Monólogos #002

a questão é: 

a sociedade vende esse discurso de que a gente PRECISA ser feliz. Que a vida boa é a vida feliz etc 

isso é balela 

a felicidade é eventual, que nem a tristeza e que nem a neutralidade 

ninguém feliz em tempo integral, pois ai a felicidade se tornaria justamente a neutralidade 

a verdadeira busca da vida, travestida de felicidade, é o conforto 

a gente busca, quase que instintivamente, zonas de conforto 

seja no pensamento, seja na vida material 

as pessoas não se casam pq o casamento vai lhes dar felicidade; o casamento dá o conforto 

ninguém trabalha pq o trabalho as faz feliz; as pessoas trabalham pelo conforto 

a partir do momento em que vc se despe dessa necessidade de ser feliz, você começa a dar valor às coisas pequenas que te dão conforto e as aceita mt mais facilmente 

a felicidade vai te atingir independente do seu tipo de vida. Cracudo tem felicidade quando fuma crack, rico tem felicidade qnd compra uma ferrari 

e, no resto do tempo, ambos buscam o conforto 

vc, no momento, se sente confortável mimizando sobre a sociedade e idealizando uma vida melhor 

eu, pessoalmente, acho que vc devia se despir disso – o que é possível, se vc se esforçar MINIMAMENTE – e procurar se sentir confortável com coisas mais palpáveis do que se imaginar vivendo numa sociedade paralela ou num mundo idealizado.

Esse memória me é tão clara e me remeto a ela tantas vezes que me pergunto como nunca atentei de registrá-la antes.

Tinha menos de 7 anos, uma vez que é ambientada na casa que morei até essa idade. No quarto, especificamente. Acabava de voltar da escola – voltando das minhas complexíssimas aulas do maternal ou primeira série -, jantava, tomava meu banho, vestia um pijama limpinho e deitava na cama pra assistir Disney Club.

Lembro plenamente de sentir que aquele era um dos momentos mais confortáveis da minha vida. Sentia, mas não me dava ao trabalho de atentar para isso. Apenas sentia, na penumbra do meu quarto, que assistir àquele desenho do pato donalds era absolutamente maravilhoso.

Dormia logo depois, com a TV ainda ligada, completamente extasiado.

É interessante como essa lembrança influencia na minha vida: hoje, quando sem sono, refaço exatamente a mesma rotina, mudando apenas o programa de tv. Sem alcançar o mesmo prazer, é claro. As atividades parecem infinitamente mais prazerosas quando feitas na infância.

Tristeza

Nos dias de tristeza, quando alguém
nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
às vezes, nem sequer nós respondemos:
faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois haverá desgosto mais profundo
do que este de não se ter alguém no mundo
que nos pergunte por que estamos tristes?

(Virgínia Vitorino)

Uma breve e simples explicação sobre porquê a sociedade não dá certo.

Na contemporaneidade, a primeira reação ao se deparar com alguma situação absurda é “o mundo precisa saber disso”. Seja um absurdo bom ou ruim.

Vamos focar nos ruins. A premissa de um programa como o CQC é: vamos mostrar os absurdos da sociedade custe o que custar. A maioria das matérias, muito mais do que cobrir um determinado evento, tem uma veia delatora, uma premissa de “vamos colocar na televisão pra todo mundo ver isso aqui”.

E eles não são os únicos! Não à toa, ao passar pela rua e se deparar com uma situação absurda, seja ela qual for, a primeira reação é pegar o celular, filmar e compartilhar. Existe uma ideia subentendida de que “compartilhar a ocorrência de uma merda” é um dever cívico. O CQC é tido como um programa mais “útil” do que o Pânico, por exemplo.

A questão que quero abordar aqui é: por quê?

Qual a utilidade final de se compartilhar algum absurdo? Gera-se um hype em cima daquilo, todos no facebook vão compartilhar e tecer comentários mal escritos ou, no máximo, inúteis, e a questão ficará absolutamente igual ao que era antes.

O que aconteceu com o Amarildo? O que aconteceu com as vigas de ferro roubadas na obra do Eduardo Paes? O que aconteceu com o Bolsonaro, o Feliciano e o Cabral?

Isso mesmo: absolutamente nada.

As passeatas do ano passado serviram pra mostrar que o ativismo de sofá está longe de ser o pior problema da sociedade contemporânea. Afinal, as pessoas saíram do facebook! E sabem o que aconteceu?

Isso mesmo: absolutamente nada.

E vocês sabem por quê?

Bem, a resposta pra isso, se fosse fácil, não estaria sendo disposta num blog de um cara de 19 anos. Mas eu tenho uma proposta pra vocês pensarem. Não aconteceu nada por que não é do interesse das pessoas certas que aconteça.

A ilustre frase do hit Xibom Bombom não só explica como ainda caracteriza nossa sociedade: o de cima sobe e o de baixo desce. É isso que acontece e, pra quem está em cima, este é um formato muitíssimo favorável.

Veja bem: em todas as sociedades que nós estudamos na escola havia classes sociais, correto? A aristocracia e o povo. A nobreza e o povo. A burguesia e o povo. Hoje é absolutamente igual, mas ainda não existe o termo para caracterizar os ricos, ainda que o povo continue sendo o povo.

Não que isso seja natural! Esse quadro é uma herança dos nossos colonizadores, que chegaram em nossas terras tupiniquins dizendo que eles eram os melhores e, por isso, os índios eram ruins. Os europeus, ao colonizarem a américa, transmitiram pra ela sua cultura de exclusão. E essa transmissão foi tão bem feita, tão meticulosa, que hoje em dia olhamos os franceses, os ingleses e os alemães e pensamos: ah, quem me dera ter nascido igual a eles!

