Um balanço acerca de mim

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Quando terminei meu último relacionamento, fiquei desesperado. Nunca antes havia falhado tão miseravelmente na arte de estar apaixonado. Aliás, havia sim – mas invariavelmente me enganava colocando a culpa do desenlace trágico na moça. No último não. Minha atuação foi tão grosseiramente lamentável que todo o meu mundo precisou ser repensado. Eu era como a seleção que se acostuma a ser eliminada das competições e de repente toma um 7×1 em casa. Fez-se necessária (na minha autoanálise) uma mudança estrutural, repensar toda a minha vida e meus relacionamentos passados. Mais exatamente os relacionamentos que envolviam o rumoroso substantivo amor. Após assembleia mental prolongada, um decreto foi dado – me afastaria de relacionamentos até que construísse minha individualidade plena.

Ao meu ver, tinha sido até então indivíduo pela metade; insatisfeito com o que era, me jogava nos relacionamentos em busca de uma completude que apenas eu poderia dar a mim mesmo. A solução pareceu-me me manter longe de possibilidades de amor até que conseguisse me sentir plenamente bem sozinho, e para isso foquei em trabalhar minha autoestima, meu CR na faculdade, minha aparência, meus relacionamentos, minha incipiente carreira. E fiz tudo isso com um saldo bastante positivo, saldo o qual só fui constatar a existência semana passada, quando me propus a escrever uma BIO PARA O TINDER e me peguei com o seguinte resultado:

“Estudo na melhor faculdade do Brasil o curso feito pra mim. Meus chefes me adoram e eu adoro o que faço. Mantenho o corpo são indo à academia e com cuidados nutritivos. Tenho os grandes amigos, os mais ou menos e aqueles que a gente sorri por educação. Moro na cidade mais linda do mundo com a família mais linda do mundo. Fã dos grandes clássicos da literatura e filosofia. Nietzsche é o Jesus moderno. Cinéfilo de primeiríssima estirpe, do tipo que vê Lars von Trier na semana de estreia e sai satisfeito. Emo em pleno 2015. E, acima disso tudo, escritor absolutamente insano e sem a menor credibilidade.”

É obvio que não coloquei-a no tinder. Optei por uma estrofe de Morada, do Forfun, pois me pareceu ridículo e sem propósito me descrever desta forma num ambiente em que o mais comum são frases como “quem se descreve, se limita”. Mas a tentativa teve um resultado interessante, pois inconscientemente mostrou que eu havia trilhado um longo caminho desde meu último termino, há dois anos. Primeiro pela plataforma ser o Tinder, que eu sempre achei meio tosco, mas enfim resolvi me propor a usá-lo na busca por novos contatos com moças, e segundo pela presunção que eu destilei numa descrição extremamente positiva e cheia de si.

Convoquei outra assembleia comigo mesmo cuja pauta era – sou um indivíduo?

Difícil, bastante filosófica e de uma subjetividade imensurável, centenas de reflexões não foram o suficiente para chegar a um sim ou não. Escolhi o caminho do meio, que conseguiu agradar a todos os presentes: não sou um individuo, não. Nem quero ser – sou vários, sou a mudança, e não saberia ser de outra forma. Mantenho uma certa coerência, que poderia ser chamada de individualidade, mas a superfície, as coisas que floreiam a vida, são mutações constantes e necessárias. Não preciso mais de um amor, pois sou genuinamente orgulhoso de mim mesmo. Mas de nada serve ter orgulho de si não tendo ninguém para compartilhá-lo e não havendo um sequer amor para trazer uns toques de elegância.

Eu quero um amor, sim. Se eu estou pronto, não sei. Eu ajo tão estranhamente quando estou apaixonado! Mas agora alimento a esperança de que será diferente, e preciso contar com a conjuntura do universo de pôr uma moça com boa vontade no meu caminho. Pois por ora sigo trilhando-o sozinho e pra única direção que dá pra ir: em frente.

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“Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por
outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a
derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é
apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda
não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas
as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens
precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo
período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida,
solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. (…)

É aí que os jovens erram com freqüência, gravemente: pelo fato de eles
(faz parte de sua natureza não ter paciência alguma) se atirarem uns para os
outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo o
seu desgoverno, na desordem, na confusão… Mas o que deve resultar disso?
O que a vida deve fazer desse acúmulo de equívocos a que eles chamam de
união e gostariam de chamar de sua felicidade? E o futuro? Então cada um se
perde por causa do outro e perde o outro e muitos outros que ainda desejariam
surgir.”

Rainer Maria Rilke

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Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.

Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apenas.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
(…)

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos, in “Poemas”

Heterónimo de Fernando Pessoa

4 comentários

  1. Lena Chagas · maio 28, 2015

    nossa, o texto mais profundo que eu li no último mês e que estranhamente me identifiquei muito mais do que deveria.

  2. Larissa F. · maio 28, 2015

    “O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.”
    Charles Bukowski

    🙂

  3. Camilla · junho 12, 2015

    Estou bem chocada por me identificar tanto com um texto seu, porque estou em uma época de repensar certas coisas da minha vida, e seu texto disse TUDO o que está se passando pela minha mente. Fico bem feliz por isso, pois te admiro muito, então, acho que estou no caminho certo hahaha

  4. Pingback: O Culpado | Estábulo.

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