Uma breve e simples explicação sobre porquê a sociedade não dá certo.

Na contemporaneidade, a primeira reação ao se deparar com alguma situação absurda é “o mundo precisa saber disso”. Seja um absurdo bom ou ruim.

Vamos focar nos ruins. A premissa de um programa como o CQC é: vamos mostrar os absurdos da sociedade custe o que custar. A maioria das matérias, muito mais do que cobrir um determinado evento, tem uma veia delatora, uma premissa de “vamos colocar na televisão pra todo mundo ver isso aqui”.

E eles não são os únicos! Não à toa, ao passar pela rua e se deparar com uma situação absurda, seja ela qual for, a primeira reação é pegar o celular, filmar e compartilhar. Existe uma ideia subentendida de que “compartilhar a ocorrência de uma merda” é um dever cívico. O CQC é tido como um programa mais “útil” do que o Pânico, por exemplo.

A questão que quero abordar aqui é: por quê?

Qual a utilidade final de se compartilhar algum absurdo? Gera-se um hype em cima daquilo, todos no facebook vão compartilhar e tecer comentários mal escritos ou, no máximo, inúteis, e a questão ficará absolutamente igual ao que era antes.

O que aconteceu com o Amarildo? O que aconteceu com as vigas de ferro roubadas na obra do Eduardo Paes? O que aconteceu com o Bolsonaro, o Feliciano e o Cabral?

Isso mesmo: absolutamente nada.

As passeatas do ano passado serviram pra mostrar que o ativismo de sofá está longe de ser o pior problema da sociedade contemporânea. Afinal, as pessoas saíram do facebook! E sabem o que aconteceu?

Isso mesmo: absolutamente nada.

E vocês sabem por quê?

Bem, a resposta pra isso, se fosse fácil, não estaria sendo disposta num blog de um cara de 19 anos. Mas eu tenho uma proposta pra vocês pensarem. Não aconteceu nada por que não é do interesse das pessoas certas que aconteça.

A ilustre frase do hit Xibom Bombom não só explica como ainda caracteriza nossa sociedade: o de cima sobe e o de baixo desce. É isso que acontece e, pra quem está em cima, este é um formato muitíssimo favorável.

Veja bem: em todas as sociedades que nós estudamos na escola havia classes sociais, correto? A aristocracia e o povo. A nobreza e o povo. A burguesia e o povo. Hoje é absolutamente igual, mas ainda não existe o termo para caracterizar os ricos, ainda que o povo continue sendo o povo.

Não que isso seja natural! Esse quadro é uma herança dos nossos colonizadores, que chegaram em nossas terras tupiniquins dizendo que eles eram os melhores e, por isso, os índios eram ruins. Os europeus, ao colonizarem a américa, transmitiram pra ela sua cultura de exclusão. E essa transmissão foi tão bem feita, tão meticulosa, que hoje em dia olhamos os franceses, os ingleses e os alemães e pensamos: ah, quem me dera ter nascido igual a eles!

Nós estudamos na escola a cultura indígena? É evidente que não, pois os modos de organização indígena diferem dos nossos: sem classes, sem dinheiro, com moral e costumes diferentes. Estudamos a cultura europeia como correta e ignoramos a cultura indígena. Estudamos, no máximo, os astecas e os incas, justamente por que a cultura deles se assemelha com a europeia. Não eram os astecas que tinham um rei, empregados, e grandes construções? Não eram os incas que eram “civilizações evoluídas” justamente por se assemelharem com as europeias?

E os africanos, ein? São tão subdesenvolvidos! São tão piores que nós, brasileiros! Estranho percebermos que os africanos subsistiam perfeitamente até os europeus irem colonizá-los e implantarem todo o caos que hoje é lá.

ImagemQuem você acha que é o mais desenvolvido? E quem você acha que um Europeu vai te dizer que é?

 

A questão é: existe uma construção social que molda nossa sociedade há séculos – SÉCULOS! – para que as diferenças de classe sejam mantidas, e existe um esforço ferrenho das classes mais altas para que qualquer faísca de revolução seja apagada.

Pois quando tentamos marcar um rolezinho no Leblon, o shopping fecha. Quando tentamos construir metrô na zona sul carioca, a obra não é aprovada. Quando colocamos 1 milhão na Rio Branco em busca de justiça, a polícia nos ataca. Quando reclamamos das leis que os políticos criam, a polícia nos ataca. Quando tentamos fazer qualquer coisa que modifique o sistema por eles construído, somos abatidos pelo exército à serviço da aristocracia.

E vocês sabem o que nós podemos fazer quanto a isso?

Isso mesmo: absolutamente nada.

Pois, afinal de contas, é tudo relativo! A ideia de pobreza só é necessariamente atrelada à ideia de infelicidade por que, quem nos fornece essas ideias, são os ricos. De acordo com essa ideologia, os indígenas são todos pobres. Nem por isso, no entanto, as pouquíssimas aldeias indígenas que subsistem são tão infelizes quanto supõe-se ser as favelas.

E então vocês me vem com essa história de direita e esquerda, comunismo, capitalismo, socialismo… Senhores, parem de se enganar.

