Os alvos do mimimi

Eu estudo numa faculdade pública de comunicação. Isso faz com que eu passe muito tempo cercado de pessoas que são os potenciais grandes pensadores do futuro, mas também faz com que eu esteja cercado de completos idiotas que defecam pela boca como se ganhassem alguma coisa por isso.

Não sei, portanto, se os fenômenos que observo se delinearem no meu âmbito social são de toda uma geração, ou se são dessa seleta parcela de “intelectuais” que frequentam os corredores de um ensino superior concorrido.

Existe, no entanto, um fenômeno que creio ser geral – o que o torna ainda mais lamentável.

Eventualmente cria-se um ícone.

í·co·ne 
(francês icônedo grego eikón-ónos)

1. O que ou aquele que é referência, que se destaca.

Acontece que não é um ícone comum! Cria-se um ícone a ser odiado. Tudo que esse ícone disser ou escrever deve ser refutado com dedos em riste e textos de ódio no facebook. Toda e qualquer atitude desse ícone deve ser reprimida, ou pelo menos criticada. E, por fim, por mais que esse ícone consiga se redimir e passe a, de repente, só transmitir ao mundo ensinamentos transcendentais e corretos, ele nunca – NUNCA – poderá ser respeitado.

Danilo Gentili, Raquel Sheherazade, Lobão, Olavo de Carvalho, Pondé, VEJA, Jair Bolsonaro. Todos ícones. Pessoas e veículos que sabidamente falam merdas, mas cujos ditos são o menor problema que elas representam à sociedade.

Sabem aquela história da mulher que foi espancada? E se eu vos dissesse que já li 4 publicações no facebook acusando Raquel Sheherazade, com seu vídeo sobre os justiceiros, de ser a culpada pelo espancamento da mulher?

Agora eu vos pergunto: existe alguém que, no alto de sua cega ignorância, acredite que um grupo de pessoas espancarem uma dona de casa é resultado de um vídeo de 3 minutos?

Esse argumento se assemelha àquele que diz que crianças não devem assistir desenhos violentos pois isso as tornará assassinas em potencial. Com um único diferencial: até mesmo o argumento das crianças é mais plausível! Será que elas também argumentam que o cara jogou um vaso na cabeça do outro por causa dos Looney Tunes?

E aquela capa da VEJA com o Daniel Alves? Quantas pessoas não leram “o preconceito quebrou a cara – talvez pra sempre”, fizeram uma rápida associação com a temática do racismo e concluíram que a VEJA estava dizendo que o racismo acabou para sempre? Não foram poucas: vi 3 publicações no facebook, uma delas com 20 curtidas e dezenas de comentários concordando com essa interpretação.

A questão aqui é: as pessoas estão TÃO sedentas por disseminar seus textos denegrindo a imagem dos ícones, que sequer se dão ao trabalho de refletir realmente o que esses ícones dizem e representam. Elas querem TANTO postar um texto pseudo-politizado no facebook, que muitas vezes acabam dissertando as merdas mais incabíveis do universo apenas para participar da comoção que é postar um texto pseudo-politizado.

Pois, sim, gera uma comoção. É um movimento. Muita gente quer fazer aquela piada. Muita gente quer que os outros saibam que ela também sabe falar mal do ícone.

E existe ainda uma segunda questão: a liberdade de expressão não existe só pra você poder dizer o que você quer. Ela existe para outras pessoas com opiniões diferentes também dizerem. Então, se a VEJA é um veículo de direita e você é um comunistinha barbudo que a odeia, é preciso que, antes de qualquer coisa, você entenda que o que deve ser criticado não é A VEJA, mas o DISCURSO DELA, pois ela está apenas representando o papel dela de SER UM CONTRAPONTO. Não só de Cartas Capitais se faz um país!

As grandes ideias surgem da discussão de ideias diferentes – o nome disso é dialética. Pregar pelo fim da Veja, ou do Bolsonaro, ou do Jabor, é pregar por um mundo uniforme. O que é impossível, não preciso explicar o por quê.

Estou, evidentemente, abrindo o precedente de ter leitores que discordarão de mim. Mas, para tanto, espero que eles tenham lido, refletido e chegado às próprias conclusões, e não apenas que eles tenham ignorado tudo o que disse e batido com a cabeça no teclado até sair mais um texto mimizando sobre mais algum ícone.

