo desenvolvê-lo. Meu único talento é escrever. Sou bom em algumas coisas, mas escrever – é por isso que eu tô aqui. E eu escrevi muito pouco. A maioria das minhas ideias estão sendo incorporadas no meu livro, que tem ficado tão ambicioso que começo a desacreditar da minha capacidade de fazê-lo. Escrever um romance, com início, meio, fim, conflitos, personagens e diálogos é muito mais difícil do que parece.

Não pensem que trato o estágio com desleixo. Ele é muito importante e, enquanto estou lá, dou toda a atenção necessária. Nunca faltei com nenhuma obrigação, sou adorado pelas chefes. Mas é um trabalho, apesar de livre. Dou tudo o que ele exige de mim, mas não muito mais – até por que ele não pede tanto assim. Ele é fundamental, no entanto, pois provê o dinheiro que sustenta grande parte do que direi a seguir.

abraçoTive alguns romancinhos, a maioria bastante saudável e construtivo. Nenhum com perspectivas a longo prazo, mas ninguém está pensando nisso agora (além da minha mãe). Eles exerceram uma função crucial de me manter distraído com pessoas simpáticas que só me traziam bons pensamentos e boas sensações. Pude, ao lado delas, ser uma pessoa melhor, e ter a certeza de que fiz bem a elas também. Exceto um, o último, que fora um desastre. Ela era maluca. Não é este o motivo, pois ela não era só ‘maluca’, como diz-se pejorativamente de mulheres. Todas são malucas, todos somos malucos. Os menos malucos, inclusive, são os mais sem graça. Eu gosto da loucura, principalmente das parecidas com a minha. Mas a desta última era radicalmente oposta à minha – uma loucura agressiva, negativa, cheia de si, que acabava por suscitar em mim facetas negativas também. Foi uma pena gigantesca, e ainda penso as vezes pois não tem tanto tempo assim. A mina era muito bonita. O que mais entristece é o desperdício.

Mas na falta de um coração interessado não faltaram braços amigos. Tenho quatro grandes amigos, precisamente classificados por proximidade, e à frente de dezenas de amigos e conhecidos que me querem bem também. Pode parecer pouco, mas quando cada um decidiu ir pra uma festa diferente, eu xinguei o destino por ter me feito com tantos amigos. Minha relação com meus amigos seguiu uma tônica durante todo o ano: ao mesmo tempo que eu sentia que não ia o suficiente para festas, me sentia pressionado pelos meus amigos, que me chamavam para muitas festas e reclamavam quando eu não ia. Tudo fica explicado pela minha rotina extremamente cansativa. Quando me chamam para sair durante a semana, estou invariavelmente com sono e recuso. A menos que seja sábado (e algumas sextas) – eis os únicos dias em que saí. O problema é que as pessoas tem tanto fogo no cu que saem segunda terça quarta quinta sexta domingo e querem companhia em todos.

Alheio a essa paradoxo, o balanço foi extremamente positivo – 100% das noites em que saí foram sensacionais. Não consigo – juro! – lembrar de uma noite sequer que tenha sido ruim este ano. Se faltou algo, e sempre falta, é devido à minha incapacidade de trocar beijinhos com as meninas que eu quero. Isso entristece, pois todos os migos conseguem. Mas, nesse caso, eu fico doido – o que é muito bom também – e vez ou outra ainda surge uma outra menina do acaso. Sempre cheguei em casa com um sorriso no rosto, doido, feliz, convicto de ter grandes amigos e grandes histórias.

Como em janeiro decidi entrar na academia, dei continuidade ao projeto peladas de domingo™ e, no estágio, tenho muito contato com matérias e material de nutrição, estabeleci pra mim (e acabei carregando meus pais junto) uma rotina saudável, com comida, esportes e bons hábitos. Não fez muita diferença, mas acredito que a longo prazo possa ser fundamental. Utilizei meu recente interesse por MasterchefBR somado a este contato com nutricionistas e aprendi a cozinhar algumas coisas básicas mas bem gostosas.

