Às vezes a consciência insiste em nos culpar por coisas que não temos o menor controle. Atos falhos, distrações, palavras mal colocadas, escolhas equivocadas… erros inerentes à vida que não nos perdoamos a ocorrência. O eu-lírico dessa canção nos indica uma curiosa atitude – ele abdica da culpa e coloca o futuro nas mãos da única entidade capaz de realmente exercer alguma influência: o acaso.

Quem sabe algum dia a gente se vê…

Tudo o que tivemos foi o fim

Eu venho tendo uma história bastante complicada com você. Tua imagem tem me atormentado, não sei ao certo por quê, e tem já muito tempo. A primeira vez que nos falamos não deu muito certo. Apesar de ser a primeira vez que nos falávamos, eu já havia imaginado diversas conversas tendo a nós como interlocutores – ensaios mentais, devaneios que me consolavam quando faltava a coragem para falar de verdade. Quando nos falamos, então, eu já possuía um vasto conhecimento absolutamente infundado de você. E é difícil agir assim – sentia-me à vontade com uma completa estranha, que seguia o caminho contrário ao passar de amiga a desconhecida. Eu que já te conhecia, nem te conhecia mais…

Perdi-me, fiz feito bobo. E a lembrança daquele erro me atormentou em momentos de fraqueza, quando a mente insubordina o bom senso e insiste em lembrar do que esforçamo-nos para esquecer. Quando retomava a razão, acalmava-me ao lembrar que tudo não passava de coisa da minha cabeça, e que tu sequer lembrava-se de mim ainda. Mas as fraquezas sempre estavam lá, pois nada é mais certo nessa vida do que os momentos de fraqueza, e elas me interpretavam diversas outras conversas tendo em teu rosto minha companhia. Eu tentava esquecer o meu erro, mas angustiava-me toda aquela situação – sabe-se lá por quê! Quantas vezes não passei pelo mesmo com outras? Não há nada de incomum em fazer-se de bobo quando se esbarra com uma pessoa tão… assim! Mas a angústia, esta velha conhecida que já veio a mim travestida de tantos outros rostos, desta vez vestia o teu. E teve seu momento de glória na ocasião em que, por acaso do destino, bebi em excesso e lá estava você, disposta à segunda conversa.

Foi nela que eu percebi. Não existe a menor possibilidade de algum dia darmos certo. Sequer termos qualquer relação. Simplesmente existe uma incompatibilidade intransponível pelo fato de minha mente ter uma vontade irrevogável de não darmos certo. Eu não sei lidar com você. Eu não sei agir na sua presença. Foge ao meu controle, cabe somente à imensidão inalcançável do inconsciente humano. Percebi isso quando, novamente, pela segunda vez, fiz-me de bobo diante de ti. E, agora, o desentendimento, o vexame, o desencontro entre nós, por fim saía de minha cabeça e tornava-se real.

A essência da minha angústia são as paixões fugazes, os amores platônicos perdidos por aí. A menina do carnaval, a garota daquele dia, a Diana, ahhh, a Diana! Tantos arrependimentos esparramados pelo passado, tantas histórias que dependiam somente de mim para encerrarem num grande final, e faltou-me a sabedoria, a calma e a malícia para tanto.

O arrependimento até é tragável. Ele passa, quando se percebe o quanto cresceu, o quanto os erros foram necessários. Mas a tristeza permanece, seja num retrato visto por desleixo ou uma volta a um cenário conhecido. E é nela que se sente o ofício de apaixonado fugaz, perdido em si e louco para perder-se com outra.