Eu queria te pedir desculpas, é isso. Não consigo parar de me pegar pensando, assim, esporadicamente, em você. Mas calma, calma!, não faça esse semblante de quem sequer lembrava da minha cara e não tem a menor paciência de me ouvir falar de amor, não é disso que eu vou falar. Eu sou aquilo que podemos chamar de uma pessoa racional, você sabe, quer dizer, não sabe não, e é justamente por isso que eu penso tanto em ti: por que tu me deslocou para essa modalidade de pensamento diferente, emotiva, irracional, idiota. Eu olho pro nosso relacionamento tentando entender o que deu errado e não tenho a menor dificuldade de tantas que são as razões! E todas elas, é verdade, foram dadas por mim. O que é que eu estava pensando? Nosso relacionamento foi a maior recaída de personalidade e autocontrole que eu já tive na vida! Me lembro daqueles dias e sinto a mais profunda e absoluta vergonha, e o mais peculiar de tudo é que eu nem gostava tanto assim de você, eu gostava da ideia de você, e isso, ah, isso sim era perfeito. Você era tudo que eu procurava: que gosto musical! Que sorriso! Que jeitinho! encaixava em todos os critérios, parecia até que era a inspiração dos critérios, e isso me afetou em proporções inenarráveis, mexeu comigo de tal forma que eu simplesmente não podia perder a chance de conquistar aquela menina que com tanta naturalidade encenava o papel de mulher dos meus sonhos. Freud diz isso, sabe, de se apaixonar mais pelo desejo do que pelo objeto desejado, e desculpa, mas no nosso romance freudiano tu foste o objeto não-tão-desejado-assim, e é por isso que eu penso em você, é por isso! Por que foi o que eu mais desejei, mais ansiei, e tinha tudo, absolutamente tudo pra ser minha, só que, nessa modalidade de pensamento irracional e emotiva que você – ou, melhor dizendo, a ideia de você – me deslocou, eu fui um exímio retardado, eu fiz de tudo pra afastar você sob a premissa de que tudo o que eu fazia era pra garantir que ia tê-la! Nosso relacionamento foi meu pior fracasso, o maior exemplo de vergonha do meu passado recente, e que fique claro, por favor, que tu não tem quase nada a ver com isso. Me refiro a um relacionamento que aconteceu somente na minha cabeça, cujo tempo tinha uma cadência mais lenta, e para o qual eu não desejo absolutamente nada além de que um dia eu possa acordar e não lembrar que ele existiu. E então te peço desculpas, na mais clara e absoluta conduta de quem repete os mesmos erros, pois te peço desculpas ciente de que tu não se importa, de que tu sequer lembrava do meu rosto até agora a pouco, mas peço-as para tentar dormir tranquilo sabendo que a imagem que eu tenho de ti está ciente de que eu não sou o que eu fui.

Não faz bem em humilhar-me, senhor – disse d’Artagnan, em quem a índole turbulenta começava a tomar ascendência sobre as resoluções pacíficas – Eu sou da Gasconha, não há dúvida, mas não terei necessidade de lhe lembrar que os gascões são pouco pacientes; de sorte que, depois de se desculparem uma vez, ainda que seja de uma tolice, ficam para logo convencidos de que fizeram metade a mais do que deviam fazer.

(Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas pai, pág. 57, coleçao Grandes Clássicos de cada Autor)

Os alvos do mimimi

Eu estudo numa faculdade pública de comunicação. Isso faz com que eu passe muito tempo cercado de pessoas que são os potenciais grandes pensadores do futuro, mas também faz com que eu esteja cercado de completos idiotas que defecam pela boca como se ganhassem alguma coisa por isso.

Não sei, portanto, se os fenômenos que observo se delinearem no meu âmbito social são de toda uma geração, ou se são dessa seleta parcela de “intelectuais” que frequentam os corredores de um ensino superior concorrido.

Existe, no entanto, um fenômeno que creio ser geral – o que o torna ainda mais lamentável.

