Nu

Hoje em dia eu posso dizer tranquilamente que o Forfun é minha banda preferida. E não é a toa – eles transcendem a noção de banda para mim. Os integrantes foram criados num bairro próximo ao meu da infância e hoje moram há 2 quarteirões da minha faculdade. Vez ou outra esbarro com algum deles na rua – seja na faculdade, seja na praia, seja comendo um salgado em Botafogo; fato é que eles são palpáveis. Essa proximidade transforma a relação de fã-banda em algo que muitas pessoas, com a idolatria às músicas estrangeiras, jamais terão.

Mas não é só por isso! Os caras também evoluíram junto comigo. Quando eu só conseguia pensar em beijar menininhas e ir a festas, as músicas deles tratavam sobre esses temas. Hoje, que sou um universitário pseudo-culto com tara por filosofia e psicologia, as letras discorrem exatamente sobre os pensamentos que me floreiam a mente constantemente – vez ou outra tenho a impressão de que as músicas tratam-se até de cópias fiéis dos meus pensamentos.

O disco novo poderia esfriar essa relação – da mesma forma como o último disco da Fresno esfriou a minha com eles -, mas não: o padrão de qualidade foi mantido, quiçá superado. E não digo isso partindo da assertiva de “ah, eu gostei”. Digo isso por que as músicas, além de me proverem o prazer da apreciação da arte, ainda me suscitam pensamentos que mudam minha vida dia após dia (e traduzem alguns pensamentos que sempre tive mas jamais calhei de por em palavras).

Resolvi dissertar algumas das fritações que tive ouvindo o disco novo para exemplificar. Ei-las:

– Considerações

Não vou levantar bandeira
Que delimite qualquer fronteira
E nem concordar com tudo
O que se diz por aí
Pra tudo existe um oposto
Não se discutem questões de gosto
Então cuidado ao interferir

Sabe-se lá porque tudo é assim
Mas nem poderia ser de um outro jeito
O mundo como hoje vemos
É aquele que concebemos
Então tudo nesse instante se faz perfeito

Essa letra é maravilhosa do início ao fim. Já fiz um texto aqui no blog dizendo algo parecido com os primeiros versos. Quando afirmo uma coisa, não a afirmo de plena certeza. Eu nunca tenho certeza. Tenho noção de que me falta saber tantas coisas e, mais ainda, tenho a lembrança de tantas vezes que afirmei coisas e descobri-me errado. Quando afirmo algo, não afirmo uma verdade absoluta: estou apenas dizendo o que me parece plausível em determinado instante e, se alguém puder me propor um pensamento que pareça mais correto, adotá-lo-ei sem pestanejar.

E então vem o refrão, que trata sobre uma conclusão que já li diversos filósofos dissertando, como Nietzsche, Jung e o carinha de O Poder do Mito. A afirmativa “Tudo nesse instante se faz perfeito” vai muito além de uma resignação com o que está diante de nós: trata-se da constatação eminente de que o mundo é da única forma como ele poderia ser. Tudo o que poderia ter sido não foi; tudo o que poderá ser ainda não é. Toda e qualquer existência mundana que não seja a que existe de fato não passa de elucubração, devaneio, realidades inexistentes. O mundo é desse jeito por que esta é a única forma como ele pode ser, e isso o torna não só perfeito, como também horroroso. Afinal, se só existe uma forma de existência, essa existência é, ao mesmo tempo, a melhor e a pior possível.

– Arriba y Avante

Questionar, sair da apatia
Entender que há tristeza para que haja alegria
E porque somente alguns nascem com regalia
E outros usam cola e crack como anestesia

Esse é um dos casos em que a música trata de uma fritação que eu já tive e cheguei até a documentar aqui no blog. Essa noção de “existe tristeza para que haja alegria” é o que me dá sustento todos os dias da vida: se estou feliz, aproveito, pois sei que é passageiro; se estou triste, aceito, pois sei que é necessário. Se estou neutro, agradeço por não estar triste.

Essa lógica se expande pra toda a humanidade: para que existam pessoas com boas vidas, é preciso que existam pessoas com vidas ruins. A diferença precisa existir. Se existe alguma mística nisso, se há alguma equalização espiritual no pós-vida, como a maioria das religiões afirma (principalmente a católica, a “Religião do Ressentimento” de acordo com Nietzsche) não ouso afirmar.

– A Vida Me Chamou (E eu vim!)

A letra INTEIRA dessa é maravilhosa, então vamos por partes.

Correndo atrás do ganha pão diário
Da certidão de nascimento ao obituário
Faz de qualquer parte da Terra seu santuário
Mais de sete bilhões nadando no mesmo aquário

Por favor, desculpa, obrigado, eu te amo
Essa é a premissa básica do ser humano

Até aqui eles fizeram um resumo bem claro e preciso da sociedade contemporânea. Não tem nenhuma novidade aí, mas acho genial o distanciamento que os autores da letra precisaram se colocar pra poder enxergar a humanidade tão claramente. Não duvido nada que essa distanciamento tenha sido resultado de uma trip muito doida de doce, o que não tira – jamais! – o valor da canção.