Com a sociedade estragada, não há sistema político que conserte. Se o leite tá estragado, não importa quanto Ovomaltine você ponha: o milk-shake será uma merda.

É preciso que se entenda que o universo é o eterno conflito entre opostos: o bem e o mal, o feliz e o infeliz, o pobre e o rico. Se um dos opostos deixa de existir, o outro também. É impossível supormos uma sociedade em que todos sejam ricos, afinal, nessa sociedade, ninguém seria rico, seriam todos normais. É impossível supormos uma sociedade em que todos sejam felizes, pois se não houvesse a infelicidade para fazer o contraponto, a felicidade deixa de existir e torna-se a normalidade.

E o normal não agrada a ninguém.

Pois, afinal de contas, se todos somos normais, todos somos iguais. E, aí sim, teremos um problema, uma vez que é do ser humano (pós-moderno) querer ser único. Querer ser individual. Querer ser alguém.

O que eu proponho então?

Que tentemos nos despir das ideias que nos foram impostas na escola, na televisão e na sociedade. É difícil, eu sei. Mas temos uma vida inteira para nos dedicar a este tento.

3 comentários em “Uma breve e simples explicação sobre porquê a sociedade não dá certo.

  1. Meids, fiz umas associações que são só uns pontos que eu achei interessantes, não como uma crítica ou oposição, apenas complemento. Vou dispor em tópicos, porque não sou boa na escrita como você! haha’

    – Primeiro você fala da notícia, da sensação do incomum na sociedade. Isso movimenta a vida cotidiana das pessoas, não é necessário que haja uma resolução para todas essas notícias que surgem, afinal o que interessa é a nova notícia, é o incomum. (Não que EU não ache importante que haja as soluções) O que se torna comum deixa de ser requerer atenção com toda a aceleração da vida contemporânea.
    A utilidade de “compartilhar um absurdo” e/ou comentá-lo é apenas se sentir inserido nessa rede de comunicação que temos hoje, pode ser a mesma coisa que outras 20 já falaram, mas há essa necessidade de fazer parte daquilo. E querendo ou não, a maioria da sociedade espera e quer isso, e se então isso não acontece, as pessoas meio que perdem o sentido, e começam a se sentir fatigados por não haver nenhuma nova “polêmica”. O típico “já deu desse assunto, né?”

    – Sobre a questão das classes. Isso não é natural, é uma questão cultural enraizada ao longo do tempo na nossa sociedade, e que o capitalismo vem apenas reforçando. Mas, a antropologia tá aí para estudar outras práticas culturais sem essa divisão de classe, como a cultura indígena que você exemplificou. A educação superior é um ótimo lugar para se aprofundar nessas questões, há vários estudos de outras formas possíveis de sociedade, mas como o nosso país não é uma país de cultura letrada, claro, fica difícil as pessoas se interessarem por isso e saberem que há muito mais coisa do que uma cultura europeia.
    (Só achei que você se formulou mal quando disse que “nem por isso as aldeias indígenas são tão infelizes quanto supõe-se ser as favelas”. Elas se estruturam de formas diferentes da que estamos habituados, são práticas diferentes, relações de troca e convívio, ordem e funcionalismo de um outro jeito. Não há motivos para relacioná-las com as favelas na questão da infelicidade. Nós (sociedade), podemos julgá-las como pobres, mas quem disse de fato que elas são pobres? O que pra nós é riqueza, pode não ser pra eles.)

    – E o último ponto que eu queria colocar, é a questão que você fala sobre a individualidade. O indivíduo é um produto do mundo moderno, antes eram visto as pessoas, havia um sentido coletivo de sociedade. E aí surge essa coisa do “ser único”, que acaba sendo meio fake, já que todos somos bombardeados de informações que moldam nossas visões e interesses. O que você quer não é porque VOCÊ quer, já existe toda uma construção subjetiva inerente a seus gostos, desejos e escolhas. Então, o regime que vivemos hoje torna essa oposição que você explicitou necessária para a individualidade, e ninguém quer, nem você (eu ouso a dizer) essa igualdade, já que é isso que faz sonharmos, planejarmos, nos construir nesse mundo da pós-modernidade capitalista, “termos” as nossas próprias escolhas de futuro e etc.

    Bom, é mais ou menos isso. Só minha ínfima opinião, já que você pediu por ela opiniões e comentários no seu amigo Twitter.
    PS: Há uns textos que eu li do Terry Eagleton e do Bauman para uma disciplina na faculdade que são muito bacanas sobre essa questão da cultura, da sociedade. Se você já não tiver lido, acho que você iria curtir.

