Uma parada engraçada aconteceu esses dias. Comentei em algum grupo aleatório que eu fazia comunicação na faculdade e estudava psicologia por hobby, e uma mina de 18 anos me adicionou por que também gostava de psicologia. Conversa vai, conversa vem, percebi rapidamente que a profundidade daquela menina era equiparável à de um aquário em miniatura. Nesse tipo de situação, em que pessoas desconhecidas e intelectualmente limitadas vem falar comigo, acabo tomando uma postura meio “ok, precisamos ter paciência aqui, a moça não tem culpa de ser assim”.

Eis que, depois de pouco tempo, a mina me pergunta como eu consigo conciliar os estudos. Respondo: basta não ter preguiça de pensar. Quando se gosta de uma matéria como psicologia ou filosofia, você a lê por que ela te suscita pensamentos que você gosta. Dessa forma, não tendo preguiça de pensar, o estudo ocorre pela própria vivência e reflexão da matéria. Perguntei se a moça tinha preguiça de pensar, no que ela me responde “eu tenho preguiça até de dormir, você acha que eu consigo ler?”.

Aí parei um instante. Ok, ser limitado é uma coisa que eu aceito – eu também sou limitado em diversos pontos, todos somos. Mas se uma mina se propõe a estudar psicologia e vir falar com um maluco que se amarra em psicologia, e diz que tem preguiça de estudar, aí eu comecei a ficar meio desconcertado da cabeça. Mantive a calma e disse: “poxa, você precisa mudar isso. No mundo tem tanta gente burra, que se os que conseguem ser letrados e com ensino fundamental tem preguiça de pensar, estaremos todos perdidos”.

Eis que a moça responde de pronto: Ei, eu também sou burra, não gostei do preconceito.

Nesse instante fiquei intrigado. “Por que você diz isso?”, perguntei.

“Às vezes sinto que não tenho capacidade”, ela responde.

Pra uma pessoa que se amarra em analisar as outras, uma resposta dessas é como uma mão cheia de doces. Fiquei mega empolgado e não escondi. “Mas se uma pessoa não tem capacidade, não basta ela procurar conhecimento pra passar a tê-la?”, perguntei. “Se você me conhecer melhor, vai entender. As coisas só funcionam comigo quando penso negativo. Se penso positivo, dá errado”. Pedi um exemplo. “Uma vez eu queria muito passar pra um curso mas sabia que não ia conseguir, então não estudei. Acabou que, mesmo sem ter estudado, passei.”

Mais alguém tá impressionado com os caminhos tortuosos que a mente dessa mina traçou ou foi só eu?

“Você não acha que essa é a prova cabal de que você É inteligente, só precisa estudar mais? Veja bem, nem sempre você vai conseguir passar sem estudar nada”, respondi. Mesmo diante das atrocidades que a moça dizia, me mantive impassível e fofo, enquanto resoluções tempestivas já começavam a assolar a mente dela.

“Mas isso não acontece. Eu nunca estudo. É assim que eu penso. u_u”

“O seu pensamento é não pensar por que até então não pensar deu certo?”

“Exatamente.”

“E você ainda quer cursar psicologia?”

“Hahahah, por quê?”

“Por que eu tenho muita pena dos teus futuros clientes”

“Ah, mas eu sempre dou conselhos pros meus amigos”, ela disse. Broder, eu odeio quem diz isso. Puta que pariu, eu queria dar um tapa em quem fala isso. Aliás, um soco. No saco, se fosse homem. Uma vez um amigo disse que poderia ser psicólogo sem sequer fazer faculdade por que ele sempre dava conselhos pra irmã mais nova dele.

Milhares de estudiosos do mundo inteiro tentam entender a mente humana e vem uns retardados achar que ser psicólogo é dar conselhos pra crianças estúpidas de 12 anos.

“Você acha que consegue lidar com pessoas mentalmente instáveis só por que deu conselhos pros seus amigos? Sabe, psicólogos lidam com coisas mais complexas do que problemas de adolescentes…”, respondi.

“Não vou expor minha opinião sobre meu futuro. Você não me conhece e não me entenderá.”

E acabou a conversa. No dia seguinte, fui deletar a mina do facebook e ela já havia me deletado.

Que final trágico!

Reflexões acerca do diálogo:

1- A pior e a melhor coisa da sociedade são a mesma: a liberdade de expressão. É o que possibilita os gênios serem ouvidos, e é o que justifica qualquer estúpido falar a primeira merda que vem à cabeça e se achar no direito de ter a opinião considerada.

2- Será que só eu percebo que o maior problema do mundo não é a burrice em si, mas a resignação com a burrice? Muito pior do que uma criança sem estudo é um jovem que teve estudo e não soube usá-lo, pois ele dirá a todos que tem estudo, o que o dará credibilidade, mas nunca fará uso dele.

3- A cada dia que passa, fica mais difícil conversar com outras pessoas. Elas parecem tão limitadas! Em outros tempos, teria concordado e talvez até trocado uns beijos com essa moça. Hoje, ela me deixa puto e eu a deixo puta. E a lembrança de que Nietzsche morreu louco e solitário volta a figurar entre meus mais profundos medos.

Um comentário em “

  1. Eu fico impressionada em como as pessoas são preguiçosas. É claro que resistir a levantar da cama é uma coisa, mas nunca me conformei com essa “preguiça intelectual”. Talvez grande parte dos estudantes que protestam por uma educação melhor, jamais se dedicariam uma hora sequer pelos estudos. Provavelmente para pessoas como essa menina, ler um livro é sinônimo de loucura, coisa de outro planeta. Me parece que passam suas vidas sem fazer nada, tipo em estado vegetativo.

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