Outro trecho de “Cartas a Um Jovem Poeta”, do Rilke. Esse me deu aquele sentimento de “finalmente alguém me entende”. Quantas noites já não passei refletindo acerca do bem que a tristeza pode nos fazer? Incontáveis. Me sentia louco até então; ao menos Rilke me acompanha neste barco – seja este barco o da loucura ou o da mais profunda razão.

***

Só são ruins e perigosas as tristezas que
carregamos em meio às pessoas para dominá-las; como doenças que são
tratadas de modo superficial e leviano, elas apenas recuam e, após uma
pequena pausa, irrompem ainda mais terríveis. Essas tristezas se
acumulam no íntimo e constituem a vida, constituem uma vida não vivida,
desdenhada, perdida, de que se pode morrer. Se nos fosse possível ver além
do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do
nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais
confiança do que nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo de
novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em
um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo,
que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão,
que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos
sentimentos que se tornaram estranhos para nós.

(…)

É por isso que a tristeza também passa: o novo em nós, o acréscimo, entrou em nosso
coração, alcançou seu recanto mais íntimo e mesmo ali ele já não está mais –
está no sangue. E não percebemos o que houve.
Seria fácil nos fazer acreditar que nada aconteceu,
no entanto nos transformamos, como uma casa se transforma quando chega
um hóspede. Não somos capazes de dizer quem chegou, talvez nunca
cheguemos a saber, mas vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa
maneira, para se transformar em nós muito antes de acontecer. Por isso é tão
importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante
aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro
entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto,
ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora. Quanto mais
tranquilos, pacientes e receptivos formos quando estamos tristes, tanto mais
profundo e mais firme o modo como o novo entra em nós, tanto mais fazemos
por merecê-lo, tanto mais ele se torna o nosso destino.

(…)
Voltando ao assunto da solidão, fica cada vez mais claro que no fundo
ela não é nada que se possa escolher ou abandonar. Somos solitários. É
possível iludir-se a esse respeito e agir como se não fôssemos. É tudo. Muito
melhor, porém, é perceber que somos solitários, e partir exatamente daí. (…)
Precisamos aceitar a nossa existência  em todo o seu alcance;
tudo, mesmo o inaudito, tem de ser possível nela. No
fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do
que é mais estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos.

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