  2. A única certeza que tenho neste momento é a de que uma pitada de ciúmes pairou sobre mim ao ver depois de seu pedido inúmeros comentários sobre seu texto, comentários que pairavam de ausências, de parabéns singelos, entre outros motivos que pairam meu pensamento no momento, mas que por gentileza e bondade não irei mencionar. Ciúmes de um plano de fundo roubado de mim e preenchido por inúmeras outras raparigas (sim, “viemos” da Europa) que tentam incansavelmente entender o que você escreve. Tomara que entendam, eu juro que espero isso (talvez não tanto). Contudo, não irei parabenizar pela novamente maestria (ai que palavra forte e e…) em outra produção textual, uma pena que esse temas não caem no ENEM e mesmo que caíssem, nosso intelecto é sempre comprido por uma coisa que se chamam “linhas”.
    Querido Guilherme, nossos vidas são linhas. Antes de nós já existiram outros livros e depois de nós mais livros existirão. Não são livros separados, são continuidades (isto se você se propor a deixar que continuem a escrever em seu livro emprestado). Estamos como estamos, somos como somos por opção, por escolha de alguém ou de alguma coisa que nos impulsionou a ser/viver assim. Desde pequena (não por culpa da raiva mais aflorada portuguesa) sempre disse que a colonização não fora a loucura ou o apavoramento que tantos recriminam hoje em dia. A ideia (o papel, e somente isso me interessa) era, como posso dizer, necessário. Literalmente, era para ser assim. Daí vejo inúmeros comentários atuais de menininhas e menininhos de tênis de marca, telefone da moda, televisão de lcd, abrindo a boca para falar: “ah mas o índios, coitados”, os indios foram os primogênitos (acredite que há nexo), os primeiros, e como primeiros, desacostumados, desinformados, desligados e desabituados que foram sofreram. Como nós sofreríamos. A ganância sempre esteve nos olhos dos homens e isto foi o que aconteceu. Claro que tudo poderia ter sido mais calmo, mas tranquilo, mas não foi.
    Daí caímos nas suas perguntas e respostas que cabem desde antigamente até os dias de hoje:

    E o que podemos fazer sobre isso?
    Absolutamente nada.

    Por que ocorreram as guerras?
    Por que foi necessário a colonização?
    Por que simplesmente não nos deixaram viver como índios?

    Ganância, hipocrisia, “evolução”.
    Crescemos escutamos nossos país responderem para nós “porque sim”, mas perante essa respostas nunca ficávamos satisfeitos e burlávamos as regras (eu não porque minha mãe me batia), mas fazemos isso constantemente com qualquer coisa do “mundo dos adultos”. Nos dizem “porque sim” toda a hora e abaixamos a cabeça. Ou você acha que o gigante realmente acordou? Hipocrisia. Mais uma vez. Homem, mulher, ser humano que se prese, não esconde a cara por trás de uma máscara e grava videozinhos com normas e diretrizes, se auto denominando “anonymos”. Me poupe. Isso é ultrajante. Aí a querida presidente do Brasil Dilma vai ao ar, no mesmo dia, dizendo que vai dar tanto pra educação, tanto pra saúde, tanto pra qualquer merda que você tiver na cabeça, só para calar a voz de milhões. E cala.
    Para que?
    Absolutamente nada.

    Porque o povo esquece, o povo é (é sim) burro. Grita com o gol e esquece que no dia seguinte o pão vai aumentar dez centavos. Comemoram o título da escola de samba mais bonita, desfilam da sapucaí e nem ligam se o ônibus aumenta novamente, repito novamente, os vinte centavos, porque voltou. Mas ora, foi no carnaval, ninguém se importa.

    Estamos no século vinte e um (e não vou me rotular a escrever em algarismo romano só porque é conceitual escrever assim) e ainda vivemos na política do pão e do circo.

    Quando Valesca Popozuda ficou uma semana no ar somente porque um professor quis ser irônico em uma prova.
    Quando as mulheres mostraram os peitos por causa de uma pesquisa errada.
    Quando o assunto mais importante dos últimos três meses é um casal homossexual no bbb, a evolução.
    Quando o nariz da Anitta se torna manchete de todos os jornais.
    Quando o Flamengo ganhar, perder, empatar, é a única coisa que interessa a capa do meia hora.

    E quem é que dá o ibope e quem é que dá a notícia? Somos nós ao acharmos que o fundamental é nos preocuparmos com a vida dos outros, quando na realidade a nossa está uma merda. Porque na verdade, a juventude de hoje em dia só quer escutar “eu estou do seu lado” “eu vou te defender”. Não trabalhamos com a política do “entra por um ouvido, sai pelo outro” (a não ser quando se trata se nossas mães nos avisando do horário de chegar em casa), ops.

    Da raiva? Dá.
    É ultrajante? É.

    Mas nada muda se o povo que vai pra rua gritar “da copa eu abro mão, mais pra saúde e educação” é o mesmo que entra nas lojas americanas e rouba chocolate. E me desculpem se sou redundante, nunca fui especifica em toda a minha vida, em nenhum de meus textos e não vai ser hoje e não com esse assunto que eu vou “tentar” ser. E se você é a outra parte que sofre interseção com o que acabei de falar, sinta-se contemplado com minhas sinceras desculpas, não faço por mal. Em todo o problema há a exceção. Só não acredito nenhum pouco em movimentos, passeatas, gritarias, escândalos, fotos, cartazes, bandeiras e faixas que passem de 2 pessoas.

    É que eu escrevo textos para agradar meus pensamentos e não a massa em geral.

    Mariana Cassiano.

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