Recordación

Conversei com muita gente – muita! – desconhecida e de outros países nessa Copa, só que dois em especial me chamaram muita atenção. Colombianos, ambos. O primeiro era atarracado, com a pele morena e calvície começando a aparecer no topo do casco de cabelos negros. Estava acompanhado de um cara mais velho, branco e magro, bem mais sorridente e até um pouco invasivo. Sentaram-se ambos do meu lado e de mais dois amigos enquanto comíamos, e o primeiro me perguntou como fazia pra ligar pra determinado número que tinha anotado no celular. Nós também não sabíamos e quebramos o coco tentando descobrir, até que eu percebi que faltava um 9 antes do número e era isso que dificultava tudo. Depois ainda emprestei meu celular pro colombiano ligar pro número.

Eu e meus amigos estávamos sendo perfeitamente atenciosos, mas ainda assim me sentia em dívida – conversar com gringos sempre me deixa meio defensivo. Estar diante daquela pessoa tão diferente, que veio de tão longe e está vivendo uma realidade tão diferente da minha! E ainda ter que manter uma conversa minimamente sã em outra língua! Não tenho todo esse rebolejo…

Enquanto o primeiro usava meu celular, o segundo tentava puxar assunto e contar piadas, mas o portunhol não ajudava a nenhum dos lados. Tentamos, sorrimos, mas eu parecia meio defensivo diante da incapacidade de me comunicar, enquanto meus amigos pareciam simplesmente não se importar muito com o fato daquela pessoa tão diferente falar e rir de coisas ininteligíveis do nosso lado.

O primeiro, então, me devolve o celular, dá um sorriso absurdamente atencioso e me entrega uma nota de 1000 pesos colombianos. Eu não fazia ideia de quanto aquilo valia, então o colombiano avisa: vale mais ou menos 1 real de vocês. É só de recordación…

Esse tipo de coisa me quebra. Eu sinto logo vontade de abraçar a pessoa.

Nos despedimos – sem a menor melhora nas capacidades comunicativas – e eles foram embora.

Me arrependo até agora de não ter dado nada de recordación pra ele. Nem que fosse a balinha de caramelo que eu tinha no bolso.

***

O outro colombiano que marcou foi já na final, logo após a Alemanha se consagrar tetra. Eu estava com a camisa da Argentina, não por torcer por ela – longe disso! -, mas é por que tenho a religiosidade futebolística de jamais usar a camisa do time no dia do jogo. Sempre que uso camisa do fluminense em dia de jogo, ele perde. Sempre que uso camisa da seleção em dia de jogo, ela perde. É simples.

Então usei a camisa da Argentina.

E ela perdeu.

A ideia era simples – se a Alemanha ganhar, comemoro! Eu tava torcendo pra ela!
Se a Argentina ganhar, comemoro também, afinal, estou com a camisa dela! Eu posso!

E eis que um cenário interessante se desenha: o céu escuro, as ruas da tijuca iluminadas pelos postes de luz e pelos fogos do Maracanã, que naquele exato instante via a taça de campeão do mundo ser erguida pelo capitão alemão. Argentinos, alemães, brasileiros, gringos de todos os cantos do mundo andavam pelas ruas com suas bandeiras, cantando e comemorando, ou apenas se lamentando. Cornetas, gritos, cantos – pura vida.

Paramos – eu e um casal amigo – em frente a um bar. Queríamos ir até o Maracanã nos unirmos àquela massa de pessoas ensandecidas até percebermos que não havia massa alguma; um grupo de policiais militares impedia o acesso a todas as ruas do entorno do Maracanã.

De um lado, pessoas do mundo inteiro andando contentes. Do outro, uma barreira de policiais. À minha frente, a televisão do bar, presa ao teto, transmitindo as cenas da campeã Alemanha. Acima, fogos de artifício.

Atrás de mim, um colombiano me cutucava. Baixinho, meio sujo, meio hippie, com um sorriso sincero.

“Quieres una pulsera?”

“No, gracias”

“Paga quanto quieres. Recordación.”

Olhei pras pulseiras que ele carregava naquela madeirinha vestida de veludo escuro – eram super simples, até meio feias, mas aquela cena me deixou comovido. Saquei a carteira. Tinha uma nota de 20 e uma de 5. Dei a de cinco, por que recordación não está me alimentando ainda.

Os instantes do cara amarrando a pulseira no meu braço me mostravam que aquele instante era especial, mas não entendia ainda por quê.Talvez já estivesse acostumado com a Copa, que já acontecia há um mês e pouco, e que acabava naquele exato instante, pra só voltar – se voltar – daqui a 60 anos.

Vai deixar saudades.

E recordações.

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