O PONDÉ É UMA EXCESSÃO, ESSE AÍ A ZUERA TÁ PERMITIDA
(se você não entendeu a piada, você PRECISA ler esse texto)

3 comentários em “Os alvos do mimimi

  1. Almeida, te acompanho há anos, desde o Nerd Calculista e em comunidades de banda. Comentei poucas vezes postagens, mas dessa vez não aguentei silenciar. Vim te cumprimentar. Óbvios diriam que só estou lhe cumprimentando pois penso igual a você. De fato, quando os pontos de vista e ideológicos são parecidos, elogiar fica mais fácil. Mas não é só isso.
    Também estudei em faculdade pública e passei pelo mesmo terror – esquerdistas caricatos pra todos os lados, com um ar intimador de “sou a favor da democracia e da liberdade de expressão, mas se você defender algo que é contra ao que penso mandarei calar-se e matar-se”.
    Gosto de uma boa parte desses ícones que citaste. Gostar, obviamente, não significa assinar em baixo de tudo que falam. Mas alegar simpatizar-se com algum, na mentalidade dos esquerdiopatas, é automaticamente se assumir direitista, elitista, PSDBista, leitor de Veja, Olavete, assiste Globo – só sabem trabalhar com imagens prontas, com associações fáceis. Poxa, direitista? Não, meu amigo. Eu investigo ideologias. Mas isso é proibido… você precisa estar do lado deles (deles = esquerdiopatas caricatos. Há exceções, felizmente)
    Fiquei preocupado com o tanto de gente que parecia estar vibrando com essa notícia do assassinato no Guarujá, vibrando por poder apontar o dedo na cara da Sheherazade e dizer “viu só?”. Voltamos mesmo à discussão de se video-game violento incentiva a violência – ótimo teu exemplo do Looney Tunes, inclusive.
    Leio bastante publicações da esquerda. Ao lê-las, me desmonto dos posicionamentos já definidos que tenho pra procurar entender o que estão dizendo, absolver o ponto de vista, podendo concordar em alguns aspectos ou então discordar de tudo, mas só após ler de cabeça limpa e refletir. Agora, os esquerdiopatas radicais não estão com a mesma disposição: querem ler coisas que só confirmem o que eles já sabem.
    Acredito que o grande problema do país é a violência. Não gosto dessa cultura de criminalidade e de carinho nela, isso gera ódio, caos e consequências como essa monstruosidade no Guarujá. Os linchamentos fazem parte dessa cultura de violência. PT dá tiro no próprio pé ao sorrir para a criminalidade. Presenciei uma invasão a uma casa da minha rua semana passada, com agressões físicas, e aí, revoltado, fiz uma postagem no Facebook dizendo não entender como tem quem encara uma situação dessas com críticas filosóficas estilo Carta Capital. Porra, o problema é que houve invasão de propriedade e agressão! Tem pessoas que agora estão traumatizadas, já que o terror não dura só na hora do ato. Os bandidos fizeram o que queriam e vazaram, tão por aí, buscando novas vítimas. E aí, vemos o mesmo enredo do caso do bandido amarrado no poste: numa situação dessas o problema é a população sem segurança, é a cultura da violência, é a impunidade aos bandidos que não têm mais medo de cometer crimes. E nesse cenário de que servem teorias filosóficas falando mal do capitalismo culpando-o pelos crimes? Essas teorias vão destraumatizar a família? Vão trazer de volta os bens roubados? Porra.
    Minha postagem de revolta na rede social, como imaginado, gerou uma contra-revolta, por parte daqueles que acham que bandidos são vítimas e que os culpados são a família invadida, agredida e roubada. Liberdade ideológica, ok, mas recebi ataques verbais até no meu trabalho por gente que leu. Vieram me dizer que não é todo mundo assim, que existem “bandidos profissionais”, que “só” roubam mas não ferem ninguém, etc etc – pessoas que nunca tiveram a casa invadida, ou nunca tiveram a casa da namorada invadida, que não fazem ideia do horror que é ter um estranho em sua casa te apontando uma arma. Mas decretaram proibido não enxergar bandidos como crianças legais corrompidas e dizer que a culpa deles cometerem crimes é minha, por ser cidadão assalariado de classe média.
    Tem mais. Escuto muitos me falarem: “você é um cara todo louco, como não é da esquerda? a direita te condenaria, te lincharia, você com seus costumes loucos, nada conservadores”. É as tais das imagens prontas: se não é da esquerda, então és um vejo rabugento, mal comido, mal comedor, católico, coxinha e saudável. Limitado, muito limitado…
    Enfim, me excedi no comentário, fui bem além do que queria, mas foi o entusiasmo de ver que mesmo convivendo num ambiente contaminado por propagandas de “odeie ícones” você tem seu próprio escudo e filtro. Orgulho de acompanhar-te desde o NC.
    Obrigado pelo espaço.
    Abraço!

Deixe uma resposta para Rodrigo Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s