Diálogo sobre todas as coisas.

“Eu estou com um problema, sabe”, disse sentando-se na cadeira e tirando o casaco verde-oliva surrado. “Acabei de me apaixonar perdidamente por 25 minutos.”

“Como assim?”, perguntei intrigado. Ele sempre vinha com aquelas assertivas inesperadas ou divagações filosóficas, e eu sempre o estimulava a desenvolvê-las.

“O que importa mesmo”, disse, ignorando minha pergunta após um longo suspiro “é o percurso, sabe. Minha primeira namorada, eu tinha 15 anos. Durou 6 meses o relacionamento. A segunda, já mais velho, não lembro quanto, durou 4 meses. A terceira. Ah! A terceira durou 15 dias. A quarta nem sequer existiu: ela estava comigo ao mesmo tempo que estava com outro. Nunca consegui dizer-lhe meus sentimentos. A quinta moça me arrebatou durante uma semana. Que belíssimo namoro! Com um aumento substancial e uma volta por cima! De não ocorrer para ocorrer por uma semana, acreditei ter tido grandes avanços ali. Entende o que eu quero dizer?”

Não entendia, na verdade. Balancei a cabeça lentamente pra cima e pra baixo, pois era isso que ele queria que eu fizesse, e esperei que continuasse suas divagações sem fazer nenhuma interrupção.

“Voltou a dar errado! Meu último amor durou 25 minutos! 25 minutos! Eu mal havia decorado o nome dela e já a amava perdidamente. Aquele sorriso, aquele rosto! Meu deus, se pudesse viver de uma só coisa nessa vida, queria que fosse dos beijos daqueles lábios. Queria! Não quero mais. Acabou o amor: ela é comprometida.”

Algo me preocupava. Ninguém consegue deixar de amar só por que descobre que não pode amar a pessoa amada! Demonstrei-lhe esse pensamento, no que ele hesitou um instante e respondeu em seguida:

“Ela está comprometida de um completo idiota. Sabe-se o bastante de uma pessoa pelo que se sabe da pessoa que ela ama.”

“E como sabes que ele é um idiota?”

“E não é evidente?”, perguntou, no que neguei com a cabeça. “Ele é um idiota pois não é eu!”

Agora tudo fazia sentido. Maior que o amor pela moça era o ciúme que dela sentia. Não à toa fora tão efêmero. Como fazer para que ele visse isto? Para que percebesse que a culpa não era nem dela, nem do homem dela, mas dele e somente dele? “E o que faz de ti tão melhor para ela?”, perguntei.

Olhou-me fixamente. Um olhar talvez raivoso, talvez digno de pena, mas fixo, irritantemente fixo. “Eu posso me tornar o que ela quiser. Ele nunca será nada além dele mesmo.”

O raciocínio começava a ficar tortuoso. Já não falava coisa com coisa. Eu precisava ser enfático, agressivo. Era um passo perigoso, mas preciso. Deixara-lhe dissertar, agora era o momento de tomar o controle da discussão. “E por que não te tornaste o que todos os teus amores passados queriam?”, perguntei.

Ele acusou o golpe de primeira. Levantou-se inquieto. Postou-se frente à janela e acendeu um cigarro. A penumbra da sala contrastava com o fiapo de luz que delineava parte do seu rosto. Após uma demorada tragada, virou-se para mim. “Tornei-me. E foi justamente esse o problema”, a voz parecia mais arenosa a cada palavra, a expressão arranhada, frívola “elas não sabiam em momento algum o que queriam; ou melhor – sabiam apenas que a cada momento queriam algo diferente.”

Como ele podia ser tão cego? A resposta estava evidente! Decerto não era a melhor resposta, muito menos a melhor conclusão, mas nem por isso deixava de ser a correta. Talvez estivesse aí a razão de sua cegueira – ela era voluntária, um modo de se proteger. Colocava a culpa nos amores e despia-se da própria culpa. “Eis aí o problema. Tu não podes te tornar o que o outro quer; tu tens que fazer o outro querer o que tu és.”

“Eu não sou nada”, respondeu enfaticamente, pegando o casaco verde-oliva da cadeira e fazendo como se fosse embora, mas parando novamente frente à janela. “Eu não sou nada e sou tudo ao mesmo tempo. Eu sou a diferença, a mudança. O que sou hoje, não serei amanhã. O que fui ontem já não sou hoje. Como queres que eu seja eu mesmo, se o que sou é o contrário de ser qualquer coisa?”

“Qual o contrário de ser qualquer coisa?”

“Ser tudo.”

Não fazia sentido. Não fazia, simplesmente. Mas eu não sabia o que responder. O que se responde a uma coisa dessas? Estava ele ali, abdicando completamente de qualquer tipo de coerência, e ainda assim me abatia. Eu sabia que ele estava errado, mas não sabia demonstrá-lo. Será que quem estava errado, afinal, era eu? Não era possível. Quem tinha problemas com relacionamentos era ele!

Mas quem é que não tem problemas com relacionamento nesses tempos? Ele tinha essa estranha capacidade de me fazer questionar todas as minhas certezas. Talvez, só talvez, fosse ele o certo, e todos os outros errados. Talvez, só talvez, não existisse certo ou errado.