Essas são as coisas importantes. No mais, tudo igual. Minha faculdade ainda é apaixonante, ainda que tenha sido extremamente esvaziada esse ano – greves, paralisações, muita gente fazendo intercâmbio, muita gente saindo do curso. Meu local favorito no campus está fechado para reforma. Nunca mais será o mesmo. Tenho desbravado outros que não chegam a 5% do conforto e privacidade daquele. Meu spot no campus foi a segunda maior perda do ano.

A maior perda do ano foi o Forfun. 2015 será pra sempre o ano em que o Forfun acabou. A menos que eles voltem, é claro.

Minha vida é boa.
2015 foi um ano feliz.
Menos que 2013, muito menos que 2014.
Mas ainda foi pica – eu é que fiquei mal acostumado.

Hoje, vou à aula e encontro amigos, depois ao estágio que adoro, dou um tibum na praia e termino o dia na academia, ouvindo minha instrutora (uma moça elétrica e divertida) discutir política com os coxinha (que, apesar de coxinha, são simpáticos também). Nos fins de semana, festinhas ou encontros ou barzinhos ou meros passeios despretensiosos por lugares com verde. Às vezes, integração com a família (cada dia mais querida).

Tá bom ou não tá?

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Essa foi uma descrição tentando ser imparcial. Me permitindo ser parcial, repetiria tudo o que foi dito, mas adicionaria uma latente e grosseira decepção com ahumanidade. Cada dia mais irritadiça, cada dia mais ignorante, mais intolerante! Quanto mais falam, menos leem! Quanto mais falam, menos escutam. Todos os dias abri o facebook e fiquei entristecido com os rumos que nosso mundo toma. Almejei gritantemente estar alheio a ele.

É uma comoção tão negativa que acabo sendo afetado e as pessoas ao meu redor também. É visível, é irritante. Malditos humanos – nasceram cegos e surdos, então só conseguem gritar.

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Vejam vocês como até esse texto foi menos interessante que o último balanço de fim de ano. 2015 deixou a desejar.

Que venha 2016!

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Estava enrolando para estudar no twitter e eis que surgiu uma reflexão interessante:

acho engraçado como virou piadinha dizer que heterossexualidade é frágil, como se houvesse alguma característica identitária que não fosse

nossas identidades são inconstantes, são fluxos. tentamos defini-las para poder nos apresentar à sociedade e tentar nos entender apenas.¹

hoje eu posso gostar de algo e amanhã eu posso perfeitamente gostar de outra coisa. Não só eu – todo mundo

a única coisa estável na minha identidade é o amor à minha família e amigos, todo o resto é passível de mudança

o que acontece é que a sociedade exige que sejamos coerentes, então as pessoas com menos autoconhecimento se veem na necessidade de estabelecer 1 identidade só

oq invariavelmente dá errado, já que nosso cérebro naturalmente tende à mudança, e a partir daí as pessoas tentam reprimi-las²

Não somos heteros nem gays nem bi – somos momentos. Às vezes temos vontade de um, às vezes do outro.³

Qnd nos estagnamos em uma opção, reprimimos as demais.

Oq não quer dizer que não existam heteros de fato – eu, até hoje, fui exclusivamente hetero.

Já beijei um cara, achei nojento. Amanhã talvez me apaixone por um cara, quem pode dizer? Não vou fechar essa porta.

Mas até hoje fui hetero (ainda que “afeminado”, com gostos “estranhos” e formas de agir e pensar não-tão-pertencentes-ao-imaginário-hetero)⁴

acho isso tudo muito engraçado pq geralmente quem faz essas piadinha são uma rapaziada que é tão perdida qnt os heteros mas se acham mais estáveis pq transformam as ideologias sociais delas em suas identidades e a partir daí o movimento social deixa de ser uma atitude e se torna parte da identidade da pessoa

acho que o mundo inteiro deveria ter umas aulinhas de “História da Sexualidade” do Foucault

ñ que ler filosofia seja necessário pra se entender, mas se vc quer uma referência de pensamento, talvez buscar num dos maiores pensadores da história seja mais produtivo do que buscar no textão do facebook.

