Trier

Como um estudante de comunicação – curso que engloba tanto produção audiovisual quanto jornalismo e publicidade – eu tenho diversas oportunidades de fazer trabalhos realmente muito fodas. Um deles foi esse, feito na minha aula de Audiovisual II (que é, basicamente, uma aula de cinema) em que eu poderia escrever 5 laudas sobre qualquer tema que se relacionasse com “a forma de se construir verdade no cinema”. É claro, o conceito de “verdade no cinema” fora o tema das discussões de todo o período, então é possível que não seja 100% compreensível para quem não estudou esse assunto.

Mas é suficientemente compreensível e interessante pra quem gosta de Lars von Trier, então fiquem de boa!

EI-LO:

****

A IDEIA DE VERDADE NA OBRA DE LARS VON TRIER

Curso de Graduação em Comunicação Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Escola de Comunicação/ 1º Semestre de 2014

Quando Lars von Trier apresentou ao público a proposta de Ninfomaníaca, ninguém sabia exatamente o que esperar. O diretor, conhecido invariavelmente por transmitir emoções fortes, muitas vezes ligadas a alguma forma de choque, se propunha a tratar de um tema que poderia tender quase a um trabalho antropológico, mas também poderia se postar como apenas uma história repleta de sexo.

O que proponho analisar é a forma como ele transita entre esses termos para, durante as 4 horas de duração da película, utilizar uma forma peculiar de trabalho com a verdade – ou pelo menos tentar. Para tanto, pretendo analisar o movimento artístico que ele fundou, o Dogma 95, e fazer uma breve análise acerca de Dogville, outro filme do diretor.

O DIRETOR

O dinamarquês Lars von Trier tem um histórico de produção cinematográfica que diz muito sobre si: em 1995, foi um dos criadores do movimento chamado “Dogma 95”. A intenção do manifesto era a criação de um cinema mais realista e menos comercial, seguindo 10 regras estabelecidas por Trier e Thomas Vintenberg, e são elas:

  1. As filmagens devem ser feitas no local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).
  2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).
  3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
  4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
  5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.
  6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, Sexo, etc. não podem ocorrer).
  7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).
  8. São inaceitáveis os filmes de gênero.
  9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.
  10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

 

Peter Schepelern, professor de cinema da Universidade de Copenhagen, refletiu sobre o movimento:

“Há mais do que apenas um toque de masoquismo nessa forma de fazer filmes. A tortura ao qual eles se expõem deve ser vista como uma forma de forçar resultados que quebrem os padrões. Os artistas do Dogma se punem das formas mais difíceis, na expectativa de que isso os levará a libertação artística. Enquanto a maioria se adapta ao convencional, e trabalha de acordo com regras já estabelecidas, von Trier força si mesmo a experimentar novas formas de trabalho.”

(Fonte: SCHEPELERN, Peter. The King of Dogme. Danish Film Institute, 2005.)

 

Mesmo sendo um dos idealizadores do manifesto, Trier fez apenas um filme seguindo todas suas diretrizes, Idioterne (1996). Sua produção posterior, no entanto, é claramente influenciada pelos preceitos do Dogma 95 de fazer filmes menos comerciais e mais realistas.

Essa forma de trabalhar com o cinema trouxe ao diretor algumas criações notáveis, como Dançando no Escuro (2000), Dogville (2003) e Melancolia (2011).

DOGVILLE (2003)

Dogville faz parte de uma trilogia – mesmo que só dois tenham sido feitos – de filmes cuja história se passa nos EUA, ainda que nenhuma cena seja lá gravada. O único cenário durante todo o longa é um galpão, com divisórias marcadas no chão por fitas brancas e parcamente iluminado. A história se debruça sobre a chegada de Grace, uma desconhecida, à Dogville, uma pequena vila americana.

Trier usa em Dogville um recurso que repetirá em Ninfomaníaca – por meio de diálogos bem trabalhados, apresenta os personagens com uma certa profundidade e, quando o espectador acredita já conhece-los, Trier o choca, mostrando-os tomar atitudes que demostram um nível de frieza e crueldade até então desconhecido.

O choque se dá, em primeira instância, pela decepção com o personagem. É difícil entender que a idosa gentil ou que a criança bonitinha poderiam ser pessoas tão sádicas. Em segunda instância, choca-se por suscitar o pensamento de quão nefasto pode ser o humano quando este tem poder sobre outro.

O choque é cruel, mas é claro. Alicerça-se na decepção e transmite uma mensagem de repúdio à bíblia e à sociedade americana – ainda que travestida de ocorridos corriqueiros em uma vila.

 

Outro recurso utilizado em Dogville que se repetirá em quase todos os filmes do diretor, incluindo Ninfomaníaca, é a divisão do filme em capítulos. Numa clara tentativa de deixar óbvio que aquilo não se trata de uma história real, o diretor constrói um filme com narrador, prólogo e nove capítulos, todos com título.

Dessa forma, Lars von Trier dirige um filme que o tempo todo reforça ser uma ficção, ambientado em um cenário falso, sob a premissa de ser nos Estados Unidos – mesmo não sendo -, rejeitando ao máximo recursos cinematográficos pré-estabelecidos e ainda assim consegue fazer o espectador se apegar e se decepcionar com todos os personagens, sem excessão. E vai além: consegue fazer o espectador colocar os próprios valores em dúvida.

NINFOMANÍACA (2014)

Rodado em 2012, Nynphomaniac teve quatro lançamentos. Com duração de 5,5 horas, houve o lançamento da versão dividida e com as cenas eróticas cortadas, e o lançamento, no Festival de Berlim, das versões sem cortes. Há, então, quatro peças diferentes acerca de Joe, uma mulher que se diz ninfomaníaca.

