Sobre o ato de ouvir música

Você gosta da música do Luan Santana?

Preste bem atenção no que eu tô perguntando: você gosta da música do Luan Santana?

Por que você pensou na cara do Luan Santana então, ao invés de pensar na música dele?

Isso é bastante simples – por algum motivo que não consigo explicar, nossa mente simplesmente não consegue dissociar o artista da música dele.

Uma das maiores questões da filosofia é o conceito de belo. A parte que abarca esse conceito se chama Estética, e analisa, basicamente, qual característica de determinado objeto nos faz achá-lo bonito, por quê o achamos bonito, e o que a constatação dessa beleza gera em nós.

Um poema, por exemplo. O que no poema nos toca, por quê isso nos toca, e de que forma isso nos toca. Sacou?

No semestre passado, uma das muitas matérias que cursei sem ganhar nada em troca além de conhecimento, foi Estética no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Naquela época, percebi uma atitude que eu sempre tive mas jamais antes havia constatado-a conscientemente – desde aproximadamente os meus 13 anos que eu tento me despir de todos os preconceitos e tento encontrar o belo nas músicas.

Insira aqui alguma piadinha sobre o cantor Belo.

Até os meus treze anos, meus familiares monopolizaram meu gosto musical. E fizeram-no muitíssimo bem! Meus pais me apresentaram a todo o repertório musical brasileiro básico, de MPB a Bossa Nova, passando por Titãs, Paralamas e até Gabriel Pensador. Meu irmão, que também gostava e reforçava tudo isso, me apresentou aos clássicos do rock – sua banda favorita era Oasis, mas nunca, jamais!, faltou-lhe Queen, Beatles, Guns e o rock em todas as suas vertentes e doses.

Os rádios na minha casa funcionavam o dia inteiro. Fosse na sala, com meus pais, fosse nos quartos, com as caixas de som do meu irmão, 50% do tempo ligada no Winamp, 50% ligado na Rádio Cidade – basicamente, eu ouvia música o dia inteiro todos os dias e adorava isso.

Aos 13 anos, no entanto, quis me rebelar e ouvir minha própria música! Afinal, a internet me dava esse poder e ninguém o tiraria. Baixei tudo o que havia de mais imbecil e mainstream na época – a primeira música que baixei foi da Hilary Duff, a musa da minha infância, mas logo depois baixei Detonautas, Jota Quest e efemeridades radiofônicas do tipo.

Em determinado momento, essas efemeridades radiofônicas me trouxeram a Fresno e o Forfun, hoje minhas bandas favoritas.

Eu tinha treze anos e já tinha um background riquíssimo de conhecimento musical, mas não me contentava com ele – ainda precisava encher as caixas de som das músicas mais aleatórias possíveis. Por quê? Por que, ainda que inconscientemente, eu sempre tentei encontrar a beleza das músicas. Afinal, se existir UM SER HUMANO sequer que se emocione com uma música, é por que ALGUMA BELEZA NELA EXISTE.

É absolutamente aterrador como as pessoas ignoram essa premissa tão básica.

Se eu perguntar para 10 amigos meus se eles gostam de Luan Santana, 8 deles dirão “óbvio que não, ele é uma merda”, e 2 outros dirão “já gostei, mas passei de fase! ô!”. E você, leitor, provavelmente se enquadraria em uma dessas respostas também.

A questão é – ambas as assertivas são absolutamente ignorantes.

  • A primeira: ele é uma merda.

Pensemos um instante racionalmente. Imagine-se um alien que cai na Terra de repente e descobre que um dos artistas mais bombados dos últimos anos é o Luan Santana. Você não sabe absolutamente nada dele. Nunca ouviu, nunca viu a cara dele, nunca leu sequer a letra de Meteoro da Paixão. Sua primeira constatação seria: wow, ele deve ser bom então.

Ela é óbvia. Ficamos tão cegos pelos nossos preconceitos e considerações imagéticas que nos privamos de reconhecer a beleza de determinadas obras artísticas! Se Amar Não É Pecado causa tanta catarse em alguém, ALGUM VALOR ELA TEM. Se você não gosta dessa canção, é por que você não conseguiu CAPTAR esse valor, seja por que ele não te causou catarse, seja por que o preconceito tapou seus ouvidos.

Dessa forma, o Luan Santana jamais poderá ser considerado um merda, pois o trabalho dele consegue tocar milhares de corações de forma que você jamais conseguirá.

  • A segunda assertiva: Já gostei, mas passei dessa fase.

Se você já gostou, significa que, em algum momento, aquela obra te causou determinado tipo de catarse. Isso, por si só, deveria ser o suficiente para constatar o valor daquela obra. Mas não! “Passei dessa fase” sugere uma recusa ao seu Eu passado, como se houvesse vergonha de ter sido o que você foi – sendo que tudo o que você é HOJE, só o é por ter sido tudo o que você já foi!

Hoje eu não ouço mais Eliana. Hoje eu não ouço mais High School Musical. Hoje eu não ouço mais Cine. Não por que essas obras deixaram de ter valor – é ÓBVIO que não. Quem deixou de reconhecê-lo fui EU, de forma que a “culpa” é única e exclusiva minha. E não há motivo algum para me envergonhar dela!

É evidente que eu tô usando o Luan Santana como exemplo, mas o mesmo processo nos arrebata constantemente, não só por ser um artista bombado, mas de outras formas, como “por ser algo que meus pais ouvem”, ou “por ser coisa de crente”, ou todas as outras desculpas que visam justificar nosso preconceito.

***

Proponho um exercício: ouça músicas que todo mundo fala mal. Ouve Fresno, aquela banda de emo viado. Ouve Luan Santana, aquela coisa horrível. Ouve até Restart! Mas não imprime NENHUM JUÍZO DE VALOR. Não tenta dizer que aquilo é bom ou ruim. Tenta, SE ESFORÇA, pra ver alguma beleza naquilo – e, se lá no fundinho você conseguir enxergá-la, já terá valido a pena.

Se quiser, começa ouvindo a playlist mais esquizofrênica que você vai ver nessa vida – a minha.

2 comentários

  1. Camilla Souza · janeiro 3, 2015

    Simplesmente adorei esse texto! Me pego pensando nisso varias e varias vezes, porque sou eclética e tenho amigos que se contentam apenas com um tipo especifico de música e não se contentam com isso. Querem agredir e repudiar o estilo! Semana passada estava com amigos e uma amiga que não gostava do sertanejo que estava tocando no bar em que estávamos fez com que a gente saísse de lá, sendo que ela nem iria continuar com a gente. O ódio das pessoas esta tomando uma proporção tao desnecessária que nem sei o que dizer ou sequer pensar nisso.
    Realmente me enquadrei numa das alternativas do Luan Santana, e foi a segunda. Sempre pensei nessa teoria de “o que você gostou no passado te fez ser quem é hoje”, mas aplico ela à vida, pra justificar as merdas e escolhas erradas, sabe? Gostei muito desse posicionamento e dessa nova forma de ver a música e pretendo segui-la e passá-la adiante.

  2. Carolina · janeiro 7, 2015

    Ótimo texto, como sempre. Profundidade perfeita para que qualquer um o entenda. Creio que passamos pela mesma jornada em busca de nosso próprio gosto. Hoje, completando quase duas décadas também, vejo que talvez a idade faça sim diferença. O tempo me mostrou o valor de Vivaldi e também o valor de glamurosa rainha do funk. Cada qual me faz sentir de certa maneira e desperta coisas únicas. Sinto pelas pessoas tomadas por pré conceitos que não se dão trabalho de analisar pontos de vista opostos.
    Viva a playlist diversificada.

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