#04

Eles se esforçaram para estar ali.

Algo os fez sair de casa, se vestir, se preparar.

Eles estão bem vestidos.

Era importante.

Se prepararam,

Ansiaram por aquilo.

Mas ele está nas nuvens.

Ele a vê como ele quer,

Não como ela é.

Ele a ouve como ele quer,

Não como ela é.

Ele a sente como ele imagina,

Não como ela é.

Ela tenta encontrá-lo, mostrar-se.

Ela também queria!

Mas ele decepciona.

Olhando pra trás hoje,

Quem nunca esteve nestas nuvens?

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Manifesto do Óbvio que Quase Ninguém Viu

Certa vez disseram que evoluímos.

Mas que fique claro:

Não somos o melhor resultado.

Não somos nem resultado

Que dirá o melhor.

Não foi a evolução,

Foi a imposição,

Foi o que deu pra ser.

Não é mais a escravidão,

É a superexploração conivente

Da criança na China

Dos haitianos no Acre

Dos bolivianos em São Paulo.

Não é mais a caça às bruxas,

É o machismo

A misoginia

A desigualdade.

Não é mais a repressão,

É a regulação

Do nosso desejo

Do nosso discurso

Do nosso cotidiano.

Não há mais povos desconhecidos,

Foram todos uniformizados

Em seus costumes

Suas crenças

Seus idiomas

Seus saberes.

Não é mais o apartheid,

É a segregação racial

A criminalização da pele

A exclusão dos tons.

Não é o domínio de tecnologias,

É a escravidão por parte delas

Por suas utilidades

E inutilidades

E  obsolescência.

Não é o triunfo da ordem,

É o triunfo do medo

Da polícia

Do chefe

De Deus.

Não é a democracia,

nem o poder do povo.

É a representação

De uma média

Que não representa ninguém.

Não é a libertação,

É estar cada dia mais preso

Aos nossos desejos

Que voam livres em suas gaiolas.

Evoluímos?

27.10.2015

***

#03

Não somos um resultado. Pois quase nada nos sobrou dos índios, exterminados sem serem ouvidos. Nem das religiões caladas pelo catolicismo. Nem das ideias ignoradas pelo egoísmo. Nem da liberdade ceifada pelo pragmatismo. Se fôssemos resultado de alguma coisa, seria do desperdício. Mas nem isso somos; estamos sendo.

#01

Existe o Eu que pensa e o Eu que fala. Às vezes eles coincidem, tantas outras são opostos. Em meio a encontros e desencontros, desenho um Eu que é e que se arrepende de muito do que foi dito sem pensar.

***

#02

Interagir com pessoas é um esforço. Eu sou esforçado, mas grande parte de mim sente preguiça. Já é uma vastidão de esforço pra mim lidar comigo! Eu não gosto de lidar com pessoas por muito tempo. No máximo uma, companheira. Duas, até. Tudo a mais, depois de muito tempo, vem a ser excesso.

O Culpado

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Este blog é um ambiente.

Um ambiente de compartilhamento de ideias desencontradas.

Desencontradas da realidade,

Desencontradas do socialmente aceito,

Desencontradas do que deviam dizer.

Estas ideias podem ser boas, construtivas, engrenagens de um futuro melhor.

Como podem ser péssimas, obsessivas, degradantes.

Eu não quero dizer respeito a nenhuma delas.

Não sou responsável.

Elas são perigosas.

Eu pesco-as no ar e as transmito a vossos olhos.

Eu sou seu vetor.

Não sou o culpado por elas.

Ainda que não queira que ninguém as copie.

São parte de mim também.

***

HeFKaKEQ

Todos sabem quem sou mas aqui não o digo. Neste recinto sou livre para ser mutável, sem credibilidade, falar da boca pra fora e descrever realidades inventadas.  A credibilidade que você dá a estes textos é culpa sua. Você é o culpado.

Um apanhado de textos podem esboçar uma silhueta de quem eu poderia ser se fosse um. São eles:

28/03/2014 Eu Sou

28/05/2015 Um Balanço Acerca de Mim

29/01/2014 Buguei

05/05/2015 A Vida é Isso?

02/05/2015 Para o Eu de 40 anos

18/12/2014 Balanço de Fim de Ano

06/10/2015 Dedito

…O problema é que os novos relacionamentos acabam caindo em uma série de joguinhos sociais, um pragmatismo teatralizado. Começar um relacionamento se dá a partir de, em geral, duas atitudes: a primeira é a de encenar a si mesmo para o outro. Encenar, sim, pois demonstra-se da forma que se acha que o outro gostará, encarnando si mesmo como parecer mais conveniente. A segunda, ao mesmo tempo, é a de demonstrar interesse pelo que o outro pensa – quando, em fato, trata-se de uma série de investigações visando saber em quais aspectos e até que ponto aquela pessoa se parece conosco. Quanto mais semelhanças, mais se imagina que aquela relação poderá crescer no futuro. Quanto menos, maior o desânimo em relação àquele investimento.

Exceto quando há a emoção. E é neste momento que o pragmatismo se desfaz, pois desmantelar padrões e formatos é justamente a maior virtude das emoções. A razão perde a credibilidade e uma persona muito mais aventureira assume os holofotes. Não que a razão deixe de existir (e pensar isto é um erro comum que eu mesmo cai muitas vezes) – a razão permanece ativa, mas agora visando dar o máximo de vazão possível aos sentimentos. O apaixonado não está irracional, apenas utiliza toda a sua razão em prol da paixão latente, tornando-se um apostador imparável, um ambicioso descontrolado. É neste instante que vivemos as grandes emoções da vida, e, consequentemente, seus momentos mais magníficos. Pois não foi algo pensado ou meticulosamente calculado; demos a cara a tapa, apostamos tudo. Desafiamos o improvável – e vencemos. Ou perdemos. Desta vitória tiramos prêmios para toda a vida. Desta derrota, cicatrizes.

A coexistência e o diálogo entre a razão e a emoção são constantes e fundamentais. Ambos são necessários para a constituição de uma vida plena. A razão deve segurar as pontas no cotidiano, mas está em deixar-se levar pela emoção as mais extraordinárias potencialidades de criação da vida.

“Meus pensamentos”, disse o andarilho à sua sombra, “devem me anunciar onde estou; não devem me revelar para onde vou. Eu amo a ignorância a respeito do futuro e não quero perecer de impaciência e do antegozo das coisas prometidas”.

(Friedrich Nietzsche, “A Gaia Ciência”)

Você pode ter as melhores ideias do mundo. Mas, se não foram praticáveis, elas não servem para o mundo real. Servem como ideal, como um objetivo a ser alcançado, e será em sua busca que se dará a prática no mundo real. A prática cotidiana é um eterno caminho rumo aos ideais.

***

Jamais desmereça os idealistas. Eles exercem um papel fundamental no mundo: o de apontar o caminho.