Vou explicar o que eu penso com a minhas palavras: pra mim, as religiões servem pra lançar ideais. Ideais morais, invariavelmente.

Vejo que todo os seres humanos tem necessidade de idealizar alguma coisa. Alguns fogem pra idealização de um Deus católico, por exemplo, perfeito, onipotente, bla bla blá. Outros nem tanto – uma menina de 13 anos pode ser católica e idealizar um artista. Um jovem pode ser budista e idealizar o Cristiano Ronaldo. Uma pessoa pode se dizer atéia e idealizar o dinheiro, ou um relacionamento, ou idealizar a si mesmo.

Além de idealizar, todos temos valores morais. Todos temos uma própria definição do que é “fazer o bem”, e isso está intrinsecamente ligado à moral da sociedade que nos cerca. Para muitos americanos, a “Guerra ao Terror” era válida. Antes, para muitos alemães, o nazismo era válido. Diversas pessoas votavam e compravam aquele discurso achando que estavam fazendo o certo. Para quem era de fora, era mais óbvio o absurdo que se passava. Isso por que quem está “de fora” tem valores morais diferentes, portanto, tem “bases de julgamento” diferentes.

E então retomo o que eu disse: as religiões servem para lançar ideais morais.

É praticamente impossível amar ao próximo como a si mesmo, como dizem os católicos. E também o é para os budistas, que pregam “combater o ódio com amor”. Mas ter esses ideais morais circundando o inconsciente de toda uma sociedade é obviamente necessário, pois se não “Guerras ao Terror” se tornariam muito mais recorrentes. É importante que as crianças saibam que você deve ser legal com o próximo e que matar é errado.

O problema é que existem os ignorantes.

Acreditar que a sua própria religião é melhor do que a dos demais é, claramente, um ato de ignorância. O próprio conceito de “crença” denota incerteza. Quem crê não sabe, acha. E somos todos ignorantes em determinados momentos, pois simplesmente por crermos em algo já admitimos pra nós mesmos que aquela é a melhor teoria.

Somos todos ignorantes eventualmente. É uma situação que nos ocorre instintivamente.

Mas quando você lança um avião no World Trade Center você levou essa ignorância a um extremo, da mesma forma que uma pessoa que consegue respeitar as demais religiões está no outro extremo. Cabe aos seres humanos transitar entre esses pontos. Ignorância não é um conceito maniqueísta que propõe que ou se é ignorante, ou não se é. Todos são. Alguns mais, outros menos.

Eu tenho minhas religiões e minhas ignorãças. Constantemente me pego pensando que as minhas são melhores que as dos demais, e não há absolutamente nada de errado nisso. Afinal, não tento impor a minha – entendo as dos outros, apreendo o que deve ser apreendido, e construo minha própria religião. Por isso, tive criação católica e aprendi que não se deve matar ninguém, nem roubar, nem mentir, e que se deve ter amor pelo próximo, mas nunca me deixei levar pela igreja, bíblia, ou padres estrelas que vociferam ignorâncias para milhares de pessoas ensandecidas por algo em que acreditar. Entendo que, para islâmicos, a imagem da mulher deve ser preservada, e entendo que, para os protestantes norte-americanos, ser bem sucedido pode ser mais importante do que fazer o bem.

Entendo.
Aceito.
Convivo.

(Esse texto foi baseado em anos de leitura de Freud, Nietzsche, Jung e milhares de outros autores que eu leio por hobby. Poderia continuar dissertando e citando-os eternamente, mas vamos parar, por ora, por aqui.)

Muitas coisas aconteceram nesses dias. Poucas aconteceram de verdade, mas na minha cabeça um monte de coisa aconteceu.

Depois de oito anos, Oito. Anos., terminei de assistir How I Met Your Mother. Comecei a assisti-la em 2006, quando eu tinha nada mais do que 11 anos. Naquela época, era a minha série preferida, mesmo tendo apenas duas temporadas. O Ted pensava exatamente igual a mim! Eu também procurava a Menina Certa e queria pular todas as etapas pra ir direto ao comodismo de achar a pessoa perfeita pra mim.