Eventualmente cria-se um ícone.

í·co·ne 
(francês icônedo grego eikón-ónos)

1. O que ou aquele que é referência, que se destaca.

Acontece que não é um ícone comum! Cria-se um ícone a ser odiado. Tudo que esse ícone disser ou escrever deve ser refutado com dedos em riste e textos de ódio no facebook. Toda e qualquer atitude desse ícone deve ser reprimida, ou pelo menos criticada. E, por fim, por mais que esse ícone consiga se redimir e passe a, de repente, só transmitir ao mundo ensinamentos transcendentais e corretos, ele nunca – NUNCA – poderá ser respeitado.

Danilo Gentili, Raquel Sheherazade, Lobão, Olavo de Carvalho, Pondé, VEJA, Jair Bolsonaro. Todos ícones. Pessoas e veículos que sabidamente falam merdas, mas cujos ditos são o menor problema que elas representam à sociedade.

Sabem aquela história da mulher que foi espancada? E se eu vos dissesse que já li 4 publicações no facebook acusando Raquel Sheherazade, com seu vídeo sobre os justiceiros, de ser a culpada pelo espancamento da mulher?

Agora eu vos pergunto: existe alguém que, no alto de sua cega ignorância, acredite que um grupo de pessoas espancarem uma dona de casa é resultado de um vídeo de 3 minutos?

Esse argumento se assemelha àquele que diz que crianças não devem assistir desenhos violentos pois isso as tornará assassinas em potencial. Com um único diferencial: até mesmo o argumento das crianças é mais plausível! Será que elas também argumentam que o cara jogou um vaso na cabeça do outro por causa dos Looney Tunes?

E aquela capa da VEJA com o Daniel Alves? Quantas pessoas não leram “o preconceito quebrou a cara – talvez pra sempre”, fizeram uma rápida associação com a temática do racismo e concluíram que a VEJA estava dizendo que o racismo acabou para sempre? Não foram poucas: vi 3 publicações no facebook, uma delas com 20 curtidas e dezenas de comentários concordando com essa interpretação.

A questão aqui é: as pessoas estão TÃO sedentas por disseminar seus textos denegrindo a imagem dos ícones, que sequer se dão ao trabalho de refletir realmente o que esses ícones dizem e representam. Elas querem TANTO postar um texto pseudo-politizado no facebook, que muitas vezes acabam dissertando as merdas mais incabíveis do universo apenas para participar da comoção que é postar um texto pseudo-politizado.

Pois, sim, gera uma comoção. É um movimento. Muita gente quer fazer aquela piada. Muita gente quer que os outros saibam que ela também sabe falar mal do ícone.

E existe ainda uma segunda questão: a liberdade de expressão não existe só pra você poder dizer o que você quer. Ela existe para outras pessoas com opiniões diferentes também dizerem. Então, se a VEJA é um veículo de direita e você é um comunistinha barbudo que a odeia, é preciso que, antes de qualquer coisa, você entenda que o que deve ser criticado não é A VEJA, mas o DISCURSO DELA, pois ela está apenas representando o papel dela de SER UM CONTRAPONTO. Não só de Cartas Capitais se faz um país!

As grandes ideias surgem da discussão de ideias diferentes – o nome disso é dialética. Pregar pelo fim da Veja, ou do Bolsonaro, ou do Jabor, é pregar por um mundo uniforme. O que é impossível, não preciso explicar o por quê.

Estou, evidentemente, abrindo o precedente de ter leitores que discordarão de mim. Mas, para tanto, espero que eles tenham lido, refletido e chegado às próprias conclusões, e não apenas que eles tenham ignorado tudo o que disse e batido com a cabeça no teclado até sair mais um texto mimizando sobre mais algum ícone.

O PONDÉ É UMA EXCESSÃO, ESSE AÍ A ZUERA TÁ PERMITIDA
(se você não entendeu a piada, você PRECISA ler esse texto)