Nós estudamos na escola a cultura indígena? É evidente que não, pois os modos de organização indígena diferem dos nossos: sem classes, sem dinheiro, com moral e costumes diferentes. Estudamos a cultura europeia como correta e ignoramos a cultura indígena. Estudamos, no máximo, os astecas e os incas, justamente por que a cultura deles se assemelha com a europeia. Não eram os astecas que tinham um rei, empregados, e grandes construções? Não eram os incas que eram “civilizações evoluídas” justamente por se assemelharem com as europeias?

E os africanos, ein? São tão subdesenvolvidos! São tão piores que nós, brasileiros! Estranho percebermos que os africanos subsistiam perfeitamente até os europeus irem colonizá-los e implantarem todo o caos que hoje é lá.

ImagemQuem você acha que é o mais desenvolvido? E quem você acha que um Europeu vai te dizer que é?

 

A questão é: existe uma construção social que molda nossa sociedade há séculos – SÉCULOS! – para que as diferenças de classe sejam mantidas, e existe um esforço ferrenho das classes mais altas para que qualquer faísca de revolução seja apagada.

Pois quando tentamos marcar um rolezinho no Leblon, o shopping fecha. Quando tentamos construir metrô na zona sul carioca, a obra não é aprovada. Quando colocamos 1 milhão na Rio Branco em busca de justiça, a polícia nos ataca. Quando reclamamos das leis que os políticos criam, a polícia nos ataca. Quando tentamos fazer qualquer coisa que modifique o sistema por eles construído, somos abatidos pelo exército à serviço da aristocracia.

E vocês sabem o que nós podemos fazer quanto a isso?

Isso mesmo: absolutamente nada.

Pois, afinal de contas, é tudo relativo! A ideia de pobreza só é necessariamente atrelada à ideia de infelicidade por que, quem nos fornece essas ideias, são os ricos. De acordo com essa ideologia, os indígenas são todos pobres. Nem por isso, no entanto, as pouquíssimas aldeias indígenas que subsistem são tão infelizes quanto supõe-se ser as favelas.

E então vocês me vem com essa história de direita e esquerda, comunismo, capitalismo, socialismo… Senhores, parem de se enganar.

Com a sociedade estragada, não há sistema político que conserte. Se o leite tá estragado, não importa quanto Ovomaltine você ponha: o milk-shake será uma merda.

É preciso que se entenda que o universo é o eterno conflito entre opostos: o bem e o mal, o feliz e o infeliz, o pobre e o rico. Se um dos opostos deixa de existir, o outro também. É impossível supormos uma sociedade em que todos sejam ricos, afinal, nessa sociedade, ninguém seria rico, seriam todos normais. É impossível supormos uma sociedade em que todos sejam felizes, pois se não houvesse a infelicidade para fazer o contraponto, a felicidade deixa de existir e torna-se a normalidade.

E o normal não agrada a ninguém.

Pois, afinal de contas, se todos somos normais, todos somos iguais. E, aí sim, teremos um problema, uma vez que é do ser humano (pós-moderno) querer ser único. Querer ser individual. Querer ser alguém.

O que eu proponho então?

Que tentemos nos despir das ideias que nos foram impostas na escola, na televisão e na sociedade. É difícil, eu sei. Mas temos uma vida inteira para nos dedicar a este tento.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.

(Fernando Pessoa)

É um conhecimento que não se pode expressar por palavras, inefável. Por que, sabe-se, as palavras vieram depois da natureza – dos pensamentos, do cérebro, dos sentimentos – e, por isso, são limitantes. Afinal, será que tudo no universo é passível de ser verbalizado?

É evidente que não.

Tento me desprender das palavras e apenas sentir. A vida é muito mais sensorial do que comunicacional.

Às vezes eu penso nas coisas que falei e fiz quando estava afim de determinadas moças e sinto vergonha. É assustador – parece outra pessoa. Me considero uma pessoa racional e consigo sê-lo em infindáveis situações, mas nunca em relacionamentos. Todo o simbolismo e emoção que consigo reprimir durante a vida é descarregado a partir do momento que me vejo gostando de uma moça.

Creio que isso possa ter alguma relação com minha principal tendência mental: costumo acreditar que sempre existe um jeito certo de fazer as coisas e milhões de jeitos errados. Quanto mais me distancio do correto – o que acontece extremamente rápido quando estou apaixonado, afinal, perco minha racionalidade pras emoções  -, mais me preocupo, repenso minha postura e acabo me distanciando ainda mais do correto. A pressão vira uma bola de neve.

Outro dia li um texto, o “18 Ugly Truths About Modern Dating That You Have To Deal With”. Segue a primeira frase:

1. The person who cares less has all the power. Nobody wants to be the one who’s more interested.”

Temo que nunca serei a pessoa que se importa menos. Eu penso muito. E, quando to apaixonado, penso muito na pessoa. Não que eu sinta mais do que a maioria – apenas penso muito mais que ela. Minha mente é um campo de batalha, e o amor é os Estados Unidos com suas missões de pacificação.

A quem amei, vos digo: você em si foi o que menos importou na nossa relação. Afinal, todos os meus relacionamentos aconteceram apenas na minha cabeça. Existiam, na vida real, de forma absolutamente diferente. Mas na minha cabeça ocorria em outros tons, em outros ritmos, com outra trilha sonora.

E eis por que, pra mim, o amor é a melhor temática da arte. É a mais forte e quase única maneira de me suscitar emoções.

(Vocês já perceberam que desde 2010 eu escrevo em blogs sobre o que acontece quando estou apaixonado e sempre chego a conclusões diferentes?)