Eu acreditava que ela existia. Que saudade daquele tempo!

Oito anos se passaram. A série terminou ano passado, mas eu não estava pronto pra assisti-la. Nunca passou pela minha cabeça não assisti-la, eu apenas esperava pelo momento certo. Isso acontece às vezes – baixo alguns discos e não os ouço, baixo filmes e não os vejo, acompanho séries e não as termino. Fico aguardando o momento certo. E ele sempre – sempre – chega.

Chegou o de HIMYM. E quando o Ted achou a Menina Certa, que é simplesmente


a criatura mais linda do universo

eu chorei. O que é muitíssimo difícil pra mim. A última vez que chorei foi aos 16 anos, no último dia de aula do ensino médio. Antes dessa, aos 13 anos, quando terminei meu primeiro namoro. Nunca lidei bem com términos. E parece que, de 3 em 3 anos, elas insistem em me perseguir.

Chorei pelo término da minha série favorita, que me acompanhou enquanto eu crescia. Quando assisti pela primeira vez, parecia uma realidade tão distante! E agora parece uma paródia da minha vida. Quando assisti pela primeira vez, eu me achava tão parecido com o Ted! E agora nenhum deles diz nada sobre mim. Quando assisti pela primeira vez, eu tinha absoluta pena do Ted. E agora eu tenho profunda inveja.

Nunca vou parar de assistir HIMYM.

Ela terminou hoje, mas recomeçará daqui a alguns meses quando eu já tiver esquecido o que acontece nas primeiras temporadas.

E assim a vida continuará. Eu, Ted, Marshal, Robin, Lily e, é claro, o melhor de todos, Bar – wait for it

NEY. BARNEY!

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Eu sei que HIMYM merecia um texto só pra ele. Mas até então dividi minhas férias em 3 etapas: assistir How I Met Your Mother, jogar League of Legends e ouvir essa cantora italiana ABSOLUTAMENTE MARAVILHOSA.

Só não é mais maravilhosa que Cristin Milioti, a mulher do Ted.

Aquele velho dilema – devo divulgar a música que é mais provável que todo mundo vá gostar ou devo divulgar a música que eu mais gosto? Vai saber.

É assustador como, independente do que se faça, alguns dias simplesmente são menos bons que outros. Não existe a menor chance de assegurarmos que um dia vai ser bom ou ruim.

Existem três tipos de dias ruins, 1) os que o universo faz tudo dar errado, 2) aqueles em que absolutamente tudo é menos feliz sem ter motivo algum, como se algum órgão produtor de serotonina entrasse em greve e 3) os em que acontece ambos os anteriores.

Não importa quantos escapismos, vícios ou distrações busquemos, eventualmente um dos três nos arrebatará.

Saber estar preparado para esses momentos é o importante. Sabendo, claro, que pra tristeza jamais estamos preparados.

Trier

Como um estudante de comunicação – curso que engloba tanto produção audiovisual quanto jornalismo e publicidade – eu tenho diversas oportunidades de fazer trabalhos realmente muito fodas. Um deles foi esse, feito na minha aula de Audiovisual II (que é, basicamente, uma aula de cinema) em que eu poderia escrever 5 laudas sobre qualquer tema que se relacionasse com “a forma de se construir verdade no cinema”. É claro, o conceito de “verdade no cinema” fora o tema das discussões de todo o período, então é possível que não seja 100% compreensível para quem não estudou esse assunto.

Mas é suficientemente compreensível e interessante pra quem gosta de Lars von Trier, então fiquem de boa!