Nesse momento, vi na home do twitter o seguinte tweet:

🌼 minha vivência vale muito mais que a teoria de qualquer filósofo 🌼

Esse tweet é o maior exemplo de ignorância e burrice que eu poderia encontrar⁵, mas me deu motivo para encerrar minha elucubração com:

🌼 nossa vivência é uma perspectiva limitada e tendenciosa pelo fato de estarmos interpretando-a de dentro dela.

***

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¹ Pelo que consegui entender no curso de Deleuze e Guatarri que fiz este semestre, o qual analisava o Anti-Édipo, os autores retomam dois conceitos instituídos por Freud: fluxos desejantes e pulsão de morte. Os fluxos desejantes, como o nome sugere, possibilitam nossa capacidade de desejar algo e, assim que o obtemos, passar a desejar outro. Isso se dá por nossos desejos serem inconstantes, fluídos. Mas o que é que faz perdermos o interesse em algo? A pulsão de morte. A pulsão de morte é o que nos leva a interessar-nos apenas pelo novo, pelo que não temos. Há quem diga que ela pode ser negativa, mas pelo contrário – ela é fundamental para que a sociedade possa estar constantemente se reinventando, se desprendendo de conceitos engessados.

² Somos um resultado de uma orquestração constante desses dois processos, majoritariamente inconscientes, e por isso somos (ou, deveríamos ser, ainda que façamos muitas vezes esforços conscientes para impedi-lo) metamorfoses ambulantes.

³ Estudando a História da Sexualidade, Foucault nos conta, por exemplo, que a criação da distinção “homossexual” e “heterossexual” data do século XVII. Anteriormente, existia apenas o “normal” e o “louco”. E aí entra a questão – o que é louco? Isso é relativo (tanto que Foucault mais tarde estudaria A História da Loucura), mas podemos ver como, por exemplo, na Roma antiga ser pedófilo era socialmente aceito, enquanto hoje em dia é loucura. Da mesma forma, para alguns, hoje, homossexualidade é ainda loucura, para tantos outros é tão normal que chega a ser banal.

O importante mesmo é que sexualidade provém dos nossos desejos, e estes são majoritariamente inconscientes. Se são inconscientes, são mutáveis, expansivos, transitórios – e portanto adaptá-lo a um termo é NECESSARIAMENTE burro e limitante.

(Aliás, a linguagem é invariavelmente limitante, mas essa é outra brisa)

⁴ Um dos meus melhores amigos é gay. Ele vivia dizendo que a razão de todos os meus problemas era que eu reprimia minha homossexualidade. Numa festa, cheguei pra ele – broder, me dá um beijo. Foi nojento, como eu imaginei que seria. Mas ter provado e constatado para mim mesmo que eu não era, naquele momento, gay, me deu liberdade para parar de reprimir meus trejeitos e gostos muitas vezes tidos como afeminados. Isso por que me dou a liberdade de ser como eu quero, não como eu deveria.

⁵ Preciso explicar por que? Centenas de pessoas no mundo inteiro, a cada época, estudam todos os filósofos anteriores a si e elaboram suas teorias. Destas centenas, alguns poucos ganham visibilidade. Dali a alguns séculos, destes poucos, no máximo um continua como referência de pensamento.

Mas, é claro, ignoremos todos os grandes pensadores da humanidade e tomemos a nossa perspectiva limitada, ignorante, emocional, tendenciosa, como correta.

Sua vivência só vale alguma coisa para você.

Foi Só Uma Egotrip

Eu overthink
Eu sou overthink
Eu overthink demais
Tudo.
Pessoas
Amores
A vida
Tudo.
Eu sei que não sou fácil
Nem pra mim nem pra você.
Eu penso demais
E eu sinto muito.
A partir de um momento,
Vira tudo arte.
As vezes até parece,
Que é só pra isso que serve.