Vivo, senso cooperativo
Que entende que o sentido tá todo no coletivo
Por isso eu sempre tô com a minha rapeize
Fazendo um som, queimando um base
Get up, stand up y arriba
Cause you know it’s all about the vibra

Eu não tenho religião, vocês sabem. Recuso até o título de agnóstico, que ainda me parece um pouco limitante. Recuso qualquer termo que limite minha espiritualidade a uma ideia pré-concebida. Tenho muitas influências das religiões orientais. Acredito, por exemplo, em alma e espírito. Mas essas crenças me parecem mais distantes, pois nunca me ocorreu nada que me fizesse acreditar nelas. Tratam-se apenas de “explicações plausíveis” que podem estar tão erradas (ou certas) quanto as católicas, judaicas, muçulmanas ou as das tribos indígenas da Polinésia.

O que eu sinto como uma verdade irrefutável é o Cosmo e as vibrações. Isso me parece evidente e chega a ser palpável.

COSMO (s.m.); em grego antigo: lit. “ordem”, ”beleza”, ”harmonia”. a totalidade de todas as coisas deste universo ordenado, desde as estrelas, até as partículas subatômicas.

O cosmo é a totalidade. O cosmo é o universo. E o universo existe. Irrefutavelmente. Tem dias que eu sinto quase o universo conversar comigo – as coisas e os acontecimentos se encaixam de tal forma que me recuso a pensar que são meramente obras do acaso.

Semana passada, por exemplo, no exato instante em que minha chefe me disse que eu não precisaria ir trabalhar no dia seguinte, meus amigos me chamaram no whatsapp para uma festa naquela noite. Antes de ir à festa, fui para uma aula de psicologia na faculdade em que o professor (foda!) tratava sobre a noção de arrependimento em diversas épocas e sociedades, e como na contemporaneidade “nós deixamos de viver com medo de sentir arrependimento futuramente”. Que gás aquela aula me deu! E a festa ainda foi sensacional por motivos que não cabem ser explicados aqui.

Como se não bastasse, saí da festa às 6:00, vi o nascer do sol na praia de Copacabana e ainda fui pra faculdade novamente, pois às 7:30 precisava estar presente numa aula que – adivinhem! – foi cancelada de última hora. Pude voltar pra casa cedinho e aproveitar o sono dos contentes.

Nesses dias em que tudo se encaixa, sinto como se o universo conversasse comigo, e dissesse claramente “aproveite, pois hoje o dia será bom. Amanhã pode ser que não seja e não quero ouvir reclamações”. E quem sou eu pra discordar?

E então entra a questão das vibrações. Don’t you know it’s all about the vibra? Quando ouvi isso pela primeira vez, um sorriso estampou minha cara no mesmo instante. Acredito que tudo no universo se fundamente nas vibrações. Não só na vibração das moléculas, que gera o calor e a energia que proporcionam a vida, mas também na vibração de cada ser humano, de cada espírito vivente. Pois, afinal, não há absolutamente nada de errado em dizer que eu vibro numa frequência diferente da de algumas pessoas, talvez por eu ser mais contido, pensativo, apaixonado, ou simplesmente por ser um ser humano diferente. Tem uma música do Engenheiros do Hawaii que fala exatamente disso.

Enfim, senhores.

Esse texto já está grande demais, então paro cá. Existem trocentas outras fritações SÓ COM ESSE DISCO que não pus aqui, e trocentas outras fritações que AINDA VOU TER ouvindo-o. Afinal, vez ou outra ainda descubro mensagens novas nas músicas do Polisenso, de 2008. Não descobriria num disco que tem um mês?

É claro que descobriria.

É o Forfun.

E tem gente – tem gente!!!! – que julga os caras só por que há 10 anos eles cantavam História de Verão. Como as pessoas são ignorantes, né?

(A quem interessar possa, já fiz outro texto sobre o Forfun, dessa vez falando sobre o show.)

6 comentários em “Nu

  1. Boa noite 🙂 Acabei de ler teu texto pelo celular, atirada no sofá e precisei vir até o computador pra comentar e “ver mais de perto”. Estou apaixonada por cada frase. Há dias tenho pensado a respeito e vi muitas pessoas dizendo que esse disco está “fraco”. Eu ouvi, ouvi de novo, e mais uma vez, e só consigo achar melhor a cada vez que ouço.
    Andei ouvindo os discos mais antigos e não consegui achá-los “mais fortes”. Só pude sentir crescimento e evolução em todos eles. O mundo muda, a vida muda, as questões mudam, e Forfun tem expressado isso muito bem. E tu disseste exatamente o que eu venho pensando tanto!
    “Don’t you know it’s all about the vibra? Quando ouvi isso pela primeira vez, um sorriso estampou minha cara no mesmo instante.” Aconteceu comigo também (e ainda acontece quase sempre que eu ouço)! ><
    Precisei vir aqui porque fiquei muito feliz por me identificar tanto com teu texto. Eu já estava começando a achar que meus ouvidos estavam deixando passar alguma coisa. Agora acho até que é o contrário.
    Enfim… foi ótimo ter a chance de ler o que eu já sabia mas precisava que viesse de alguém que não fosse eu. Obrigada!

  2. Adorei. Principalmente sobre a parte onde você aborda o Universo. Sinto a mesma coisa. Sinto que ele conversa comigo. Trato de anotar todas essas evidências. Não acredito em Deus mas não julgo quem acredita, eu acredito no Universo agindo. Sugiro que leia o livro O segredo. Me motivou muito. Muito obrigada por compartilhar conosco seus pensamentos Abraço.

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