Invejava sua capacidade de se apaixonar tão perdidamente. Ele invejava minha capacidade de não sofrer por amor, por isso recorria a mim. Mal sabia ele que não sofria por não senti-lo. Fui até ele na janela. Batia um vento forte, frio. Entendi por que pegara o casaco de repente. Não queria sair, queria apenas sentir-se confortável.

Acendi um cigarro junto a ele. “Eu nunca soube o momento certo de dizer “eu te amo”. Acho que nunca vivi um momento certo para dizê-lo”, admiti. “Tu não devia me procurar para conselhos sobre amor. Sou a pior pessoa do mundo pra isso.”

“Não é por isso que te procuro.”

“E por que é então?”

“Porque você é a única pessoa capaz de suplantar seus preconceitos e tentar me entender”.

Decorreu-se uma longa troca de olhares. Estávamos igualmente perdidos. Mas ele me procurara, não eu a ele. Devia estar mais desesperado por respostas do que eu. Alguns instantes se passaram, com ambos fumando em silêncio e olhando a fachada cinza do prédio da frente. “Eu estava lendo algo acerca dessa questão que você levantou”, eu disse, “pode ser que seja útil”.

“O que é?”, perguntou desinteressado. Sentia a tristeza na sua voz.

“Era um psicanalista que discorria acerca dos indivíduos múltiplos, uma certa forma de indivíduo contemporâneo que não consegue se prender a uma única forma de ser, que se adapta aos ambientes e às diferentes situações como um camaleão.”

“Como um camaleão? Por que um camaleão?”, ele perguntou ainda sem me olhar, mas eu sabia que captara seu interesse.

“Por que o camaleão se adapta pra proteger a si mesmo. Ele não o faz por que quer; é por sobrevivência. Sem isso, o mundo acabaria com ele.”. Silêncio. Alguns instantes de reflexão se fizeram necessários. Informações importantes não podem ser atropeladas.

“E você está sugerindo que talvez eu seja um camaleão?”, perguntou. O cigarro que acendera já queimara por inteiro, no que ele jogou pela janela o filtro e o observamos ser levado pela fria brisa que soprava.

“Não estou sugerindo, estou afirmando. Não terminei de falar sobre o que estava lendo.”

“Termine então.”

“O psicanalista sugeria logo em seguida que talvez a maior busca dos indivíduos múltiplos seja a coerência. Coerência na multiplicidade é o termo que ele usa. Ele sugere que, por mais múltiplos, mutáveis, por mais adaptáveis que esses indivíduos sejam, sempre existe uma coerência. Talvez o mundo não a veja, talvez as pessoas não a percebam, mas no fundo, no fundo, existe uma coerência.”

“E como ele pode afirmar isso?”

“Bem, talvez porque se você não é coerente nem para si mesmo, você deixa de fazer sentido. Você enlouquece, entende?”, nesse instante, um vento frio nos estremeceu. Pareceu-me renovador aquele vento limpando os cabelos dos nossos rostos, levando meu cigarro embora e embolando minha cortina com a mesa de canto.

Mais alguns instantes se passaram em silêncio. Ele virou-se, foi até a porta e abriu-a. “Tenho um adendo a sugerir para esse psicanalista”, disse, tornando a virar pra mim. “Loucos somos todos. Viver é uma loucura. A única sanidade dessa vida seria suicidar-se no exato instante em que nos sentimos vivos. Afinal, qual é o ponto de viver, se morreremos no fim das contas?”, fiz como se fosse responde-lo, mas ele levantou o dedo em riste na minha direção, “mas você fez bem em me contar isso. Que sou louco sempre soube. Mas agora sei que, antes de procurar um amor, preciso procurar por alguma coerência em minha loucura. Talvez você devesse fazer o mesmo.”

“Talvez todos devêssemos”

“Sim. Mas talvez nem todos possam.”, finalizou, saindo do cômodo.

Ao fechar a porta, pude ouvi-lo gritar um “obrigado”.

“Eu é que agradeço”, respondi em silêncio.

5 comentários

  1. Clara Tempone · agosto 28, 2014

    Sempre que leio teus textos tenho vontade de compartilhar contigo o quão bem me fazem, mas a vergonha é maior e sempre deixo pra depois. Só que com esse aí foi diferente, até salvei numa pasta de textos, então tive que vir aqui comentar: tá de parabéns, Almeida. Esse ficou sensacional! 🙂

    • ironmeida · agosto 29, 2014

      Obrigado, querida.
      Espero que agora que quebrou essa barreira consiga deixar a vergonha de lado mais vezes. 🙂

  2. andre luiz. · agosto 29, 2014

    Um pouquinho de John Green, um pouquinho de Dostoiévski e mais um tanto de originalidade. Tá foda, Almeida!

  3. Camila · agosto 30, 2014

    Seus textos me surpreendem cada vez mais! Você tem muito talento, sabe usar as palavras de uma maneira única… Espero que eu ainda veja muitos deles por aqui! Esse texto particularmente mexeu comigo, então tive que comentar… Parabéns (:

  4. Dessa · junho 22, 2015

    To esperando seu livro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s