EI-LO:

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A IDEIA DE VERDADE NA OBRA DE LARS VON TRIER

Curso de Graduação em Comunicação Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Escola de Comunicação/ 1º Semestre de 2014

Quando Lars von Trier apresentou ao público a proposta de Ninfomaníaca, ninguém sabia exatamente o que esperar. O diretor, conhecido invariavelmente por transmitir emoções fortes, muitas vezes ligadas a alguma forma de choque, se propunha a tratar de um tema que poderia tender quase a um trabalho antropológico, mas também poderia se postar como apenas uma história repleta de sexo.

O que proponho analisar é a forma como ele transita entre esses termos para, durante as 4 horas de duração da película, utilizar uma forma peculiar de trabalho com a verdade – ou pelo menos tentar. Para tanto, pretendo analisar o movimento artístico que ele fundou, o Dogma 95, e fazer uma breve análise acerca de Dogville, outro filme do diretor.

O DIRETOR

O dinamarquês Lars von Trier tem um histórico de produção cinematográfica que diz muito sobre si: em 1995, foi um dos criadores do movimento chamado “Dogma 95”. A intenção do manifesto era a criação de um cinema mais realista e menos comercial, seguindo 10 regras estabelecidas por Trier e Thomas Vintenberg, e são elas:

  1. As filmagens devem ser feitas no local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).
  2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).
  3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
  4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
  5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.
  6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, Sexo, etc. não podem ocorrer).
  7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).
  8. São inaceitáveis os filmes de gênero.
  9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.
  10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

 

Peter Schepelern, professor de cinema da Universidade de Copenhagen, refletiu sobre o movimento:

“Há mais do que apenas um toque de masoquismo nessa forma de fazer filmes. A tortura ao qual eles se expõem deve ser vista como uma forma de forçar resultados que quebrem os padrões. Os artistas do Dogma se punem das formas mais difíceis, na expectativa de que isso os levará a libertação artística. Enquanto a maioria se adapta ao convencional, e trabalha de acordo com regras já estabelecidas, von Trier força si mesmo a experimentar novas formas de trabalho.”

(Fonte: SCHEPELERN, Peter. The King of Dogme. Danish Film Institute, 2005.)

 

Mesmo sendo um dos idealizadores do manifesto, Trier fez apenas um filme seguindo todas suas diretrizes, Idioterne (1996). Sua produção posterior, no entanto, é claramente influenciada pelos preceitos do Dogma 95 de fazer filmes menos comerciais e mais realistas.

Essa forma de trabalhar com o cinema trouxe ao diretor algumas criações notáveis, como Dançando no Escuro (2000), Dogville (2003) e Melancolia (2011).

DOGVILLE (2003)

Dogville faz parte de uma trilogia – mesmo que só dois tenham sido feitos – de filmes cuja história se passa nos EUA, ainda que nenhuma cena seja lá gravada. O único cenário durante todo o longa é um galpão, com divisórias marcadas no chão por fitas brancas e parcamente iluminado. A história se debruça sobre a chegada de Grace, uma desconhecida, à Dogville, uma pequena vila americana.

Trier usa em Dogville um recurso que repetirá em Ninfomaníaca – por meio de diálogos bem trabalhados, apresenta os personagens com uma certa profundidade e, quando o espectador acredita já conhece-los, Trier o choca, mostrando-os tomar atitudes que demostram um nível de frieza e crueldade até então desconhecido.

O choque se dá, em primeira instância, pela decepção com o personagem. É difícil entender que a idosa gentil ou que a criança bonitinha poderiam ser pessoas tão sádicas. Em segunda instância, choca-se por suscitar o pensamento de quão nefasto pode ser o humano quando este tem poder sobre outro.

O choque é cruel, mas é claro. Alicerça-se na decepção e transmite uma mensagem de repúdio à bíblia e à sociedade americana – ainda que travestida de ocorridos corriqueiros em uma vila.

 

Outro recurso utilizado em Dogville que se repetirá em quase todos os filmes do diretor, incluindo Ninfomaníaca, é a divisão do filme em capítulos. Numa clara tentativa de deixar óbvio que aquilo não se trata de uma história real, o diretor constrói um filme com narrador, prólogo e nove capítulos, todos com título.

