Um balanço acerca de mim

11083878_932887026731769_2034275847716609191_n.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

.
Quando terminei meu último relacionamento, fiquei desesperado. Nunca antes havia falhado tão miseravelmente na arte de estar apaixonado. Aliás, havia sim – mas invariavelmente me enganava colocando a culpa do desenlace trágico na moça. No último não. Minha atuação foi tão grosseiramente lamentável que todo o meu mundo precisou ser repensado. Eu era como a seleção que se acostuma a ser eliminada das competições e de repente toma um 7×1 em casa. Fez-se necessária (na minha autoanálise) uma mudança estrutural, repensar toda a minha vida e meus relacionamentos passados. Mais exatamente os relacionamentos que envolviam o rumoroso substantivo amor. Após assembleia mental prolongada, um decreto foi dado – me afastaria de relacionamentos até que construísse minha individualidade plena.

Ao meu ver, tinha sido até então indivíduo pela metade; insatisfeito com o que era, me jogava nos relacionamentos em busca de uma completude que apenas eu poderia dar a mim mesmo. A solução pareceu-me me manter longe de possibilidades de amor até que conseguisse me sentir plenamente bem sozinho, e para isso foquei em trabalhar minha autoestima, meu CR na faculdade, minha aparência, meus relacionamentos, minha incipiente carreira. E fiz tudo isso com um saldo bastante positivo, saldo o qual só fui constatar a existência semana passada, quando me propus a escrever uma BIO PARA O TINDER e me peguei com o seguinte resultado:

“Estudo na melhor faculdade do Brasil o curso feito pra mim. Meus chefes me adoram e eu adoro o que faço. Mantenho o corpo são indo à academia e com cuidados nutritivos. Tenho os grandes amigos, os mais ou menos e aqueles que a gente sorri por educação. Moro na cidade mais linda do mundo com a família mais linda do mundo. Fã dos grandes clássicos da literatura e filosofia. Nietzsche é o Jesus moderno. Cinéfilo de primeiríssima estirpe, do tipo que vê Lars von Trier na semana de estreia e sai satisfeito. Emo em pleno 2015. E, acima disso tudo, escritor absolutamente insano e sem a menor credibilidade.”

É obvio que não coloquei-a no tinder. Optei por uma estrofe de Morada, do Forfun, pois me pareceu ridículo e sem propósito me descrever desta forma num ambiente em que o mais comum são frases como “quem se descreve, se limita”. Mas a tentativa teve um resultado interessante, pois inconscientemente mostrou que eu havia trilhado um longo caminho desde meu último termino, há dois anos. Primeiro pela plataforma ser o Tinder, que eu sempre achei meio tosco, mas enfim resolvi me propor a usá-lo na busca por novos contatos com moças, e segundo pela presunção que eu destilei numa descrição extremamente positiva e cheia de si.

Convoquei outra assembleia comigo mesmo cuja pauta era – sou um indivíduo?

Difícil, bastante filosófica e de uma subjetividade imensurável, centenas de reflexões não foram o suficiente para chegar a um sim ou não. Escolhi o caminho do meio, que conseguiu agradar a todos os presentes: não sou um individuo, não. Nem quero ser – sou vários, sou a mudança, e não saberia ser de outra forma. Mantenho uma certa coerência, que poderia ser chamada de individualidade, mas a superfície, as coisas que floreiam a vida, são mutações constantes e necessárias. Não preciso mais de um amor, pois sou genuinamente orgulhoso de mim mesmo. Mas de nada serve ter orgulho de si não tendo ninguém para compartilhá-lo e não havendo um sequer amor para trazer uns toques de elegância.

Eu quero um amor, sim. Se eu estou pronto, não sei. Eu ajo tão estranhamente quando estou apaixonado! Mas agora alimento a esperança de que será diferente, e preciso contar com a conjuntura do universo de pôr uma moça com boa vontade no meu caminho. Pois por ora sigo trilhando-o sozinho e pra única direção que dá pra ir: em frente.

****

“Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por
outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a
derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é
apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda
não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas
as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens
precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo
período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida,
solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. (…)

É aí que os jovens erram com freqüência, gravemente: pelo fato de eles
(faz parte de sua natureza não ter paciência alguma) se atirarem uns para os
outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo o
seu desgoverno, na desordem, na confusão… Mas o que deve resultar disso?
O que a vida deve fazer desse acúmulo de equívocos a que eles chamam de
união e gostariam de chamar de sua felicidade? E o futuro? Então cada um se
perde por causa do outro e perde o outro e muitos outros que ainda desejariam
surgir.”

Rainer Maria Rilke

****

Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.

Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apenas.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
(…)

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos, in “Poemas”

Heterónimo de Fernando Pessoa

Uma quinta comum na cabeça do Almeida

Todas as quintas, quando saio do estágio, ando alguns quilômetros de Copacabana até a mesma pastelaria, falo com a mesma chinesa e peço o mesmo yakisoba. É uma tradição minha comigo mesmo, um role que faço em solitude pra curtir um pouquinho a vida sem distrações de terceiros. Peço sempre o yakisoba de legumes, o mais barato, e como-o com a água do bebedouro da faculdade que carrego na bolsa. Ontem não foi diferente. Esse mês estou mais duro que pau de tarado, fazendo cortes em todo tipo de gasto, mas o mimo do yakisoba segue inabalável.

