Limpando do rosto o sangue dos outros

Esses dias, despretensiosamente, exprimi em palavras uma sensação que me acompanha há muitos anos, no mínimo uns cinco. Sabe aquela cena clássica de filmes de guerra em que a câmera acompanha um personagem no fronte de batalha e ele vai derrubando um a um os inimigos enquanto todos os seus companheiros caem ao seu redor? É um clássico, consigo lembrar agora de vê-la em 300 e em Tróia, mas decerto tem em vários outros filmes.

É mais ou menos assim que eu enxergo a vida às vezes.

Quando tinha, sei lá, uns 15 anos, duas minas da minha turma engravidaram. Uma eu havia tido um mini-relacionamento um ano atrás, a outra eu estava investindo para dar uns beijinhos. Eis a sensação. Alguns anos mais tarde, uma amiga minha perdia o pai e a mãe. Novamente a sensação. No terceiro ano, um rapaz repetiu na escola e o pai dele decidiu colocá-lo em uma escola muito pior, de forma a findar de vez as poucas chances de ele passar no vestibular. Novamente a sensação. A maior parte dos meus amigos queria fazer publicidade na UFRJ, mas, para isso, precisavam manter um CR acima de 8,5 nos três primeiros períodos. Eu fui um dos poucos que conseguiu. Eis a sensação. Outro dia, um conhecido meu, da minha idade, de ciclo social super parecido, foi preso de bobeira. Pegou pena de 5 a 15 anos. Eis a sensação, latente, inexprimível, inexorável.

Seja Deus, seja uma força cósmica, seja puro acaso – por alguma razão, a vida sempre me protegeu e me manteve em um caminho retilíneo rumo ao melhor que eu posso ser. Vejo pessoas caindo próximo a mim e me impressiono pela tranquilidade com que consegui trilhar meu caminho. Sinto-me um veterano de guerra que é novamente convocado dia após dia, e a cada batalha o sangue de mais conhecidos espirra em meu rosto. Tantos ficaram pelo caminho, tantos não são nem metade do que poderiam ter sido…!

Talvez o que é meu esteja guardado. Mas sofrer por antecipação é sofrer em dobro. Prefiro agradecer pela conjuntura universal que me permitiu que eu chegasse até aqui tranquilo, pois um trauma na adolescência é muito diferente de um trauma já adulto.

Tomara que, ao menos, mesmo diante do desperdício, eles consigam encontrar alguma satisfação.

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