Tenho um biotipo bem definido: faço parte daquela imensidão de pessoas que são extremamente magras, brancas e sem cabelo. Não que não tenhamos cabelo – é só que ele é tão crespo que preferimos escondê-lo. Acontece que cedo o suficiente percebi que esse meu biotipo não se enquadrava nos padrões de beleza da nossa sociedade, e prontamente notei que, do jeito que sou tímido, se ainda fosse feio, aí é que eu ia morrer virgem mesmo.

Diferente das pessoas que simplesmente reclamam da aparência mas não fazem nada pra alterá-la, tive força de vontade desde cedo. Aos 13 anos, meus pais, católicos e conservadores, concordaram em me dar minha primeira chapinha – atitude que considero honrosa de ambos. Tenho motivos para crer que ambos acharam que eu era gay, mas não reprimiram, pelo contrário, já que foi essa atitude que me levou a ter aquela franja que me tornou colírio e fez tantas moças se apaixonarem por mim. Deixando os preconceitos em segundo plano, eles acabaram facilitando o exercício da minha heterossexualidade.

Hoje, com o cabelo aceitável, já quase não faço chapinha, mas sigo sendo branquelo e magrelo. A magreza é o foco de insatisfação da vez, o que me leva a frequentar a academia há mais de um ano todas as semanas. Já fiz as dietas, faço as séries de 3 a 4 vezes por semana, me alimento feito um troglodita, tomo até hipercalórico! e não consigo engordar um. quilo. sequer.

Não consigo pensar em nenhum motivo racional para que eu continue malhando, só sei que continuo. Posso cancelar a matrícula no instante em que me der na telha, mas há um ano e meio postergo esse momento, baseado na vã esperança de que “a partir de agora a dieta vai fazer efeito”.

A única explicação minimamente viável para eu não conseguir resultados satisfatórios deve ser o fato de que eu não posto fotos dos suplementos no facebook. Só pode ser isso! Suplementação deve ser marketing, puro placebo – o verdadeiro crescimento é um trabalho mental. De nada adianta tomar aqueles shakes se não postar nas redes sociais fotos deles com frases de superação!

E isso eu não vou fazer nem fodendo.

Então sigo frequentando a academia, já desesperançoso de um dia deixar de ser raquítico, mas acostumado com aquela uma hora e meia que porventura dedico a ir caminhando até lá levantar pesos e fazer estudos antropológicos acerca das leggings femininas.

Vai que um dia eu não ganho uns músculos de brinde?

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