Dessa forma, Lars von Trier dirige um filme que o tempo todo reforça ser uma ficção, ambientado em um cenário falso, sob a premissa de ser nos Estados Unidos – mesmo não sendo -, rejeitando ao máximo recursos cinematográficos pré-estabelecidos e ainda assim consegue fazer o espectador se apegar e se decepcionar com todos os personagens, sem excessão. E vai além: consegue fazer o espectador colocar os próprios valores em dúvida.

NINFOMANÍACA (2014)

Rodado em 2012, Nynphomaniac teve quatro lançamentos. Com duração de 5,5 horas, houve o lançamento da versão dividida e com as cenas eróticas cortadas, e o lançamento, no Festival de Berlim, das versões sem cortes. Há, então, quatro peças diferentes acerca de Joe, uma mulher que se diz ninfomaníaca.

O formato que norteará o filme fica evidente logo nos primeiros dez minutos: numa noite fria, Seligman, um idoso que fora à padaria comprar bolo, encontra Joe maltratada e estirada no chão. Leva-a para sua casa, trata-a e dispõe-se a ouvir sua história. O filme, então, começa. Joe é a narradora, que disserta durante todo o filme acerca das suas experiências, e Seligman é o ouvinte, que a interrompe eventualmente para fazer digressões e dividir pensamentos.

Por volta dos 105 minutos, Seligman duvida de determinado ocorrido que Joe narra, no que ela diz: “De que forma você acha que tirará mais proveito da minha história? Acreditando nela ou não?”. O velho concorda, e responde “Você deve ter um motivo pra contar isso”. Esse diálogo prepara o terreno para diversas situações futuras que causariam estranhamento em qualquer pessoa que buscasse uma história verossímil.

Ao dissertar sob a premissa de “você tirará um proveito disso”, Joe diversas vezes narra acontecimentos que beiram o irreal, como visões e coincidências estapafúrdias, levando o espectador a acreditar em mentiras conscientemente.

Se nas primeiras duas horas a trama do filme ainda não fica bem definida, um dos primeiros diálogos da segunda parte (a partir da segunda hora de filme) se encarrega de fazê-lo: Joe conta que não tem um orgasmo desde um ocorrido na tenra infância, e Seligman conta que nunca tivera um orgasmo por ser assexuado.

Eis que, a partir de então, o filme que circunda uma ninfomaníaca passa a tratar sobre duas pessoas que jamais tem orgasmos. Joe como a mulher que os busca incessantemente, sendo incumbida de carregar o fardo de pecadora, e Seligman, que nunca o teve, sendo diversas vezes associado à imagem de Virgem Maria – uma vez até denominando a si mesmo de “puro”.

Após aumentar a aceitabilidade do espectador e fincar profundas raízes psicológicas nos personagens, começa-se a levantar questionamentos morais. Ao escrever esse roteiro, Lars von Trier provavelmente familiarizou-se com os textos de autores como Freud, Nietzsche, Foucault e Deleuze, pois os questionamentos nele levantados já foram estudados a fundo por tais autores. Mas, por meio de todo o trabalho indutivo exercido durante várias horas de filme, poucos textos seriam tão claros e persuasivos.

Primeiro a questão da linguagem é levantada. “A sociedade demonstra a sua impotência frente a problemas concretos removendo palavras do idioma” diz Joe ao ser repreendida por usar a palavra “negro” – que, de acordo com Seligman, é ofensivo. Mais tarde, ela retoma o discurso ao ser repreendida por usar a palavra “ninfomaníaca” em vez de “viciada em sexo”. Essa diferença fica exposta justamente quando ela diz ter uma visão de si mesma na infância ao olhar um espelho. Dessa forma, os “objetivos” das mentiras de Joe começam a se delinear na mente do espectador, que começa a perceber algumas reflexões verdadeiras no discurso da personagem.