Acabava de anoitecer quando eu cheguei na pastelaria, e a chinesa, que já deve me conhecer, acudiu com o pedido. Sentei numa mesa e me distrai vendo coisa qualquer no celular, quando uma mulher me abordou. Suja, cabelo ralo, mal vestida, pedia-me 2 reais. As centenas de sinapses me lembrando que eu não podia gastar dinheiro tardaram a vir, e antes que eu notasse já estava com a carteira aberta catando dois reais. A moça me agradeceu, deu um beijo na bochecha, disse que Deus me protegeria e que era pra eu aproveitar enquanto podia trabalhar, pois ela queria e já não podia.

Se aquilo me comoveu? É evidente que não. A moça foi embora e dentro de poucos instantes sumiu de vista e deixou de existir para mim, igual aos dois reais em seu bolso. Por que então gastei o dinheiro que não podia com uma pessoa que dali a instantes deixaria de existir?

Pelo mesmo motivo que construo tradições comigo mesmo – massagear o ego.
Sentir-me bem comigo mesmo.
E é exatamente assim com todas as pessoas. A diferença é que eu admito.

Não existe motivo algum para dar esmolas. Você não concebia a existência da pessoa antes, tampouco conceberá dali a instantes. Em verdade, você sequer se importa. A existência dela te causa uma angústia, um estado de pena que se mistura com impotência, e esse estado não pode se prolongar. É por isso que os mendigos se mantem sujos, e é por isso que deficiências são tão exploradas quando no corpo de um pedinte – quanto mais ele te afetar negativamente, maiores são as chances de conseguir uma esmola.

O ato de dar esmolas é um placebo pra angústia causada pelo estado do outro. E funciona perfeitamente, pois as pessoas ainda se enganam achando-se altruístas. Altruísmo seria tirar o mendigo da rua, dar-lhe abrigo, comida e carinho. Ao invés disso, dá -se moedas perdidas do bolso e aguarda-se até o momento em que a lástima de sua existência deixará de incomodar.

Altruísmo não passa de uma característica que todos querem dizer que tem – e podem, à medida que são egoístas.

***

“Se esmolas só fossem dadas por piedade, todos os mendigos teriam morrido de fome.”
– Nietzsche

***

Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

A vida é isso?

Viver é fazer mal à saúde,
é o ciclo constante de arrepender-se
e se encontrar para logo após perder-se
e acordar sem saber por quê
e levantar sem ter pra que
e fingir que sabe o que fazer
mas só fingir, sem saber.
É enrijecer a pele após o machucado
pra machucá-la de novo mesmo assim
e eis que quando tudo chegue ao fim
e porventura a morte nos alcance
possamos dizer do tempo retirante:
Não sabia antes; tampouco sei agora.
Às vezes estou certo,
tantas outras me confundo.
Encerro em mim todos os sentimentos do mundo.

Para o Eu de 40 anos.

É difícil escrever uma carta pra ti por que eu sempre te imagino careca e meio gordo, e isso é uma visão bem decepcionante. Me disseram desde cedo que eu ficaria assim, que nem meu pai e meu irmão. Fico imaginando se você ainda consegue se olhar no espelho de vez em quando e pensar “wow, eu tô bonitão hoje, ein”. Acho bastante difícil.

Por conta disso eu espero que você seja interessante. É tudo o que eu peço. Eu me esforço demais para me tornar uma pessoa interessante para que você fique velho, careca e sem graça. Pode trabalhar com o que quiser – contanto que você tenha orgulho de dizer que o faz. Quando te perguntarem na rua, você dirá com orgulho. Eu confio no seu bom senso.

Eu espero que você tenha conquistado uma mulher. Vá, lá. Você sempre foi dos caras que preferem a monogamia, o conforto de um amorzinho, então se com 40 anos você ainda estiver na busca, definitivamente tem algum problema aí. Porra, desculpa aí, cara. Pesado dizer isso. Mas é verdade. Não precisa ter filhos não, aliás, não tenha. Você ainda está ocupado viajando o mundo com a sua mina.

Eu também espero que você tenha obtido pelo menos dois dos diplomas que eu digo que você terá. E lançado pelo menos um livro. Qual é, né. Esse é seu único sonho desde que você  tinha 16 anos, cara. Por favor, tenha tomado vergonha na cara pra fazer isso logo. E, se tiver sido um fracasso, VAI LANÇAR OUTRO! Você tá fadado a ser grande, cara. O mundo pode te fazer achar que não, mas você sempre soube que o mundo é burro pra cacete. Você vai ser grande, se ainda não for. E, se não for, que não seja por falta de tentativas. Só não seja preguiçoso. Não seja resignado.

E te liga – você não precisa de tanto dinheiro assim, né. Vai com calma no trabalho. A vida é muito mais do que isso. Ser bem sucedido é foda – mas cultivar relações e interesses também é.

Tomara que você seja de boa, com felicidades frequentes e as tristezas, que eu sei que você terá, passageiras. Tomara que o peso da saudade só tenha te deixado mais forte, que todas as dores tenham enrijecido teu tecido, e que todos os erros que me fazem pensar “pelo menos me trouxe aprendizado” tenham servido de alguma coisa. Se já são muitos agora, imagino a lista que você assina.

Pra ser sincero, eu aposto que você é feliz. Apesar de não viver pensando em você, construí um terreno bastante fértil ao teu crescimento. É possível que tu se perca, que o dia-a-dia te consuma e a sociedade entediante te engula. Mas, sinceramente? Tá tudo bem também. Eu confio em você. Se quem se perdeu foi você, aposto que teve suas razões. E tenho plena convicção que continuará acompanhado de si mesmo, o que não podia ser melhor companhia.