Balanço de fim de ano.

Esses dias me familiarizei com dois conceitos filosóficos que me fizeram pensar um bucado. O primeiro é o de Tragédia, que sugere infinitas coisas e sustenta toda uma cadeia de estudos filosóficos, mas eu entendi resumidamente o seguinte: Do nada viemos e ao nada voltaremos; a vida não passa de acaso, e, portanto, deve ser adorada independente de qualquer mal que possa acometê-la, pois ela já é suficientemente boa simplesmente por ser vida.

A noção filosófica de Tragédia surgiu na Grécia Antiga, e é também por conta dela que existem as “tragédia gregas”, histórias que acompanham um Herói – perfeitamente íntegro e moral – que mantém uma postura admirável independente do mal que possa acometê-lo. (Estudamos isso no primeiro ano do ensino médio em literatura)

O segundo conceito que me familiarizei é de Nietzsche, o “Eterno Retorno”, que inclusive foi a inspiração para esse poema aqui. O trechinho mais clássico acerca dessa questão é esse:

E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma seqüência e ordem  – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.

Tive uma aula sobre esse conceito na faculdade e consegui tirar algumas conclusões – que podem estar completamente erradas, afinal, eu nunca me sinto sabedor o suficiente de Nietzsche. Pelo que entendi, o eterno retorno sugere um ideal de que você deveria viver sua vida como se cada instante fosse se repetir eternamente.

Temos, por conta do imperativo Cristão na sociedade, a noção de que, após morrermos, permaneceremos vivendo em um estado de não-existência. Como assim? Morremos – mas continuamos conscientes. Seja no paraíso, seja reencarnado, seja em forma de energia ou espírito, sempre que pensamos no pós-morte, tentamos concebê-lo de uma forma consciente – afinal, estamos vivos e CONSCIENTES, então qualquer pensamento está automaticamente submetido a essas duas premissas.

Nietzsche, ateu, diz que não – antes de nascermos, não existíamos. Após morrermos, voltaremos a não existir. Portanto, tudo o que nos resta é a vida. Diante disso, ele pergunta – imagine que você tenha que reviver CADA MÍSERO INSTANTE da sua vida eternamente, infinitas vezes. Você gostaria disso?

Com o até aqui exposto (que corresponde a menos de 1% de todo o significado real desses conceitos, eu tô só compartilhando as brisas que eu captei) em mente, me peguei analisando minha vida. Será que eu gostaria de reviver minha vida até aqui?

E aí eu lembrei desse texto aqui.

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Lá em janeiro eu já escrevia:

Eu acho que eu buguei. Tava numa sexta à noite em casa e percebi: eu estou perfeitamente satisfeito em estar aqui hoje, do jeito que estou, fazendo o que estou fazendo.

Ora, é claro. Sexta à noite as pessoas só vão pra festinhas, e, pessoalmente, eu já to de saco cheio de festinhas. Mas aí no sábado esse sentimento se repetiu. E na segunda, e na semana inteira. E eu percebi que eu já tava me sentindo assim há um tempo. Era isso.

É isso.

A vida é isso.

Ser feliz é isso, eu acho. Não é se resignar com ela e simplesmente esperar pela hora em que ela vai ficar boa. É conseguir entender que, o que vier, pode ser lucro, pode ser uma merda, mas independente de tudo, você vai estar satisfeito com ela.

Aí vem o bug: você além de entender, precisa realmente estar satisfeito com ela. E eu buguei.

Esse sentimento, que me palpitava o peito lá em janeiro, se repetiu durante o ano inteiro – eu amei a vida durante todo o ano. Não só esse ano! Desde 2012 que eu amo minha vida plenamente, em cada detalhe. Às vezes é triste, às vezes é solitária, às vezes é vazia – mas esses sentimentos são inerentes a qualquer vida. A vida é NECESSARIAMENTE triste às vezes. Essa é uma afirmação que já repeti tanto aqui no blog que nem o farei de novo.

Mas outrora por intuição, agora constatando conscientemente – eu amo minha vida. Toda a saudade que tanto acomete meu peito e me inspira pra 90% dos meus textos, na realidade é saudosismo, pois não só estou satisfeito com o presente, como ainda aceitaria voltar ao passado pra matar a saudade!

E agora, próximo ao fim do ano, quando tantas pessoas fazem autoanálises e sentem-se imundas, ou no mínimo sentem-se responsáveis por instaurar mudanças no ano que virá, eu me sinto plenamente satisfeito. Não que eu tenha sido perfeito! Longe disso! Errei pra caralho. Fiz cada merda que, porra!, se pudesse desfazer, seria contentíssimo. Mas, hoje, aceito-as e saúdo-as.

Todos os dias foram dias de mudanças. Todos os dias eu estive aberto a me reinventar, quebrar minhas certezas, abandonar meus preconceitos. Desde 2012 que cultivo amizades que abrilhantam minha vida, que curso uma faculdade feita sob medida pra mim, que me apaixono e reapaixono todos os dias pelo conhecimento, fazendo de tudo para obtê-lo, e cresço como ser humano todos os dias. E quando eu digo que faço de tudo pelo conhecimento, é por que faço mesmo! Houve momentos em que eu saía de casa às 5:30 da manhã e só retornava às 23:00, pois fazia curso (4 horas, 3x por semana!), faculdade e estágio juntos. Isto, é claro, sem contar quando ainda não estava no estágio e queria assistir tantas aulas na faculdade que o Sistema nem permitia, me fazendo assisti-las SEM ESTAR INSCRITO e, portanto, sem obter crédito algum nelas. Sim, eu cursei aulas POR PRAZER.

E cursaria de novo. Cada instante da minha vida eu cursaria de novo, se fosse preciso. E hoje, se um demônio me aparecesse furtivamente para contar-me acerca do Eterno Retorno, daria uma piscadela pro avermelhado e agradeceria pela ótima notícia.

5 comentários

  1. Kayo Matheus · dezembro 18, 2014

    Genial, meu caro. Me vejo em suas palavras. Tanto pelo lado meio narciso (amando a si mesmo) quanto pela melancolia, também presente em seus textos.
    A vida é isso, né? É o que tem pra hoje e pra sempre. Acho que eu tô satisfeito com tudo também. Tempos difíceis virão, mas não se julga um todo por um terço.
    Keep writing, boy.

  2. Camilla Souza · dezembro 18, 2014

    Guilherme, que texto incrível! Diariamente me pego pensando sobre o propósito da vida e tento ao máximo no dia-a-dia parar e apenas sentir, sentir o momento, as sensações e observar, guardar aquilo pra mim, e penso que isso é viver, sentir aquilo que ela nos proporciona. Seu texto me fez abrir mais algumas portas deste meu pensamento É realmente incrível.
    Admiro muito a sua dedicação e interesse pelo aprendizadotambém, de verdade.

  3. Carol · dezembro 18, 2014

    Se algum dia pudesse colocar em palavras meus sentimentos, de forma coesa, talvez ficasse mais ou menos como seu novo texto. A vida é tão bela que chega a doer! Hoje saiu a seleção pra segunda fase da Fuvest, meu nome não estava lá, no entanto, as lágrimas não vieram, o fracasso também não deu as caras. O ano foi maravilhoso, repleto de pessoas, livros e momentos que fizeram tudo valer a pena. Que os gregos fiquem com suas tragédias, porque hoje eu só quero Realismo

  4. Brisa · dezembro 18, 2014

    Que texto incrível! A cada dia você se aperfeiçoa mais em passar essa profundidade sem igual através das palavras e, a cada dia, eu me torno mais sua fã. Obrigada!

  5. Pingback: O Culpado | Estábulo.

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