Outro momento em que isso ocorre é quando ela conta a história do pedófilo: um homem que tinha atração por crianças e conseguia reprimir essa atração. O argumento dela se baseia no fato de que a esmagadora maioria das pessoas com atração por crianças não dão vazão a esses sentimentos, de forma que julgá-los mal por serem pedófilos seria uma péssima atitude, uma vez que eles não teriam escolha de tal atração e ainda, ao reprimi-la, privam-se de se satisfazer sexualmente.

Há também o momento em que todas as atitudes de Joe são interpretadas por Seligman a partir de uma lógica feminista, levantando questionamentos sobre o papel da mulher na sociedade e como esse papel é tratado em relação ao do homem, principalmente no tange aos “comportamentos sexuais desviados”.

Todas essas discussões são intrincadas em diálogos que ocorrem nos intervalos das cenas das mais diversas experiências sexuais da personagem – com especial atenção para as de sadomasoquismo, que demonstram que poucos diretores podem ser mais aflitivos do que Trier, e que também marcam o reencontro de Joe com o orgasmo.

Alguns recursos pontuais merecem ser lembrados, como o aparecimento de 3+5 na tela em dois momentos, ambos relacionados aos momentos de maior humilhação na vida da personagem, e a tendência a aparecer diversas imagens em diagonal. Galhos, plantas, córregos e outras imagens aparecem em diagonal para serem retomados, no final do filme, na metáfora de que Joe tinha a alma torta.

E eis que o filme termina, por fim, recorrendo novamente ao choque pela decepção. Fica evidente a crítica principal, que é acerca da tendência da sociedade de patologizar tudo o que lhe é anormal, no caso, a ninfomania, enquanto o final nos traz a decepção: o cidadão “puro” é o verdadeiro doente, que reprime sua sexualidade e, quando a exerce, o faz erradamente.

CONCLUSÃO

Experimental, o diretor força-se a desenvolver novos métodos e esforça-se para criar sua marca, de forma que seus filmes conseguem ser absolutamente diferentes entre si mas ainda possuir o “dedo” dele delineado claramente.

Assim, sob a pompa de um “filme de sexo”, Lars von Trier constrói uma obra de arte que suscita reflexões acerca não só da sociedade e como ela se organiza, mas da forma como fazer cinema e trabalhar com o discurso.

Afinal, ele admite contar mentiras, mas em momento algum abre mão de suscitar verdades.

aliens

Não sei se acredito em aliens, mas espero que jamais os encontremos por uma simples razão: nossa sociedade faria muito mal a eles. Não uma virose, como em Guerra dos Mundos. Mas pense bem – o que nossa sociedade considera “desenvolvido” é justamente as características que a torna necessariamente deficiente.

Nossa sociedade tem problemas cruciais. Os sete pecados capitais, por exemplo, a tornam infinitamente menos desenvolvida do que aliens. A menos que suponhamos que aliens tenham se desenvolvido igual a nós, o que acho um tanto quanto estúpido de se supor, afinal, o nosso “estágio de desenvolvimento” não passa de uma cultura ocidental avassaladora e aleatória.

Os índios, por exemplo. Imaginem um mundo em que os indígenas não tivessem sido destroçados pela cultura europeia avassaladora. Teríamos um “mundo europeu” e milhares de outros mundos  dentro de cada aldeia indígena. Agora pensem com vocês mesmos – será inteligente supor que todos esses milhares de mundos eram necessariamente menos desenvolvidos que o europeu?

Claro que não. É absurdamente provável que alguma aldeia indígena, seja do norte da américa, seja do sul África, fosse superior a nós. Superior no que diz respeito aos nossos problemas cruciais – ego, conflitos internos e externos, “pecados capitais”.

Talvez elas não fossem superiores no que nossa sociedade considera desenvolvido – alta tecnologia, coisas caras e pessoas de traços indo-europeus. Mas certamente tinham seu mérito, que não foi sequer considero quando destroçaram-na.

