Para o Eu de 40 anos.

É difícil escrever uma carta pra ti por que eu sempre te imagino careca e meio gordo, e isso é uma visão bem decepcionante. Me disseram desde cedo que eu ficaria assim, que nem meu pai e meu irmão. Fico imaginando se você ainda consegue se olhar no espelho de vez em quando e pensar “wow, eu tô bonitão hoje, ein”. Acho bastante difícil.

Por conta disso eu espero que você seja interessante. É tudo o que eu peço. Eu me esforço demais para me tornar uma pessoa interessante para que você fique velho, careca e sem graça. Pode trabalhar com o que quiser – contanto que você tenha orgulho de dizer que o faz. Quando te perguntarem na rua, você dirá com orgulho. Eu confio no seu bom senso.

Eu espero que você tenha conquistado uma mulher. Vá, lá. Você sempre foi dos caras que preferem a monogamia, o conforto de um amorzinho, então se com 40 anos você ainda estiver na busca, definitivamente tem algum problema aí. Porra, desculpa aí, cara. Pesado dizer isso. Mas é verdade. Não precisa ter filhos não, aliás, não tenha. Você ainda está ocupado viajando o mundo com a sua mina.

Eu também espero que você tenha obtido pelo menos dois dos diplomas que eu digo que você terá. E lançado pelo menos um livro. Qual é, né. Esse é seu único sonho desde que você  tinha 16 anos, cara. Por favor, tenha tomado vergonha na cara pra fazer isso logo. E, se tiver sido um fracasso, VAI LANÇAR OUTRO! Você tá fadado a ser grande, cara. O mundo pode te fazer achar que não, mas você sempre soube que o mundo é burro pra cacete. Você vai ser grande, se ainda não for. E, se não for, que não seja por falta de tentativas. Só não seja preguiçoso. Não seja resignado.

E te liga – você não precisa de tanto dinheiro assim, né. Vai com calma no trabalho. A vida é muito mais do que isso. Ser bem sucedido é foda – mas cultivar relações e interesses também é.

Tomara que você seja de boa, com felicidades frequentes e as tristezas, que eu sei que você terá, passageiras. Tomara que o peso da saudade só tenha te deixado mais forte, que todas as dores tenham enrijecido teu tecido, e que todos os erros que me fazem pensar “pelo menos me trouxe aprendizado” tenham servido de alguma coisa. Se já são muitos agora, imagino a lista que você assina.

Pra ser sincero, eu aposto que você é feliz. Apesar de não viver pensando em você, construí um terreno bastante fértil ao teu crescimento. É possível que tu se perca, que o dia-a-dia te consuma e a sociedade entediante te engula. Mas, sinceramente? Tá tudo bem também. Eu confio em você. Se quem se perdeu foi você, aposto que teve suas razões. E tenho plena convicção que continuará acompanhado de si mesmo, o que não podia ser melhor companhia.

4 comentários

  1. Larissa F. · maio 2, 2015

    Que texto lindo!
    De uma sinceridade e amadurecimento cativantes.
    É legal acompanhar seus textos e ver que após anos, o Almeida sonhador e bem humorado do Nerd Calculista permanece.

  2. Brisa Larissa · maio 5, 2015

    É taaao bom entrar no estábulo na esperança de um post novo e se deparar com um texto maravilhoso desse… Você é demais, Almeida!

  3. ironmeida · maio 5, 2015

    hahauha po, gente, muito obrigado!
    fico contente de saber disso, de verdade. 🙂

  4. Pingback: O Culpado | Estábulo.

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