uma anotação no ônibus

O motorista, de fones de ouvido, não ouviu o sinal. O velho, que demorou a descer, passou desapercebido. Só atentaram para ele quando reclamava do motorista. No ponto seguinte, ao parar do ônibus e abrir das portas, o velho preferiu vociferar xingamentos ao motorista a descer do carro. O motorista, de fones ainda, continuou sem ouvir e já se preparava para partir novamente com o velho ainda no ônibus. Aos gritos de todos os passageiros, que tentavam alertar ao motorista a existência do velho, o piloto percebe o velho xingando-o e xinga-o de volta!

Esse caso é interessante. Todos os dois estavam certos e errados ao mesmo tempo, e representavam um papel que por muitas vezes é nosso também.

11159521_846702392061086_3787283401090637649_nO motorista estava errado ao xingar o velho de volta, é verdade, mas estava errado principalmente ao trabalhar de fones. Lidando com a vida de dezenas de passageiros, ele não pode simplesmente abstrair-se do mundo com música!

O fone o impossibilitou ter um conhecimento pleno da situação em que se encontrava, e por isso, ao ver-se xingado sem entender os motivos, reagiu de forma irritadiça.

Em sua cabeça, ele estava certo. Afinal, com as informações que tinha – que eram limitadas pelo uso do fone – a história tornava-o injustiçado. Ele não tinha conhecimento de tudo o que justificava aquela irritação.

O velho, por sua vez, estava errado ao xingar o motorista. Nunca mais o veria! Motoristas também são passiveis de erros, e isso não justifica poder xingá-los quando der na telha! Mas, na perspectiva do velho, ele estava correto de gritar pois, afinal, perdera seu ponto.

Agora vos pergunto – se ambos possuem culpa, de que adianta acusar um de ser mais culpado que o outro?

Recair a culpa sobre um indivíduo jamais consertou situação alguma. Ambos seguiram com suas vidas, cada um se achando mais correto que o outro. Esse caso é interessante por que ilustra uma tendência estupida da sociedade de, diante de algum problema, procurar culpados para serem agredidos, não soluções. Não se admite que talvez não tenhamos a totalidade de informações que envolvem as situações, mas mesmo assim toma-se um posto de sábio detentor da verdade e dá-se o direito de enquadrar os outros.

E eis aí o cerne de toda e qualquer discussão – todos acham-se corretos, ainda que ninguém possua a totalidade de informações acerca das situações. Tampa-se os ouvidos com fones ou com xingamentos, e jamais toma-se para si o lugar da dúvida, da investigação. E nisso persevera uma ignorância travestida de certeza.

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