Imagine, então, se encontramos aliens, ou eles nos encontram.

Que maldição seria!

Talvez eles não tivessem se tornado uma sociedade tão impotente! Tão impotente que precisou criar máquinas de destruição em massa pra reafirmar sua superioridade sobre povos de outros continentes.

Uma sociedade tão impotente que precisa procurar por respostas no desconhecido e, quando as tem, as ignora.

E extermina o desconhecido.

Um texto bem Nerd Calculista sobre um show que eu fui.

Ontem fui em mais um show do Forfun, o quinto ou sexto, se não me engano. Não sei como rola o sentimento de fã com eles em outros estados, mas acho que uma das coisas mais bonitas do Forfun é o fato de eles representarem uma parcela muito específica da sociedade carioca. O que caracteriza essa parcela não cabe a mim explicar – a vivência de um carioca que acompanha a banda nos shows no Rio são a explicação. Mas posso dizer, com certeza, que essa parcela é bastante dedicada à banda.

Não à toa virou quase uma tradição, um rolê obrigatório de todo fã, um dia a ser marcado na agenda: frequentar os shows da banda na Lapa.

Eles vivem fazendo shows por aí… 
mas os na Lapa, 
ah…
esses tem uma energia diferente.

A energia miscigenada e quente da Lapa, que coloca desde o playboy da zona sul na mesma sala quente e alcoolizada do maluco que pegou um trem lá de Campo Grande. Aí pega uma parcela dessa loucura e coloca pra entupir o Circo Voador ou a Fundição Progresso e cantar o show. Cantar, por que o show do Forfun não é só do Forfun – a platéia tem o seu papel, e ele é fundamental.

Talvez o show de ontem ainda tenha deixado isso mais claro. Não sei se é sempre assim, mas o palco de ontem era absolutamente no meio do público. Era de um formato estranho, que lembrava um hexágono torto. Os microfones eram dispostos em diferentes posições, pra que os vocalistas pudessem cantar pra diversos frontes. Pra subirem no palco, os seguranças tiveram que abrir uma fila no meio da plateia. 

O público sente isso, e respeita. E, principalmente, percebe que faz parte daquilo. É a magia de uma banda independente.

Em Morada, por exemplo. Os chilenos que provavelmente vieram pra aproveitar a Copa e acabaram perdidos na Fundição devem ter se assustado quando, de repente, as luzes se apagaram, alguns sons sensoriais ressoaram pelo ambiente e todos – absolutamente todos – se ajoelharam. Eram os primeiros versos de Morada, que não se canta; recita:

Faço de mim
Casa de sentimentos bons
Onde a má fé não faz morada
E a maldade não se cria
Me cerco de boas intencões
E amigos de nobres corações
Que sopram e abrem portões
Com chave que não se copia
Observo a mim mesmo em silêncio
Porque é nele onde mais e melhor se diz
Me ensino a ser mais tolerante, não julgar ninguém
E com isso ser mais feliz
Sendo aquele que sempre traz amor
Sendo aquele que sempre traz sorrisos
E permanecendo tranquilo aonde for
Paciente, confiante, intuitivo.

 

Ou em Cara Esperto, aquela música que desde sempre é obrigação do público puxar. Em todos os shows que fui do Forfun, em nenhum falha: é sempre o público que puxa. Em algum momento uma música acaba e se ouve meia dúzia de caras cantando Cara Esperto. E aí, o coro aumenta, e aumenta – e mesmo que não queira, a banda tem que tocá-la ali. É uma exigência.

Não que o público seja lá muito exigente! De vez em quando, na constante troca de microfones pra fazer um show 360º, o técnico de som devia estar meio distraído devido à nuvem de THC que plana durante o evento, e frequentemente esquecia de aumentar ou diminuir alguns microfones. O público se divertia vendo aquilo, e tomava como razão pra cantar ainda mais alto.

