Um texto bem Nerd Calculista sobre um show que eu fui.

Ontem fui em mais um show do Forfun, o quinto ou sexto, se não me engano. Não sei como rola o sentimento de fã com eles em outros estados, mas acho que uma das coisas mais bonitas do Forfun é o fato de eles representarem uma parcela muito específica da sociedade carioca. O que caracteriza essa parcela não cabe a mim explicar – a vivência de um carioca que acompanha a banda nos shows no Rio são a explicação. Mas posso dizer, com certeza, que essa parcela é bastante dedicada à banda.

Não à toa virou quase uma tradição, um rolê obrigatório de todo fã, um dia a ser marcado na agenda: frequentar os shows da banda na Lapa.

Eles vivem fazendo shows por aí… 
mas os na Lapa, 
ah…
esses tem uma energia diferente.

A energia miscigenada e quente da Lapa, que coloca desde o playboy da zona sul na mesma sala quente e alcoolizada do maluco que pegou um trem lá de Campo Grande. Aí pega uma parcela dessa loucura e coloca pra entupir o Circo Voador ou a Fundição Progresso e cantar o show. Cantar, por que o show do Forfun não é só do Forfun – a platéia tem o seu papel, e ele é fundamental.

Talvez o show de ontem ainda tenha deixado isso mais claro. Não sei se é sempre assim, mas o palco de ontem era absolutamente no meio do público. Era de um formato estranho, que lembrava um hexágono torto. Os microfones eram dispostos em diferentes posições, pra que os vocalistas pudessem cantar pra diversos frontes. Pra subirem no palco, os seguranças tiveram que abrir uma fila no meio da plateia. 

O público sente isso, e respeita. E, principalmente, percebe que faz parte daquilo. É a magia de uma banda independente.

Em Morada, por exemplo. Os chilenos que provavelmente vieram pra aproveitar a Copa e acabaram perdidos na Fundição devem ter se assustado quando, de repente, as luzes se apagaram, alguns sons sensoriais ressoaram pelo ambiente e todos – absolutamente todos – se ajoelharam. Eram os primeiros versos de Morada, que não se canta; recita:

Faço de mim
Casa de sentimentos bons
Onde a má fé não faz morada
E a maldade não se cria
Me cerco de boas intencões
E amigos de nobres corações
Que sopram e abrem portões
Com chave que não se copia
Observo a mim mesmo em silêncio
Porque é nele onde mais e melhor se diz
Me ensino a ser mais tolerante, não julgar ninguém
E com isso ser mais feliz
Sendo aquele que sempre traz amor
Sendo aquele que sempre traz sorrisos
E permanecendo tranquilo aonde for
Paciente, confiante, intuitivo.

 

Ou em Cara Esperto, aquela música que desde sempre é obrigação do público puxar. Em todos os shows que fui do Forfun, em nenhum falha: é sempre o público que puxa. Em algum momento uma música acaba e se ouve meia dúzia de caras cantando Cara Esperto. E aí, o coro aumenta, e aumenta – e mesmo que não queira, a banda tem que tocá-la ali. É uma exigência.

Não que o público seja lá muito exigente! De vez em quando, na constante troca de microfones pra fazer um show 360º, o técnico de som devia estar meio distraído devido à nuvem de THC que plana durante o evento, e frequentemente esquecia de aumentar ou diminuir alguns microfones. O público se divertia vendo aquilo, e tomava como razão pra cantar ainda mais alto.

Tem também aqueles instantes espetaculares de Gruvi Quântico, quando você, já rouco e sem ar, ainda se vê na obrigação moral de vociferar a letra, só pra sentir a maravilha que é respirar fundo e sentir o refrão “Luz, preencha todo o meu ser” fazer um milhão de luzes brancas te engolirem à sua frente.

Entre uma música e outra, elogia-se com outro grito constante, tomado emprestado das arquibancadas de estádio de futebol: puta que pariu, é a melhor banda do Brasil.

O fato é que pra tudo precisa ter timing.

E às vezes o timing falha.

O show de ontem era repleto de convidados e pessoas minimamente conhecidas que tinham alguma coisa para mostrar. Em determinado momento, dois seguranças aparecem do meu lado e me empurram: era a banda Scracho, que enfrentava alguns problemas pra lidar com o palco no meio do público.

Como a intenção era transportá-los discretamente até o palco, quase ninguém do público percebeu. E, por uma daquelas coincidências que devem ser obra de uma força superior muito sádica e bem humorada, todo mundo começa a gritar “puta que pariu! É a melhor banda do Brasil!”.

Imaginem a cara do Danilo, vocalista do Forfun, quando teve que introduzir o Scracho depois disso.

E imaginem a cara do público quando o maluco do Scracho pega o microfone e diz “olha, se o Forfun é a melhor do Brasil, o Scracho bem que podia ser a segunda, né?”, e a reação geral se divide entre risos envergonhados e “UHUUUUUL” daquelas pessoas que sempre fazem Uhuuuul.

Dentre estas e tantas, o show do Forfun caracteriza-se por ser mais que um show. É um esforço conjunto, que nunca depende só da banda, como se o público fosse o quinto, sexto e sétimo membro. Desde as rodinhas punk, que acatam a todas as normas do bom senso, como excluir quem não quer participar e, a mais importante, não dar socos – o que alguns retardados fazem em muitos shows -, até as palmas, gritos, rituais, e simbolismos, o espetáculo ocorre sob uma aura com cheiro de maconha e temperatura um bucado elevada.

Sua a camisa, mas limpa a alma. E eu fico um bastante satisfeito de ter criado o hábito de frequentar esses shows.

O Forfun é uma banda que precisa ser sentida. Mas, pra senti-la, é preciso despir-se dos infinitos preconceitos que a circundam. Por isso, talvez, a energia desses shows na Lapa seja tão única. Nenhum outro local faz tanto sentido pro Forfun se apresentar.

3 comentários em “Um texto bem Nerd Calculista sobre um show que eu fui.

  1. Realmente, acho que só os cariocas entendem a mistura de paz e agitação que acontece em un show do Forfun. Principalmente quando eles decidem usar aquele palco que quase nunca é usado, mas que a gente sempre torce pra que seja.

  2. Pingback: Nu | Estábulo.

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