O formato que norteará o filme fica evidente logo nos primeiros dez minutos: numa noite fria, Seligman, um idoso que fora à padaria comprar bolo, encontra Joe maltratada e estirada no chão. Leva-a para sua casa, trata-a e dispõe-se a ouvir sua história. O filme, então, começa. Joe é a narradora, que disserta durante todo o filme acerca das suas experiências, e Seligman é o ouvinte, que a interrompe eventualmente para fazer digressões e dividir pensamentos.

Por volta dos 105 minutos, Seligman duvida de determinado ocorrido que Joe narra, no que ela diz: “De que forma você acha que tirará mais proveito da minha história? Acreditando nela ou não?”. O velho concorda, e responde “Você deve ter um motivo pra contar isso”. Esse diálogo prepara o terreno para diversas situações futuras que causariam estranhamento em qualquer pessoa que buscasse uma história verossímil.

Ao dissertar sob a premissa de “você tirará um proveito disso”, Joe diversas vezes narra acontecimentos que beiram o irreal, como visões e coincidências estapafúrdias, levando o espectador a acreditar em mentiras conscientemente.

Se nas primeiras duas horas a trama do filme ainda não fica bem definida, um dos primeiros diálogos da segunda parte (a partir da segunda hora de filme) se encarrega de fazê-lo: Joe conta que não tem um orgasmo desde um ocorrido na tenra infância, e Seligman conta que nunca tivera um orgasmo por ser assexuado.

Eis que, a partir de então, o filme que circunda uma ninfomaníaca passa a tratar sobre duas pessoas que jamais tem orgasmos. Joe como a mulher que os busca incessantemente, sendo incumbida de carregar o fardo de pecadora, e Seligman, que nunca o teve, sendo diversas vezes associado à imagem de Virgem Maria – uma vez até denominando a si mesmo de “puro”.

Após aumentar a aceitabilidade do espectador e fincar profundas raízes psicológicas nos personagens, começa-se a levantar questionamentos morais. Ao escrever esse roteiro, Lars von Trier provavelmente familiarizou-se com os textos de autores como Freud, Nietzsche, Foucault e Deleuze, pois os questionamentos nele levantados já foram estudados a fundo por tais autores. Mas, por meio de todo o trabalho indutivo exercido durante várias horas de filme, poucos textos seriam tão claros e persuasivos.

Primeiro a questão da linguagem é levantada. “A sociedade demonstra a sua impotência frente a problemas concretos removendo palavras do idioma” diz Joe ao ser repreendida por usar a palavra “negro” – que, de acordo com Seligman, é ofensivo. Mais tarde, ela retoma o discurso ao ser repreendida por usar a palavra “ninfomaníaca” em vez de “viciada em sexo”. Essa diferença fica exposta justamente quando ela diz ter uma visão de si mesma na infância ao olhar um espelho. Dessa forma, os “objetivos” das mentiras de Joe começam a se delinear na mente do espectador, que começa a perceber algumas reflexões verdadeiras no discurso da personagem.

Outro momento em que isso ocorre é quando ela conta a história do pedófilo: um homem que tinha atração por crianças e conseguia reprimir essa atração. O argumento dela se baseia no fato de que a esmagadora maioria das pessoas com atração por crianças não dão vazão a esses sentimentos, de forma que julgá-los mal por serem pedófilos seria uma péssima atitude, uma vez que eles não teriam escolha de tal atração e ainda, ao reprimi-la, privam-se de se satisfazer sexualmente.

Há também o momento em que todas as atitudes de Joe são interpretadas por Seligman a partir de uma lógica feminista, levantando questionamentos sobre o papel da mulher na sociedade e como esse papel é tratado em relação ao do homem, principalmente no tange aos “comportamentos sexuais desviados”.

Todas essas discussões são intrincadas em diálogos que ocorrem nos intervalos das cenas das mais diversas experiências sexuais da personagem – com especial atenção para as de sadomasoquismo, que demonstram que poucos diretores podem ser mais aflitivos do que Trier, e que também marcam o reencontro de Joe com o orgasmo.

Alguns recursos pontuais merecem ser lembrados, como o aparecimento de 3+5 na tela em dois momentos, ambos relacionados aos momentos de maior humilhação na vida da personagem, e a tendência a aparecer diversas imagens em diagonal. Galhos, plantas, córregos e outras imagens aparecem em diagonal para serem retomados, no final do filme, na metáfora de que Joe tinha a alma torta.

E eis que o filme termina, por fim, recorrendo novamente ao choque pela decepção. Fica evidente a crítica principal, que é acerca da tendência da sociedade de patologizar tudo o que lhe é anormal, no caso, a ninfomania, enquanto o final nos traz a decepção: o cidadão “puro” é o verdadeiro doente, que reprime sua sexualidade e, quando a exerce, o faz erradamente.

CONCLUSÃO

Experimental, o diretor força-se a desenvolver novos métodos e esforça-se para criar sua marca, de forma que seus filmes conseguem ser absolutamente diferentes entre si mas ainda possuir o “dedo” dele delineado claramente.

Assim, sob a pompa de um “filme de sexo”, Lars von Trier constrói uma obra de arte que suscita reflexões acerca não só da sociedade e como ela se organiza, mas da forma como fazer cinema e trabalhar com o discurso.

Afinal, ele admite contar mentiras, mas em momento algum abre mão de suscitar verdades.

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