Tem também aqueles instantes espetaculares de Gruvi Quântico, quando você, já rouco e sem ar, ainda se vê na obrigação moral de vociferar a letra, só pra sentir a maravilha que é respirar fundo e sentir o refrão “Luz, preencha todo o meu ser” fazer um milhão de luzes brancas te engolirem à sua frente.

Entre uma música e outra, elogia-se com outro grito constante, tomado emprestado das arquibancadas de estádio de futebol: puta que pariu, é a melhor banda do Brasil.

O fato é que pra tudo precisa ter timing.

E às vezes o timing falha.

O show de ontem era repleto de convidados e pessoas minimamente conhecidas que tinham alguma coisa para mostrar. Em determinado momento, dois seguranças aparecem do meu lado e me empurram: era a banda Scracho, que enfrentava alguns problemas pra lidar com o palco no meio do público.

Como a intenção era transportá-los discretamente até o palco, quase ninguém do público percebeu. E, por uma daquelas coincidências que devem ser obra de uma força superior muito sádica e bem humorada, todo mundo começa a gritar “puta que pariu! É a melhor banda do Brasil!”.

Imaginem a cara do Danilo, vocalista do Forfun, quando teve que introduzir o Scracho depois disso.

E imaginem a cara do público quando o maluco do Scracho pega o microfone e diz “olha, se o Forfun é a melhor do Brasil, o Scracho bem que podia ser a segunda, né?”, e a reação geral se divide entre risos envergonhados e “UHUUUUUL” daquelas pessoas que sempre fazem Uhuuuul.

Dentre estas e tantas, o show do Forfun caracteriza-se por ser mais que um show. É um esforço conjunto, que nunca depende só da banda, como se o público fosse o quinto, sexto e sétimo membro. Desde as rodinhas punk, que acatam a todas as normas do bom senso, como excluir quem não quer participar e, a mais importante, não dar socos – o que alguns retardados fazem em muitos shows -, até as palmas, gritos, rituais, e simbolismos, o espetáculo ocorre sob uma aura com cheiro de maconha e temperatura um bucado elevada.

Sua a camisa, mas limpa a alma. E eu fico um bastante satisfeito de ter criado o hábito de frequentar esses shows.

O Forfun é uma banda que precisa ser sentida. Mas, pra senti-la, é preciso despir-se dos infinitos preconceitos que a circundam. Por isso, talvez, a energia desses shows na Lapa seja tão única. Nenhum outro local faz tanto sentido pro Forfun se apresentar.

Essa música foi escrita pelo meu atual (já há mais de um ano) artista favorito – Tiziano Ferro. Foi uma das canções mais tocadas na Itália, uma vez que deu a Michele Bravi a vitória no X Factor italiano. Junto a ela, a outra top das rádios se chama E Scopro Cosè La Felicitá, também do Tiziano, dessa vez dada a Elisa e considerada “a melhor música de 2013” pela mídia italiana.

O único raro momento em que Tiziano Ferro não esteve no topo de todas as paradas italianas desde seu primeiro sucesso, em 2001, foi quando decidiu doar suas canções para outros artistas – que se encarregaram de mantê-lo no topo.

Esse cara é um gênio.

L’estate che non passerà, si troverà una soluzione
la vita e la felicità
nessuna via, nessuna convinzione
e qui mi troverai
qualunque volta vorrai rivedermi
qui a sognare, se vorrai tornare, io rimango qua, qua
E qui a sognare, mi ritroverai sotto il tuo passare

The summer that won’t end, a solution will be found
life and happiness
no way, no conviction
and you’ll find me here
any time you want to see me again
here to dream, if you want to return, I’m staying here

And don’t be surprised by the mistakes, it’s okay to be afraid
and remember we were always here
if you wait for me, I’ll wait for you, and we will live again
to then forget all the pain with a ‘hello, my love, my love’

Tradução de “La vita e la felicità” por Michele Bravi de Italiano para Inglês